terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A carta-poema de Noel Rosa...

Noel Rosa ainda criança
Em Janeiro de 1935, Noel Rosa seguiu para Belo Horizonte, obedecendo à recomendação de seu médico e amigo, Dr. Edgar Graça Mello. A tuberculose já lhe avançara sobre um pulmão e dava indícios de querer tomar também o outro. Noel estava pesando 45 quilos. Ao final do primeiro mês na capital mineira, escreve a “sua carta mais original”, como afirmam com razão seus biógrafos, João Maximo e Carlos Didier. A carta é uma extensão de sua obra, contendo os mesmos procedimentos identificáveis em suas canções. Se ele antes transformara um samba em carta (na canção Cordiais Saudações, agora transforma uma carta em poesia. Aqui estão as mesmas rimas improváveis, os versas de duplo sentido, a fina ironia a habilidade notável com a língua. 

“Meu dedicado médico e paciente amigo Edgar, um abraço. Se tomo a liberdade de roubar mais uma vez seu precioso tempo é porque tenho certeza de que você se interessa por mim muito mais do que mereço. Assim sendo, vou passar a resumir as noticias que se referem à marcha do meu tratamento. E para amenizar as agruras que tal leitura oferece resolvi fazer uso das quadras que se seguem: 

Já apresento melhoras pois levanto muito cedo
E deitar as nove horas pra mim já é um brinquedo
A injeção me tortura e muito medo me mete
Mas minha temperatura não passa de 37 

Nessas balanças mineiras de variados estilos
Trepei de varias maneiras e pesei 50 quilos 
Deu resultado comum o meu exame de urina
Meu sangue noventa e um por cento de hemoglobina 

Creio que fiz muito mal em desprezar o cigarro
Pois não há material pro meu exame de escarro
Ate' agora só isto para o bem dos meus pulmões
E nem brincando desisto de seguir as instruções
Que o meu amigo Edgard arranque desse papel
O abraço que vai mandar o seu amigo Noel"






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Um comentário:

300discos disse...

João Nogueira musicou a carta, gerando um belo samba:

http://www.youtube.com/watch?v=AB-Z5QcqE8w