domingo, 8 de abril de 2012

Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro...

Mauro Duarte
Eis algumas brasas de uma das duplas de compositores que mais gosto: Mauro Duarte (o Bolacha) e Paulo César Pinheiro. Só que essas musicas foram feitas de maneira um pouco fora do convencional. São parcerias póstumas. As canções foram letradas e terminadas por Paulo César Pinheiro em 2006, quase vinte anos depois da morte de Muro Duarte com base em gravações caseiras do compositor que faleceu em 1989.

E só prova que Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte formavam uma das maiores parcerias do samba, mesmo depois da morte do Bolacha. É preciso muita intimidade e experiência, muito tempo compondo juntos pra chegar ao ponto de, tanto tempo depois, a parceria continuar dando certo...

Os sambas foram lançados no excelente disco "O Samba Informal de Mauro Duarte"- (mais informações sobre o disco) -  lançado pela Cristina Buarque e a turma do Samba de Fato. O CD duplo traz 30 musicas do compositor, entre inéditas e algumas raridades:



Sublime Primavera 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

Tem um dia que a gente sempre espera
A chegada da sublime primavera
Só não pode é desistir nem blasfemar
Que vai chegar 
Tem momentos em que a gente desespera
Pois parece uma ilusão, uma quimera
Mas também não custa nada se sonhar
Que vai chegar 

Por pior que seja a vida
Eu não vou viver tristonho
Pois a única saída
É acreditar no sonho
De uma árvore caída
Tem raiz que ainda teima no chão se agarrar
Que a esperança não duvida
Da sublime primavera perdida que vai chegar


Acerto de Contas 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

A dor que hoje tu sentes ser injusta
É simplesmente alguma dívida que Deus vem te cobrar
Não tem como escapar do que fizeste
A moeda que não deste é o penhor que vais pagar
Quem pegou sem ganhar
Quem guardou sem gastar
Quem lucrou sem doar
Vai ver que não fez bom negócio

Fez o irmão recuar
Fez o amor duvidar
Fez o bem se afastar
E o mal foi virando seu sócio
Só que o mal dá com a mão
Mas com a outra vem buscar
E é no acerto de contas que tu vais chorar


Mineiro Pau 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

Êê, mineiro velho, êê, mineiro pau
É dança de cativeiro dentro do canavial

O cativo trabalhava a chicote e a punhal
Sob uma soleira brava, ou debaixo de aguaçal
Mas também não se entregava, sua dança era um sinal
E essa dança que dançava foi virando um ritual

Trabalhava na cadência vigiado pelo mal
Mas manteve a sua essência e uniu seu pessoal
Não foi subseviência nessa luta desigual
Foi a sua resistência contra a coroa real

É preciso ter memória pra mudar o principal
Pra lutar contra essa escória do poder colonial
Não é pra cantar vitória, negro ainda é marginal
E o enredo dessa história ainda não tem um final


Falou Demais 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro / João Nogueira)

Eu devo lhe dizer que o nosso amor jamais
Vai ter a paz que já gozou há poco tempo atrás
Devo reconhecer que eu mudei demais
Mas o que você fez comigo não se faz

Andou falando por aí da nossa vida
Fez o que pôde pra rasgar o meu cartaz
Disse pro povo que o meu mal era a bebida
Que nem de dar casa e comida eu fui capaz
E agora vem você querendo aquela velha paz
Pode esperar que eu não volto mais


Samba de Botequim 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

Pra mim um verso de poeta
E a melodia de um compositor
É sempre a minha forma mais direta
De combater a força de uma dor
Pra mim o papo de um amigo
E um copo de um bom vinho ou de um licor
Já é o que eu preciso ter comigo
Pra enfrentar qualquer perigo de desilusão no amor

Foi isso que aprendi no chão da rua
Foi isso que aprendi no botequim
Por isso é que saio buscando nas noites de lua
Alguém que na mesa de um bar cante um samba pra mim


Compaixão 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

Eu vou pedir a Deus pra te perdoar
Pois tenho compaixão de ti
Inclusive eu vou pedir pra nem te cobrar
Por tudo aquilo que eu sofri

Apesar dessa lembrança de tristeza e dor
Eu não desejei vingança nem guardei rancor
Tenho dó nesse momento dos pedidos teus
Mas teu arrependimento eu entrego a Deus


Engano 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

O amor que acumulei na vida
Foi mais que eu pude dar de mim
Por isso a dor foi mais sentida
Quando eu fiquei sozinho assim

Porque que o amor tem esse lado de ironia (2x)
Que nos enche de alegria pra chorar no fim
Eu fiquei triste porque o amor foi meu engano
E eu não sabia como dói uma ilusão
Contra a tristeza eu faço um esforço sobre-humano
Mas ela agora mora no meu coração


O Samba Que Eu lhe Fiz 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

O samba que eu lhe fiz já é bem popular
Ouvi no Bar Luiz, na mesa do Alcazar
No Sobrenatural, até no Chico´s Bar
Só não vi foi você cantar

O samba que eu lhe fiz me deu muito cartaz
Cantado por garis, baleiros e babás
Garçons e camelôs, feirantes e fiscais
Só você não aguenta mais

O samba que eu lhe fiz fala da sua ingratidão
Quando a separação me fez chora, me fez sofrer
Por onde você passa agora o povo ri e diz
Que o samba que eu fiz foi pra você


Começo Errado
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

Eu mesmo sem conhecer o amor
Mesmo sem ver o seu valor
Não merecia tanta dor assim
Não, eu já nem sei o que é pior
Se é o sofrimento de estar só
Ou se é não ter quem tenha dó de mim
O amor, eu não sabia que ia ser ruim
Conheci pelo avesso, seu começo foi meu fim

Agora que conheço seu desfecho
Posso tentar outra vez
Porque toda essa dor de que me queixo
Não foi o amor que me fez
Fui eu mesmo o culpado de ter sido indiferente
Não quero amar errado novamente


Lamento Negro 
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

Ôôôô Ôôô Ôô
Me livra dessa corrente senhor
Ôôôô Ôôô Ôô
Rebenta o açoite da mão do feitor

Quando Ogum quebrou o tronco a revolta começou
Moçambique, Angola e Congo no chão do Brasil se juntou
Foi benguela, catunda, catanga, mandinga no bloco do Babalaô
Foi malê, foi zulu, negro mina, ioruba, foi banto, foi jeje nagô

Ôôôô Ôôô Ôô
Escuta o toque do balacotô
Ôôôô Ôôô Ôô
Acaba com esse lamento de dor

Cativeiro foi demanda, capoeira libertou
De Arueira e de Aruanda o povo que manda chegou
Foi ao som de atabaque, marimba, de congo, carimba, ijexá e agogô
Berimbau, caxixi, urucum, macumba, cabaça e tambor

Ôôôô Ôôô Ôô
O grito do povo negro ecoou
Ôôôô Ôôô Ôô
Me livra dessa corrente senhor



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Um comentário:

Leilah Paiva disse...

para mim todos estes sambas são geniais. leilah de curitiba