sábado, 30 de junho de 2012

Especial Paulo da Portela: Parte 1

No ano de 2001 em comemoração ao centenário de Paulo da Portela o site PortelaWeb publicou uma série de textos sobre o nosso professor. Um texto que ao tentar traçar uma biografia deste grande sambista se mistura com a própria história do samba, tamanha a importância de Paulo, são só para o samba, mas para a Portela e Oswaldo Cruz, ou porque não dizer, para a cultura brasileira. O texto é dividido em várias partes e aos poucos vou postando por aqui!

PARTE 1: INSPIRAÇÃO ETERNA

Paulo da Portela
O ano é 1901, início do século XX. Recém-libertada das correntes da escravidão, a população negra, excluída da nova ordem econômica que então se iniciou, definhava pelos guetos e vielas esquecida pelas autoridades competentes do antigo distrito federal. Legados à própria sorte, suas vidas padeciam diante da falta de higiene à qual eram submetidos. Suas crianças eram dizimadas pela alta taxa de mortalidade infantil, tornando o crescimento dessa parcela esquecida da população praticamente nulo para a explícita alegria da elite dominante.

Em meio às transformações que o novo século estava trazendo em seu início, parte do Rio de Janeiro curtia as novidades que chegavam da Europa. A outra parte da população, entretanto, estava muito distante das maravilhas que o novo século anunciava. Viviam ainda presos. Não mais nas senzalas, é verdade, mas nos barracos em que conseguiam sobreviver. Se não usavam mordaças, seus gritos eram calados pela indiferença. Se não mais sentiam a dor do chibata, apanhavam do preconceito que os desacreditavam.

A população negra sabia que ainda estava muito distante do século XX, mas não podia imaginar que paradoxalmente também estava tão próxima. Vivia ainda presa ao passado, sofrendo como nos tumbeiros que cruzavam os mares, mas por outro lado preconizava o que seria uma das marcas de todo o século recém-iniciado: as desigualdades sociais.

Na região da Saúde, próxima ao centro do Rio, os negros formavam a chamada "pequena África do Rio de Janeiro". Se sobreviver era um desafio, preservar as tradições herdadas era questão de honra. E os negros venceram o desafio pela vida. A religiosidade e a cultura africana, apesar da perseguição, mantiveram-se como símbolos da resistência e da vitória.

Iluminado foi o dia 18 de junho, dia em que um menino negro vingou. O menino chamava-se Paulo, e apenas isso era suficiente para comemorar. Com certeza ninguém imaginou que o pequeno Paulo, chegado na virada do século, pudesse ir muito além do que simplesmente vencer a difícil batalha pela vida.

Filho de Joana Baptista da Conceição e Mário Benjamim de Oliveira, Paulo Benjamim de Oliveira foi uma daquelas pessoas que já nascem predestinadas. O menino Paulo cresceu e brilhou intensamente. Como se estivesse cumprindo uma missão, difundiu a cultura negra, propagou o samba por onde passou, lutou pela dignidade de seu povo e foi um dos maiores responsáveis pelo surgimento e pelo crescimento das escolas de samba.

Elegantemente vestido, Paulo impunha respeito. Foi compositor, compôs o primeiro samba-enredo de que se tem notícia, participou de filmes, representou a música brasileira no exterior, foi cidadão-samba, marcou sua posição política, recebeu de igual para igual professores, embaixadores, ministros e empresários estrangeiros, fez uso do microfone das rádios para lutar contra os estigmas que marcavam os negros e os sambistas. Poucos se atreviam ou podiam fazer isso, mas Paulo era diferente - ele era especial.

E Paulo cumpriu como ninguém sua missão em nosso planeta. Sua maior obra foi a nossa Portela. Paulo plantou nossa semente, foi nosso primeiro presidente, compôs nosso primeiro samba, incentivou os mais jovens e nos fez conhecer o prazer das primeiras vitórias. Nossa primeira sede foi justamente em sua casa, e graças à sua liderança conseguimos andar sozinhos e trilhar nosso vitorioso caminho.

Paulo da Portela, como ficou eternizado na memória de todos os sambistas, foi também um grande defensor de Oswaldo Cruz e do subúrbio. A fama que alcançou nunca o fez esquecer do bairro em que chegou ainda jovem e viveu até seus últimos dias, deixando seu amor por essa parte da cidade esquecida por muitos em algumas músicas eternas.

Paulo, Portela e Oswaldo Cruz são três partes de um todo. É impossível compreender um sem entender os outros dois. É difícil explicar, é mais fácil ir até Oswaldo Cruz, sentir e ouvir. Sentir a presença de Paulo e ouvir o som que ecoa da Portela, apenas assim compreendemos que Paulo, Portela e Oswaldo Cruz são na verdade a mesma coisa.

Como toda estrela que brilha mais intensamente é a primeira que se apaga, Paulo nos deixou em 31 de janeiro de 1949. Mas o professor ainda permanece vivo na Portela, sua presença ainda é sentida em Oswaldo Cruz, um ideal que se renova através das gerações.

O ano agora é 2001, início do século XXI. Cem anos após o nascimento do menino Paulo, sua presença se faz sentir ainda mais forte, em iniciativas que resgatam suas atividades artísticas e sociais. Durante o ano, a Portel@web estará realizando uma pequena homenagem ao nosso querido professor, lembrando todos os meses vários fatos que marcaram a vida de nosso mestre, resgatando para as novas gerações de portelenses quem foi Paulo da Portela, um exemplo que nunca pode ser esquecido.

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Aprendizes de Lucas

Ótimo texto sobre a Aprendizes de Lucas e Élton Medeiros:



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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Um certo dia para 21 (Paulinho da Viola)


Foram para mim, horas diferentes
Quando eu me senti em plena liberdade
Tudo que eu trazia no meu pensamento
Era ter você só por um momento
E muito mais você me deu
E me fez passar um tempo precioso esquecido
E eu só andava pelas noites mais escuras
Me escondendo do perigo

Só depois quando acordei
Aí que eu me lembrei que era o 21
E andava procurado, tinha meu nome marcado
Não era um homem comum
Mas ficou aquele dia que me deu tanta alegria
Me marcando muito mais que a ferro e fogo
Às vezes, meu amor, fico pensando
Se a vida não tivessse me dado esse jogo

PS: Lá no Couro do Cabrito, numa postagem sobre esse samba encontrei nos comentários a seguinte história:

21 é um presidiário que ganha um dia de indulto e o usa para encontrar a amada, isso deixa a música ainda mais incrível. Confere ? 

Quase, caro Hélio. Na verdade não se sabe com certeza se o 21 está em cana, mas sim que está fugido - e procurado - e vive "horas diferentes" com a amada. Paulinho certa vez disse que antigamente alguns sambistas se chamavam pelo número, não pelo nome e revelou que o "21" da música é um sambista imaginário; alguém que nunca existiu, vejam só.

Arthur Tirone


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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Um barracão de madeira (Colher)

Coisa linda esse samba do Antônio Fontes, o Colher da Aprendizes de Lucas. A interpretação fica por conta do saudoso Terreiro Grande e Cristina Buarque:


Um barracão de madeira
Era o conforto da gente
Eu passo a noite inteira
Sem ninguém pra me consolar
Eu vivo sorrindo e cantando para não chorar

Ela separou-se de mim
Eu agora estou sozinho
Sem o seu amor, sem o seu carinho
Ela só queria vaidade, luxo e riqueza
Todo dia me dizendo que ia embora
Que não nasceu para viver na pobreza

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Cartola na Banda de Ipanema...



Cartola na Banda de Ipanema posando com o trombone... Tocar ele não tocava!

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cartola, Ismael Silva e Mano Décio na Revista Veja - 1975

Ótima reportagem da revista Veja publiucada na edição de 12 de fevereiro de 1975. Vale a pena dar uma lida! Basta clicar na imagem para ler e baixar o arquivo em pdf.


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Cartola: Por Toda a Minha Vida (Rede Globo)




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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Quando Xangô apitar - Documentário

Outro dia abri meu e-mail e me deparei com essa brasa enviada pela amiga Sônia Ferreira, esposa do nosso saudoso mestre Xangô da Mangueira. Nesse pequeno documentário (mais que merecido, diga-se de passagem) o mestre Olivério nos conta algumas histórias que marcaram sua vida de sambista, ilustradas com alguns trechos de um show onde ele canta vários sambas. Salve mestre Xangô, o samba em pessoa, eterno diretor de harmonia da verde e rosa!

Parte 1

Parte 2



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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cruel Paixão (Silas de Oliveira e Daniel Santana)

Brasa inédita do mestre Silas de Oliveira. Gravação feita com uma câmera digital durante a apresentação do Batalhão de Sambistas em Ouro Preto. E esse coro bonito é da turma do Brasil 41, a roda mais quente de Belo Horizonte... Salve rapaziada!



Existe uma cruel paixão
Guardada em meu coração
Eu sei quem deixou
Foi meu primeiro amor
Vivo a cantar
Para ver se consigo olvidar
E não ver os meus olhos lacrimar

Amanhece e anoitece
Eu sei que nesse mundo tudo se fenece
Então porque essa paixão
Do meu coração não desaparece

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terça-feira, 19 de junho de 2012

Tuco e Batalhão de Sambistas em Ouro Preto


Nesse sábado o Batalhão de Sambistas desembarcou em Ouro Preto pra uma roda animadíssima! Ali bem em frente à Igreja de São Sebastião, uma das mais antigas de Minas Gerais o samba comeu solto. Brasa atrás de brasa... Não posso deixar de registrar a participação da Adriana Moreira com sua voz contagiante e da rapaziada do Brasil 41 (BH) que engrossou o coro cantando a plenos pulmões as brasas apresentadas pelo meu amigo Tuco.


Os sambas que você ouve no vídeo acima são "Adeus Estácio" de Gastão Viana e benedito Lacerda e "Ri melhor que ri no fim" de Noel Rosa de Oliveira, José Ernesto Aguiar e Raimundo Ferreira Lima.

Pra quem não pode participar, algumas fotos pra matar a vontade!

Clique nas fotos para ampliar
Fotos: Vinícius Terror

   


  


  


   


  


 


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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Tuco e Batalhão em Minas Gerais

É com alegria que anuncio essa brasa! Amanhã recebo meus amigos do Batalhão de Sambistas para uma noite de muito samba aqui em Ouro Preto.



E no domingo (17/06) em BH





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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dá-lhe Manoel Ferreira e Zé Pretinho...

Cinzas do Passado
Manoel Ferreira e Zé Pretinho
Alcides Girardi, 1950



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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Raul Marques: Entrevista e Coletânea 78 rpm



Raul Marques é um exemplo típico das gerações pioneiras de compositores de escolas de samba. Ao mesmo tempo em que permanecia nas escolas, emplacava suas musicas em gravações comerciais, através dos meios ao seu alcance: ou as entregava diretamente aos cantores que iriam gravá-los ou as vendia a pessoas que tinham acesso aos cantores da época ou às gravadoras.

Não foi apenas como compositor que desfrutou dos beneficies profissionais que a ascensão das escolas de samba possibilitava. As gravadoras foram buscar no seio das próprias escolas os instrumentistas de que necessitavam para as gravações de samba. E Raul Marques foi um dos ritmistas mais requisitados, fazendo uma carreira tão longa quanto vitoriosa.

Nascido no dia 24 de Agosto de 1913 no Rio de Janeiro (bairro da Saúde), Raul Gonçalves Marques teve a sua fase áurea como compositor nos anos 40: eram de sua autoria cerca de oitenta por cento dos sucessos do cantor Jorge Veiga. Como ritmista, além de participar de gravações de disco, integrou vários grupos, como o Favela, criado pelo cantor Francisco Alves e que mais tarde, com a incorporação do Trio de Ouro, passou a chamar-se "Chico, Trio de Ouro e Escola de Samba". Pouco depois, Raul Marques participou de um grupo de sambistas liderado pelo grande compositor Geraldo Pereira. 

Fonte: Encarte do disco História das Escolas de Samba Vol. 4. Som Livre.


Pra acompanhar a leitura, separei alguns sambas de Raul Marques em 78 rpm. 

Caso precise fazer login para fazer o download:
Login: blogreceitadesamba@yahoo.com.br
Senha: samba2012


Entrevista:

A Saúde é um bairro muito importante na formação do samba carioca e você foi menino por lá. Qual é a primeira lembrança que você tem de samba na Saúde?
Eu me lembro até do samba. Era muito cantado na Saúde quando eu era menino:
Eu vivo na orgia / para não pensar na vida / o meu coração está ferido / por causa de uma fingida

Você se lembra quem era o compositor?
Não eu não me lembro. Aliás, eu tenho o impressão de que esse samba veio lá do Estácio.

E você se metia em samba quando era garoto?
Eu andava me intrujando sim. Onde tinha samba eu estava. Na Praça Onze mesmo eu me metia naquelas batucadas. O pessoal livrava a minha cara porque eu era garoto, mas eu me metia. Quer dizer, as batucadas pesadas mesmo eu só ficava olhando. Eles cantavam uma musica assim:

Mandei carimbar meu dinheiro
Na perna de um batuqueiro

Você só começou a compor depois que entrou em escola de samba?
Não, antes eu já fazia meus sambinhas. Mas os que ficaram mais conhecidos, pelo menos no meio dos sambistas, só nasceram depois que eu entrei para a Escola de Samba Unidos da Saúde. A escola foi ganhando projeção e eu também. O meu primeiro sucesso se chamava “o amor que não morreu”.

A segunda parte desse samba é do Cartola, não é?
É dele sim.

Como foi que você entrou na Escola de Samba Unidos da Saúde?
Bem, eu morava na saúde. Então uma rapaziada do bairro resolveu fazer uma escola de samba. Eles falavam assim: “tem escola de samba no Estácio, na Mangueira, em uma porção de lugar. A gente tem que fazer uma aqui na Saúde”.

Quem era o líder da rapaziada?
Era o mestre Juquinha, um elemento animadíssimo, uma coisa extraordinária, sabe? Ele era diretor de um clube de futebol chamado Os Veteranos da Saúde Futebol Clube. Era um time extraordinário que deu muitos craques, sabe? Foi o Juquinha que começou a correr listas pelo bairro, recolhendo dinheiro dos moradores, justamente para fundar a escola de samba. A escola acabou nascendo. Naquela época eu já tinha uns sambinhas que cantava para a rapaziada. Ai, a Mestre Juquinha falou comigo: "Você quer saber de uma coisa? Você vai ser o compositor da Unidos da Saúde." Eu nem sabia direito o que era ser compositor de escola de samba. Mas depois pensei assim: se eu canto pra rapaziada na esquina, posso cantar na escola de samba.

Você era só compositor da escola?
Não, eu era também diretor de harmonia. Cheguei lá e fui ensaiando as cabrochas e a rapaziada. No carnaval a gente estava desfilando na Praça Onze.

Você ficou muito tempo na Unidos da Saúde?
Fiquei dois anos. Pouco depois, nasceu a União Barão da Gamboa. O pessoal que fundou era todo meu amigo. Eles falaram assim: "Você já desfilou este ano pela Unidos da Saúde, no ano que vem vai sair pela nossa escola".

A Vizinha Faladeira nasceu antes ou depois da Unidos da Saúde?
Depois. Eu também andei freqüentando a Vizinha Faladeira. 

Mas você não pertenceu à Vizinha Faladeira.
Não. Mas andei muito por lá, porque a rapaziada era toda conhecida e me chamava para cantar samba. Na União Barão da Gamboa, sim. Lá eu fiquei pertencendo à escola uns dois ou três anos. Depois voltei para a Unidos da Saúde. Mas a volta foi rápida. Logo em seguida eu fui para a Recreio de Ramos.

Quem foi que te levou pra lá?
Foi o Ernani Silva, o Sete. Nós tinhamos uma parceria, coisa e tal, e ele acabou me levando pra lá. Era uma turma boa: o Sete, o Manga, o Sagui, o Mano Décio da Viola, o Armando Marçal que era irmão do Manga, uma turma muito boa. O atual presidente da Associação das Escolas de Samba, o Amauri Jório, também freqüentava a Recreio de Ramos. Sé que ele era rapazote ainda.

Você ficou muito tempo na Recreio de Ramos?
Uns três anos. Depois o Mano Décio da Viola me chamou e chamou o Sete e falou assim: "O caso é o seguinte: eu estou com uma rapaziada muita boa na Prazer da Serrinha. Vamos pra lá?" E nós fomos. A gente também já se dava com o pessoal da escola, o Mestre Fuleiro, aquela rapaziada. Fiquei lá uns dois anos. 

Você viveu muito tempo como ritmista profissional. Nessas escolas todas que você andou, tocava algum instrumento de bateria?
Tocava. Tocava tudo: surdo, tamborim, reco-reco, tudo. Nos desfiles da Praça Onze eu sempre aparecia com o meu tamborim debaixo do braço. Ficava um pouquinho na bateria e depois ia lá pra frente puxar o samba. Ficava rodando pra frente e pra trás.

Você começou a gravar muito cedo. Como foi que conseguiu isso?
Bem, eu era das escolas de samba mas andava cá embaixo, na Praça Tiradentes, nos cafés, par ali.

Quem foi que te introduziu no chamado meio artístico?
O Bucy Moreira. O Bucy foi um cidadão que me animou muito nesse negócio, coisa e tal. Acabei entrando em cantato com os cantores, gente de gravadora e tive muita sorte: sempre gravei com facilidade.

Você quando começou, transava com o pessoal do Estácio?
Transava. Eu conhecia bem o Bide, o Baiaco, o Brancura, o Brinco, o próprio Ismael Silva. Tinha também o Nelson Cavaquinho.

Que não deve ser esse de agora.
Não. Era outro que andava sempre por lá cantando sambas nas esquinas e nos botecos. Fazia também uns improvisos muito bons. Depois ele sumiu, nunca mais vi esse rapaz. Ele era bom de samba e de cavaquinho, mas não sei que fim levou. Outro camarada com quem eu me dava no Estácio era o Tibério um sambista de lá. Tinha o China, um compositor e batuqueiro. Eu me dava com o pessoal do Estácio e de todo lugar.

Você conheceu o pessoal da Portela?
Puxa! O Paulo da Portela, por exemplo, era uma grande pessoa. Era uma coisa extraordinária em todos os pontos de vista.

E o pessoal que gravava, coma é que tratava vocês de escola de samba? O Noel Rasa, por exemplo?
O Noel tratava a gente bem. Ele quando estava naquelas rodinhas na Lapa eu me metia também, entendeu? Eu cantava os meus pagodezinhos, mas o maioral mesmo era o Noel Rosa. O Bucy Moreira estava sempre comigo.

Você começou a trabalhar desde cedo como ritmista de gravação?
Muito cedo. Comecei a trabalhar com o Mister Evans, que era diretor artístico da RCA Victor. Trabalhei muito com o Simão Boutmann também. Gravei muito com a Carmem Miranda na Odeon.

Quais eram as craques do ritmo, os caras que estavam em tudo que era gravação?
O Bide, o Armando Marçal, o Valdemar Silva, o Bucy Moreira, eu mesmo, o falecido Chico da Marcelina e o Baiaco, de vez em quando. Os mais assíduos eram o Bide e o Marçal.

Como compositor, qual foi o seu primeiro sucesso?
Foi um samba gravado pelo Castro Barbosa:

Eu e você, você e eu 
A nossa dupla vai ser um sucesso 
Você no pandeiro eu no tamborim 
Você canta o coro e deixa os versos para mim

Esse samba eu cantei muito na Escola de Samba Recreio de Ramos.

Você gravava, mas continuava nas escalas de samba?
Ficava lá e cá. Fim de semana eu ficava nos escolas de samba.

O Miguel Baúza comprou muitos sambas seus. Como foi que você o conheceu?
Ele morava ali por perto da Central do Brasil e eu também andava por lá. Ele sempre falava comigo: `'Poxa Raul, eu também sou da Favela, sou do samba. A gente podia fazer uma parceria". Eu protelava sempre. Foi o Bucy que falou comigo para transar com o Baúza, dizendo que ele era boa praça, aquelas coisas. Que ele gostava de entrar no samba dos outros mas que soltava uma nota. “Então, tá bom”, respondi. Ai, eu cantava uns sambas e ele dizia: "Puxa, deixa eu entrar ai também". Não tinha conversa, eu deixava logo: “É nosso desde  já”. Ele aí soltava vinte, trinta mil réis na hora.

O que a Baúza era na vida?
Era tudo. Era cambista de porta de teatro, chefiava claque nos teatros da Praça Tiradentes fazia tudo. Às vezes a gente estava sem dinheiro e o Bucy me falava: “Precisamos fazer um samba para levantar uma nota do Baúza”.  A gente ia encontrar com ele e não dava outra coisa: era só cantar que o dinheiro vinha. Às vezes a gente até fazia samba de improviso e o negócio dava certo.

Ele também era metido a cantor, não è isso?
Isso mesmo. Pra ele comprar as sambas mais rapidamente, eu e Bucy falávamos pra ele: "Este é pra você gravar. Sé você pode cantar esse samba". Ele ficava todo bobo e soltava logo o dinheiro. Ficava todo entusiasmado: "Eu canto mesmo. Eles podem falar a que quiserem, que eu canto mesmo". Eu e Bucy apoiávamos: "Isso, Baúza, você canta muito bem. Principalmente um samba como este". A gente ia ali pro lado da estátua na Praça Tiradentes, ensaiava bastante o samba até ele aprender. Depois ele perguntava: "Como é que ficamos?" "Faz o seguinte, Baúza: solta dez pró mim e dez pro Bucy e o samba é todo seu. A gente nem quer entrar porque este samba é exatamente do seu estilo. Não falhava uma. Ele só fazia uma recomendação: Não canta pra ninguém".

Ele comprava samba de outros também?
Comprava. Mas antes eu e Bucy éramos consultados. Ele sé comprava os que nós recomendávamos. Ele só confiava em samba dos outros quando eu e Bucy colocávamos a segunda parte. Quando a gente estava muito sem dinheiro e aparecia um compositor querendo vender um samba pro Baúza, a gente falava: "O samba está bom, mas precisa de uns retoques". E ele dizia: "Vocês estão ai pra quê?"

Havia outro que comprava samba de vocês também, não havia?
O César Brasil. Aquele também era firme. Ele era gerente de um hotel na Rua Frei Caneca e descobrimos que o fraco dele era querer ser compositor. Queria ser sambista a pulso. Ele também só confiava em mim e no Bucy. Qualquer sambista que aparecia querendo vender música, ele falava: "Procura o Bucy ou o Raul na Praça Tiradentes". Ele chamava todo mundo de aleijado: "Aquele aleijado veio me mostrar um samba que era uma porcaria, Agora que vocês mexeram é que ficou bom".

Mas ele não compunha nada?
Nada. Uma vez apareceu um cara com uma letra sobre o petróleo descoberto em Lobato, na Bahia. Ele se meteu a completar a letra e fez um troço assim: "O petróleo do Lobato / Está cheio de salpicara", Eu e Bucy caímos na gargalhada. Ele perguntou: "De que é que vocês estão rindo?" "Nada, é que achamos interessante essa palavra que você colocou".

Ele pagava bem a vocês?
Pagava igual ao Baúza. De vez em quando ele deixava os sambistas dormirem no hotel como pagamento pelos sambas que comprava. Tinha uma turma que de vez em quando dormia lá de graça: Wilson Batista, Arlindo Marques Junior, Ataulfo Alves, Jorge Faraj, todo mundo ia pra lá.

Todo mundo vendia samba ao Cesar Brasil?
Todo mundo. Me lembro até de um samba que o Zé Pretinho vendeu pra ele que já estava gravado. O Zé Pretinho chegou com aquela conversa: "Poxa Cesar, não deu pro seu nome sair no disco. Mas na próxima gravação do samba o seu nome vai entrar, pode deixar". E o Cesar Brasil acreditando, deu-lhe uma nota de dez mil réis. O Jota Piedade, meu Deus do céu, o Jota Piedade dava pontapé no Cesar de tudo que era maneira. Às vezes a gente estava conversando no hotel e tocava um samba qualquer no rádio. "Está escutando, Cesar?" — o Jota Piedade perguntava. “Estou, alias é muito bonito”. "Então, desde já, você é meu parceira nela". E o Piedade levava uma grana por um samba que nunca tinha ouvido.

Bucy Moreira
O Cesar Brasil se dava bem com o Miguel Baúza?
Eu explico. Uma vez, eu e o Bucy promovemos um encontro entre os dois. Chegamos pro Baúza e falamos assim: "Poxa Baúza, o Cesar Brasil anda dizendo que canta melhor do que você, que você não canta nada, coisa e tal". O Baúza ficou com uma raiva tremenda e disse que o Cesar Brasil tinha voz de cana rachada. Fomos ao Cesar Brasil e falamos a mesma coisa. "O que? aquele aleijado disse isso? Manda aquele aleijado vir até aqui no hotel logo mais e vamos ver quem canta melhor, À noite o Baúza estava lá. Levamos os dois para um bar e decidimos quem devia cantar primeiro. Foi o Baúza. Depois o Cesar cantou. Meu Deus do céu, era difícil saber quem cantava pior. Era uma comédia. Os dois cantando mal pra chuchu pensando que cantavam bem.

O Baúza chegou o gravar?
Gravou. Era um tremendo cara de pau. Uma vez o Orlando Silva, quando estava no auge da carreira dele, disse ao Baúza que o Vitôrio Latari da RCA Victor havia mostrado um samba dele e que o Orlando resolveu gravar. Era um samba que o Baúza havia comprado. No lugar de ficar orgulhoso, sabe o que o Baúza respondeu? "Com essa voz de choradeira? Você está maluco! Quem vai gravar aquela música sou eu”. Foi lá no Café Nice. Todo mundo caiu na gargalhada. O Carlos Galhardo gravou um samba, Baiana me dá, que era só meu, mas vendi a parceria pra ele e pro Cesar Brasil. Foi um sucesso danado. Não é que o Baúza foi criar caso com Mister Evans na RCA Victor dizendo que era ele que tinha que gravar? "Esse Galhardo me tirou meu sucesso com aquela voz horrível! Eu é que tinha que gravar"

Como foi que você conseguiu vender as duas parcerias?
Vendendo, ué. E foi bom. Naquele ano O Radical fez um concurso para escolher a música mais popular para a carnaval. E o nosso samba venceu disparado porque tanto o Baúza quanto o Cesar Brasil compravam uns 500 jornais por dia para recortar o cupom e preencher com o nome do samba.

Nunca deu confusão esse tipo de parceria?
Não. Às vezes a gente inventava uma para tomar um dinheiro a mais. O Cesar Brasil me mostrou um samba que o Zé Pretinho tinha vendido pra ele e me perguntou se eu conhecia. Eu disse que sim, que era um samba antigo e que conhecia até quem era o parceiro do Zé Pretinho. "E tem mais um parceiro?" Eu disse que tinha, um crioulo muito brabo que estava cumprindo uma pena na prisão e se descobrisse que o samba iria sair sem o nome dele, a coisa podia ficar feia. "Mas eu não tenho nada com isso. O Zé Pretinho disse que o samba era só dele". Ai eu falei com ele: "Você faz o seguinte: dá cem mil réis pro crioulo e fica livre disso. Estou avisando porque sei que ele vai sair agora da prisão e pode até vir aqui te matar". Dias depois peguei o China da Cuíca e expliquei para ele do que se tratava. E pedi que ele fingisse que era o Manezinho, o crioulo autor do samba e um tremendo marginal. Os cem mil réis saíram fácil, fácil. Rachamos a grana. O Cesar Brasil só não queria que o tal “Manezinho” aparecesse no hotel. Por causa disso, eu chegava pra ele e falava que o cara queria ir lá, coisa e tal. "Mas o que é que ele quer?" "Dinheiro, ué. Ele estava preso e está a perigo". "Então você faz o seguinte: toma esses cinqüenta e dá pra ele". E assim foram várias vezes.

O Zé Pretinho sabia de tudo?
Sabia. Eu falei e ele ria pra burro. Resolvi acabar com a historia num dia em que cheguei pro Cesar Brasil e falei que o "Manezinho" tinha sido preso novamente e foi mandado para a Ilha Grande. O Cesar ficou na maior alegria: "Puxa, agora posso dormir sossegado".

E o que é que o Cesar Brasil e o Baúza faziam com tanta música que compravam?
Uma vez, eu e o Bucy fomos visitar o Miguel Baúza que estava de cama, doente. Ele ficou muito contente com a nossa chegada e disse até que nos dois é que éramos amigos. Ele mostrou um baú entupido de musica que comprou e pediu a gente para ir à rua comprar queijo. Nós perguntamos para que era o queijo e ele disse que deixava perto do baú pros ratos comerem. Comendo o queijo poupariam as músicas. Comentei com o Bucy Moreira: "O homem tem até a verba do rato".

Durante esse tempo todo você continuava ligado a alguma escola de samba?
De certa maneira, sim. Mesmo muito mais tarde quando a Prazer da Serrinha se transformou em Império Serrano, eu continuei. Sem pertencer à escola, mas freqüentando sempre. Depois é que me afastei. E tem outra coisa que me esqueci de falar: eu fui um dos fundadores da União das Escolas de Samba. Participei das reuniões para a criação da União e andei par lá muita tempo.

Você conheceu o Eloy Antero Dias?
O Mano Eloy? Puxa vida. Ele foi um dos fundadores da União das Escolas de Samba também. Era de macumba, era o Eloy da macumba. Fez até sucesso cantando uns pontos de macumba. Mas esse negócio de cantar ponto você sabe como é. O negócio depois desandou pra ele que foi uma coisa tremenda. Eu fiz até parte de uma das gravações dele na RCA Victor. Ele trouxe o pessoal do terreiro pro estúdio e o negócio foi muito autêntico. Foi um grande sucesso. Sei lá, depois o negócio não andou muito bem.

Você participou muito de cinema também?
Muito. Eu e o Tancredo Silva. O Tancredo, aliás, é um dos fundadores da União das Escolas de Samba. Nós participamos daqueles filmes da Cinédia, do Ademar Gonzaga. Quando Orson Welles esteve aqui, nós trabalhamos para ele. Houve até uma vez que ele pediu pra gente arranjar um grupo grande de velhos sambistas e nós levamos uma porção. Me lembro até que o Tancredo Silva subiu o Morro de São Carlos e arrastou tudo que era velhinho que havia por lá.

Você também andou metido em macumba?
Muito. Eu e Tancredo Silva fundamos a União Espírita Umbandista. A sede era num prédio velho na Avenida Presidente Vargas, numa sala que um político arranjou pra nós. As primeiras carteiras de sócios fui eu que mandei fazer com um cachê de gravação. Depois a organização cresceu muito, eu continuei gravando e saí fora. Mas o Tancredo ficou.

E o Orson Welles, como é que era?
Ele gostava muito de mim. É que tudo que ele pedia eu arranjava. Uma vez ele pediu, veja você, uma vaca! Eu fui a uma vacaria que existia em São Cristóvão e pedi. O português nem queria emprestar porque ele não entendia como é que a vaca ia entrar no filme. Acabamos convencendo o português e saímos andando com a vaca até o estúdio da Cinédia, em São Januário. Ele queria tudo autêntico.

Houve também aquele lance da pernada.
Ah, foi mesmo. A gente fez uma batucada pesada e o couro comeu. Depois começou a pernada. Foi um tal de nego derrubar nego que não foi brincadeira. O Orson Welles só filmando e gritando pra gente continuar. O Grande Otelo coitado, baixinho, levou cada tombo que vou te cantar. Quando acabou, estava uma porção de gente machucada. O Grande Otelo foi parar no hospital. O Orson Welles ficou feliz. Quando a gente se queixava da violência, ele dizia: "Eu paga tudo”. O filme devia ser espetacular. Tinha samba, batucada, tinha tudo. Durante a filmagem morreu um camarada, o Jacaré, que fazia umas coisas nortistas. Eu tenho a impressão de que se esse filme passasse ele ia agradar muito. Tinha tudo, jangadeiro, folclore, tinha tudo. Uma coisa extraordinária. O Orson Welles gastou um dinheirão.


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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vírgula (Alberto Ribeiro e Erastótenes Frazão)


Seu amor é fatal, vírgula 
Ó mulher sensacional, ponto e vírgula 
Queres dar teu coração, interrogação 
Que pecado original, exclamação 

Seu amor é fatal, vírgula 
Ó mulher sensacional, ponto e vírgula 
Queres dar teu coração, mas comigo não 
Ponto final 

O teu amor entre aspas 
Já consegui descrever 
Reticências, reticências 
E agora adivinha o que eu quero dizer

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Candeia e companhia no Fantástico...

Brasa pura! Ao som da viola e pandeiro, sou mais o samba brasileiro!



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