domingo, 3 de fevereiro de 2013

Samba de Sambar do Estácio: Surgimento do Malandro Capoeira


Uma enorme quantidade de ex-escravos vindos do vale do Paraíba, onde se concentravam as grandes fazendas de café no século XIX, todos mantidos sob forte discriminação racial, juntou-se aos que viviam na cidade do Rio de Janeiro. Trouxeram contribuição musical diferente da dos baianos, particularmente para as rodas de batucada. O jongo, contendo elementos de ligação com o can­domblé e a mesma formação dos sambas de roda do Nordeste, era mais importante para eles que o samba para os baianos. 

Todos se concentraram na Pequena África, situada além do Campo de Santana. Vivenciaram situação bastante pior que a da escravidão. Não havia a menor possibilidade de trabalho. Atingiram miséria absoluta. Muitos, submissos desde pequenos, aceitaram sem rebeldia  outros se rebelaram. Para estes, a solução foi o caminho da capoeiragem, à qual se dedicaram com afinco, e brilharam. As poucas possibilidades de trabalho eventual eram sempre obtidas por imigrantes europeus não discriminados pelo racismo reinante  Os pretos ex-escravos permaneciam como "peças" e tratados como sub-humanos, apesar de toda literatice oficial dizer o contrário. Eram considerados abaixo dos animais de serventia. 

Há um livro nessa literatice oficial, espantosamente fictício, editado em 1901, intitulado Por que me ufano do meu país, do conde Afonso Celso, que capitula vários "motivos da superioridade do Brasil", dentre eles a escravidão negra. Sobre o cativeiro, consta: 

O Brasil não o amou ou defendeu; apenas o tolerava. Condenava-se universalmente entre nós a propriedade servil. Os denominados escravocratas jamais se opuseram radicalmente à libertação; queriam só que ela se efetuasse em prazo longo, e mediante uma indenização, destinada à reorganização do serviço agrícola. Nunca pegaram em armas para preservar o triste regime, herdado dos antepassados. Raros os senhores cruéis. No geral, tratavam os negros como cristãos, não lhes recusando o consolo da religião, permitindo que fundassem irmandades só deles: São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Mitigavam a sorte desses infelizes a caridade, a filantropia e belos costumes da população, quais o apadrinhamento, as alforrias na pia. Com alforrias se comemorava qualquer fato importante ou festa de família. Os libertos adotavam, não raro, o sobrenome dos antigos senhores. Cargos e posições lhes ficavam acessíveis, sem separação social.  Ultimado o triunfo, incorporaram-se os ex-escravos à população  em perfeito pé de igualdade. A eles mesmos e aos seus descendentes desvendaram-se os vastos horizontes abertos a todos os habitantes do Brasil, (celso, Conde Afonso. Por que me ufano do meu país. Rio de Janeiro: Laemmert & Cia., 1901, p. 237) 

Na virada do século XX, dentre a densa camada de ex-escravos concentrada em volta da praça Onze, sobressaía o tipo singular do capoeira. Esse personagem aos poucos foi se consolidando até ocupar lugar de destaque entre a classe mais baixa da população e diferente da figura do capadócio, já conhecida desde a segunda metade do século XIX. 

A forma de viver estabelecia a diferença entre eles. O capadócio  em geral mulato forro de maneiras rudes sem violência, era afeito ao violão e às modinhas seresteiros  Já o capoeira, muito agressivo, provinha, em sua maioria, da transformação do soldado ex-escravo que dera baixa, oriundo das revoltas do início da República, em integrante civil dessa subclasse. A capoeira  arte de luta angolana caracterizada pela violência, fazia seus praticantes serem temidos pela população. 

Manipulados por políticos profissionais, os melhores capoeiras tornaram-se cabos eleitorais. Os índices para aceitação eram fama comprovada de valentia e habilidade em tumultuar qualquer aglomeração de natureza política, fosse ela na boca das urnas ou na hora da contagem dos votos. Muita urna desapareceu nas mãos desses capoeiras exercendo função de cabo eleitoral. 

A situação social desses ex-escravos, tanto como cabos eleitorais ou apenas como hábeis capoeiras, mudou completamente: ganharam prestígio e até certo poder de mando nas comunidades de que participavam. Passaram a comandar manifestações populares, desde a Festa da Penha até o carnaval dos cordões e, especialmente, o carnaval dos blocos da praça Onze. Em pouco tempo, reinaram na zona do baixo meretrício. Os cabos eleitorais recebiam compensações pelos serviços prestados aos políticos vitoriosos. Eram nomeados servidores públicos como funcionários da Prefeitura do antigo Distrito Federal. 

Uma outra geração formada 20 anos depois, toda descendente de ex-escravos e mantida na mesma condição social, cultuando a imagem da geração dos cabos eleitorais do início do século XX, conduzia-se por conta própria sem mais depender exclusivamente dos políticos locais. Dessa geração surgiu o malandro carioca. Esse novo personagem dedicava-se à capoeiragem como os outros. Muitos eram, ou tinham sido, empregados em algum lugar; outros nunca trabalharam. Conscientes de seus dotes pessoais, logo perceberam que não valia a pena trabalhar nas oportunidades que se ofereciam. Preferiam viver de jogo ou de exploração das mulheres do Mangue. Opção bastante clara para quem já se dera conta da pouca perspectiva do trabalho mal remunerado. Muitos mantinham emprego somente para acobertar o verdadeiro meio de vida. 

Os malandros adeptos dos jogos de baralho ou chapinha eram quase sempre tranquilos, normalmente não faziam uso de força física. Valiam-se de suas habilidades de manipulação, de inteligência e de atenção. Os malandros capoeiras, espalhados por toda a cidade, não mais se alinhavam com os capoeiras do princípio do século. Na nova estruturação urbana do Rio de Janeiro, a capoeira exibicionista dos cabos eleitorais estava sendo praticada apenas nas rodas de batucada, cujas grandes demonstrações coletivas concentravam-se na Festa da Penha. 

Não era mais apenas a luta corporal vinda de Angola; outros elementos foram incorporados. Além de novos passos ou movimentos, alguns mais violentos, foi introduzido o verdadeiramente mortal: o jogo com a navalha. Arma que todo verdadeiro malandro manejava com destreza.

Fonte: Samba de Sambar do Estácio - 1928 a 1931. Humberto Franchesci. Editora IMS. 2010.

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3 comentários:

Débora Olimpio - Rio de Janeiro disse...

Obrigada por disponibilizar trechos deste livro! Tô acompanhando estas publicações!!

Eu tenho muita vontade de ler o livro inteiro, mas parece um pouco "impossível" encontrar um exemplar, este deve ser um livro bastante raro, infelizmente.

Então, já que não posso ler por inteiro, te agradeço por compartilhar aqui no teu espaço, e tb aproveito pra te dar parabéns, pelo trabalho admirável que vc vem fazendo, resgatando as raízes do samba!

Obrigada!

Vinicius Leandro Terror disse...

Oi Débora, é uma pena, mas o livro está esgotado e o IMS não vai lançar outra edição. Nem o autor pode lançar por outra editora. Por isso resolvi ir colocando aqui, pois é uma leitura obrigatória pra quem gosta de samba!

Dan RibLey disse...

Obrigado pela generosidade de compartilhar estes trechos conosco, Vinicius. Afinal, com um nome desses, só podia ser mesmo generoso. Grato!