quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Mário Ramos, o Vassourinha (16/05/1923 - 03/08/1942)

Hoje me deparei com a história do cantor paulista Mário Ramos, mais conhecido pela alcunha de Vassourinha. O cantor deixou São Paulo e chegou ao Rio de Janeiro em 1941, aos dezoito anos de idade. Tinha tudo pra se tornar um dos maiores cantores do país, mas o destino lhe reservou um triste desfecho: morreu um ano depois, com apenas dezenove anos de idade. Gravou apenas 5 discos para a Continental, todos de grande sucesso.

Vassourinha era varredor da Radio Record, por isso seu apelido era esse. Mas seu nome era Mário Ramos. Era um crioulo simpático, magríssimo, estatura mediana e que foi eleito de saída um dos preferidos pelo publico. É muito raro em nosso meio artístico alguém que tenha surgido assim tão rapidamente, tendo sido superado apenas por Orlando Silva.

O compositor Ciro de Souza afirma que, inicialmente, ele e Wilson Batista queriam trazer Vassourinha de São Paulo para gravar na RCA Victor no Rio de Janeiro. Aliás, naquela época só se gravava música no Rio de Janeiro. Falaram então com Vitório Latari, diretor artístico da RCA, e disseram que tinham dois cantores paulistas ótimos, um homem e uma mulher. O homem era o Vassourinha e a cantora a Isaurinha Garcia. Vitório Latari aceitou logo a cantora, mas demorou um pouco a se decidir quanto ao cantor. O resultado é que quando ele mandou o Wilson trazer o Vassourinha, a Continental, através do Almeida, já tinha contratado o rapaz. Vitório deve ter-se arrependido, pois Vassoura enquanto viveu foi muito mais cartaz do que a Isaurinha.


Mas o fim do Vassourinha foi triste, foi rápido, tão rápido quanto surgiu. Quem acompanhou esse fim foi Ciro de Souza. Contou que o cantor viera de São Paulo ao Rio de Janeiro para providenciar a gravação de um disco, por isso estava no estúdio da Continental tratando da orquestrarão e outros detalhes. Mas desde que aqui chegara, ou seja, na véspera desse dia no estúdio, Vassourinha queixava-se de dores pelo corpo, nas articulações, acompanhado de um mal-estar insuportável. Queixava-se a todo instante e sua cara era a própria imagem do desconforto. Disse que havia passado uma noite horrível.

Saindo do estúdio com Vassourinha, Ciro sentiu que o rapaz estava angustiado. Ofereceu-se para apresentá-lo a um médico seu amigo que tinha consultório próximo ao estúdio da Continental onde se encontravam. Vassourinha aceitou o oferecimento e se dirigiram à Rua São José, ao consultório do médico amigo de Ciro, doutor Mário Braune, clínico geral e ginecologista. Lá chegando, Vassourinha foi examinado e enquanto ele se vestia após o exame, Ciro procurou saber o que se passava.

Sem que Vassourinha ouvisse, o Dr. Mário Braune perguntou a Ciro: "Quem é esse rapaz" "É o Vassourinha, doutor, esse cantor famoso, não o conhece? O cantor do samba Emília', respondeu o Ciro. O médico então se lembrou quem era o cantor e torceu o nariz. Ciro intrigado quis saber se era grave o estado do Vassourinha. Respondeu o médico: "Ele mora aqui no Rio”? Ciro respondeu que não, que ele morava em São Paulo. Foi então que o médico, sem mais rodeios, disse para o Ciro:

—Ponha-o no Irem imediatamente e despache-o para sua casa. Mas olhe, talvez ele nem chegue vivo lá. Seu estado é gravíssimo!

Ciro de Souza estupefato nada entendia e pálido, desesperado, quis saber: "Pelo amor de Deus, doutor, o que é que tem o Vassourinha?" E o médico informou: "Ele está com endocardite reumática e, sem dúvida, num processo rapidíssimo. Ele é portador de reumatismo poliarticular agudo e agora atingiu o coração. Talvez dure um dia, ou uma semana. Ande depressa! Ponha ele no trem!"

Ciro, apavorado, pegou o Vassourinha pelo braço e levou-o para a Central do Brasil, mas não Ihe disse a gravidade da doença. Disse apenas que ele estava muito resfriado, com perigo de pegar uma pneumonia, e que o melhor seria ir para casa imediatamente, pois sua mãe cuidaria bem dele. Vassoura, arrasado, concordou e embarcou no Irem; foi de leito.


Ciro, tão logo o trem partiu procurou entrar em contato com a Rádio Record, onde o rapaz cantava. Nada conseguiu. Teve mais sucesso com um telefone que Vassourinha Ihe deu de uma vizinha de sua mãe e que providenciou dar ciência ao Dr. Paulo de Carvalho, presidente da referida emissora, e seus assessores.

O trem demorava naquele tempo para fazer Rio-São Paulo cerca de 12 horas. Quando lá chegou, Vassourinha já desceu de maca e quase em coma. Cinco dias depois falecia, deixando um grande vazio na música popular brasileira.


Fonte: Wilson Batista e Sua Época. Bruno Ferreira Gomes. Ed. FUNARTE. 1985



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Um comentário:

PRÓ MARISA disse...

Que história! Tão bela quanto triste.