sexta-feira, 27 de julho de 2012

Bambas do Estácio: Bide (Alcebíades Barcelos)

Lá pelos idos de 1928 o que se chamava de "Samba" era simplesmente um maxixe com letra, muitas vezes também chamado de "Tango Brasileiro". A batucada era modesta, muitas vezes só um pandeiro... Foi do Bide a idéia de encourar uma lata de manteiga e usar pra fazer a marcação pois durante o desfile (da escola de samba que ele ajudou a criar, a primeira de todas), sem o auxílio de microfones e amplificadores, era difícil manter o ritmo. Nascia o Surdo e com ele o samba nunca mais foi o mesmo. Entre 1928 e 1931 a turma do Estácio causou uma revolução sem precedentes na musica brasileira sendo tal período considerado por pesquisadores com um dos mais ricos e mais importantes da história da musica popular brasileira.

Há algum tempo criei a seção "Bambas do Estácio" pra contar um pouco dessa história. E já estava demorando a falar um pouco do Bide. Alcebíades Maia Barcelos, nasceu em Niterói no dia 25/07/1902. Portanto, comemoramos essa semana os 110 anos de seu nascimento. Sem Bide o samba não seria o mesmo, ou talvez demorasse algum tempo para que se desenvolvesse e chegasse ao que conhecemos hoje como Samba.

Embora nascido em Niterói, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro ainda novo, aos seis anos de idade. Foi morar no Estácio de Sá, bairro que ficava em um ponto estratégico, próximo à Cidade Nova, à Praça Onze e ao Mangue, que era na época o baixo meretrício do rio de Janeiro. Alí aprendeu o ofício de sapateiro, que pagava suas contas, mas também aprendeu a fazer samba. Esse sim foi seu grande dom.

Bide e Armando Marçal
Foi no Estácio, por volta de 1926, que Bide e seu irmão Rubem Barcelos (o Mano Rubem) conheceram alguns malandros da melhor estirpe. Ismael Silva, Brancura, Nilton Bastos, Mano Edgar... Bancados pelas "Damas" do Mangue, faturavam um extra no jogo de chapinha, no bicho... E gostavam mesmo era de fazer samba, com tamanha criatividade que revolucionaram o próprio modo de se fazer samba.

Certo dia o cantor Francisco Alves ouviu um samba seu, gostou e quis gravar. Em 1927 foi lançado em disco Odeon o samba "A Malandragem" samba de Bide gravado por Francisco Alves e que se tornou um marco. O primeiro samba do Estácio gravado. É bom lembrar que Bide não foi o primeiro a fazer samba nesses moldes, mas deu a sorte de ser o primeiro a gravar.

Logo largou o emprego de sapateiro e passou a viver de música. Era ritmista dos bons e presença constante nos estúdios de gravação e teatros. No vídeo abaixo Bide aparece como integrante do Regional de Benedito Lacerda, tocando cuíca enquanto Aurora Miranda canta o samba "Molha o Pano" (Getúlio Marinho e Cândido Vasconcelos) numa cena do filme "Alô, alô carnaval" de 1936.



Bide foi parceiro de uma infinidade de sambistas da época: Noel Rosa, Alberto Ribeiro, Roberto Martins, Benedito Lacerda, João da Baiana, Haroldo Lobo, Ataulfo Alves, Herivelto Martins, Getúlio Marinho, e por aí segue a lista. Mas seu maior parceiro foi mesmo Armando Marçal, com quem formou uma das duplas mais bem sucedidas da musica brasileira.  Bide e Marçal... às vezes soa até estranho quando se ouve o nome de um sem o do outro em seguida.


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quinta-feira, 26 de julho de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

Receita de Samba no Prêmio Top Blog 2012

Muito obrigado a todos que votaram no Receita. Estamos entre os Top 100. Conto com vocês nessa nova fase de votação pra ficarmos entre os Top 3! A votação termina em 10/11.

Nessa etapa os votos são zerados e a contagem recomeça, portanto peço pra quem já votou entrar lá e votar de novo!

Pra votar basta clicar na imagem acima. Você pode votar uma vez com seu e-mail, outra com sua conta do facebook e outra pelo twitter. Lembrando que se você tiver mais de uma conta de e-mail pode usá-las para votar novamente!

E não se esqueça de confirmar seu voto no e-mail!


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terça-feira, 17 de julho de 2012

NÃO ACABOU A PRAÇA ONZE NÃO - Homenagem ao centenário de Herivelto Martins


Mais ou menos em novembro do ano passado em uma roda de samba com os amigos do Brasil 41 (roda que tenho tanto orgulho em tomar parte) ouvi um samba que me chamou muita atenção... Lembro que guardei alguns versos na memória e quando cheguei em casa fui procurar. Descobri que o samba se chamava "Controlando essa mulher" e era de autoria de Herivelto Martins, que até então eu conhecia apenas por seus sambas mais conhecidos, Ave Maria no Morro, Isaura, Cabelos Brancos... Resolvi então entrar de cabeça na obra desse compositor, quase desconhecido pra mim. E qual não foi minha surpresa quando a cada áudio que ouvia meus olhos brilhavam ao perceber que estava diante de um dos mais expressivos compositores que o samba já teve!

Comecei a juntar tudo o que encontrava do compositor, digitava as letras e arquivava tudo, com data da gravação, nome dos intérpretes o que resultou numa coletânea com 105 sambas transcritos (hoje beirando os 200) que preparei pra postar aqui no blog. Novamente por acaso, em meio a pesquisa para o texto que acompanharia a coletânea, descobri que dia 31 de janeiro de 2012 seria a data do centenário do compositor. Como já estava completamente fascinado pela sua obra, quase que imediatamente passei um CD com as canções pro meu amigo Daniel Capu, que comanda com sabedoria a roda do Brasil 41 em BH e disse: "ouve isso e vê se não merece uma homenagem no centenário dele". Pronto! Na hora ele comprou a ideia, incorporou o Laurindo, diretor de harmonia criado pelo Herivelto, pôs a turma em fileira e marcou o ensaio pra quarta feira (literalmente).

Herivelto Martins nunca foi ligado (formalmente) a nenhuma escola de samba e talvez por isso não tenha guardado em si a figura do sambista... Foi artista do rádio, sempre sério e engravatado, um verdadeiro profissional. Mas nunca escondeu seu amor pelas escolas e exaltou muito a Mangueira, em sambas antológicos gravados pelo seu Trio de Ouro acompanhado da Escola de Samba que ele mesmo levou pra dentro do Rádio. Foi parceiro de muita gente bamba e cantava como ninguém o dia a dia das escolas, coisa que só alguém muito próximo poderia fazer. Também nunca morou no morro mas sabia expressar como poucos o cotidiano da favela, as durezas da vida do morador do morro, os preconceitos sofridos por essa gente...

Herivelto frequentou todos os ambientes possíveis no Rio de Janeiro de sua época e levou tudo isso pra dentro de seus sambas. É por isso que hoje o considero um dos maiores sambistas já nascidos... Ouvir suas musicas é passear pelo Rio antigo em companhia dos malandros, sambistas... Herivelto cantou a Escola de Samba, a Mangueira, os morros... Cantou a Lapa, a Praça Onze, cantou a Guerra, a política... E claro, como todos já sabem pois essa é sua cara mais vista, cantou o amor e as desilusões que este o trouxe. E o que vocês vão ouvir abaixo só prova que Herivelto foi um dos grandes. Suas musicas executadas em coro por dezenas de pessoas, sem nenhum microfone ou instrumento amplificado, exatamente como se fazia nos antigos terreiros, justamente como deveriam ser conhecidas por todos.

A RODA

Momentos iniciais da roda no Brasil 41. Explosão!


Alguns meses de preparação, reuniões semanais e muito Herivelto... Herivelto o dia inteiro, em casa, no carro, na roda. Resultado: 55 brasas na ponta da língua. A cada e-mail nosso anunciando que a farra seria boa, uma nova presença confirmada. E a expectativa só crescendo, aquele frio na barriga enquando o grande dia se aproximava. No final das contas, todos aqueles meses de preparação não foram nada perto da eternidade que duraram os dias que antecederam a roda. O nervosismo, a ansiedade, a expectativa da chegada dos amigos que vieram de longe e a vontade de ver o trabalho duro da rapaziada se transformar em brasa pura naquele bar apertado em um canto qualquer de Belo Horizonte...

Eis que chega o "Dia D" ou melhor, o "Dia H". Sábado, 14 de junho de 2012. A roda marcada pras duas da tarde e às nove já pulo da cama com o tradicional "Acorda escola de samba que é dia". E vamos embora pro 41 logo senão eu não aguento...

No caminho já passo na rodoviária e pego os manos Saci e Tiago que mesmo sem nos conhecer vieram de São Paulo prestigiar nossa roda... Os laços de amizade só aumentam... Chegamos no 41 e já encontramos boa parte da malandragem tomando aquela cervejinha: Tuco, Noeli, Beto Amaral e  Lo Ré , que também vieram de Sampa... Mano Paiva, trouxe dois novos amigos: Carica e Fabrício que baixaram lá Uberlândia... O Artur de Bem, um dos mais antigos leitores deste blog e malandro já manjado em todas as boas rodas de samba deste país não podia deixar de comparecer também! Em questão de minutos já se formavam pequenos grupinhos... um mostrando um samba novo que fez, outro cantando uma brasa do Zé da Zilda. O clima era de festa, confraternização. Ainda teve a Carinhosa, nosso combustível, em versão Herivelto Martins (olha alegria do menino aí do lado).

Sem muito atraso a roda foi armada... Mano Daniel deu o recado e a partir daí o que aconteceu dentro daquele bar apertado e quente foi algo indescritível! A Praça Onze voltou, estava alí no número 41 da Avenida Brasil em Belo Horizonte pra quem quisesse sambar... sambar até cansar. Por mais que eu tente, poste áudios e vídeos nunca conseguirei explicar a energia que tinha alí dentro. Só quem tava lá...

Quando soaram os primeiros acordes, o coro masculino entoando os versos: "Fazer Carnaval com quem, olho e não vejo ninguém"... De repente surgem as pastoras. E que coro, uma coisa linda... Mas,meu amigo, quando o samba voltou no começo e entraram o naipe de tamborins e o surdo veio todo mundo com vontade... Aí a praça onze explodiu em Minas Gerais! Foi aí que todo mundo percebeu a real dimensão da coisa. O coro era ensurdecedor e as pastoras sempre graciosas davam seu recado roubando a cena... Sempre afinadíssimas, cantavam os arranjos do trio de ouro. E a batucada... muito tamborim malandro, garrafa, agogô, prato e faca e claro, o apito! E lá se foram mais de 50 sambas, divididos em 5 blocos:

Exaltação à Batucada era o tema do bloco 1. Bloco pesado, pra mostrar logo de início que o Herivelto entendia do assunto. Praça Onze, Bom Dia Avenida, Desperta Dodô. O começo foi uma explosão, dava pra perceber nos olhos de cada um.

O segundo bloco tinha como tema a Tristeza, Sofrimento e Orgia. Engana-se quem pensa que só daria samba canção... É verdade que o bloco foi aberto com o lindo Calado Venci, parceria com Ataulfo Alves, mas Herivelto tem muita brasa, depois desse foi só samba pra frente: Fala Claudionor, Até a Volta, Não me Conheço Mais...E tome batucada!

  


O terceiro Bloco entrou fervendo! "Se estou com ela sinto falta do meu lar / Se vou pra casa sinto muita falta dela / Ela, ela, ela / Quem me dera esquecê-la, quem me dera". E tome brasa: Odete, Quando Amanhece, Acorda Estela, A Maria me Controla... O tema da vez é a Súplica e Exaltação à Mulher. No quarto bloco, um passeio pelo Rio de Janeiro dos anos 30 e 40. Com o tema Crítica, Favela e Esperança a roda chegava à reta final... um pouco de cansaço,, mas a mesma energia e vontade de cantar os sambas do Herivelto. Cantamos o Morro de Santo Antônio, A Lapa... E pra fechar o bloco um belo samba em homenagem a minha querida Ouro Preto!




Pra quebrar tudo de vez veio o quinto e último bloco. O tema não poderia ser outro: Exaltação à Mangueira. Escola que Herivelto tanto exaltou, mas que nunca mostrou gratidão ao compositor... Não deu outra, a casa veio abaixo ao som do coro, ainda ensurdecedor depois de quase 50 sambas, cantando clássicos como Saudade da Mangueira, Lá em Mangueira e a sensacional Adeus Mangueira que fechou a roda com chave de ouro!

Ficou o sentimento de missão cumprida... Depois foi só tomar aquela cervejinha e claro, continuar o samba até as 4 da manha, pois quem vai dormir depois de uma farra dessas, não é mesmo?

E devo registrar, tudo isso foi fruto de um trabalho duro da rapaziada do Brasil 41, mas acima de tudo é resultado do poder que o samba tem de reunir pessoas, trazer novos amigos...


É por isso que hoje, quando completo exatamente um ano da minha primeira roda no Brasil 41, quero expressar minha profunda amizade e respeito por essa moçada:

Daniel Capu, Ciro, Mateusão, Arturzinho, Bernard, Daniel, Madruga, Jaime, Sorriso, Irving, João, Euler, Mário Moura, E as pastoras Flávia, Luiza, Isadora, Lu, Paty, Marina, Simone, Ana e a mãe do Ciro, que vergonhosamente não me lembro do nome!

Meus agradecimentos aos grandes amigos pela confiança e disposição em vir de tão longe pra prestigiar nossa homenagem: Tuco, Noeli, Beto, Lo Ré, Fernando Paiva, Carica, Fabrício, Saci, Tiago Trombini, Pablo Carrilho e Artur de Bem!

Que venha dia 5 de agosto em Ouro Preto!



Fotos: Daniel de Cerqueira e Euler Ribeiro
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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Duduca do Salgueiro e o Assassinato de Matinadas



Entrevista concedida a Sérgio Cabral na década de 1970. 

Eduardo de Oliveira, o Duduca, nasceu em 1926 no interior de Minas Gerais, mas foi registrado no Rio de Janeiro como carioca. Mora no Morro do Salgueiro desde os sete anos de idade. Antes sua família vivia na Chácara do Vintém e foi despejada de lá juntamente com todos os outros moradores, graças à ação do célebre Emílio Turano que provou na Justiça ser o dono do morro. A mesma ação ele tentou pouco depois em relação ao Morro do Salgueiro, mas foi derrotado na Justiça.

Duduca é o atual presidente da ala dos compositores da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro (1974) e autor de vários sambas-enredo que a sua escola cantou no carnaval. Gráfico de profissão, ele nunca teve tempo para tentar na área do consumo uma projeção proporcional à quantidade e qualidade dos seus sambas, que começaram a nascer há cerca de 35 anos. Seu pai, Paulino de Oliveira, foi presidente da Escola de Samba Depois eu Digo e da Acadêmicos do Salgueiro.

A importância dessa entrevista não se limita apenas à bibliografia de Duduca: ele foi testemunha do famoso conflito entre componentes de escolas de samba em 1945, no campo do Vasco, quando morreu o seu amigo e parceiro José Matinadas.

Você conheceu o Turano?
Duduca — Me lembro bem. Ele mancava de uma perna. Na antiga Chácara do Vintém, lá em cima, ele tinha um palacete num terreno muito grande. Era uma espécie de sitio. Era naquele local que hoje é conhecido com o nome de Morro da Liberdade. Aquilo tudo era dele. Pelo menos era o que ele dizia.

Sua escola no Salgueiro era a Depois Eu Digo. Com que idade você começou a fazer sambas pra ela?
Duduca — Eu devia ter meus 17 anos. Naquela época eu jogava muita bola e tinha uma namoradinha chamada Elza. Uma vez eu briguei com ela e fiz um samba. Quando a gente voltava de um jogo de futebol, eu cantei o samba pro Matinadas e pro Didinho. Os dois já morreram. Quem mandava no samba da Depois Eu Digo naquela época, era a dupla Anibal Silva e Éden Silva, o Caxiné. Eu nem me atrevia a apresentar um samba na escola. Eu, com 17 anos, não dava. À noite o Matinadas e o Didinho cantaram o samba e todo mundo acompanhou. Fui chegando devagarzinho e eles me chamaram: "Vem cá, vem cá, esse é que é o dono do samba".

Como era o samba?
Duduca — Vou dar uma palhinha:

"O meu coração quase parou / Depois que perdi meu grande amor / Mas a sorte me protegeu / Um novo amor me apareceu / E hoje vivo a cantar / Para esquecer quem não me soube amar".

E vai por ai. Era ainda meio rústico, mas depois eu fui me aprimorando. Mas o samba foi muito cantado na escola. Fez muito sucesso. Não foi gravado mas agradou muito na escola.

O Didinho era compositor?
Duduca—Não. Ele era diretor de bateria da Azul e Branco, mas vivia sempre conosco porque nosso time de futebol era quase todo mundo da Depois Eu Digo. Não era compositor, mas gostava de cantar. Era um grande improvisador. Na hora do partido alto ele brilhava improvisando. Era perfeito quando versava um samba de improviso.

O Matinadas era compositor também? 
Duduca — Era. Ele sala na bateria, mas era compositor. Ele era mais ou menos da minha idade.

Como é que foi a briga no campo do Vasco no carnaval de 1945?
Duduca — Naquele ano o samba-enredo da Depois Eu Digo era meu e do Matinadas. Nós tiramos um samba falando da guerra. Disseram, aliás, que ficou um pouco em cima de outra música, mas não tivemos essa intenção. A gente era muito inexperiente. O samba foi tirado em cima do carnaval e minha irmã copiou a letra na mão para distribuir entre os componentes. Ela fez umas trezentas cópias. Antes do desfile cantamos, treinamos e demos um descanso no pessoal pouco antes do momento de nós desfilarmos.

E a briga?
Duduca — Foi na hora que a gente estava parado. O Matinadas chegou pra mim e falou: "Vamos dar uma voltinha até ali atrás." Eu disse que não, que estava cansado e fiquei de cócoras descansando. Passaram poucos minutos e vieram me dizer que deram uma ferrada no Matinadas. Eu corri lá pra trás e ele estava deitado no chão. Falei com ele, ele tentou falar comigo, mas botou uma golfada de sangue pela boca. Quando levantei a roupa dele vi um furinho no peito que quase não sala sangue. Vi logo que ele ia morrer, pois parecia que estava com uma hemorragia interna. Passaram poucos minutos e ele morreu.

Você deve ter ficado chocadíssimo?
Duduca — Muito. Eu tinha combinado que iria batizar a filha dele que tinha nascido há quatro dias e batizei mesmo. Confirmei a minha palavra que seríamos compadres.

Ela desfila no Salgueiro? 
Duduca — Não, ela não deu pra negócio de samba, não. Ela casou com um rapaz que trabalha nos Correios, muito nova, ele também, mas os dois têm muito juizo, compraram uma casinha em Deodoro e estão lá com quatro filhos.

Agora, depois que ferraram o Matinadas, o pau comeu, não foi?
Duduca — Se comeu! Quem ferrou ele foi o pessoal do Cada Ano Sai Melhor, mas ninguém soube exatamente quem foi. Até eu fui chamado na policia como suspeito. Imagina a minha situação: melhor amigo dele, suspeito! Na policia comecei a chorar. Ameaçaram me bater, foi uma coisa horrível. Não entendia nada.

Durante a briga muita gente saiu ferida?
Duduca — Saiu. Tinha um rapaz que era meio marginalzinho, o Mário Upa, que gostava muito do Matinadas. O Matinadas era muito querido no morro. O Mário Upa quando soube que ferraram ele, ficou feito louco. Disseram na hora que o pessoal do Cada Ano Sai Melhor não estava com a roupa da escola, mas com uma roupa preta e branca. Nem levaram pastoras. Foram lá pra brigar mesmo. Quando houve o negócio, o Cada Ano saiu fora. Se pegaram, pegaram poucos. Mas havia um pessoal, acho que do Catete, que também estava de camisa preta e branca e foram eles que sofreram mais. Parece que foram trinta e tantos ou quarenta e tantos que foram para o hospital. O Mário Upa se plantou perto de uma porta e todo o mundo que aparecia com roupa preta e branca entrava na navalha. Foi uma loucura!

E o culpado apareceu?
Duduca  — O falecido Manoel Macaco acusou o Bicho Novo, do Morro de São Carlos. Bicho Novo esteve preso uma porção de tempo, até que surgiu um rapaz como o verdadeiro matador. Não me lembro do nome dele, mas acabou ficando preso.

Duduca
Me disseram que a culpa foi de um cara que passou a mão na porta-bandeira da Cada Ano Sai Melhor.
Duduca — Houve uma festa num colégio que havia no Salgueiro e várias escolas de samba apareceram. Me lembro muito bem desse dia: estava chuviscando e encontrei o Matinadas com o guarda-chuva na mão. Perguntei se ia à festa e ele disse que não, não me lembro se havia nascido a filha dele naquele dia ou se estava pra nascer. Batemos um papo de uns cinco minutos e ele foi pra casa. Eu fui pra festa. Lá um rapaz muito brincalhão, muito abusado, que vivia só de galhofada. Era o Levi, que dançava de mestre-sala, um mulatinho alto, magrinho. Eu sei que ele gostou da porta bandeira da Cada Ano e ficou perturbando e ela refogou. Ele ali passou a mão nela e gritou: "Eu sou o Matinadas! Eu sou o Matinadas!

E o Matinadas não tinha nada com isso?
Duduca — Nada. Lá no campo do Vasco, o pessoal da Cada Ano Sai Melhor ficou procurando o Matinadas. Ali um garoto do Salgueiro apontou: "É aquele ali". O cara chegou e não conversou: enfiou o ferro. O cara morreu sem saber a razão.

O que o Matinadas era na vida?
Duduca — Quando nós éramos garotos, eu e ele éramos jornaleiros ali no Largo do Carioca. Depois ele começou a trabalhar numa fábrica de cadeiras Eram umas cadeiras de lona que eram uma espécie de espreguiçadeiras.




Você se lembra do samba que vocês fizeram naquele ano?
Duduca — Era meio esquisito, era um samba pra época da guerra:

"Brasil, terra da liberdade / Berço da felicidade / Onde existe a tranqüilidade / Meu Brasil /Jamais houve em outro tempo / Tão enorme sentimento / Como há neste momento / E saber que seus filhos morrem / Pra Ihe defender / Oh meu Brasil / Não importamos de morrer / A vitória é certa / Mas se continuarmos alerta / Oh meu Brasil / Para vencer preciso ter prazer / De matar ou morrer".

As escolas de samba do Morro do Salgueiro tinham uma rivalidade muito grande entre elas?
Duduca — Muito grande. No lugar delas se unirem, disputavam umas com as outras. O que levou as escolas a se juntarem foi a colocação do desfile de 1953. A Unidos do Salgueiro, azul e rosa, teve uma boa colocação. A Depois eu Digo ficou mais atrás e a Azul e Branco tirou nos últimos lugares. Naquele ano já havia aquele negócio das últimas colocadas serem rebaixadas para o outro desfile. A gente dizia até que iam pra poeira. A Azul e Branco, portanto, ia pra poeira. Foi isso que fez o pessoal pensar em se unir.

Quem teve a idéia?
Duduca — Não foi dos mais velhos, não. Foi dos mais jovens. Me lembro até de um samba do Geraldo Babão:

"Devíamos balançar a roseira / Dar um susto na Portela / No Império e na Mangueira / Se houvesse opinião / O Salgueiro apresentava / Uma só união / No meio de gente bamba / Freqüentadores do samba / Iam conhecer o Salgueiro / Como primeiro em melodia / Acontece que chegou a Academia".

Ai, em março de 1953 houve a união entre as escolas de samba Depois eu Digo e Azul e Branco e nasceu a Acadêmicos do Salgueiro. Na primeira reunião, o Casemiro Calça Larga, que representava a Unidos do Salgueiro, não quis participar da fusão, por discordar dos demais. Depois os integrantes da escola dele acabaram aderindo e ele também.


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terça-feira, 10 de julho de 2012

Não Persista (Rodrigues Jotta) com Roberto Silva


Não force sua mente
Deixe de ser insistente
Com essa mania de compositor
Estude engenharia ou então filosofia
É o conselho que lhe dou

Você faz a primeira do samba
A segunda não vem
Eu desconfio que este samba é de alguém
Para compor melodia tem que estar bem inspirado
Você não tem queda pra isso
Deixe essa arte de lado, isso inspira cuidado


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Cartola nos tempos idos...



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domingo, 8 de julho de 2012

Especial Paulo da Portela: Parte 2


Paulo da Portela
Paulo da Portela: Construindo o Sonho

Numa época em que o carnaval das classes populares era sinônimo de arruaça e baderna, influência dos antigos entrudos, a liderança de Paulo surge para organizar e valorizar a atividade cultural que essa parcela da população estava produzindo. Os antigos blocos despertavam medo. Muitos saíam às ruas com o único intuito de promover brigas. Mas Paulo percebia que poderia ser diferente. Percebia a riqueza daquela manifestação, e sabia que era preciso mudar a imagem negativa que aquelas manifestações carnavalescas despertavam na sociedade. Difícil? Talvez. Mas não impossível para Paulo Benjamim de Oliveira e sua incrível liderança, que cedia a essas temidas instituições a credibilidade que sua própria imagem transmitia.

A primeira atividade carnavalesca de que Paulo participou foi o bloco "Moreninhas de Bangu", que tinha organização semelhante aos ranchos, principal manifestação carnavalesca daquele período. O samba ainda não havia se difundido, e a estrutura dos famosos ranchos inspirava tudo que surgia nas classes populares . Mesmo o primeiro bloco surgido em Oswaldo Cruz, o "Ouro sobre Azul",  também fundado por Paulo, cantava marcha-rancho. Só mais tarde o samba passaria a fazer parte do dia-a-dia daquela população.

No bloco "Baianinhas de Oswaldo Cruz", liderado por Galdino, Paulo exercia a função de 2º diretor de harmonia. Naquele bloco, Paulo conhece Rufino e Caetano, unindo pela primeira vez o trio que seria responsável pelo sucesso da Portela em seus primeiros anos.

A Portela, então um bloco chamado "Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz", é fundada após um desentendimento dos três com Galdino, líder e idealizador do "Baianinhas". No "Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz", Paulo se torna o primeiro presidente, conduzindo os destinos de nossa escola em seus difíceis primeiros anos de existência.     

Sua casa, na "Barra Preta", em Oswaldo Cruz, se torna a primeira sede da Portela. Paulo concedeu a Dona Martinha, antiga escrava africana, a tarefa de batizar nossa escola, consagrando os santos de devoção que até hoje regem os destinos de nossa agremiação.

Paulo foi o pilar que sustentou a Portela em seus primeiros anos. No trem que saía todos os dias pontualmente às 18:04h da Central do Brasil com destino a Deodoro, Paulo organizava as reuniões do grupo, uma vez que, diferente de outros blocos do período, quase todos da Portela trabalhavam no Centro da cidade, tornando o trem da volta o único ponto de encontro diário possível. Durante a viagem até Oswaldo Cruz, o grupo discutia os assuntos referentes à Portela e repassava os sambas que seriam apresentados. Surgia, assim, a inspiração para o atual "Pagode do trem", tradicional festividade realizada todo dia 02 de dezembro, o Dia do Samba.

Com Paulo, a Portela começou a trilhar seu vitorioso caminho. Por intermédio seu, Heitor dos Prazeres, figura já conhecida nos tradicionais redutos de samba, passou a fazer parte de nossa escola, compondo o samba vencedor do primeiro concurso de samba da História, realizado no terreiro de Zé Espinguela, no Engenho de Dentro, em 1929.

Não é exagero afirmarmos que a Portela foi inicialmente apenas um sonho de Paulo. Sonho que Paulo sonhou e concretizou. Nos primórdios das escolas, era difícil conseguir pastoras para desfilar. Paulo, com o respeito que despertava, passava de casa em casa e se responsabilizava junto aos pais das moças de Oswaldo Cruz pela segurança de suas filhas, construindo, assim, seu sonho.

Foi difícil? Claro. Mas não impossível para quem luta por um objetivo. A Portela era uma escola diferente das demais. A Portela tinha Paulo. Era o sonho de Paulo. Paulo da Portela.

Fonte: Portela Web


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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Herivelto Martins no programa Ensaio

Esse ano o compositor Herivelto Martins completaria 100 anos se estivesse vivo. Aqui no Receita venho lembrando esse gênio da nossa musica desde janeiro... Hoje deixo mais um presente pra vocês: o programa ensaio com Herivelto Martins na íntegra. Muita história e musica boa pra ouvir no fim de semana!



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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Escola de Samba: Árvore que esqueceu a raiz

Segue para download em PDF o livro "Escola de Samba: Árvore que esqueceu a raiz". Livro raro e bastante esclarecedor escrito pelo Mestre Candeia e seu companheiro Isnard. (para baixar é só clicar na imagem abaixo).

Para baixar clique na imagem acima e em seguida no link verde no canto superior direito.


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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Calado Venci (Herivelto Martins e Ataulfo Alves)

Samba de Herivelto Martins e Ataulfo Alves... Gravação do Trio de Ouro em 1946. Reparem na melodia do início da musica, parece muito com esse outro samba.



Calado, sofrimento eu passei 
Calado, a ninguém reclamei 
Silencio foi a arma que usei prá vencer 
Vencendo, consegui te esquecer

Em silencio eu chorei noite e dia 
Minhas lágrimas ninguém via 
Rolarem incessantes no meu rosto 
Porque foi no coração que eu chorei 
Só Deus sabe o sofrimento que passei.


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Heitor dos Prazeres...

Heitor dos Prazeres, o Lino do Estácio... Vestido de baiana durante desfile na Praça Onze.



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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Os quatro grandes do samba...

Candeia, Élton Medeiros, Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito

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domingo, 1 de julho de 2012

Foto do mestre Paulo da Portela...


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Inimigo do Samba (Ataulfo Alves e Jorge de Castro)



Pra você que é inimigo 
Numero um do samba brasileiro 
Pra você matar o samba 
Tem que me matar primeiro 
Mesmo assim depois de morto
Ainda lhe darei trabalho
Morre o homem fica a fama 
E com a fama lhe atrapalho

Destruir não é grandeza 
Me desculpa meu senhor 
Construir é que é nobreza 
É ter arte e ter valor 
Você fala o ano inteiro 
Mal do samba sem cessar
Mas no mês de fevereiro
Você samba até cansar

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