terça-feira, 17 de julho de 2012

NÃO ACABOU A PRAÇA ONZE NÃO - Homenagem ao centenário de Herivelto Martins


Mais ou menos em novembro do ano passado em uma roda de samba com os amigos do Brasil 41 (roda que tenho tanto orgulho em tomar parte) ouvi um samba que me chamou muita atenção... Lembro que guardei alguns versos na memória e quando cheguei em casa fui procurar. Descobri que o samba se chamava "Controlando essa mulher" e era de autoria de Herivelto Martins, que até então eu conhecia apenas por seus sambas mais conhecidos, Ave Maria no Morro, Isaura, Cabelos Brancos... Resolvi então entrar de cabeça na obra desse compositor, quase desconhecido pra mim. E qual não foi minha surpresa quando a cada áudio que ouvia meus olhos brilhavam ao perceber que estava diante de um dos mais expressivos compositores que o samba já teve!

Comecei a juntar tudo o que encontrava do compositor, digitava as letras e arquivava tudo, com data da gravação, nome dos intérpretes o que resultou numa coletânea com 105 sambas transcritos (hoje beirando os 200) que preparei pra postar aqui no blog. Novamente por acaso, em meio a pesquisa para o texto que acompanharia a coletânea, descobri que dia 31 de janeiro de 2012 seria a data do centenário do compositor. Como já estava completamente fascinado pela sua obra, quase que imediatamente passei um CD com as canções pro meu amigo Daniel Capu, que comanda com sabedoria a roda do Brasil 41 em BH e disse: "ouve isso e vê se não merece uma homenagem no centenário dele". Pronto! Na hora ele comprou a ideia, incorporou o Laurindo, diretor de harmonia criado pelo Herivelto, pôs a turma em fileira e marcou o ensaio pra quarta feira (literalmente).

Herivelto Martins nunca foi ligado (formalmente) a nenhuma escola de samba e talvez por isso não tenha guardado em si a figura do sambista... Foi artista do rádio, sempre sério e engravatado, um verdadeiro profissional. Mas nunca escondeu seu amor pelas escolas e exaltou muito a Mangueira, em sambas antológicos gravados pelo seu Trio de Ouro acompanhado da Escola de Samba que ele mesmo levou pra dentro do Rádio. Foi parceiro de muita gente bamba e cantava como ninguém o dia a dia das escolas, coisa que só alguém muito próximo poderia fazer. Também nunca morou no morro mas sabia expressar como poucos o cotidiano da favela, as durezas da vida do morador do morro, os preconceitos sofridos por essa gente...

Herivelto frequentou todos os ambientes possíveis no Rio de Janeiro de sua época e levou tudo isso pra dentro de seus sambas. É por isso que hoje o considero um dos maiores sambistas já nascidos... Ouvir suas musicas é passear pelo Rio antigo em companhia dos malandros, sambistas... Herivelto cantou a Escola de Samba, a Mangueira, os morros... Cantou a Lapa, a Praça Onze, cantou a Guerra, a política... E claro, como todos já sabem pois essa é sua cara mais vista, cantou o amor e as desilusões que este o trouxe. E o que vocês vão ouvir abaixo só prova que Herivelto foi um dos grandes. Suas musicas executadas em coro por dezenas de pessoas, sem nenhum microfone ou instrumento amplificado, exatamente como se fazia nos antigos terreiros, justamente como deveriam ser conhecidas por todos.

A RODA

Momentos iniciais da roda no Brasil 41. Explosão!


Alguns meses de preparação, reuniões semanais e muito Herivelto... Herivelto o dia inteiro, em casa, no carro, na roda. Resultado: 55 brasas na ponta da língua. A cada e-mail nosso anunciando que a farra seria boa, uma nova presença confirmada. E a expectativa só crescendo, aquele frio na barriga enquando o grande dia se aproximava. No final das contas, todos aqueles meses de preparação não foram nada perto da eternidade que duraram os dias que antecederam a roda. O nervosismo, a ansiedade, a expectativa da chegada dos amigos que vieram de longe e a vontade de ver o trabalho duro da rapaziada se transformar em brasa pura naquele bar apertado em um canto qualquer de Belo Horizonte...

Eis que chega o "Dia D" ou melhor, o "Dia H". Sábado, 14 de junho de 2012. A roda marcada pras duas da tarde e às nove já pulo da cama com o tradicional "Acorda escola de samba que é dia". E vamos embora pro 41 logo senão eu não aguento...

No caminho já passo na rodoviária e pego os manos Saci e Tiago que mesmo sem nos conhecer vieram de São Paulo prestigiar nossa roda... Os laços de amizade só aumentam... Chegamos no 41 e já encontramos boa parte da malandragem tomando aquela cervejinha: Tuco, Noeli, Beto Amaral e  Lo Ré , que também vieram de Sampa... Mano Paiva, trouxe dois novos amigos: Carica e Fabrício que baixaram lá Uberlândia... O Artur de Bem, um dos mais antigos leitores deste blog e malandro já manjado em todas as boas rodas de samba deste país não podia deixar de comparecer também! Em questão de minutos já se formavam pequenos grupinhos... um mostrando um samba novo que fez, outro cantando uma brasa do Zé da Zilda. O clima era de festa, confraternização. Ainda teve a Carinhosa, nosso combustível, em versão Herivelto Martins (olha alegria do menino aí do lado).

Sem muito atraso a roda foi armada... Mano Daniel deu o recado e a partir daí o que aconteceu dentro daquele bar apertado e quente foi algo indescritível! A Praça Onze voltou, estava alí no número 41 da Avenida Brasil em Belo Horizonte pra quem quisesse sambar... sambar até cansar. Por mais que eu tente, poste áudios e vídeos nunca conseguirei explicar a energia que tinha alí dentro. Só quem tava lá...

Quando soaram os primeiros acordes, o coro masculino entoando os versos: "Fazer Carnaval com quem, olho e não vejo ninguém"... De repente surgem as pastoras. E que coro, uma coisa linda... Mas,meu amigo, quando o samba voltou no começo e entraram o naipe de tamborins e o surdo veio todo mundo com vontade... Aí a praça onze explodiu em Minas Gerais! Foi aí que todo mundo percebeu a real dimensão da coisa. O coro era ensurdecedor e as pastoras sempre graciosas davam seu recado roubando a cena... Sempre afinadíssimas, cantavam os arranjos do trio de ouro. E a batucada... muito tamborim malandro, garrafa, agogô, prato e faca e claro, o apito! E lá se foram mais de 50 sambas, divididos em 5 blocos:

Exaltação à Batucada era o tema do bloco 1. Bloco pesado, pra mostrar logo de início que o Herivelto entendia do assunto. Praça Onze, Bom Dia Avenida, Desperta Dodô. O começo foi uma explosão, dava pra perceber nos olhos de cada um.

O segundo bloco tinha como tema a Tristeza, Sofrimento e Orgia. Engana-se quem pensa que só daria samba canção... É verdade que o bloco foi aberto com o lindo Calado Venci, parceria com Ataulfo Alves, mas Herivelto tem muita brasa, depois desse foi só samba pra frente: Fala Claudionor, Até a Volta, Não me Conheço Mais...E tome batucada!

  


O terceiro Bloco entrou fervendo! "Se estou com ela sinto falta do meu lar / Se vou pra casa sinto muita falta dela / Ela, ela, ela / Quem me dera esquecê-la, quem me dera". E tome brasa: Odete, Quando Amanhece, Acorda Estela, A Maria me Controla... O tema da vez é a Súplica e Exaltação à Mulher. No quarto bloco, um passeio pelo Rio de Janeiro dos anos 30 e 40. Com o tema Crítica, Favela e Esperança a roda chegava à reta final... um pouco de cansaço,, mas a mesma energia e vontade de cantar os sambas do Herivelto. Cantamos o Morro de Santo Antônio, A Lapa... E pra fechar o bloco um belo samba em homenagem a minha querida Ouro Preto!




Pra quebrar tudo de vez veio o quinto e último bloco. O tema não poderia ser outro: Exaltação à Mangueira. Escola que Herivelto tanto exaltou, mas que nunca mostrou gratidão ao compositor... Não deu outra, a casa veio abaixo ao som do coro, ainda ensurdecedor depois de quase 50 sambas, cantando clássicos como Saudade da Mangueira, Lá em Mangueira e a sensacional Adeus Mangueira que fechou a roda com chave de ouro!

Ficou o sentimento de missão cumprida... Depois foi só tomar aquela cervejinha e claro, continuar o samba até as 4 da manha, pois quem vai dormir depois de uma farra dessas, não é mesmo?

E devo registrar, tudo isso foi fruto de um trabalho duro da rapaziada do Brasil 41, mas acima de tudo é resultado do poder que o samba tem de reunir pessoas, trazer novos amigos...


É por isso que hoje, quando completo exatamente um ano da minha primeira roda no Brasil 41, quero expressar minha profunda amizade e respeito por essa moçada:

Daniel Capu, Ciro, Mateusão, Arturzinho, Bernard, Daniel, Madruga, Jaime, Sorriso, Irving, João, Euler, Mário Moura, E as pastoras Flávia, Luiza, Isadora, Lu, Paty, Marina, Simone, Ana e a mãe do Ciro, que vergonhosamente não me lembro do nome!

Meus agradecimentos aos grandes amigos pela confiança e disposição em vir de tão longe pra prestigiar nossa homenagem: Tuco, Noeli, Beto, Lo Ré, Fernando Paiva, Carica, Fabrício, Saci, Tiago Trombini, Pablo Carrilho e Artur de Bem!

Que venha dia 5 de agosto em Ouro Preto!



Fotos: Daniel de Cerqueira e Euler Ribeiro
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8 comentários:

Anônimo disse...

Grande Terror! Li, reli e li novamente. Os olhos encheram-se de lagrimas! Grande abraço do amigo Sorriso.

Vinicius Leandro Terror disse...

Fala Sorriso, não me canso de lembrar!

negamila disse...

o que eu posso lhe dizer meu caro amigo... muito obrigada por ter nos apresentado essa maravilha de samba... foi de arrepiar... e espero que venhas outras homenagens e que eu possa fazer parte de alguma... pq ser pastora e ficar de fora é difícil... pq elas estavam perfeitas... tudo estava perfeito... valeu mesmo... a primeira entrada do surdo foi a coisa mais linda de se ouvir... eita já to doida para vê as próximas homenagens...

Unknown disse...

Porra Terror!
Foi lindo de ver!
Belo texto pra eternizar em nossas mentes esse dia histórico.
Salve Herivelto e avante toda rapaziada do Brasil 41

Unknown disse...

Porra Terror!
Foi lindo de ver!
Belo texto pra eternizar em nossas mentes, esse dia histórico.
Salve Herivelto e avante toda rapaziada do Brasil 41.

Unknown disse...

Emocionante ver os vídeos e relembrar este dia memorável. Obrigado, Terror. Obrigado, pessoal de BH. Estou esperando a próxima roda!

Mateus disse...

Tá chegando a roda de Ouro Preto, hein?

Vinicius Leandro Terror disse...

É nóis Mateusão!