terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Samba de Sambar do Estácio: Pequena África


No final do século XIX, um quadrilátero localizado no limite norte da cidade do Rio de Janeiro formou o que veio a se chamar Pequena África, devido à grande concentração de ex-escravos ali surgida logo após a abolição da escravatura. Esse enorme retângulo partia das margens do Campo de Santana, ultrapassava a rua das Flores (atual de Santana), onde começava a Cidade Nova, e terminava nos limites do bairro do Estácio.

Os ângulos desse quadrilátero continham, na parte mais próxima ao Campo de Santana, o principal dos dois impérios do Divino existentes na cidade. Este, permanente, constituído por vasta varanda de pedra e cal na lateral da Igreja de Santana, pertencia Irmandade do Divino Espírito Santo, então existente onde hoje se ergue a Estação D. Pedro II da Estrada de ferro Central do Brasil. O outro, localizado próximo à igreja da Lapa do Desterro, originalmente também de pedra e cal, foi posteriormente demolido e substituído por uma varanda de madeira, montada e desmontada a cada ano, na lateral da igreja.

Segundo descrição de Câmara Cascudo, o imperador do Divino era um menino de dez a 12 anos, vestido de casaca de veludo verde e manto escarlate, calção, meias de seda, sapatos afivelados, com coroa e cetro, tendo ao peito o refulgente emblema do Espírito Santo. A tradição dava como prerrogativa ao imperador-menino o poder de soltar um preso da cadeia pública.

Em determinadas ocasiões, o imperador podia ser um adulto, geralmente uma pessoa abastada da localidade, "fazendo prodigalidades para eclipsar o antecessor". Câmara Cascudo ainda se refere à popularidade da folia do Divino, ao afirmar:

De sua popularidade basta lembrar que o título de "Imperador" foi escolhido pelo ministro José Bonifácio, porque o povo estava mais habituado a aclamar o imperador do Divino que o nome do rei. (CASCUDO, Luiz da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: INL, 1954, p. 236)

Na direção contrária ao Campo, vindo desde a base do morro da Providência até o final da Rua Senador Pompeu, ou popularmente Rua do Peu (antiga Príncipe dos Cajueiros), onde atualmente começa o túnel João Ricardo, encontrava-se o Cabeça de Porco, o maior cortiço da cidade. O nome devia-se à imagem de uma cabeça de porco, esculpida em relevo, encimada na entrada. O Cabeça de Porco abrigava, em centenas de cubículos, uma população de mais de 4 mil pessoas vivendo em extrema miséria.

Em 1893, sob a alegação de ter entre seus moradores perigosos malandros e capoeiras o Cabeça de Porco foi arrasado sob o comando pessoal do então prefeito, o "general" Barata Ribeiro, à frente de unidades de artilharia do exército. Sob a mesma alegação também foram arrasados cortiços menores na rua Barão de São Félix (antiga Princesa dos Cajueiros), no Mangue e na Saúde.

No local onde existiu o Cabeça de Porco, bem próximo de onde hoje está a gare D. Pedro II da Estrada de Ferro Central do Brasil, foi armado o circo de João Apóstolo. Logo transformado em Circo Spinelli, em seguida transferiu-se para as proximidades do largo do Matadouro (hoje, praça da Bandeira), onde se exibia o palhaço e cantor Eduardo das Neves. Nas suas apresentações, cantava com o coro dos meninos chefiados por João Machado Queres, o futuro João da Baiana, e Ernesto Maria dos Santos, desde essa época o Donga. João da Baiana, em depoimento, explicou sua participação:

Em 1902, nós acompanhávamos Eduardo das Neves no Circo Spinelli. Eduardo era o palhaço e eu era o chefe dos garotos que respondiam ao "hoje tem marmelada?" com o "tem, sim, senhor". (Depoimento a José Ramos Tinhorão em 17/07/1971). Ao ser perguntado se ganhava por mês, respondeu:

Não era por mês, era por dia. Dava, só para mim, cerca de 1.100 OU 1.200 réis. Para os outros garotos, nós dávamos 300 ou 400 réis. (Idem)

O coração da Pequena África estava na Praça Onze. Um retângulo entre as ruas Visconde de Atina e Senador Euzébio, fechado pelas ruas de Santana e Marquês de Pombal. O centro da praça, cercado de casuarinas, ostentava um chafariz projetado por Grandjean de Montigny, atualmente no Alto da Boa Vista. Os alagados, em sua volta, já não mais existiam desde a segunda metade do século XIX. Nesse aterrado, em 1859, o barão de Mauá abriu e estruturou o canal do Mangue para atender à sua fábrica de gás recentemente montada.

O retorno das tropas sobreviventes do vergonhoso e humilhante episódio da chamada revolta de Canudos, somado ao remanescente das de outras escaramuças do início da República, obrigou o governo a um "gesto de gratidão a esses heróis": cada um receberia um lote de terra no tempo devido. Por muito tempo esses "heróis" permaneceram acampados na encosta do morro da Providência, próximo aos fundos do quartel-general da Praça da República. A promessa jamais foi cumprida. 

Coincidindo com a era do "Rio civiliza-se" e seu conseqüente bota - abaixo, esses ex-soldados-heróis e suas mulheres trazidas do Arraial de Canudos tiveram que se valer dos restos da demolição de casarões do centro da cidade para construir barracos feitos de madeira e cobertos de zinco, que os abrigavam nas encostas dos morros do Castelo, de Santo Antônio e, principalmente, no reduto de todos eles, o da Providência.

O morro da Providência ficou conhecido como morro da Favela. Preito de homenagem e lembrança das mulheres desses "heróis" ao seu local de origem na região de Canudos, onde existia grande quantidade de arbustos com essa denominação. Esses "heróis" supunham-se garantidos quanto à estabilidade de suas precárias moradias pelo decreto do prefeito Pereira Passos, em 1903, de que não eram permitidos barracos, "salvo nos morros que ainda não tiveram habitações". O decreto soava como um convite para que se desestimulasse a manutenção dos cortiços. O termo favela generalizou-se para todos os casebres de madeira e zinco que, com a miséria crescente, alastraram-se pelos morros da cidade.

Com a destruição da economia do Império, decorrente do endividamento externo do governo ao capital inglês, originado em razão da Guerra do Paraguai, e pelo desequilíbrio da economia interna resultante da Abolição da escravatura, houve forte transformação no padrão de serviço doméstico estruturado no braço escravo. Tornou-se impossível manter os enormes casarões existentes na cidade, nem sempre residência principal. A maioria deles era usada apenas para temporada anual, fosse por necessidade da política ou simplesmente para recreio.

Grande parte da nobreza brasileira estava, direta ou indiretamente, ligada ao lucro do tráfico negreiro. Os bancos eram poucos e inseguros. Tradicionalmente, a forma prudente de entesourar riqueza, além de objetos de prata, era a compra de terreno e de imóvel urbano. Havia ruas inteiras nas mãos de poucas pessoas, todas com algum título de nobreza. A perda do braço escravo e a decorrente mudança de situação financeira obrigaram a que muitas dessas pessoas a se desfazer de seus casarões.

A nova estrutura da bolsa de valores, criada no início da República, e a febre de especulação financeira, gerando o que veio a se chamar de encilhamento, encarregaram-se de destruir o resto. Mentirosa alegação oficial atribuía, como razão para essas pessoas se desfazerem de suas propriedades, o fato de estarem sendo construídas habitações populares nas proximidades e o convívio tornar-se progressivamente insustentável.

Casarões das ruas Barão de São Félix, Camerino, General Pedra e do bairro da Saúde, os mais próximos do porto, foram sendo adquiridos por exploradores de casas de cômodos e transformados em cortiços. 



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