sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Tarde Demais (Alcides Malandro Histórico e Jair do Cavaquinho) Conjunto A Voz do Morro 1968


Agora reconheceu 
Que eu tenho valor 
Mas eu digo a você 
É tarde meu amor

É tarde demais 
Minha palavra eu não volto atrás 
É tarde, é tarde 
Deixa-me viver em paz


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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Especial Paulo da Portela: Parte 4



Paulo fez a Portela nascer. Seguindo o exemplo de Paulo, a Portela descobriu sua vocação para a vitória. A separação entre Paulo e a Portela foi como a emancipação de um filho. Foi dolorosa, difícil, mas ambos conseguiram sobreviver. Paulo jamais esqueceu a Portela. A Portela, em cada vitória, lembrava de Paulo. Ambos jamais voltariam a se encontrar, mas, de certa forma, nem precisavam, pois já estavam eternamente marcados e unidos.

Os acontecimentos de 21 de fevereiro de 1941 ainda permanecem confusos para a maioria dos portelenses que viveram aquele momento. O início do desfile se aproximava. Todos na Portela esperavam ansiosos por Paulo. De repente, o professor chega trajando um terno preto com listas brancas. Estava acompanhado de Cartola e Heitor dos Prazeres, velho conhecido dos antigos portelenses. A alegria, no entanto, é substituída pela perplexidade. Paulo discute com Manuel Bam-Bam-Bam, levanta a corda e vai embora. Antes, porém, vira-se para a bateria de mestre Betinho e faz um sinal, autorizando o início da apresentação, como sempre fizera desde os primeiros desfiles.

Sem entender por que Paulo abandonara o desfile, os portelenses entraram na avenida com muita garra, cientes de que teriam que vencer mais esta dificuldade. Apesar da grande exibição, que resultaria no terceiro campeonato da escola, os comentários de todos os componentes após o desfile, realizado nos escombros da Praça XI, que começava a desaparecer para ceder lugar à imponente Avenida Presidente Vargas, era apenas um: o desentendimento de Paulo com Manuel Bam-Bam-Bam.

Com o passar dos anos, os acontecimentos de 1941 tornaram-se mais claros. Segundo Marília T. Barboza e Lígia Santos, biógrafas de Paulo da Portela, o desentendimento foi motivado pela presença de Heitor dos Prazeres, que teve uma séria desavença com os portelenses e deixou a escola após a briga com Antônio Rufino, em 1929. Manuel Bam-Bam-Bam, que na ocasião tomou as dores do amigo Rufino, encontrava o antigo desafeto 11 anos depois, e pronto para desfilar pela Portela.  

Manuel Bam-Bam-Bam quis fazer valer uma determinação do próprio Paulo, e disse que eles só poderiam desfilar se estivessem vestindo roupas azuis. O valentão da Portela, como Manuel Bam-Bam-Bam era conhecido, ainda abriu uma exceção para Paulo, dizendo: "O senhor pode desfilar com qualquer roupa, eles não, só de azul".   
Paulo, solidário com os amigos do "conjunto carioca", que, voltando de um show em São Paulo, decidiram que os três iriam desfilar juntos na Portela, na Mangueira e na De Mim Ninguém se Lembra, respectivamente as escolas de Paulo, Cartola e Heitor, não poderia admitir a imposição de Manuel Bam-Bam-Bam, e também abandonou o desfile da sua Portela. Paulo não deixou os amigos Heitor e Cartola. Manteve-se fiel aos princípios que achava justos, mesmo que tivesse que brigar com a sua Portela.

Na casa de Cartola, no morro da Mangueira, Paulo afogava as mágoas com os amigos. Somente após o resultado final Paulo retornou para a Portela, acompanhado de Cartola, Carlos Cachaça e de Chico Porrão, o valente da Mangueira. O clima era tenso. Enquanto o sempre educado Cartola procurava contornar a situação, Manuel Bam-Bam-Bam disse a frase que afastaria para sempre Paulo de sua escola do coração: "Nós não queremos mais esse moleque aqui".

Ainda acompanhando o raciocínio de Marília T. Barboza e Lígia Santos, a posição de Manuel Bam-Bam-Bam, que por uma questão de justiça devemos dizer que era também o ponto de vista da grande maioria dos portelenses, era a de que Paulo deveria escolher se ficaria com a Portela ou com Heitor. Ao se solidarizar com Heitor, ignorando os antigos problemas entre a Portela e o famoso compositor, Paulo havia deixado claro que ficaria ao lado do amigo, conseqüentemente traindo a confiança dos portelenses.

Quem tinha razão? A briga poderia ser evitada? Fica difícil chegarmos a uma conclusão 60 anos depois. Paulo jamais voltaria para a Portela. Quando havia decidido esquecer as brigas e fazer o que seu coração mandava, sua saúde não permitiu. Durante seu velório, sua esposa Maria Elisa impediu, mesmo com os pedidos de Natal, que a bandeira da Portela fosse colocada sobre o caixão. Na memória dos antigos portelenses, ficou marcada a frase proferida por Paulo após ser chamado de moleque por Manuel Bam-Bam- Bam: "Senhores, senhoras e crianças da Portela, vós sois uns ursos".

Fonte: Portela Web

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Vem me consolar (Éden Silva e Aníbal Silva) Zé e Zilda 1949


Vem para me consolar meu bem 
Eu te quero como ninguém 
Meu grande amor longe de ti 
Em meu lar tudo emudeceu 
Ó vem querida, quem te chama sou eu

Sem o teu amor vivo a penar 
Por isso eu imploro 
Vem para me consolar


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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Alberto Ribeiro (Baú do Receita)

Alberto Ribeiro
Hoje completam-se 110 anos do nascimento de Alberto Ribeiro da Vinha, nascido na Cidade Nova e criado no Estácio, um dos maiores celeiros de bambas do Rio de Janeiro. Grande compositor, deixou uma vasta obra, cerca de 300 musicas entre marchinhas de carnaval, sambas e os mais variados estilos, da valsa ao fox trot. Uma simples pesquisa no acervo do IMS resulta em quase 500 gravações. Entretanto, seu nome é pouco lembrado atualmente.

"Olga" (Alberto Ribeiro e Sátiro de Melo) Intérprete: Vassourinha - 1941


Alberto Ribeiro se formou em medicina, profissão que exerceu até a sua aposentadoria, mas foi na musica que construiu uma obra que ficará para a eternidade. Compositor do Estácio, frequentador assíduo do Café Nice, ponto de encontro dos bambas na época, Alberto Ribeiro teve em sua lista de parcerias nomes como Bide, Wilson Batista, Alcir Pires Vermelho, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Dorival Caymmi, Nássara, Radamés Gnattali, Roberto Martins, entre muitos outros. Mas foi ao lado do amigo Braguinha, o João de Barro, que Alberto se consagrou. Os dois se conheceram em 1935 e daí surgiu uma grande amizade, na musica e na vida pessoal.

A marchinha "deixa a lua sossegada" foi a primeira parceria da dupla, gravada pelo cantor Almirante. Seguiram-se então um sem número de composições, entre elas alguns clássicos dos carnavais como "Yes, nós temos bananas" e "Chiquita Bacana". Uma marchinha dele que gosto muito é "Vírgula" de Alberto Ribeiro e E. Frazão, interpretada aqui por Mário Reis:



Alberto Ribeiro foi interpretado pelos maiores nomes do rádo: Mário Reis, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Vassourinha, Jorge Veiga, Almirante, Jamelão, Carmem Miranda, Dircinha Batista e muitos outros. Ouça a interpretação de Carmem Miranda para o samba "Veneno pra Dois" de Alberto Ribeiro e Braguinha:



Recentemente, dois sambas seus foram gravados por cantores da "nova geração do samba". O cantor Pedro Miranda interpretou a musica "Coração" no disco Lembranças Cariocas, de 2003 e o grupo Tuco e Batalhão de Sambistas regravaram "Não há de que", parceria com Bide, no disco Peso é Peso, lançado em 2010. Ouça a faixa "Não há de quê" interpretada por Carlos Galhardo, em 1936:



Reuni pra vocês uma coletânea com 40 sambas do Alberto Ribeiro e seus parceiros, gravados em 78 rpm e disponibilizados pelo Instituto Moreira Salles. O arquivo com as informações sobre as musicas, compositores, intérpretes e datas das gravações ficou de fora do arquivo e deve ser baixado separadamente!


Baixar arquivo de texto com informações sobre as musicas


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Senha: samba2012

FAIXAS

01 – Coração (Alberto Ribeiro) 
02 - Não há de quê (Alberto Ribeiro e Bide) 
03 - Comprei uma fantasia de pierrô (Alberto Ribeiro e Lamartine Babo) 
 04 - Quem canta (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
05 - Você me deu o bolo (Alberto Ribeiro e Bide) 
06 - Você fugiu de mim (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
07 - Eu sei de alguém (Alberto Ribeiro e Braguinha)
08 - O cachorro vira lata (Alberto Ribeiro)
09 - Cenário de revista (Alberto Ribeiro) 
10 - Veneno pra dois (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
11 - Não olhes pra trás (Alberto Ribeiro) 
12 - Tua vida entortou (Alberto Ribeiro) 
13 - Não chora (Alberto Ribeiro e Silvio Caldas) 
14 - Coração sonhador (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida) 
15 - Você sambou pra mim (Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho) 
16 – Anúncio (Alberto Ribeiro e Frazão) 
17 - Estou zangado com você (Alberto Ribeiro e Frazão) 
18 -Onde o céu azul é mais azul (Alberto Ribeiro, Alcir Pires Vermelho e Braguinha) 
19 – Olga (Alberto Ribeiro e Sátiro de Melo) 
20 - Se o dinheiro chegasse (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida) 
21 - Maria do Céu (Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho) 
22 - Se eu tivesse um milhão de cruzeiros (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
23 - Bandeira da minha terra (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
24 - Tem dó (Alberto Ribeiro, Antônio almeida, Braguinha e Dorival Caymmi) 
25 - Helena, vem me buscar (Alberto Ribeiro, Alcir Pires Vermelho e Braguinha)
26 - Vem jardineira (Alberto Ribeiro e Braguinha)
27 - Foi... é... e sempre será (Alberto Ribeiro e Roberto Roberti) 
28 - Eu quero é sambar (Alberto Ribeiro e Peterpan) 
29 – Isabel (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida) 
30 - Polonaisse em rítmo de samba (Frederic Chopin, Alberto ribeiro e Antônio Almeida) 
31 – Josefina (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida)
32 - Companheira de quem ama (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida)
33 - Não chores assim (Alberto Ribeiro e Silvio Caldas)
34 - Casadinha Triste (Alberto Ribeiro e Braguinha)
35 - Adeus, vou-me embora (Alberto Ribeiro e José Maria de Abreu)
36 - Velho marinheiro (Alberto Ribeiro e Wilson Batista)
37 - Seu Libório, (Alberto Ribeiro e Braguinha)
38 - Esquina da saudade (Alberto Ribeiro, Chiquinho e Radamés Gnattali)
39 - Lá vem formosa (Alberto Ribeiro e Dorival Caymmi)
40 - Moreninha carioca (Alberto Ribeiro e Ronaldo Lupo)


Postado originalmente em 16 de fevereiro de 2011


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sábado, 25 de agosto de 2012

Ouro Preto (Herivelto Martins e David Nasser)

Quando comecei a vasculhar a obra do Herivelto Martins me deparei com esse samba chamado Ouro Preto, feito em parceria com o David Nasser, obviamente em homenagem a minha querida Ouro Preto. Rapidamente coloquei pra tocar. No começo uma introdução meio diferente, arrastada... mas de repente entra um samba pra frente bem corrido com uma melodia linda e uma letra maravilhosa. A mais bonita que já ouvi falando de Ouro Preto.


OURO PRETO 
David Nasser e Herivelto Martins
Intérprete: Trio de Ouro - 1952

Quando o velho sol de Minas deixa na mata uma esteira
E depois vai descansar na serra da Mantiqueira
A gente fica cismando em tudo que já passou
Desde quando o velho sol o chão de minas beijou

Ouro Preto, das tuas ruas sinuosas
Pareço ver andrajosas as almas dos teus escravos
Mas vejo também altivas as figuras redivivas
Dos teus heróis e teus bravos

Ouro Preto, nas casas coloniais
Onde depois nunca mais se ouviu a voz de Dirceu
Marília procura ainda na sua amargura infinda
O amor que não morreu

Ouro Preto, de que valeu tua história
O teu passado de glória, minha esquecida cidade
Se na memória se apaga o que nunca, nunca se paga
O preço da liberdade


No vídeo a rapaziada do Brasil 41 durante a homenagem ao centenário do Herivelto Martins aqui em Ouro Preto:





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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Rio 40 Graus: Portela e Unidos do Cabuçu

Cena do filme Rio 40 Graus, de 1955, do diretor Nélson Pereira dos Santos. Nessa cena a Portela faz uma visita à Unidos do Cabuçu, com direito a um breve discurso do Alvaiade. O primeiro samba que eles cantam eu não consegui identificar... O segundo é "Relíquias do Rio Antigo" de Moacir Soares Pereira e Taú Silva. Pra fechar, o samba de Zé Kéti que estourou no filme e até hoje é cantado em todas as rodas de samba desse país, "A Voz do Morro".



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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Terra Brasileira: Homenagem a Aniceto da Portela

Dia 12 de agosto o Terra Brasileira fez uma linda homenagem aos "Irmãos Andrade" aproveitando as comemorações do centenário do Aniceto da Portela, o irmão mais velho de Mijinha e Manacéa. No vídeo abaixo, os sambas do Mijinha. Coisa linda rapaziada!



ADEUS EU VOU PARTIR (MIJINHA / CHICO SANTANA)
CHEGA DE PADECER (MIJINHA)
MEU CRIADOR (MIJINHA /  MONARCO)
SENTIMENTO (MIJINHA)
FUI CONDENADO (MIJINHA E MONARCO)
FALSA RECOMPENSA (MIJINHA / MONARCO)
MUITO EMBORA ABANDONADO (MIJINHA / CHICO SANTANA)

Nascido em 3 de maio de 1918, Mijinha (Bonifácio José de Andrade) era irmão de Aniceto e Manacéa. Como não gostava do seu nome de batismo, dizia chamar-se José Augusto de Andrade, nome com o qual se registrou na União Brasileira de Compositores. Morreu solteiro no início dos anos 1980 em um leito de hospital, tendo à cabeceira um potente rádio, presente de Paulinho da Viola.

Foi companheiro de Alberto Lonato e andava em todos os redutos de samba da cidade. Compositor de belos sambas, o boêmio Mijinha muitas vezes precisou vendê-los para arranjar dinheiro e custear suas farras intermináveis. Entre os seus sucessos destacam-se: Chegar de padecer (gravado no primeiro disco da Velha Guarda); Sentimento (gravado por Paulinho da Viola); Fui condenado e Sofres por querer liberdade (parcerias com Monarco); e o famoso partido-alto Muito embora abandonado (gravado por Cristina Buarque).

Fonte: VARGENS, João Baptista M., MONTE, Carlos. A Velha Guarda da Portela. Rio de Janeiro : Manati, 2004.

VÍDEO GRAVADO EM 11 DE AGOSTO DE 2012
LOCAL: NÚCLEO DOS FERROVIÁRIOS (BRÁS)

Visite:
www.terra-brasileira.blogspot.com

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Não Há de Quê (Alberto Ribeiro e Bide)

Faz tempo que não posto nada na seção "O Samba em Dois Tempos" que vale relembrar: a idéia é pegar um samba e compara duas gravações bem distantes no tempo. Pra voltar com tudo, lá vai uma brasa do Bide em parceria com o Alberto Ribeiro:

A primeira gravação é de 1936, com Carlos Galhardo:


A segunda gravação, feita muitos anos depois, vem na voz do Tuco e do Batalhão de Sambistas no disco Peso é Peso de 2010:



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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ao amanhecer (Cartola) Cartola e Coro Fala Mangueira 1968

Componentes da ala dos Periquitos, 1931

Brasa do mestre Cartola composta em homenagem à Ala dos Periquitos da Mangueira, uma das alas mais antigas do carnaval carioca.       


Ao amanhecer , ao anoitecer 
Cantam em bando aves fazendo verão 
Ouve-se os acordes de um violão 
E são eles, verdes periquitos 
Têm o peito forte tal qual o granito 
E são lindas as suas cancões

Quando a tarde vai morrendo, 
Ai, meu Deus 
O crepúsculo vem descendo 
Reúne-se o bando na rua 
E cheios de harmonia 
Entoam uma melodia 
Que faz dancar a própria lua


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domingo, 19 de agosto de 2012

Especial Paulo da Portela: Parte 3


Logo nos primeiros desfiles, a Portela demonstrava que estava destinada a ser a principal escola do carnaval carioca. Paulo, o líder, era o principal responsável por esse sucesso, decidindo os destinos da agremiação que ajudou a fundar ao longo de toda a década de 30. Paulo era mestre de canto, responsável por segurar o samba da Portela, ao lado de João da Gente, responsável pelos versos de improviso, e Cláudio Bernardo. Não é exagero afirmarmos que Paulo, além de primeiro presidente, foi também o primeiro "puxador" de samba que a Portela apresentou em seus desfiles.

Em 1932, o jornal "Mundo Esportivo" patrocinou o primeiro concurso das escolas de samba. Paulo havia composto um samba especialmente para o desfile, mas abriu mão de sua obra em favor do samba "Lá vem ela", de Ernani Alvarenga. Seria comum que Paulo, na condição de líder do grupo, fizesse questão de ter seu samba cantado em desfile, afinal, a vaidade está presente em todos os seres humanos. 

Mas Paulo era diferente. Era um verdadeiro líder. E apenas os verdadeiros líderes estão acima das pequenas fraquezas humanas. Paulo percebeu a preciosidade que era a obra de Alvarenga, e o desfile mostrou que ele tinha razão, pois "Lá vem ela" foi o grande sucesso do carnaval de 1932, transformando-se no primeiro samba cantado em desfile a fazer sucesso nas rádios.

Paulo também era uma espécie de "diretor de harmonia", função que não existia na época. As pastoras e os componentes da escola, de uma maneira geral, eram ensaiados por Paulo, recebendo, também, preciosas informações de como se comportar nos desfiles. Foi assim também nos anos de 1933 e 1934, quando a Portela, mesmo não conseguindo o título, se consolidava como grande escola.

Em 1935, a Portela conseguiu seu primeiro campeonato, e justamente no primeiro concurso oficial de escolas de samba. Paulo compôs "Guanabara", um dos sambas cantados nessa gloriosa vitória. Após o carnaval, a escola viu-se obrigada a trocar o nome que ostentava até então. Paulo, defendendo o antigo nome, relutou em aceitar a mudança do nome para Portela, mesmo nunca tendo sido conhecido por "Paulo da Vai Como Pode". Diante dos vários compromissos que a fama estava trazendo para Paulo, a Portela foi obrigada a desfilar nos anos de 1936 e 37 sem o empenho de seu principal líder. Os reflexos dessa ausência foram sentidos durante as confusas apresentações que a escola realizou nesses anos. Mas as confusões não se limitaram aos desfiles da Portela. O carnaval, de uma maneira geral, refletia a turbulência que a política brasileira estava atravessando.

Em 1939, Paulo finalmente pôde se dedicar novamente a sua escola. Livre de seus compromissos, já consagrado como um dos maiores artistas do país, Paulo comandou sua Portela em seu segundo título. Recebendo aplausos de uma Praça XI lotada, a escola apresentou o histórico "Teste ao samba", em que Paulo foi o responsável pelo enredo e pelo samba apresentado, considerado por muitos especialistas como o primeiro samba-enredo da história. Foi literalmente uma aula de samba. Vestido de professor, Paulo, diante da comissão julgadora, entregava diplomas aos componentes da escola, fantasiados de alunos. A cena, que entrou para a história do carnaval e das escolas de samba, fez a figura de Paulo ser eternizada como "professor".

No ano seguinte, Paulo idealizou o enredo "Homenagem à Justiça", desenvolvido por Lino Manuel dos Reis, e novamente compôs o samba apresentado em desfile. Mas o sucesso do ano anterior não se repetiu e a escola ficou com a 5ª colocação, sua pior classificação até aquele ano.

Podemos definir os anos em que Paulo esteve à frente dos destinos da Portela como os anos em que a escola se estruturou e se consolidou como grande agremiação. Foram nove carnavais e dois títulos. A Portela engatinhava como escola de samba. No início da década de 30, muitas escolas surgiram e desapareceram, poucas sobreviveram e chegaram às décadas seguintes. A Portela, a Portela de Paulo, foi uma dessas raras exceções. Agora, a Portela atingira a maioridade, poderia andar sozinha. Paulo seguia seu caminho.

Fonte: Portela Web
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sábado, 18 de agosto de 2012

Fica (Silas de Oliveira)

Brasa do mestre Silas de Oliveira gravada pela Carmem Silvana no disco "Rouxinol do Império)


Fica, 
O meu desejo é profundo, é açoite
Fica comigo essa noite
Nunca é demais pedir para amar
Eu tenho medo de você ir e não voltar
Depois de tanto, tanto te esperar

Inteligentemente essa tua malicia
De tendência fictícia é de torturar
Mas evidentemente quem bate não sente
Mas não me canso de te implorar pra ficar


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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Entrevista com João Batista Vargens sobre Candeia

Foto: Walter Firmo

Entrevista publicada originalmente no site PortelaWeb

Entrevista com João Baptista Vargens - biógrafo de Candeia - em 17/08/2005  

João Baptista M. Vargens, Professor-Doutor do Departamento de Línguas Orientais e Eslavas (ele é professor de árabe), recebeu a Equipe Portel@web em sua sala de trabalho na Faculdade de Letras da UFRJ. Era uma manhã de quarta-feira, com céu azul. Claro, portelense que é, vestia sóbria, discreta e elegante camisa azul. 

Entre diversos telefonemas da pastora Surica, da Velha Guarda da Portela, do Diretor do Departamento Cultural da Portela, Carlos Monte, e outras solicitações – e no intervalo de uma aula e outra – abriu coração e mente para lembrar do grande mestre Candeia.

Autor da biografia do Mestre (Candeia. Luz da inspiração, Rio de Janeiro, Funarte, 1997) e também de A Velha Guarda da Portela, com Carlos Monte, Rio de Janeiro, Manati, (2001), morou em Oswaldo Cruz dos 15 aos 26 anos. Uma época importante, porque é uma época de formação. Foi para lá quando estava cursando o 2º grau e todo o curso superior ele fez morando em Oswaldo Cruz.

Nesta quarta-feira, pudemos conhecer um pouco mais sobre sua obra e, ao mesmo tempo, reverenciá-la, sua ausência/presença entre nós.

Ah, aquela quarta-feira, dia 17 de agosto. Há 70 anos nascia Candeia.

PORTEL@WEB: E foi lá que o senhor começou a conhecer a Portela e o Candeia?

João Baptista: Não, eu já conhecia a Portela. Eu já era portelense. Agora, a primeira pessoa da Portela de quem eu me aproximei foi o Casquinha. O Casquinha era meu vizinho. Então nós conversávamos todos os dias até altas horas. Eu me lembro até do primeiro encontro. Eu vinha no ônibus chegando do meu colégio, eu estudava no Méier, no Colégio Visconde de Cairu, e o Casquinha embarcou no ponto da Portelinha. Na época não havia o Portelão. Aí quando eu desci, ele desceu também. Nós começamos uma conversa e ele:

-- Casquinha: Você gosta desse negócio de samba?
-- João Baptista: Claro, eu gosto!
-- Casquinha: Você quer ir amanhã a um encontro que vai haver lá na Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá? Estarão presentes alguns sambistas...

E marcamos às sete horas da manhã. Ele iria de carona com um colega dele, Jorginho 40, que tinha um caminhão. Dez para as sete eu já estava lá no lugar onde nós marcamos, pertinho das nossas casas, e o Casquinha não apareceu. Aí eu me dirigi à casa dele e fui informado que ele já tinha ido. Na verdade, ele tinha esquecido desse compromisso. A gente tinha marcado na véspera. Esqueceu... Viu assim um garoto de 15 anos e pensou que eu não fosse. Aí o que eu fiz: peguei um ônibus até Madureira e de lá peguei outro até a Colônia Juliano Moreira. Nesse dia eu tive contato com uma série de compositores da Portela: Walter Rosa, Ari do Cavaco... Paulinho da Viola, Waldir 59, Anésio... Era época de apresentação de samba-enredo.



PORTEL@WEB:Isso foi em que ano?

JB: Isso foi exatamente em 67. Estavam fazendo o samba pra 68, que foi “O Tronco do Ipê”, segundo José de Alencar. Então, talvez para se penitenciar por ter esquecido, o Casquinha me arranjou uma carona de volta. Acho que ele ia para outro lugar. E quem me deu a carona foi o Paulinho da Viola. O Paulinho na época morava na Rua 28 de Setembro. Casquinha pediu pra ele me deixar em Madureira e ele me deixou em casa, lá em Oswaldo Cruz. Então o meu início dentro da intimidade do portelense, entre os compositores, dá-se a partir dessa visita. Deu-se na verdade numa colônia de loucos (risos). Depois, em 70, dois anos depois, quando o Paulinho da Viola fez o disco com a Velha Guarda da Portela, havia encontros para ensaios e eu comecei a freqüentá-los, também pelas mãos do Casquinha. Ia sempre à casa do Manacéa (porque os ensaios eram na casa do Manacéa). Foi lá então que eu me aproximei do grupo que hoje é a Velha Guarda da Portela. Naquela época eram jovens senhores da minha idade mais ou menos, talvez até mais novos que eu. Eu me senti bem, sabe. Eu fui muito bem tratado, muito bem acolhido. Daí surgiu uma grande amizade. Forte, muito forte com alguns como o Chico Santana, Manacéa. E até hoje eu conservo a amizade com as famílias dessas pessoas.

PORTEL@WEB: E o Candeia, como o senhor o conheceu?

JB: O Casquinha foi o grande parceiro do Candeia, né? Segundo Candeia, o seu maior parceiro. Certa vez, Roberto Moura entrevistou Candeia para o Pasquim e ele fez uma pergunta: “Candeia, de quem você queria ser parceiro: Caetano Veloso, Milton Nascimento, João Bosco, Chico Buarque?”. E ele foi descartando um a um com muita inteligência, dizendo: - Milton Nascimento é um grande compositor, mas ele faz umas vocalizações... Ele faz uma música diferente da minha. Chico Buarque é gênio e eu não posso ser parceiro de gênio. E assim também ele encontrou adjetivações para os outros. E finalizou dizendo que, entre todos esses, ele gostaria de ser parceiro do Casquinha. Então foi o Casquinha que me levou ao Candeia, embora eu tenha ido sozinho, com as minhas pernas.  Casquinha falava muito do Candeia e dizia que ele morava na Rua Albano, em Jacarepaguá, perto da Praça Seca. Na época eu tinha 15, 16 anos e o meu primeiro emprego foi como vendedor de livros (eu sempre vivi de livros: estudando, vendendo e escrevendo). E eu fui visitar uma aluna da Faculdade de Letras (na época eu ainda era secundarista) na Rua Albano, a qual era filha do então delegado de Caxias. Saindo de lá, eu perguntei se ela conhecia a casa do Candeia. Ela me indicou onde era e eu fui até lá (eu estava até com uniforme porque da rua eu ia direto para o colégio, além de o fato de estar uniformizado ajudar a vender). Então eu bati lá. Dona Leonilda, mulher do Candeia, me atendeu de forma muito receptiva. Eu me apresentei como colega do Casquinha e o Candeia me recebeu. Eu saí de lá abarrotado de letras de samba. Batemos um papo longo. Ele me serviu bolo, guaraná (coisa de criança ainda). Depois a amizade foi se estreitando e em 72 nós concorremos ao samba da Portela (eu fiz uma letra, e o Casquinha e o Davi do Pandeiro fizeram a música) e fomos bater um papo com o Candeia para saber o que ele achava. Eu acho até que ele deu uma opinião... sei lá... para prejudicar o samba, porque ele estava concorrendo também (risos). Ele sentiu que o nosso samba era forte. Mas ele se deu mal, porque o nosso samba foi até as quartas-de-final e o samba dele foi cortado logo. Ele tinha feito com o Wilson Moreira. Depois até esse samba foi gravado, não mais no ritmo de samba-enredo.

PORTEL@WEB: Como ele era pessoalmente?

JB: Muito gentil, muito agradável. Impetuoso, cheio de idéias. Queria fazer tudo. Conversava com várias pessoas ao mesmo tempo. Era um sujeito que tinha um intelecto brilhante. Em 75, com a criação da Quilombo, nós nos aproximamos mais ainda. Eu, inclusive, escrevi o manifesto da Quilombo. Isso aí lá na casa dele... ele tinha me falado que queria fazer uma outra escola de samba. Uma escola de samba que não tinha nada a ver com essas escolas de samba que existem ou que existiam na época. Então, quando cheguei a minha casa eu escrevi o manifesto da escola na parte seca da folha de um embrulho que eu trazia comigo. Só mudou-se um verbo por sugestão do jornalista, e também fundador da Quilombo, Juarez Barroso (já falecido). Esse texto foi traduzido para diversas línguas. A Quilombo teve uma grande divulgação e, na época da repressão militar, qualquer entidade, seja qual fosse, que conseguisse arrebanhar um grande número de pessoas, era vista como perigosa. Eles acreditavam que não fosse um movimento só cultural, que houvesse também algo de política...

PORTEL@WEB: Mas havia. Não partidária.

JB: É, a política estava ali. Era, obviamente, um movimento político. Nós tínhamos um compromisso, um princípio. Agora, houve uma repercussão grande. Talvez porque a própria comunidade suburbana ou até da própria cidade estivesse precisando daquilo. Então nós fizemos reuniões lá com 3.000 estivadores, outros tantos trabalhadores da construção civil. Isso era uma ameaça!

PORTEL@WEB: Isso em 75, né?

JB: De 75 até o Candeia morrer em 78.

PORTEL@WEB: Quer dizer, na verdade pré-Sindicato dos Trabalhadores no ABC.

JB: É, antes do Lula. Lula surge em 78. Quando o Lula surgiu, eu estava estudando em Damasco, na Síria. Eu viajei em setembro de 78. Lá é que eu vi as confusões todas. Passava na televisão vindo de São Paulo. Foi aí que os metalúrgicos começavam a tomar corpo. Mas isso foi antes... Então, eu acho que o fato de a gente aglutinar muita gente... Mas as pessoas iam também mais por causa do samba, por causa do feijão. Nós conseguíamos juntar grande número de pessoas pelos artistas que iam lá também: Martinho da Vila, Clara Nunes, Roberto Ribeiro. Então a gente fazia semanas culturais. Já que o foco estava lá, nós não perdíamos a oportunidade. Lançamento de discos, por exemplo, nós fizemos lá. Foi uma época muito interessante. Muito fértil. E nós tínhamos lá também Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Wilson Moreira... Era um timaço!

PORTEL@WEB: De que forma o Candeia falava de Portela, dos amigos dele?

JB: Candeia era um portelense bastante identificado com a escola. Aos 17 anos ele ganhou o primeiro samba na Portela, desbancando Manacéa, que era o ganhador dos sambas-enredo. Mas ele tinha um espírito de liderança nato e então ele estava vendo que estava perdendo essa liderança dentro da Portela, até mesmo como compositor. Ele nunca foi dirigente, mais como compositor. A Portela estava levando pessoas do rádio, como Jair Amorim e Evaldo Gouveia. Achavam que com esses nomes ela teria um maior espaço na mídia.

PORTEL@WEB: Tanto que em 1974 eles ganharam o samba “O Mundo Melhor de Pixinguinha”, né?

JB: Ganharam. Ganharam duas vezes eu acho.

PORTEL@WEB: E depois em 78.

JB: É, em 78 que deu aquela repercussão toda. Então ele estava sentindo que não tinha espaço mais ali. Havia duas alternativas: uma era lutar internamente e seria difícil, tanto é que o presidente só saiu no ano passado; e a outra era fundar uma escola de samba. E ele achou mais prático. E teria mais visibilidade.

PORTEL@WEB: O descontentamento dele na Portela era com a estrutura que veio com a chegada do Carlinhos Maracanã? Além disso, entrou também o Hiram Araújo, que assumiu o departamento cultural.

JB: Não... olha só... a Portela foi sempre uma escola que abrigou gente de toda a cidade. Uma escola vencedora. Então era mais do que natural haver grandes adeptos. Além de tudo, é uma escola de planície, não é de morro. Então era fácil de você chegar. Você ir à Mangueira já era mais complicado. Subir o morro do Salgueiro era mais complicado. Por causa disso, a Portela sempre foi muito freqüentada. Paulo da Portela também era um diplomata. Então sempre houve isso. O que nós questionávamos era que as posições de mando, de dirigentes... os sambistas da Portela, de Oswaldo Cruz, começaram a perder... não há problema algum de uma pessoa de um lado da cidade freqüentar o outro lado. Eu mesmo sempre fiz isso. Eu gosto da Portela e gosto do Jóquei Clube Brasileiro. Agora, o que não pode, e aí eu acho que houve uma distorção, é o sujeito que é convidado pra ir à casa do outro e já querer mandar. E pessoas alheias. O Hiram mesmo é um sujeito super bem-intencionado, portelense, né? Mas certa vez ele falou uma coisa numa entrevista para um jornal (acho que era “O Estadão”. Não lembro... Era um jornal que ficava ali perto da Rodoviária) que a função dele e dos seus companheiros era levar cultura para a escola de samba. Então... é uma visão estereotipada! A escola de samba tem a sua cultura. Na verdade, ele estava querendo dizer escolaridade. Mas não era isso de que a Portela precisava. Tanto não era que ela perdeu o seu rumo. Você vê que no tempo em que as pessoas de lá faziam o Carnaval ela ganhava. Obviamente, houve uma transformação e hoje não ganharia com aquele time de lá. Mas eu acho que há a possibilidade de você fazer uma conciliação das duas coisas.

PORTEL@WEB: Até porque o Candeia sempre pregava: o problema não era as pessoas virem de fora, era a exclusão de quem estava dentro.

JB: Até dizia: Hoje em dia a Portela tem mais cacique do que índio.

PORTEL@WEB: Até porque, em 73, as pessoas já estavam saindo. Por exemplo, compositores como o Bubu da Portela, que se afastou em 73.

JB: É, chegou ao ponto em que você não encontrava mais ninguém da tradição da escola dentro dos ensaios. Hoje em dia mesmo... eu não tenho acompanhado de perto, mas parece que só nos primeiros sábados de cada mês, quando a Velha Guarda faz a feijoada, é que a coisa acontece. Caso contrário, ninguém está lá. Não existe mais o espaço, né? A escola de samba, eu creio, como um todo, não apenas a Portela, era a extensão da casa das pessoas. Pessoas pobres que não tinham dinheiro para entrar de sócio de um clube. Então não era a escola de samba só no dia de carnaval. Era a escola de samba do ano todo. As pessoas comemoravam seus aniversários. Eu mesmo comemorei alguns aniversários na Portela. Eu levava bolo. Quando havia a Festa da Penha, as pessoas faziam pernil, farofa e levavam para a barraca das escolas de samba na Festa da Penha. Quer dizer, havia uma interação. Era uma comunidade toda integrada, compreende? Quando cresceu, os dados identificadores foram se perdendo. Então você vai para a Portela como você vai para o Salgueiro, como você vai para a Mangueira. Para se distrair. Então, há sempre redutos de resistência. Então você vê a Velha Guarda “grande” da Portela (não digo a Velha Guarda Show). Eles têm lá a Portelinha. Eles fazem almoço nos dias de domingo, tá entendendo? Quer dizer, é uma saída. Quer dizer, o Portelão já não serve para eles, porque ali eles não são pessoas identificadas e identificáveis. São um... qualquer. Aí eles procuram um outro cantinho e levam a vida. Então hoje em dia há, na minha opinião, duas escolas de samba (não é só a Portela. Qualquer escola de samba): existe a escola de samba do carnaval que não tem nada a ver com a escola de samba local. A do carnaval é outra. A comunidade não participa. Então a Portela, por exemplo, tem o seu barracão lá no Cais do Porto. Aquilo é uma coisa. O pessoal da escola nem sabe o que vai aparecer no dia do carnaval. Não sabe. Na hora que chega lá embaixo é que o sujeito vai olhar para a alegoria. Às vezes, nem isso hoje em dia se vê. O cara desfila e não vê a alegoria. Antigamente, não: o sujeito acompanhava. Ele chegava lá. O barracão normalmente era no subúrbio. Aí ele chegava:

            - Pô, tá precisando de alguma coisa?
            - Quê que você sabe fazer?
            - Então vamo lá! Eu ajudo!

Entendeu? Era um trabalho de todo mundo. Agora são profissionais. Não adianta escapar! Hoje em dia não adianta escapar. Mas eu acho que há condições de você tentar contornar isso. Uma oficina, por exemplo, de costura. Marcenaria, entendeu? A escola pode criar oficinas que, inclusive, propiciem uma profissionalização das pessoas do lugar. O Nilo (presidente Nilo Figueiredo, que assumiu a administração da escola em 2004) entrou com umas idéias interessantes. O Carlos Monte é uma pessoa muito sensível. Mas ele (o Nilo) tem também um temperamento assim... complicado. Um temperamento militar, de quartel. E Portela não é isso. Em outra escola pode até ser, mas... eu acho que ele tem que mudar um pouco, né? Portela é uma escola de cortesia. Uma escola de educação pela sua própria história. Paulo da Portela é dito como socializador do samba. Então o portelense não gosta de grupo de ordem. O portelense está mais para o Itamaraty do que para a caserna.

PORTEL@WEB: Porque o portelense, mais ou menos, já sabe o que e como fazer, né? Porque a disciplina portelense independe...

JB: O portelense é disciplinado. Tanto é disciplinado que ele ficou trinta anos lá com o Carlinhos Maracanã e não criou caso. Só foi criar agora (risos). Então não é brincadeira. Trinta anos... Agora, é disciplinado! Se fosse no morro, não faria isso. Nenhuma escola de morro tem um presidente durante tanto tempo. Eu tenho amigos de outras escolas de samba e que visitam a minha casa também. O sujeito da Portela para cada vez que ele ia ao banheiro... Manacéa, Chico Santana sempre diziam “Dá licença, eu vou ao banheiro”. Já o sujeito de uma outra escola assim, se bobeasse ele fazia num pé de abacate. É uma escola diferente! Mas isso se mantém até hoje. Não sei se é por força de segurança hoje em dia ou até da fidalguia mesmo...

PORTEL@WEB: Acho que é o fundamento da escola...

JB: Pelo Paulo, né?

Mas hoje vai muita gente de fora. Mas eu acho que o sujeito que chega lá e vê aquele comportamento... O Lan diz que quando ele chegou da Argentina, pediu ao Édson Carneiro – antropólogo, que estava fazendo uma pesquisa sobre as escolas de samba – que o levasse até as escolas de samba. Então um dia o Édson convidou, num domingo de janeiro, para eles irem ao Salgueiro e o Lan aceitou. Nessa época, o Lan trabalhava num jornal e o Édson Carneiro deu um gravador daqueles enormes de rolo para ele carregar (ele era novinho, né?). Ele acha até que foi convidado para carregar o gravador (risos). E disse: “Você aceite tudo que oferecerem lá pra você, viu? Porque senão é desfeita”. Na época o Salgueiro ficava lá no alto do morro. Aí os caras vieram com um conhaque e ofereceram para os quatro (para dois professores, que também tinham ido com eles, pro Lan e pro Édson Carneiro). Os três falaram: “Lan, toma!”. Aí tomou os quatro. E saiu de lá bêbado (risos). Um sol danado... Aí ele (Lan) disse: “Poxa, isso é que é escola de samba?”. Quinze dias depois, eles foram à Mangueira. Aí chegaram lá na Mangueira para fazer a entrevista e só o Xangô estava lá. Eles tinham combinado antecipadamente, mas só o Xangô que estava lá. Chegou a vez da Portela, quinze dias depois. Quando eles chegaram na Portela, as mulheres todas de azul, os homens todos de branco e de chapéu os receberam de mão estendida e com comida... O Lan falou: “Bom, aqui é o meu lugar!”. Isso mostra que havia essa diferença.

PORTEL@WEB: Voltando um pouco para a Quilombo, por que você acha que as sugestões que o Candeia levou à Diretoria da Portela na época nem mesmo foram debatidas?

JB: Acho que a diretoria achava que estava no caminho certo, né? Naquela época se falava muito em transformação. O próprio Hiram, que era o coordenador do carnaval, achava que tinha que mudar mesmo. Achava e acha até hoje. O Jair Amorim e o Evaldo Gouveia, por exemplo,  foram convidados para fazerem o samba. E eles já sabiam que iam vencer. Então um monte de gente perdendo tempo, quebrando a cabeça... Então que eles chegassem e fizessem como o Nésio fazia na Tradição: eles não tinham ala de compositores e encomendavam ao João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Mas ninguém ficava perdendo o seu tempo. Então essa era a diretriz. O Carlinhos Maracanã queria ganhar o carnaval também. Ele não era maluco. Agora, o caminho que ele seguiu não foi um bom caminho, né? Você que tem um timaço de compositores como a Portela... Na época você tinha cinqüenta, no mínimo, “cobrões”... Poxa, você precisava importar compositores de outros tipos de música? Que eram grandes compositores! Seresteiros, né? Eles têm uma obra lindíssima, né? E eles tinham agradado também à Portela, porque tinham feito um samba falando da Wilma: “Como é que eu posso por ela trocar, a emoção de ver Wilma sambar...” (cantou João Baptista). E a Wilma era a grande dama da Portela. Eu acho que a culpa não é dele (do Carlinhos Maracanã), não. A culpa foi da Portela mesmo. Aí eles (Jair Amorim e Evaldo Gouveia) fizeram o samba. Há até quem goste do samba, mas só que não era um samba com as características da Portela. Aliás, isso é um outro ponto importante também: cada escola de samba tinha a sua característica. Poxa, você dizia assim: “Esse samba é o samba bom pra Portela. Esse samba é um samba bom pra Mangueira, né?”. Havia um casamento entre a bateria e o samba. Hoje em dia o sujeito faz samba para todas as escolas. Dizem que existe aí um escritório.

PORTEL@WEB: Várias, várias...

JB: Várias firmas. O sujeito não conhece a alma daquela escola, a alma do ritmo...

PORTEL@WEB: E não respeita nem a tradição melódica da sua comunidade, né?

JB: É! E aí complica por isso. Existe já uma homogeneização, né? Você não difere mais quase nada. Antigamente Portela entrava na avenida e você sabia que era Portela pela batida da bateria. Mangueira também. Mas essas pessoas não. Elas não cresceram dentro daquela comunidade. Você ia num samba da Mangueira... chegava cinco horas da manhã, estavam descendo batuqueiros pra assumir a posição dos outros que iam dormir. Cinco horas da manhã! E o samba rolava até as nove, dez horas! Você estava dormindo, mas estava ouvindo a bateria de lá. Você era pequenininho e estava ouvindo aquilo. Então, para ele, bater samba era daquele jeito: aquele surdo... aquela marcação única, né? Da Portela já era um outro tipo. Agora não: você importa diretor de bateria; você “compra o passe” do cuiqueiro. Aí perde a característica.

PORTEL@WEB: Queria agora que você dissesse um pouco da Turma do Muro e do grupo “Os Mensageiros do Samba”.

JB: Na verdade, muita gente da Turma do Muro era do grupo “Os Mensageiros do Samba”. Existe a estação de trem. Então esse pessoal... Candeia morava do lado esquerdo de quem sobe, do lado da João Vicente. Ele ia para a Portela e depois, antes de ir para casa, continuava batendo papo ali no muro da estação de trem. E esse grupo é que vai fazer samba para a Portela. Eles eram novos ainda: Casquinha, Waldir 59, Candeia, Bubu... Na verdade, naquela época, início dos anos 50, havia dois, três sambas só. Um do grupo do lado direito de Oswaldo Cruz, onde fica a Portela, que era o pessoal do Manacéa. E depois, Candeia. Aí eles ganham. Passam a ganhar a partir de 53, com “As Seis Datas Magnas”. Eu até perguntei ao Manacéa:

            João Baptista: Manacéa, como você se sentiu, o garoto lá do outro lado da linha    vem e desbanca você?
            Manacéa: Poxa, eu até gostei, porque assim não tinha mais que quebrar a cabeça.

Eram meninos inteligentes. Eles tinham o estigma da Portela. Eu senti que eles     eram portelenses mesmo de sangue. E assim eu fui poupado para fazer samba-enredo falando sobre uma data histórica, o que já era difícil, e eles fizeram seis datas magnas. Entreguei para um melhor do que eu (que era o Candeia) .

Aí, você vê! Com toda a simplicidade, ele disse isso.
Então não havia essa disputa. Às vezes, um dos dois grupos retirava o samba. Quando percebia que o do outro era melhor, retirava. Há umas coisas que são boas por um lado e ruins por outro. Essa questão de samba. Essa cobiça de vencer samba-enredo. Porque sempre houve vaidade, né? O sambista queria ver a escola cantando o seu samba. Mas essa cobiça financeira foi por causa de uma atitude interessante do Martinho da Vila. Ele brigou para que os sambistas recebessem o direito de arena. Quem ganhava um samba, dava direitos pelo disco que vendeu. Execução era só do Natal até o Carnaval e acabou – e algumas emissoras, né? Mas agora com o direito de arena, o compositor ganha da televisão, ganha do ingresso... E é uma grana legal. Então... o Martinho não pensou nisso, né? Há “guerras” para ganhar um samba-enredo. Em algumas escolas de samba, fulano já diz: “Vai ganhar esse!”. Martinho mesmo passou por uma assim lá na Vila Isabel: ele chegou e os caras falaram “Canta errado aí, porque o samba é aquele...”. Isso pra intimidá-lo... com arma... A Ruça, ex-mulher dele, tinha coragem e chegou e botou o revólver na mesa assim: “Vai cantar também com o revólver aqui!”. Ela arrumou um revólver lá. “Vou ter revólver contra revólver, pô! Vocês estão querendo intimidar o corpo de jurados”. Isso dentro da escola, onde era o América.

PORTEL@WEB: E qual a data de formação do início do grupo “Os Mensageiros do Samba”?

JB: Isso você tem no meu livro. De cabeça eu não me lembro, mas deve ser por volta de 65... Por aí!

PORTEL@WEB: Durou muito pouco, né?

JB: É. Mas fez muito sucesso. Foi assim um dos primeiros grupos de escola de samba. Eles têm um disco muito bom. Foram a programas importantes de televisão na época. Viajaram...

PORTEL@WEB: “Os Originais do Samba” ficavam atrás, na coxia, assistindo à apresentação deles. Eles que viriam depois.

JB: Os Originais de São Paulo. Era um grupo de São Paulo.

PORTEL@WEB: É, porque eles (o grupo “Os Mensageiros do Samba”) viajavam. Como você falou, eles faziam apresentações fora do Rio também.

JB: Jorge do Violão, Arlindo “pai”, Casquinha, Bubu, Picolino...

PORTEL@WEB: Devido à posição firme do Candeia, diziam que ele era racista. Falavam isso dele...

JB: Não era racista, não.

PORTEL@WEB: Mas a que você atribui isso? Era essa forma, essa combatividade dele?

JB: Bom, naquela época foi mais ou menos quando começou a surgir o movimento Black Powernos EUA. No subúrbio do Rio havia grupos também Black Power. Na época havia soul music. E o Candeia levantava uma bandeira. E esses grupos estavam querendo pegar o Candeia, que era um sujeito que tinha visibilidade na mídia. Eu me lembro até... eu tinha um amigo que era um dos diretores do “Fantástico” – logo no iniciozinho do Fantástico, né? – e esse sujeito era muito ligado ao samba, Macedo Miranda Filho. Inclusive o padrinho de casamento dele foi o Nélson Cavaquinho. Mas ele não gostava do Candeia, não. O pai dele tinha sido preso na época da ditadura e ele não gostava de polícia. Achava o Candeia folgado. Então... ele sabia que o Candeia era capaz de fazer o que ele queria. Então me pediu que fosse o interlocutor da TV Globo e pediu ao Candeia para fazer um samba enaltecendo o samba e criticando osoul. Eu falei com o Candeia e o Candeia fez. O quadro saiu no “Fantástico” e teve uma repercussão danada, de tal forma que uma vez eu estava com o Candeia no Irajá (estávamos indo para Santa Cruz. Às quartas-feiras nós íamos a Santa Cruz comprar carne para a Quilombo no açougue de um moço chamado João do Mato) e quando o sinal parou, na quarta-feira seguinte ao domingo em que foi exibido esse quadro do “Fantástico”, o pessoal da soul music começou a jogar pedra. Foi uma matéria tendenciosa, porque o Macedo queria enaltecer o samba, né? Então ele pegava uma quadra de escola de samba. Entrevistas com pessoas ligadas ao samba. E depois fazia o mesmo com o pessoal da soul music . Só que o pessoal do samba ele escolheu a dedo; o pessoal da soul music ele pegava qualquer um. E o Candeia fez um samba: “Eu não sou africano nem norte-americano, ao som da viola e do pandeiro sou mais o samba brasileiro” (cantou João Baptista) . Tem um verso que ele diz assim: “à juventude de hoje dou meu conselho de vez: quem não sabe o beabá, já quer falar inglês. Aprenda o português”... Na bronca, né? Foi uma gozação que o Candeia fez. Então ele não era racista coisíssima nenhuma, né? Talvez ele fosse nacionalista. Isso pode ser. Mas racista não, porque na Quilombo havia branco, preto, mulato. Pelo contrário! Até esses grupos políticos negros, quando começaram a se aproximar da Quilombo, foram embora rápido, porque eles perceberam que o negócio não era esse. E também começaram a querer ser caciques e o Candeia, a diretoria... “Pô, se a gente cria uma escola pra sair dos caciques da Portela, vem outro cacique agora!”. Eu acho que com a visibilidade de um trabalho, qualquer que seja, aparece uma porção de gente querendo aparecer.

PORTEL@WEB: A crítica do Candeia ao soul era essa...

JB: Porque era uma cópia, né? Não havia... Eles nem sabiam o que estavam fazendo. Porque o Black Power lá, americano, tem os seus princípios, né? Ele conseguiu coisas. Mas aqui não: é um movimento alienatório. O sujeito está cantando músicas em inglês sem saber o que está cantando.

PORTEL@WEB: Você acha que, se o Candeia estivesse vivo, seria a mesma idéia hoje em relação ao funk e ao hip hop, por exemplo?

JB: Acho que hoje há uma parte que sabe o que faz. Naquela época era pouca gente. Agora... outra também não sabe. Uma parte desse grupo faz politicamente, mas acho que a maior parte ainda não vai desse jeito não... Ele quer é se distrair! Tá mais perto, ele mora em Rio das Pedras, tá cheio de menininha gostosa... Vai dar bola pra isso? Não existe a conscientização. Pode ser de um grupo pequeno, mas não existe. Agora naquela época era menor ainda esse grupo consciente. E você, dentro do país, você pode exercer qualquer... pode fazer qualquer tipo de política, até mesmo defendendo um grupo étnico, com as coisas nossas. Não precisa importar. Porque, se importa, a coisa já não sai autêntica. É complicado! As realidades são outras.

PORTEL@WEB: A Quilombo acabou porque Candeia morreu ou houve outros fatores que levaram a isso?

JB: A Quilombo não acabou. A Quilombo existe até hoje. Tá lá em Acari.

PORTEL@WEB: Mas qual a sua atuação?

JB: Eles têm creche, eles saem no Carnaval, entendeu? Só não têm a repercussão. Quando Candeia morreu, não houve mais...assim... houve até durante um ano ou dois, mas depois houve um esmorecimento, porque o Candeia atraía muita gente conhecida para lá. E depois, as pessoas também tinham outras coisas para fazer. O Candeia não tinha nada, só tinha a Quilombo, né? Tinha a aposentadoria... Nem a aposentadoria, porque ele não se aposentou, mas tinha o salário dele no fim do mês de policial. E os direitos autorais. Já estava gravando os artistas que vendiam discos, shows que ele fazia... Então, era um cara que dormia até meio-dia e depois ia inventar moda (risos).

PORTEL@WEB: No dia oito de dezembro de 2005 faz 30 anos de fundação da Quilombo. Teve continuidade? Houve algum período em que a escola parou e, posteriormente, recomeçou?

JB: Houve períodos em que houve um esmorecimento. A sede saiu da Rua Curipé, em Coelho Neto. Na verdade ela começou, por pouco tempo, lá em Colégio – o dia oito foi em Colégio – na rua, ali na Estrada do Barro Vermelho (João Baptista mostrou incerteza). Dali foi para a Rua Curipé. Depois, o deputado Jorge Leite arranjou um terreno lá em Acari. Mas tá lá, pô! E a gente sabia também que aquele frisson era um frisson inicial. Não existe nenhuma atividade desse tipo que vá manter-se nas páginas dos jornais a vida toda. Mas você acha a comunidade. Tá lá!

PORTEL@WEB: Mas não se criaram lideranças que pudessem...

JB: Rapaz, em 78 eu viajei para a Síria. Passei lá um bom tempo. Até a última festa, na casa do Candeia, foi a minha despedida. Quinze dias depois ele morreu e eu recebi a informação láem Damasco. Algumas pessoas tentaram. Nei Lopes tentou, por ser o líder, membro dos compositores (da ala dos compositores). Mas não tinha a dedicação, como eu disse, né? O Nei, na época, trabalhava numa firma de propaganda. Ele era publicitário e ficava lá de plantão para fazer música para a galinha que ia entrar em promoção num supermercado de Manaus. Era ele e um grupo. Chegava o empresário do mercado com o pedido, ele fazia uma música e uns versos, gravava e a fita ia num primeiro avião para Manaus. Então não dava!

PORTEL@WEB: São pessoas que não tinham tempo para dedicação, né?

JB: O Candeia, não. Ele passou três anos da vida dele só pensando nisso. E enchia o saco da gente (risos). Ligava duas horas da manhã e ele: “Alô! Vem um cara aí que fala árabe. Ele vai lá na Quilombo e você tem que ir lá receber o cara!” Ele até me jogava às vezes numas furadas. Uma vez ele me ligou:

            Candeia: Pô, vai ter um debate lá no Museu de Arte Moderna e eu queria que você          fosse pra dar uma força. Tá cheio de leão lá do outro lado querendo me comer. Vendo você na platéia eu me sinto melhor...
            João Baptista: Poxa, Candeia, eu tenho aula...

Eu tinha vinte e poucos anos. Comecei muito jovem na Faculdade de Letras. Eu tinha 22 anos.

            João Baptista: Eu tenho aula, Candeia, não vai dar não...
            Candeia: Pô, passa lá!

Vinte minutos depois, ele me liga de novo:

            Candeia: Pô, João, vai lá, que eu não estou me sentindo bem. Eu não vou, eu nem          vou. Vai lá e avisa que eu não vou.
            João Baptista: Então tá legal. Eu posso ir lá e aviso que você não vai.

Na hora que o cicerone chamou o Candeia para a mesa, eu levantei o braço para justificar a ausência do Candeia. Aí o apresentador:

            Apresentador: Ah, sim, você é o João Baptista!
            João Baptista: Sou.
            Apresentador: Ele disse que você veio substituí-lo.

(risos) Eu não sabia nem do que se tratava o assunto. Ele me jogava nessas coisas. Isso era meio Candeia, né? Aí quando eu saí de lá – puto, né? - liguei pra ele:

            João Baptista: Pô, como é que você faz isso, seu sacana?
            Candeia: Eu sabia que você ia se sair bem! (risos)

PORTEL@WEB: Lena Frias escreveu no seu livro que o povo ainda deseja o Candeia presente e de volta. De que forma o Candeia ainda vive?

JB: Ele vive pelas músicas dele. Quer dizer, eu acho que... Talvez eu até tenha ajudado a mitificar a figura do Candeia escrevendo o livro. Uma vez eu fui à UERJ participar de um debate sobre o Candeia, e eu até mostrei alguns lados negativos do Candeia. E a platéia foi à procura de outra coisa. Os caras ficaram abismados e aborrecidos, porque são admiradores do Candeia. Mas as pessoas são pessoas. Elas têm os seus lados bom e mau, né? E eu acho que se fala tanto dessa liderança do Candeia... Tanto é que a gente está conversando aqui há quase uma hora e só se falou nisso. E nós não falamos do Candeia compositor. Quer dizer: o Candeia, independente dessa liderança, independente da Quilombo e de outras coisas que ele fez, era um grande compositor. Um dos maiores compositores de samba. Então, enquanto as músicas dele forem tocadas - e vão ser, vão varar décadas – ele está aí, tá conhecido. A Quilombo, um ou outro sabe, um estudioso da cultura brasileira, da cultura das escolas de samba, da cultura do Rio de Janeiro. Mas “o mar serenou quando ela pisou na areia...” (cantou João Baptista) todo mundo sabe. Igual Noel Rosa... as histórias que Noel Rosa gostava de beber, não gostava de futebol. Disso sabe quem lê a biografia dele, né? Mas todo mundo sabe “quem é você que não sabe o que diz...” (cantou João Baptista).

PORTEL@WEB: Pode até não saber que a música é dele.

JB: É! Quer dizer, eu acho que talvez até nesse livro eu pudesse ter enfatizado mais o compositor Candeia. Mas para uma biografia eu tinha que botar as histórias, né? Então, as pessoas quando me perguntam, perguntam mais sobre a vida dele, a ação política dele. Candeia foi um cara que apoiou o Golpe de 64. Isso eu falei lá na UERJ e os caras... Mas ele era um sujeito inteligente. O Candeia é que chamou o Carlinhos Maracanã. Ele, o Mazinho... Agora, ele percebeu depois que não tinha sido uma boa indicação. Isso é normal, né? A gente erra e tem que reconhecer que não era aquilo. Agora eu acho que, antes de tudo, o Candeia tem que ser visto como um grande compositor de samba em termos de letra, de melodia. É um sujeito que tem uma melodia que a gente conhece. A gente reconhece aquela melodia do Candeia, que ninguém faz igual. Umas coisas inesperadas, né? A linha melódica... Eu não sou músico, não entendo de música; então, por isso, provavelmente não use um adjetivo apropriado. Mas o Candeia se caracteriza por um traço melódico inesperado depois do outro. A música vem pra cá? Não, ela desce. Você pensa que ela vai subir, mas ela desce. Isso é Candeia, né? Talvez quem mais se aproxime dele seja o Wilson Moreira. Ele tem também uma linha melódica bastante rica.

Entrevista concedida a Vanderson Lopes e  Rogério Rodrigues na Faculdade de Letras da UFRJ.