segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Especial Paulo da Portela: Parte 7

Paulo, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal

No Brasil do início do século XX, a população negra definhava. Esquecidos pela nova ordem econômica que se iniciava, substituídos pelos imigrantes europeus, os negros padeciam sem um lugar na sociedade. Migravam do interior, das antigas fazendas, para os guetos e vielas das grandes cidades, trazendo em suas mentes algo que se manteve intacto apesar dos anos de cativeiro: os hábitos, costumes e visões de mundo herdados da mãe África.

A "democracia racial" brasileira, mito surgido na década de 30, pregava a harmonia racial como uma das características da sociedade brasileira. Isso escamoteava o racismo, acobertando a discriminação numa ilusória relação pessoal, típica da formação cultural brasileira, que simplesmente anulava o segregacionismo, e não o preconceito.

A população negra era vítima de uma enorme contradição: eram rotulados de "vagabundos" pela mesma sociedade que lhes negava trabalho. Nesse cenário, Paulo surge como grande líder. Lutava contra os estereótipos que marcavam o negro e, como conseqüência, o sambista. Procurava demonstrar que o negro era capaz, e que sua produção cultural existia, era rica e precisava ser respeitada.

A própria imagem de Paulo já questionava qualquer estereótipo preconceituosamente construído. Trabalhador, elegante e educado, Paulo mostrava que os negros não estavam fadados à ignorância, como muitos acreditavam, e que a situação em que se encontravam era fruto da cruel situação social à qual estavam submetidos.

Paulo queria libertar seu povo das amarras da discriminação. A dignidade dos portelenses sempre foi exigida por Paulo, e seus ensinamentos fizerem da Portela uma escola diferente. Exigindo "pés e pescoços ocupados", Paulo demonstrava que, através da roupa, os negros poderiam transmitir uma imagem de dignidade e respeito.

Paulo esteve muito à frente de sua época. Levantou temas que mais tarde seriam bandeiras dos movimentos negros, tanto do Brasil como do exterior. A idéia de demonstrar a dignidade através da roupa, chamada de "pés e pescoços ocupados", foi, anos mais tarde, adotada pelo líder negro americano Malcom X. Se tivesse nascido nos Estados Unidos, Paulo estaria no mesmo patamar que os festejados defensores internacionais da causa negra.

De certa forma, Paulo acreditava numa "revolução silenciosa" na maneira de pensar da sociedade. Transmitia sua mensagem de maneira digna, respeitosa e pacífica, tendo sua própria imagem como exemplo. O exemplo da capacidade de um povo.

Os anos passaram, mas as imagens contra as quais Paulo lutava, infelizmente, continuam atuais. Permanecem mais vivas do que nunca. A luta pela dignidade do povo negro nunca cessou, os estereótipos ainda fazem suas vítimas. O discurso de Paulo, hoje, não é mais privilégio de um líder que estava à frente de seu tempo; é tema central nos grupos que lutam contra a desigual situação racial brasileira.

Vivemos num mundo cada vez mais intolerante. Um mundo onde "diferente" se tornou sinônimo de "inimigo". Onde a violência transformou-se na única arma contra a desigualdade. Onde se mata e morre pela raça ou pela religião. A humanidade parece não aprender. O preconceito racial manchou de sangue a História ao longo dos séculos, e, em pleno século XXI, volta ao debate em todas as partes do mundo, seja na Europa, nos Estados Unidos, no Oriente Médio ou mesmo na América Latina. Nesse cenário desolador, a pacífica mensagem de Paulo aparece como uma utopia, um sonho, um devaneio.

Paulo estava realmente à frente de seu tempo. Um dia percebeu a situação em que o negro brasileiro se encontrava; chegou o dia em que todos também perceberam. Percebeu que as conquistas devem ser conseguidas de maneira pacífica, digna e respeitosa; um dia todos perceberão, pois esse tempo ainda está por vir.
Fonte: Portela Web

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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Vou guardar o meu pandeiro (Herivelto Martins) Trio de Ouro 1948


Eu vou guardar o meu pandeiro
Até a paz em casa de novo voltar
Não vou mais sambar
Não vou mais batucar
Eu sei que a minha turma
Vai na certa estranhar
Mas vou guardar o meu pandeiro
O mundo inteiro não vale o meu lar

Meu pandeiro batucou o ano inteiro
Agora o coitado tem que calar
Mas não faz mal
Batuqueiro não estranha não
No batuque de casa
O pandeiro da rua só traz confusão



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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Noel x Wilson Baptista: Polêmica?


Uma das histórias mais conhecidas no meio "sambístico" é a fatídica troca de farpas entre os compositores Noel Rosa e Wilson Baptista nos anos 30. Rendeu até um disco, chamado "Polêmica" onde os cantores Roberto Paiva e Jorge Veiga narravam a disputa musical entre os dois compositores cariocas (ouça aqui).

A história começa com uma samba chamado "Lenço no Pescoço"  lançado em 1933 pelo cantor Silvio Caldas. Assinado pelo desconhecido Mário Santoro o samba traçava com perfeição um retrato do malandro carioca, uma instituição do Rio naquela época. O samba causou polêmica na época e chegou a ter a veiculação proibida por fazer apologia à vadiagem. E o desconhecido Mário Santoro revelou-se na verdade o compositor Wilson Baptista que chegara há pouco tempo de Campos dos Goytacazes.



Ainda em 1933 Wilson Teve o samba "Desacato" gravado e no lado B do disco estava o samba "Feitio de Oração" de Noel. Essa foi a primeira vez em que os caminhos dos dois se cruzaram e talvez tenha sido a primeira vez que o já consagrado Noel tomava conhecimento do pequeno mulato estreante.

Noel e Wilson nunca foram grandes amigos, mas acabavam se cruzando pelos teatros e gravadoras e também pelas noites da Lapa. E foi num café da Lapa, o Dancing Apollo, onde conheceram uma bela dançarina e acabara os dois se interessando pela mesma mulher. Mas foi Wilson Baptista - o mulatinho novato - quem conquistou a garota.

E foi na intenção de abaixar a crista do novato que Noel compôs o samba "Rapaz Folgado", onde respondia verso a verso à auto promoção de Wilson no samba "Lenço no Pescoço": "Tira do pescoço o lenço branco / compra sapato e gravata / joga fora essa navalha que te atrapalha".



Acontece que a história foi tão deturpada que hoje ao ouvirmos alguém contando temos a impressão que Noel e Wilson eram inimigos mortais. O que não é nem de longe uma verdade, tanto que a "briga" terminou da melhor maneira possível: em uma parceria entre os dois!

No início dos anos 50 o compositor, cantor e radialista Almirante - na intenção de reviver a memória de Noel, que falecera há mais de uma década e já caia em certo esquecimento - apresentou uma série de programas no Rádio contando a vida e obra de Noel intitulada "Nos tempos de Noel Rosa". Num desses programas Almirante convidou o compositor Wilson Baptista pra falar sobre a famosa troca de gentilezas com Noel, ocorrida cerca de 15 anos antes.

Só que no enredo do programa, Almirante alterou a história, rearranjando os fatos a favor de Noel. Da forma contada por Almirante Noel teria feito o "Rapaz Folgado" tomado por um "louvável interesse pela regeneração dos temas poéticos da música popular". Só quem não conhece a história de Noel pode achar que a letra de Rapaz Folgado refletia a verdadeira opinião de Noel sobre o Malandro Carioca. Logo o Noel que andava com vagabundos da maior grandeza como Baiaco, Brancura, Ismael Silva... Só malandro barra-pesada

Se a letra de Rapaz Folgado fosse interpretada assim naquela época, Noel não estaria ofendendo apenas Wilson, mas praticamente todos os seus amigos e parceiros, além de contradizer o samba "Capricho de rapaz solteiro" de sua autoria e gravado no mesmo ano em que Wilson gravou "Lenço no Pescoço". Comparem os dois sambas e vejam e o teor deles não é praticamente o mesmo:



Fato é que Almirante em seu programa distorceu os fatos e o que tinha sido apenas uma brincadeira entre colegas na disputa por uma cabrocha, restrita à galhofa das rodas de compositores ganharia com o passar dos anos cores de um duelo quase épico, rendendo análises sociológicas profundas que contrapunham Vila Isabel x Estácio, Branco x Negro, Civilização x Malandragem. Assim o  o Wilson-craque-da-composição foi sendo empurrado para a sombra pelo patético Wilson-vilão-da-Polêmica.

Essa polêmica toda só se formou no inicio dos anos 50, mais de quinze anos depois da discussão musical. Muito antes disso a brincadeira entre os dois já tinha sido encerrada da melhor maneira: com um samba em parceria detonando a tal dançarina, causadora de toda a discórdia.

Certo dia Noel e Wilson se encontraram por acaso em um café no centro do Rio. Pra acabar com aquela história Noel propôs uma parceria. Pegou a melodia de "Terra de Cego" (samba de Wilson que fazia parte da briga) e fizeram uma nova letra. Com o nome de "Deixa de ser convencida", essa é a única parceria entre esses dois grande compositores. Depois disso, quase não se viram mais...


Em 1937, quando soube da morte de Noel, Wilson fez um samba em homenagem ao colega, chamado “Grinalda”. Cantou-o em rádio, mas nunca chegou a gravá-lo. Até falecer em 1968, reverenciou Noel como um ídolo em dezenas de entrevistas. E citou-o em pelo menos oito sambas:

Terra boa (1942) 
Waldemar (Quero um samba) (1943)
Chico Viola (1952) 
Garota dos discos (1952) 
Skindô (1962)
Parabéns, Rio (1965) 
A nova Lapa (1968)  
Transplante de coração (1968) 




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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Quando quiseres (Manacéa)


Quando você se arrepender
E quiser que o nosso amor volte a viver
O meu coração não lhe aceitará
Você de tristeza vai chorar
Tenho certeza que amor igual ao meu
Você não vai encontrar
Eu que queria tanto, tanto
Construir um lar feliz para nós dois 
E você não quis


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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Herivelto Martins 100 anos

Meu amigo André "Piruca" Carvalho escreveu esse texto maravilhoso sobre o Herivelto Martins e a homenagem que fizemos ao seu centenário esse ano. O texto que transcrevo abaixo foi publicado no Nota de Rodapé, excelente site sobre jornalismo e arte. Quem quiser ler na fonte é só clicar AQUI ou na imagem abaixo!

HERIVELTO 100. BRASIL 41

Ele formou sua própria Escola de Samba, ensaiou o coro de pastoras e colocou o samba pra frente, ajeitando a pancadaria. Diretor de harmonia de suas gravações, desenvolveu um novo formato para registros em discos e apresentações em rádios: já não era orquestra, nem tampouco conjunto regional, era a sonoridade dos carnavais de rua invadindo os estúdios. Autor de clássicos de nosso cancioneiro, travou parcerias com gigantes e foi gravado pelos maiores cartazes de sua época. É tempo de celebrar Herivelto Martins, um nome de ouro da cultura brasileira.


Ícone de nossa música popular, o sambista nasceu há 100 anos, na pequena cidade fluminense de Engenheiro Paulo de Frontin. Bons costumes se aprendem em casa, desde a tenra infância, e assim se deu com o pequeno Herivelto. Em seu lar, respirava-se cultura e tudo conspirou para fazer dele um ser dotado de inspiração artística. Com seu pai, Felix Bueno Martins (um entusiasta do teatro, promotor de várias peças amadoras), tomou gosto pelo teatro e pela música. Aos nove, compôs seu primeiro samba, “Nunca mais” e depois, adolescente, foi ganhar os picadeiros da vida, arriscando-se como palhaço em cidades vizinhas.

A veia artística pulsava e a também pequena cidade de Barra do Piraí, onde morava com a família desde os 4 anos, não poderia comportar suas ambições. Aos 18, após breve passagem por São Paulo, decidiu: iria se mandar para o Rio de Janeiro. Queria conhecer o berço do samba, o bairro do Estácio de Sá, e os bambas locais, professores do novo ritmo do samba.

Na então capital da República, Herivelto conheceu o compositor Príncipe Pretinho que o levou para o Conjunto Tupi, do cantor J.B. de Carvalho. Sagaz e atento às possíveis novidades que poderiam ser inseridas no arranjo das músicas, desenvolveu com o cantor Francisco Sena, uma nova maneira de cantar em duetos. Em vez de se valer do formato “pergunta e resposta”, como Francisco Alves e Mario Reis faziam, agora, os cantores atuavam juntos, com um deles alterando a melodia, cantando em terças. Foram pioneiros de um estilo que depois apresentaria grupos como Quatro Ases e um Coringa, Bando da Lua e Demônios da Garoa.

Com Francisco Sena, descolou-se do Conjunto Tupi e formou a Dupla Preto e Branco. Eram os anos 30 e as composições de Herivelto começavam a ser gravadas por nomes como Aracy de Almeida, Silvio Caldas, Carmem Miranda e Carlos Galhardo. Entretanto, a inesperada – e precoce – morte de seu companheiro o obrigou a voltar aos picadeiros da vida.

Com a obrigação de gargalhar, encarnou o palhaço Zé Catimba e passou a apresentar-se no Teatro Pátria, em São Cristóvão. Foi lá que conheceu Nilo Chagas, com quem formaria a segunda Dupla Preto e Branco. Também foi neste teatro que conheceu Dalva de Oliveira, sua futura esposa. Com ela e Nilo Chagas, iria compor o Trio de Ouro, conjunto vocal que marcou época na história da música popular brasileira (e que depois teria mais duas formações, com Herivelto à frente).

Apogeu do sambista

Antes de se separarem e darem início a uma famosa – e depois global – polêmica, Herivelto e Dalva protagonizaram belas peças. O Trio de Ouro era inovador e se apresentava com uma legítima Escola de Samba e um coro de pastoras. Herivelto comandava tudo com seu apito – e apita quem pode apitar –, legando para nossa cultura fonográfica uma nova maneira de se apresentar os sambas. Até mesmo o clima festivo e de folia carnavalesca era transmitido pelos integrantes do conjunto nas gravações.

Nos anos 40, Herivelto alcançou o apogeu. Tudo o que um compositor poderia almejar, ele conquistou. Emplacou grandes sucessos, como “Praça Onze” (com Grande Otelo), “Ave Maria no Morro”, “Lá em Mangueira” (com Heitor dos Prazeres), “Isaura” (com Roberto Roberti), “Laurindo”, entre tantos outros. Além das históricas e seminais gravações do Trio de Ouro, foi gravado pelos maiores intérpretes da época, como Francisco Alves, Linda Batista, Isaurinha Garcia e Roberto Silva. No campo da criação, travou parcerias com grandes compositores como, por exemplo, Ataulfo Alves, Benedito Lacerda, Grande Otelo, Bide, Heitor dos Prazeres, Marino Pinto, David Nasser e Príncipe Pretinho.

Cronista social de um Rio de Janeiro onde tanto malandro viveu, onde tanto valente morreu, Herivelto cantou a Praça Onze – seu desaparecimento físico e simbólico –, cantou Mangueira – seu morro e sua Escola de Samba – e cantou a cidade do Rio de Janeiro. Cantou os amores de uma gente, com seus encantos e com seus penosos reveses.

Versátil, Herivelto Martins compôs, também, muito samba-canção, valsa e até mesmo tango. Viveu até os 80 anos e deixou para a eternidade uma obra que acompanhou, ao longo de décadas, as transformações sociais e culturais que se acometeram sobre nosso país. É notória a percepção de como ele acompanhou a sensibilidade musical do ouvinte, fã, consumidor de seu produto. Se na Era de Ouro do rádio, emplacava sambas, pois isso era o que o povo consumia, depois, com a ascensão do bolero e do samba-canção no gosto das massas, ele passou a compor intensamente canções mais lentas, fazendo de Nelson Gonçalves seu intérprete mais frequente.

Tal ecletismo faz com que muitos sambas de altíssimo nível (como “Adeus Mangueira”, “Como eu chorei”, “Consulta teu travesseiro” e “Obrigado, General”) não sejam lembrados nas coletâneas das melhores e mais representativas composições do artista. No entanto, o samba era o carro-chefe de sua obra e foi principalmente com as gravações do Trio de Ouro, e as inovações proporcionadas pela genialidade de seu líder, que Herivelto foi lembrado por quem mais fez bonito em sua homenagem neste ano. Sua mais bela louvação veio por conta do samba, providência de Deus.

Sim, porque neste centenário do grande sambista, pouco se fez por sua memória. Diferentemente do ocorrido em anos passados, em que foram celebrados intensamente os centenários de nomes como Cartola, Adoniran Barbosa e Nelson Cavaquinho, as comemorações dos 100 anos de nascimento de Herivelto Martins não tiveram o mesmo confete. No entanto, de um grupo de amigos de Minas Gerais, formado por músicos amadores, sambistas, veio a redenção. Onde quer que esteja Herivelto Martins, ele pode ficar tranquilo. Uma homenagem à sua altura foi feita.

"O cara tem uma importância muito grande pra ser lembrado apenas pelas brigas com a mulher.”

Em Belo Horizonte, toda sexta-feira, a turma desperta, entoando um hino de harmonia. É dia de sambar até cansar. No número 41 da Avenida Brasil fica o bar Brasil 41. É lá que se reúne a roda de samba de mesmo nome. O formato é acústico, sem amplificação, com instrumentos de corda e de couro, com os sambas cantados em coro. O repertório contempla tanto compositores da Era do Rádio como sambas de terreiro das antigas Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Das rotineiras reuniões semanais nasceu um valoroso projeto, que culminou com a grandiosa homenagem à Herivelto Martins, realizada em julho e agosto deste ano, nas cidades de Belo Horizonte e Ouro Preto.

Mas tudo começou antes, em novembro de 2011. Os personagens: os mineiros Vinícius Terror, de Ouro Preto, e Daniel Capu, de Belo Horizonte. Quando o primeiro escutou, na roda de samba do Brasil 41, o samba “Controlando essa mulher” (com Benedito Lacerda), ficou maluco e foi pesquisar mais. “A cada áudio que ouvia meus olhos brilhavam ao perceber que estava diante de um dos mais expressivos compositores que o samba já teve”, diz Terror. Com a proximidade do centenário do bamba, sugeriu ao amigo Daniel a realização de uma homenagem ao baluarte, prontamente aceita. “Uma obra dessas não pode ficar guardada com tanta gente se interessando pelo bom samba hoje em dia. As canções de Herivelto foram pra nós uma grande descoberta”, completa o sambista de Ouro Preto.

Foram escolhidos 55 sambas, divididos em cinco blocos temáticos: “Exaltação à batucada”, "Tristeza, sofrimento e orgia”, “Súplica e exaltação à mulher”, “Crítica, favela e esperança” e “Exaltação à Mangueira”. Definido o repertório, era hora de ensaiar: foram cerca de 20 reuniões. “Era coisa de ensaio mesmo, com bronca do Daniel, nosso diretor de harmonia, e tudo o mais. Geralmente cada ensaio era dedicado a um ou dois blocos. Vez ou outra rolavam uns ensaios gerais, passando tudo. Teve uma vez que alugamos uma casa na roça e ficamos 4 dias só cantando Herivelto”, conta, saudoso.

Já se ouviam o som dos tamborins, anunciando que iria haver carnaval. E eles precisavam fazer um bom carnaval – ainda que fora de época – para o povo saber quem eles eram, afinal. Salve as pastoras e a bateria! Se o ritmo da batucada ficava cada vez mais redondo, era hora de formar o coro feminino. “As pastoras sempre frequentaram a roda, mas nunca tinham cantado. São namoradas e mães da galera da roda. Novamente, a ideia foi do Daniel. Elas toparam e foi tudo muito natural, pois já conheciam boa parte das músicas e estavam por dentro do processo, ouvindo Herivelto o dia inteiro. Nos ensaios, elas combinavam os arranjos do Trio de Ouro, os versos certos pra cantar, pra destacar o coro delas”, explica Terror. “Acabaram roubando a cena!”

A imersão na obra do compositor fluminense foi transformadora para o sambista. “Você lê a biografia dele e descobre que o cara era um gênio, um Pixinguinha da voz. Ele criou o Trio de Ouro e o sucesso estrondoso do conjunto se deve aos arranjos do Herivelto. Tem a história do apito, da Escola de Samba dentro do rádio. O cara tem uma importância muito grande pra ser lembrado apenas pelas brigas com a mulher. E acho que hoje, eu e a turma do Brasil 41 nos sentimos honrados, orgulhosos de ter mostrado pra um monte de gente que o Herivelto é uma brasa”.

O que se passou no dia 14 de julho, na roda de samba ocorrida em Belo Horizonte, e no dia 5 de agosto, em Ouro Preto, não dá pra ser narrado, apenas sentido. Assista ao vídeo, ouça o áudio abaixo da roda e aproveite para mergulhar na obra de Herivelto Martins no excelente blog dedicado ao centenário deste mestre, preparado pelo dedicado Vinícius Terror.

 

André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, artista visual e músico de Porto Alegre, especial para o texto.



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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Duro nêga (Herivelto Martins) Isaura Garcia 1945


Duro nêga, isso mesmo
Não deixa o coração amolecer
Porque senão ele pode estragar 
Sua vida seu viver
Não faça como eu 
Não perca nunca a razão
O silêncio de um coração 
Vale um milhão

Falei de mais 
Disse tudo o que sentia
Ele não compreendeu 
Do meu mal se aproveitou
Aceita amigo um conselho 
De um coração que falhou



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O Mistério do Samba

Filme com a Velha Guarda da Portela... Não gostei muito do filme. Pra mim não retrata o verdadeiro espirito da Velha Guarda nem de longe... Penso que tudo que a Marisa Monte põe a mão apodrece (quando o assunto é samba!). Além disso, Zeca Pagodinho já é duro de aturar, ainda mais falando sobre a Velha Guarda!!! Aí é heresia, rsrsrs. 

Mas vale pelos depoimentos dos verdadeiros mestres: Monarco, Casquinha, Seu Jair e muitos outros.






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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Eu não sou Deus (Zé Pretinho)

EU NÃO SOU DEUS 
Zé Pretinho
Intérprete: Murilo Caldas
Data: 1939

Encontrei a mulher que eu amei
Coitada, chorando, lastimando
Pedindo perdão para voltar
Eu não sou Deus pra lhe perdoar

Francamente eu tenho pena
De a ver assim
Ela não teve juízo
Não quis ir por mim
Enquanto me lembrar
Daquela ingratidão
Hei de dominar o meu coração





Eu dei bom dia (Herivelto Martins) Trio de Ouro 1944



Eu dei bom dia e você não respondeu
Com certeza não ouviu ou então não entendeu
Você tão jovem ainda não sabe o que quer
Tem ainda seus caprichos, vaidades de mulher
Aceite um abraço da escola de samba do Estácio
Que já vive há tanto tempo e que ainda há de viver

A escola de samba assistiu a cidade nascer

Aquele requerimento que nosso chefe mandou
A escola inteira de samba endossou
Pedimos deferimento e ninguém ligou
Por isso a escola de samba não sambou
Mas esse ano a escola parece que vai sair
Se você avenida consentir


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domingo, 14 de outubro de 2012

Samba de Sambar do Estácio: Histórico



Com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, os mangues de São Diogo passaram a não ter mais apenas o Rocio Pequeno como local seco no meio de seus alagadiços. Neles foi feito um longo e estreito aterrado que se estendia desde o Campo de Santana até a Bica dos Marinheiros (onde hoje fica o viaduto dos Marinheiros). Esse aterrado, futura Rua Senador Euzébio, passou a fazer parte do trajeto diário do príncipe regente, mais tarde rei, d. João vi, entre o Paço da Cidade no terreiro do Carmo (hoje, praça xv de Novembro) e a Chácara da Boa Vista, residência do príncipe em São Cristóvão. Chácara essa ofertada por Antônio Elias Lopes, grande traficante de escravos, naquele momento precisado das graças reais para amenizar problemas de seu negócio.

O fato de ter sido atendido despertou a atenção de outros necessitados da complacência real. A rotina do príncipe o trazia de volta à chácara com noite fechada. A necessidade de iluminação foi a oportunidade para que alguns fossem lembrados. Por todo o percurso do estreito aterrado, ergueram-se marcos de pedra, distando 100 passos entre cada um deles, de onde pendiam lanternas de azeite sustentadas por varões de ferro. Imediatamente abaixo de cada uma delas, e bem visível, estava uma placa gravada com o nome do mantenedor de cada lanterna. 

Clique para ampliar
Quanto mais um nome estivesse repetido, maior seria a possibilidade da lembrança real. Eram as únicas coisas legíveis em todo o trajeto. 

Chamou-se "caminho das lanternas". Mais tarde, e a partir dele, os mangues foram aterrados formando a nova extensão da cidade. Inicialmente com o nome de Campo de Marte, com as primeiras construções abrigando a população de baixo poder aquisitivo, definitivamente denominada Cidade Nova.


Lima Barreto a descreveu com olhos de quem conhecia a miséria e a ansiedade ali contidas:

... Bairro quase no coração da cidade, curioso por mais de um aspecto. Muito baixo e comprimido entre as vertentes e contrafortes de Santa Teresa e a cinta de colinas graníticas - Providência, Pinto e Nheco - ainda hoje as chuvas copiosas do estio teimam em encontrar depósito naquela bacia, transformando as vias públicas em regatos barrentos [...] O velho "aterrado", que conheceu atribulações de fidalgos em caminho do beija-mão de D. João VI, é hoje o Mangue, com asfalto e meios-fios; mas, de quando em quando, manhosamente, o canal enche desde que o céu queira, para lembrar as suas origens aos que passam por elas nos bondes e automóveis. 

A Cidade Nova não teve tempo de acabar de levantar-se do charco que era; não lhe deram tempo para que as águas trouxessem das alturas as quantidades necessárias de sedimento; mas ficou sendo o depósito dos detritos da cidade nascente; das raças que nos vão povoando e foram trazidas para estas plagas pelos negreiros, pelos navios de imigrantes, a força e a vontade. A miséria uniu-as ou acamou-as ali; e elas afloraram com evidência. Ela desfez muito sonho que partiu da Itália e Portugal em busca de riqueza e, por contrapeso, muita fortuna se fez ali, para continuar a alimentar e excitar esses sonhos. As mesmas razões que levaram a população de cor, livre, a ir procurá-la, há 60 anos, levou também a população branca necessitada, de imigrantes e seus descendentes, a ir habitá-la também.

Em geral, era, e ainda é, a população de cor, composta por gente de fracos meios econômicos, que vive de pequenos empregos; tem, portanto, que procurar habitação barata, nas proximidades do lugar onde trabalha e veio dai a sua procura por cercanias do aterrado; desde, porém, que a ela vieram se juntar os imigrantes italianos ou de outras procedências, vivendo de pequenos ofícios, pelas mesmas razões eles a procuravam.

É de ver aquelas ruas pobres, com aquelas linhas de rótulas discretas em casas tão frágeis, dando a impressão que vão desmoronar-se, mas, de tal modo, umas se apóiam nas outras, que duram anos, e constituem um bom emprego de capital. Porque não são tão baratos assim aqueles casebres e a pontualidade no pagamento é regra geral. A não ser aos domingos, a Cidade Nova é sorumbática e cismadora, entre as suas montanhas e com a sua mediocridade burguesa. (BARRETO, Lima. Numa e ninfa. Rio de Janeiro: Gráfica Editora Brasileira Ltda., 1950, pp. 60-61)

CLIQUE PARA AMPLIAR. Trecho da Cidade Nova com destaque para o canal do mangue (à esquerda), a Praça Onze (à direita) e a Escola Benjamin Constant, onde ficava a famosa Balança (destaque em vermelho).

Integrado ao norte da Cidade Nova encontra-se o Estácio. Bairro pequeno, igualmente povoado por gente humilde remanescente da expulsão do centro da cidade pelo bota-abaixo do prefeito Pereira Passos em 1903. Apenas uma parte era zona residencial para a classe média. Não era bairro aprazível, tanto que nele foi construída a penitenciária da cidade. Era, sim, o centro de convergência do transporte urbano, especialmente o tráfego de bonde que atendia a zona norte. Pela proximidade e facilidade de condução aos locais de trabalho, em sua maioria oficinas do centro da cidade e fábricas em São Cristóvão, Vila Isabel e Tijuca, era ideal para moradia da classe mais baixa. Muitos dos que não trabalhavam nessas atividades "tiravam areia do rio", ou seja, cavavam o rio Maracanã, retirando areia para a construção civil. 

O Estácio era limitado pela concentração de judeus nas proximidades e em volta da Praça Onze, pelas casas de obrigação das seitas africanas, com predominância nas ruas Visconde de Itaúna e Senador Euzébio pela Cidade Nova, pela zona do baixo meretrício no Mangue, e era presidido pelo morro de São Carlos.

O Largo do Estácio era o centro do bairro. Nele estavam a Escola Normal onde se formavam as professoras para as escolas públicas municipais e as principais casas de comercio. Ali se reuniam os moradores em busca de diversão. Nas esquinas da base do morro de São Carlos muitos se divertiam em rodas de batucada e capoeira tão famosas como as do largo de Catumbi.

O alto do morro era lugar de samba, onde pontificavam os baianos das casas da Tia Ciata e das outras mães de santo, todas baianas também. No Estácio não havia nenhum grupo organizado. Nos botequins, alguns faziam música para consumo do grupo ao qual pertenciam, especialmente os freqüentadores do Bar Apolo e do Café do Compadre, este na esquina da rua Pereira Franco.

A, meio caminho entre o Campo de Santana e o Estácio, na antiga zona pantanosa dos alagados de São Diogo e muito afastado da cidades estava o Rocio Pequeno. Dava-se o nome de rocio a todo campo de utilidade pública. Sua serventia era predominantemente para pastagem de animais, coradouro de roupa para lavadeiras e feira livre em dias determinados da semana.

Desde o início do século XVIII, o Rocio Pequeno serviu como local de assentamento para os "infames pela raça ou religião: degredados, ciganos e judeus".

Os degredados gradativamente fundiram-se com a população urbana. Os ciganos, deportados de Portugal, inicialmente abrigados em barracas, em pouco tempo tornaram-se mercadores de escravos. Compravam-nos na liquidação de sobras do mercado do Valongo para vender aos comerciantes que os utilizavam como negros de ganho. Enriqueceram dominando esse comércio e passaram a habitar casas entre o Rocio Pequeno e o Campo de Santana. A partir de 1821 se concentraram na rua que começava do outro lado do Campo, em direção ao Rocio Grande (hoje praça Tiradentes), logo conhecida como Rua dos Ciganos, atualmente da Constituição. Os judeus, provavelmente por suas atividades sociais e religiosas, foram os únicos a permanecerem no Rocio Pequeno até os anos 1940.

Zona do Mangue, região do baixo meretrício.
Desde o século XVIII encontravam-se, em meio aos "infames" desse Rocio, escravas de ganho, negras e mulatas que se prostituíam para benefício dos senhores seus proprietárias. No século XIX, além da concentração de escravas prostituídas do Rocio Pequeno, já existiam definidas várias zonas de baixa prostituição. 

A mais conhecida, desde 1814, era um beco que começava no Campo de Santana e se estendia até o morro do Senado, denominado Beco da Luxúria ou da Pouca Vergonha (atual Rua Vinte de Abril). As outras zonas estendiam-se por boa parte das ruas dos Ciganos (da Constituição), do Sabão (General Câmara), Nova do Conde (dela, uma parte é a atual Visconde do Rio Branco) e na Espírito Santo (hoje Pedro I). 

Com algumas variações de local, essas concentrações de baixa prostituição perduraram até o século XX, quando se fixaram na Cidade Nova com a denominação popular de zona do Mangue


Fonte: Samba de Sambar do Estácio - 1928 a 1931. Humberto Franchesci. Editora IMS. 2010.


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sábado, 13 de outubro de 2012

Não me conheço mais (Herivelto Martins) Francisco Alves 1945


Eu já não me conheço mais
Não sou o mesmo que era anos atrás
Topava qualquer parada 
Ia até de madrugada
Mas agora é diferente 
A mulher é que manda na gente

Quem mandou eu me casar 
Com quem não sabe sambar
Eu já dei meu tamborim 
A um que possa tocar
No outro tempo meu Deus 
Eu tinha opinião
Abandonava a mulher 
Mas a batucada é que não


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Sofro Demais (Bala e Juca)



Sofro Demais (Bala e Juca) 
Carlinhos e Acadêmicos do Salgueiro - 1965

Sofro demais
Sem merecer
As minhas lágrimas
Só Deus quem vê

Senhor tenha pena de mim
Eu não mereço sofrer assim

Hoje sou um pobre sofredor
A felicidade me abandonou
As minhas lágrimas só deus quem vê
É quem compreende meu padecer



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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mestre Cartola


Onze de outubro é o aniversário de nascimento do mestre Cartola, um dos maiores e mais conhecidos compositores brasileiros. Cartola é uma unanimidade... Falou em samba, até aqueles que pouco entendem do assunto já falam em Cartola. Mas o mestre fez muita coisa, muito mais do que é conhecido do grande público. Pra comemorar o aniversário do mestre preparei uma pequena coletânea de 20 sambas do Cartola, mas uns sambas menos conhecidos, espero que gostem!



Musicas:
Ao amanhecer (Cartola)
Ciência e Arte (Cartola e Carlos Cachaça) 
Desfigurado (Cartola) 
Deus Te Ouça (Cartola e Paulo da Portela) 
Devia ser condenada (Cartola e Nélson Cavaquinho) 
Evite meu amor (Cartola)
Fita meus olhos (Cartola e Oswaldo Vasques) 
Na Floresta (Cartola e Silvio Caldas) 
Não posso viver sem ela (Bide e Cartola) 
Ordenes e Farei (Cartola e Aluísio Dias)
Pedem Socorro (Cartola) 
Perdão Meu Bem (Cartola) 
Rir (Noel Rosa e Cartola) 
Rolam Nos Meus Olhos (Cartola) 
Sei chorar (Cartola) 
Silêncio De Um Cipreste (Cartola e Carlos Cachaça) 
Sofreguidão (Cartola e Élton Medeiros)
Tenho um novo amor (Cartola e Noel Rosa) 
Todo o tempo que eu viver (Cartola) 
Tristeza (Cartola e Orlando Batista) 



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domingo, 7 de outubro de 2012

Haroldo Lobo em 78 rpm - 124 Sambas

Haroldo Lobo
Haroldo Lobo nasceu em 22/07/1910 no Rio de Janeiro, em meio a uma família de músicos. O pai tocava flauta e violão e o irmão era baterista e compositor. Ainda jovem estudou teoria musical e solfejo e aos 13 anos de idade já compunha alguns sambas para um pequeno bloco carnavalesco chamado Bloco do Urso.

Haroldo Lobo foi um dos mais expressivos compositores de musica carnavalesca em sua época. Não há quem não conheça pelo menos um trechinho da marchinha "Ala lá ô" ou os versos "Tristeza por favor vá embora". Compôs muita coisa. Entre o ano de 1934, quando teve sua primeira música gravada por Aurora Miranda (parceria com Donga e referência à revolução constitucionalista que tomava o Brasil na época) e 1965, ano em que teve seu último samba gravado (o samba Tristeza, na voz de Jair Rodrigues) emplacou sambas de sucesso em praticamente todos os carnavais. Gravar seus sambas carnavalescos era garantia de sucesso pros cantores da época. Entre as grandes vozes que gravaram Haroldo Lobo estão Francisco Alves, Carlos Galhardo, Ciro Monteiro, Jorge Veiga, Dalva de Oliveira, Linda Batista, Araci de Almeida... uma lista enorme que poderia se estender bastante. Entre os parceiros destacam-se Milton de Oliveira, talvez o parceiro mais constante, Wilson Batista e Benedito Lacerda.


Os números chegam a 453 músicas gravadas sendo mais de 300 compostas especialmente para o carnaval. Fiz uma seleção apenas com o sambas de Haroldo Lobo. Excluí as marchinhas, senão era muita coisa. A coletânea abaixo contém 124 gravações em 78 rpm, divididas em dois volumes. Divirtam-se com as brasas do Haroldo.

DOWNLOAD COLETÂNEA HAROLDO LOBO
PARTE 1
PARTE 2


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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Apita quem pode (Benedito Lacerda e Herivelto Martins) Trio de Ouro 1947


Apitou, apitou, apitou
Continua apitando
Continua mandando
Nosso diretor de harmonia continua
E esse ano a escola vai pra rua

Apita, apita, apita
Apita quem pode apitar

Quando o chefe é bom
Quando o chefe é mal
E nosso chefe está precisando de nós
Cada um por si tem que ajudar
Pois um homem só está sujeito a errar
Mas, se tal coisa acontecer
Perdoemos e lembremos,
Fomos nós que o elegemos

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Especial Paulo da Portela: Parte 6



Ao longo de sua vida, Paulo recebeu o merecido reconhecimento por seu trabalho pela cultura brasileira. A Portela ajudava a difundir a imagem de Paulo, mas, da mesma forma, grande parte da notoriedade que a Portela adquirira ainda na década de 30 deveu-se à constante presença de Paulo nas rádios e nos jornais e à sua popularidade, que, a partir da metade da década de 30, não conheceu fronteiras.

Em 1935, o jornal "A Nação" lançou um concurso que visava a eleger, através do voto popular, o maior compositor das escolas de samba do Rio de Janeiro. Ao comprar o jornal, o leitor ganhava um cupom, que deveria ser preenchido e enviado para a redação do periódico.

Paulo seria o "candidato" de Oswaldo Cruz, que se uniria para enfrentar os compositores indicados por outros grandes redutos de samba, como Mangueira, Estácio e Salgueiro. Cada resultado parcial era cercado por grande ansiedade. Graças ao decisivo apoio de Sérgio Hermógenes, comerciante do bairro que foi uma espécie de "primeiro patrono" da Portela, Paulo sagrou-se campeão, deixando Armando Marçal com a segunda colocação.

Caetano, que havia se endividado para a eleição de Paulo, esperava contar com o dinheiro do prêmio para restituir a grande quantia financeira obtida junto a Sérgio Hermógenes. Paulo, politicamente, usou o prêmio esperado por Caetano e comprou presentes para as principais figuras participantes do evento. Paulo acreditava que tal atitude seria um investimento a longo prazo. Estava investindo em sua imagem, esperando colher frutos futuros. A dívida seria quitada quando o retorno de sua gentil atitude mostrasse os primeiros resultados. Caetano, com a palavra empenhada junto a Sérgio Hermógenes, não aceitou as argumentações do amigo. Rompeu relações com Paulo, se afastou da Portela e pagou a dívida por conta própria.

Paulo sabia o que estava fazendo. Seguindo o raciocínio de Marília Barboza e Lígia Santos, Paulo foi o "traço de união entre duas culturas". Aproximando-se das pessoas influentes do Centro da cidade e presenteando-as, passaria a ter entrada num meio onde seria possível adquirir a fama, levando para o mundo dos ricos a cultura dos pobres e suburbanos, o samba humilde dos morros cariocas.

No ano seguinte, o Cordão das Laranjas, com o apoio do jornal "Diário da Noite", elegeu Paulo como cidadão-momo. Uma multidão acompanhou a posse de Paulo, em 21 de fevereiro de 1936. A cada ano que passava Paulo tornara-se mais importante, mais famoso. Em 1937, é eleito "Cidadão-Samba", alheio às disputas entre os jornais "A Pátria" e "A Rua" pela organização do concurso. A escolha de Paulo foi a única unanimidade entre os dois órgãos de imprensa.

Na virada de 1937 para 1938, Paulo viajou para o Uruguai em companhia de um grupo de sambistas. Era a primeira vez que o samba do morro atravessava as fronteiras do país. Participou, juntamente com o antigo amigo Heitor dos Prazeres e Cartola, do conjunto Cariocas, levando o samba para outras partes do Brasil. Estava obtendo sucesso em sua caminhada.

Paulo já estava acostumado a receber professores estrangeiros, ministros, pessoas importantes de uma maneira geral. Sua imagem já impunha respeito. Tornara-se uma das figuras mais famosas do Rio de Janeiro nas décadas de 30 e 40. Mesmo após seu desentendimento com a Portela, recebeu, como bom anfitrião, o empresário americano Walt Disney, acompanhado de seu desenhista, em Oswaldo Cruz. De volta aos Estados Unidos, surgia nas pranchetas o personagem Zé Carioca, talvez inspirado na própria imagem de Paulo.

Em qualquer problema que envolvesse o samba, lá estava Paulo, nas rádios, usando sua voz e seu respeito, para defender a dignidade e a imagem do sambista. Todos queriam ouvir o que Paulo pensava, sempre desvinculando do sambista a imagem marginalizada.

E o objetivo foi alcançado. A cada ano que Paulo se apresentava na Praça XI, ele era o ponto alto do desfile da Portela. O público o reconhecia e o aplaudia calorosamente. Os jornais destacavam sua presença.

Paulo ficou famoso, embora a fama não lhe proporcionasse fortuna. Viveu e morreu pobre, em uma pequena casinha, na Rua Carolina Machado, próxima à estação de Oswaldo Cruz. Mas e daí? Sua mensagem foi difundida, o êxito havia sido alcançado. Paulo era reconhecido, não apenas como sambista, mas também como pessoa. Fazia sucesso não apenas nos morros e nos subúrbios, mas também entre os principais artistas do Rio e do Brasil. Figura fundamental na história cultura brasileira nas décadas de 30 e 40.

Fonte: Portela Web
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