terça-feira, 23 de outubro de 2012

Noel x Wilson Baptista: Polêmica?


Uma das histórias mais conhecidas no meio "sambístico" é a fatídica troca de farpas entre os compositores Noel Rosa e Wilson Baptista nos anos 30. Rendeu até um disco, chamado "Polêmica" onde os cantores Roberto Paiva e Jorge Veiga narravam a disputa musical entre os dois compositores cariocas (ouça aqui).

A história começa com uma samba chamado "Lenço no Pescoço"  lançado em 1933 pelo cantor Silvio Caldas. Assinado pelo desconhecido Mário Santoro o samba traçava com perfeição um retrato do malandro carioca, uma instituição do Rio naquela época. O samba causou polêmica na época e chegou a ter a veiculação proibida por fazer apologia à vadiagem. E o desconhecido Mário Santoro revelou-se na verdade o compositor Wilson Baptista que chegara há pouco tempo de Campos dos Goytacazes.



Ainda em 1933 Wilson Teve o samba "Desacato" gravado e no lado B do disco estava o samba "Feitio de Oração" de Noel. Essa foi a primeira vez em que os caminhos dos dois se cruzaram e talvez tenha sido a primeira vez que o já consagrado Noel tomava conhecimento do pequeno mulato estreante.

Noel e Wilson nunca foram grandes amigos, mas acabavam se cruzando pelos teatros e gravadoras e também pelas noites da Lapa. E foi num café da Lapa, o Dancing Apollo, onde conheceram uma bela dançarina e acabara os dois se interessando pela mesma mulher. Mas foi Wilson Baptista - o mulatinho novato - quem conquistou a garota.

E foi na intenção de abaixar a crista do novato que Noel compôs o samba "Rapaz Folgado", onde respondia verso a verso à auto promoção de Wilson no samba "Lenço no Pescoço": "Tira do pescoço o lenço branco / compra sapato e gravata / joga fora essa navalha que te atrapalha".



Acontece que a história foi tão deturpada que hoje ao ouvirmos alguém contando temos a impressão que Noel e Wilson eram inimigos mortais. O que não é nem de longe uma verdade, tanto que a "briga" terminou da melhor maneira possível: em uma parceria entre os dois!

No início dos anos 50 o compositor, cantor e radialista Almirante - na intenção de reviver a memória de Noel, que falecera há mais de uma década e já caia em certo esquecimento - apresentou uma série de programas no Rádio contando a vida e obra de Noel intitulada "Nos tempos de Noel Rosa". Num desses programas Almirante convidou o compositor Wilson Baptista pra falar sobre a famosa troca de gentilezas com Noel, ocorrida cerca de 15 anos antes.

Só que no enredo do programa, Almirante alterou a história, rearranjando os fatos a favor de Noel. Da forma contada por Almirante Noel teria feito o "Rapaz Folgado" tomado por um "louvável interesse pela regeneração dos temas poéticos da música popular". Só quem não conhece a história de Noel pode achar que a letra de Rapaz Folgado refletia a verdadeira opinião de Noel sobre o Malandro Carioca. Logo o Noel que andava com vagabundos da maior grandeza como Baiaco, Brancura, Ismael Silva... Só malandro barra-pesada

Se a letra de Rapaz Folgado fosse interpretada assim naquela época, Noel não estaria ofendendo apenas Wilson, mas praticamente todos os seus amigos e parceiros, além de contradizer o samba "Capricho de rapaz solteiro" de sua autoria e gravado no mesmo ano em que Wilson gravou "Lenço no Pescoço". Comparem os dois sambas e vejam e o teor deles não é praticamente o mesmo:



Fato é que Almirante em seu programa distorceu os fatos e o que tinha sido apenas uma brincadeira entre colegas na disputa por uma cabrocha, restrita à galhofa das rodas de compositores ganharia com o passar dos anos cores de um duelo quase épico, rendendo análises sociológicas profundas que contrapunham Vila Isabel x Estácio, Branco x Negro, Civilização x Malandragem. Assim o  o Wilson-craque-da-composição foi sendo empurrado para a sombra pelo patético Wilson-vilão-da-Polêmica.

Essa polêmica toda só se formou no inicio dos anos 50, mais de quinze anos depois da discussão musical. Muito antes disso a brincadeira entre os dois já tinha sido encerrada da melhor maneira: com um samba em parceria detonando a tal dançarina, causadora de toda a discórdia.

Certo dia Noel e Wilson se encontraram por acaso em um café no centro do Rio. Pra acabar com aquela história Noel propôs uma parceria. Pegou a melodia de "Terra de Cego" (samba de Wilson que fazia parte da briga) e fizeram uma nova letra. Com o nome de "Deixa de ser convencida", essa é a única parceria entre esses dois grande compositores. Depois disso, quase não se viram mais...


Em 1937, quando soube da morte de Noel, Wilson fez um samba em homenagem ao colega, chamado “Grinalda”. Cantou-o em rádio, mas nunca chegou a gravá-lo. Até falecer em 1968, reverenciou Noel como um ídolo em dezenas de entrevistas. E citou-o em pelo menos oito sambas:

Terra boa (1942) 
Waldemar (Quero um samba) (1943)
Chico Viola (1952) 
Garota dos discos (1952) 
Skindô (1962)
Parabéns, Rio (1965) 
A nova Lapa (1968)  
Transplante de coração (1968) 




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Um comentário:

Yuri disse...

Grande história. Já a conhecia, mas sem alguns detalhes que estão aqui. A única coisa que acho lamentável é quando lembro do babaca do Caetano Veloso, que como pessoa, só fala merda, falando sobre isso, mas enfim. Valeu mais uma vez!