segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Herivelto Martins 100 anos - Coletânea 78 rpm



Hoje comemoramos o centenário do grande Herivelto Martins. Portanto, posto novamente este texto, agora acompanhado de mais uma das já tradicionais coletâneas em 78 rpm. Dessa vez são 105 sambas de Herivelto e seus parceiros, todos com as letras transcritas em um encarte em pdf:




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Nascido na pequena cidade de Engenheiro Paulo de Frontin, RJ, no dia 30 de janeiro de 1912, Herivelto de Oliveira Martins foi um dos maiores nomes da musica brasileira durante os anos 30 e 40. E o centenário desse grande compositor, autor de clássicos como “Cabelos Brancos”, “Praça Onze”, “Saudosa Mangueira”, entre outros lindos sambas, será o assunto do mês aqui no Receita. Contarei alguns casos interessantes e passearemos pelo Rio antigo, contado nos versos de Herivelto e seus inúmeros parceiros. Pra quem não conhece, começo com uma breve biografia do compositor.

A lapa
Herivelto Martins e Benedito Lacerda
Intérprete: Francisco Alves, 1949

Herivelto conheceu o mundo das artes muito cedo. Seu pai, Félix Bueno Martins, era apaixonado por teatro e tinha o costume de promover grupos teatrais amadores  da cidade, atividade na qual fazia questão de envolver os filhos. Com apenas três anos de idade o pequeno Herivelto já participava dos espetáculos promovidos pelo pai. Usava uma casaca branca e recitava versos como “Nasci pra namorar / Toda moça bonita que eu vejo / Dá vontade de casar”. De 1916 a 1929 a família morou em Barra do Piraí onde o pai de Herivelto, o “seu Bueno” fundou uma espécie de companhia de teatro chamada “Sociedade Dramática Dançante Carnavalesca de Barra do Piraí”. Influenciado pelas atividades artísticas do pai o pequeno Herivelto acabou montando sua própria peça com os irmãos e amigos da vizinhança. Foi um sucesso e chegavam a cobrar ingressos para as apresentações. Aos nove anos de idade compôs seu primeiro samba, chamado “Nunca Mais”

Quando já era adolescente conheceu dois artistas de circo com quem acabou montando um trio e saiu em uma pequena “turnê” apresentando um pequeno espetáculo em cidades vizinhas. O problema é que um de seus parceiros era procurado pela polícia e o trio acabou sendo preso. Pra sorte de Herivelto, o delegado percebeu que o jovem entrou de gaiato nessa confusão e o mandou de volta pra casa. 

Aos dezoito anos, depois de uma breve passagem por São Paulo, Herivelto vai tentar a sorte no Rio de Janeiro. Tinha pouco dinheiro, muita disposição e pra sua sorte, talento de sobra. No início, trabalhou em uma barbearia para garantir o seus sustento. Lá, conheceu o compositor Príncipe Pretinho que gostou muito de Herivelto e o apresentou ao compositor J. B. de Carvalho. Em certa ocasião Herivelto mostrou a J.B. a marcha “Da cor do meu violão” que compôs inspirando em uma antiga namorada que seu pai dizia ser muito escura para ele. J.B. de Carvalho gostou da musica e ofereceu gravá-la para o carnaval se Herivelto lhe desse a parceria. Assim feito, Herivelto Martins tinha sua primeira musica gravada em 1932 em discos Victor pelo conjunto Tupi. Logo passou a atuar no coro de gravações da Victor e caiu nas graças do diretor, Mr. Evans, que gostou muito de seu estilo e de suas inovações.

Da cor do meu violão
Herivelto Martins e J. B. de Carvalho
Intérprete: Conjunto Tupi 1932

Em 1933 formou com Francisco Sena a “Dupla Preto e Branco” e passaram a se apresentar no Cine Odeon substituindo o Conjunto Tupi.  O primeiro disco da dupla foi lançado em 1934 com os sambas “Quatro Horas” de Herivelto e Francisco Sena e “Preto e Branco” de Herivelto. Em 1935 já fazia sucesso nas vozes de grandes nomes do rádio, como Aracy de Almeida, Silvio Caldas e Carlos Galhardo. Mas a carreira da dupla Preto e Branco seria interrompida ainda em 1935 com a morte de Francisco Sena.

Preto e branco
Herivelto Martins
Intérprete: Dupla Preto e Branco, 1934

Herivelto passou a se apresentar no Teatro Pátria que ficava no Largo da Cancela em São Cristóvão. Personificou na ocasião o palhaço "Zé Catinga", que fez bastante sucesso, especialmente entre as crianças. Foi quando conheceu Nilo Chagas e com ele acabou recriando a dupla Preto e Branco que lançou em 1937 um novo disco com o samba “Tamborim”de Herivelto e Jota Soares  e a toada “Última Festa” de Herivelto e Zeca Ivo.

Nilo Chagas, Herivelto e Dalva, o Trio de Ouro

Foi também no Teatro Pátria que conheceu Dalva de Oliveira que logo passou a se apresentar com a dupla e chegou a lançar em 1937 um disco com o nome de Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco. No disco, dois sambas de Príncipe Pretinho: “Itaquari” e “Ceci e Peri”. O disco foi um sucesso e o trio foi contratado pela Rádio Mayrink Veiga, um grande passo na carreira de Herivelto. A partir de então, o trio passou a ser conhecido como “Trio de Ouro”, nome dado pelo locutor César Ladeira. Em 1939 Herivelto e Dalva oficializam sua união em um ritual de umbanda. Viveram juntos por quase 10 anos.

A partir daí Herivelto tornou-se um sucesso, seja como intérprete, seja como compositor, gravado por Francisco Alves, Carmem Miranda, Silvio Caldas, Linda Batista e uma enorme lista com os maiores cantores da época. Até no cinema fez algumas participações. A formação original do Trio de Ouro se desfez em 1949 quando Herivelto e Dalva se separaram e Dalva de Oliveira deixou o grupo. O trio teve ainda outras formações, mas prefiro deixar essa história pra uma postagem a parte... O Trio de Ouro tem gravações importantíssimas e sua história merece ser contada separadamente.

Em 1987 Herivelto Martins recebeu o Prêmio Shell, na época o mais importante prêmio brasileiro, pelo conjunto de sua obra, com mais de 300 canções. Entre seus parceiros figuram nomes como Benedito Lacerda, Heitor dos Prazeres, David Nasser, Príncipe Pretinho, Ataulfo Alves, Ciro Monteiro e mais uma ou duas dúzias de bambas.

Herivelto faleceu em 1992, aos 80 anos,  no Rio de Janeiro.


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Quando quiseres (Manacéa)


Esse samba eu aprendi com meus amigos lá do Brasil 41, o samba mais quente de BH, e desde então fiquei viciado... Manacéa na vitrola:


Quando você se arrepender
E quiser que o nosso amor volte a viver
O meu coração não lhe aceitará
Você de tristeza vai chorar

Tenho certeza que amor igual ao meu
Você não vai encontrar
E eu que queria tanto, tanto
Construir um lar feliz para nós dois
E você não quis




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sábado, 28 de janeiro de 2012

Salve o Almirante Negro...

Sempre que ouço isso fico arrepiado! Linda homenagem do pessoal de São Paulo a João Cândido, o Almirante Negro, personagem da revolta das chibatas. Só de curiosidade, um famoso samba do João Bosco chamado "O Mestre Sala dos Mares" fala também do Almirante Negro, porém devido à censura, teve em sua letra o nome trocado por "Navegante Negro".




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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Paulo da Portela concorre a titulo de maior personalidade dos 80 anos de desfile das escolas de samba

O jornal Extra lançou recentemente um concurso com a audaciosa missão de escolher a maior personalidade dos 80 anos de desfiles das escolas de samba cariocas, comemorados em 2012. Na lista, nomes que marcaram os desfiles desde 1932 até os dias de hoje: Dona Ivone Lara, a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de uma escola; Jamelão, um dos maiores intérpretes de samba enredo de todos os tempos (da época em que o samba enredo era interpretado e não gritado como hoje...) e Cartola, que dispensa apresentações... Outros ficaram de fora, como o grande Silas de Oliveira, tido como o maior compositor de sambas enredo que já existiu para dar lugar a Joãozinho 30 e Fernando Pamplona, duas figuras que pouco tem a ver com o samba propriamente dito...

Dentre os diversos nomes da lista, destaca-se o de Paulo da Portela, se não o maior, com certeza o mais importante de todos os sambistas cariocas. Praticamente esquecido em tempos onde o carnaval já não é mais uma festa do povo, dos sambistas ou das escolas de samba, Paulo merece esse premio por tudo o que fez pelo samba em uma época onde a figura do sambista não era bem vista pela sociedade. Paulo tirou o samba da "marginalidade" e o inseriu com grande êxito na sociedade. Chegou a reunir uma multidão estimada em 100 mil pessoas para recebê-lo quando ganhou o titulo de "Cidadão Momo" em 1936 (Ouça a história nesse documentário, aos 26:30 min).


Portanto, vamos votar no mestre Paulo antes que o Joãozinho 30 ganhe essa parada! Nos dias de hoje, ver Paulo da Portela eleito é a maior, talvez a única alegria que um sambista pode ter no carnaval!





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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Alcides Malandro Histórico

Mestre Alcides fala sobre o festival realizado na casa de Zé Espinguela com a participação do Estácio, Mangueira e Portela e canta um lindo samba de Heitor dos Prazeres que foi levado para a disputa naquele ano. Vale um dos únicos registros do Mestre. (Postado pelo Edinho do PSTM).





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Herivelto e sua musica...

Herivelto Martins canta alguns de seus grandes sucessos em um programa de TV. As musicas apresentadas são: Caminhemos (Herivelto Martins e Heitor dos Prazeres), Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto), Saudosa Mangueira (Herivelto Martins), Mangueira não (Herivelto Martins e Grande Otelo) e Laurindo (Herivelto Martins):



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sábado, 21 de janeiro de 2012

Silvio Caldas

Programa Mosaicos da TV Cultura com o grande cantor Silvio Caldas. Um dos maiores cantores que nossa musica já conheceu. Com participações de Sérgio Cabral, Noite Ilustrada, entre outros, além de depoimentos do próprio Silvio Caldas.







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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Mário Lago

Trechos do programa Ensaio da TV Cultura, gravado em 1973 com o compositor (ator, escritor..) Mário Lago. Mário é autor de grandes clássicos da musica brasileira e teve seu centenário comemorado em 2011. Aqui no Receita publiquei uma coletânea com áudios de seus sambas em 78 rpm, acompanhados de um encarte com as letras e informações sobre as gravações. 

Leva meu coração
Mário Lago e Roberto Martins
Programa Ensaio, TV Cultura, 1975



Abaixo segue a gravação original deste samba, feita em 1945 pelo cantor Roberto Paiva em disco 78 rpm:


Leva meu coração que ele é teu
Leva que está pesando em meu peito
Pesa mais que a saudade
Do nosso amor que morreu
Pois não te vendo ao teu lado
Meu coração não é meu

Mas tem cuidado, por Deus, com meu coração
Não deixes o pobrezinho sem proteção
Talvez um dia eu te esqueça
Alguém me vire a cabeça
Pra amar de novo eu preciso de um coração


Outros Trechos do Programa Ensaio com Mário Lago:


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A inovação de um universo popular - Por Thomás Lopes

Mais um ótimo texto do amigo Thomás Lopes Ferreira:

Comparo o meu Brasil 
A uma criança perdulária
Que anda sem vintém
Mas tem a mãe que é milionária
E que jurou batendo o pé
Que iremos à Europa
Num aterro de café
Nisto eu sempre tive fé
(Noel de Medeiros Rosa)

Como cultura popular, o samba atravessou o século XX, permanecendo vivo, se (re) fazendo e se (re) construindo ao longo de todo esse breve século. Cambaleou alguns passos anos para cá, outros passos anos para lá, mas apesar dos pesares, conseguiu contagiar uma quantidade expressiva da população brasileira. 

Por certo, esse dito universo tem algo para além de um simples estilo musical. Uma pista que nos ajuda a decifrar talvez venha da sua infinita diversidade, aberta por uma linguagem fácil e moderna, na qual instrumentos eruditos e populares sobrepõem sonoridades de distintas origens, e cuja harmonia e estrutura rítmica se entrelaçam formando um nó impossível de desatar. Um conjunto forte unido à composição de uma letra que insiste em relatar o cotidiano dos que labutam diariamente, formam as armas em punho que se apresentam no fazer tocar. 

Muito se fala do samba como algo do imaginário antigo, do que já se passou, e que deveríamos preservar. Ideia que se aproxima do folclórico, no qual o papel que nos cabe seria guardá-lo de maneira imutável, exaltando a construção parada no tempo que rejeita a inovação, fermento indispensável para a criação e consequentemente a perpetuação ao longo de décadas. Músicas e polêmicas retrataram esse imaginário do estático que volta e meia vem à tona através de alguma, sempre atenta, língua afiada. 

Essa concepção choca-se com a dita necessidade de inovar sempre. A máxima “mudar sempre para não mudar nada” pode encaixar bem aqui, ou ainda, a mudança sem critério, nem consistência pode acabar por rebaixar a qualidade de um significado. Paulinho cantou bem essa contradição e disse que “ta legal, mas não altere o samba tanto assim” e o mestre Wilson Moreira lança a chave para seguirmos entendendo: “Lua que não muda, não muda a maré. Você não se iluda, formiga miúda não morde meu pé” e mais tarde no mesmo Okolofé vai dizer: “Vou te contar rapaz, tem malandro enrolando demais, no shopping samba o barato tá no cartaz”. Aponta, assim, a necessidade do seguir em frente sem deixar a peteca cair.

De fato o samba de pouco ou nada tem de folclórico, pelo contrário. O samba, ao menos como conhecemos, é moderno e recente. Marca o início de uma profunda modificação que esse rincão de terra enfrentou na passagem do séc. XIX para o XX. Décadas de vendavais, que conformou boa parte das grandes cidades brasileiras, criando o cimento para a tal da unidade nacional, que veio, não sem uma profunda divisão entre os que aqui se reproduziam. Por sua origem, linguagem e conteúdo ser colado com um período que deixou cicatrizes profundas, o fenômeno social, samba, se forja tão intensamente que o permite se (re) criar por diversas vezes, valendo-se para isso da imensa contribuição cultural que os tempos difíceis insistem em nos possibilitar. 

Era a segunda metade do século XIX e o vale do Paraíba comprimia em suas fazendas a maior parte de um povo escravo, que com ladainhas e lundus, tentavam explicar os motivos de uma vida sempre tão árdua, sob olhos sempre atentos de feitores, chibatas e troncos. Ouço por ai, que negro de senzala que ficava do lado do feitor, não tinha o direito de tentar decifrar mistérios numa roda de jongo e se caso o fizesse, a punição por parte dos outros de mesma cor, era drástica, mesmo sabendo-se que quem o punisse seria ainda mais punido sob mando do sinhô. 

Foi um dos encontros do povo negro brasileiro com a cidade, inaugurando a possibilidade de uma nova vida, agora, não mais sob os mandos e desmandos de um sinhô. Construíram vilas, bairros, casas e ruas carregando nas costas o peso do trabalho e na cabeça a esperança de ao menos ter uma oportunidade nunca antes imaginada. O rural se transformava, transformando o urbano, lançando as bases de um cotidiano de inspirações para as noites de batucadas após dias longos de suor derramado. 

Assim o Largo da banana, em São Paulo (atual estação Barra Funda do metrô), serviu de palco aos “artistas negros”, que depois de dias de carrego e descarrego dos trens, trazendo do interior a produção agrícola (e muita banana) reuniam-se em atos de impensável alegria. Mesmo com seus corpos já destruídos, os sorrisos e batucadas, danças e ritmos, influência rural de Pirapora, inauguravam o samba paulistano, que anos mais tarde um infeliz comentário tem a audácia de tentar sepultar. 

Bem ali no seio da selva de pedra que nascia, sob a sombra dos tijolos da Matarrazo, ainda em canteiros, “malandros” inventavam o futuro e criavam a imortalidade para uma região que anos mais tarde fundaria a Camisa Verde e Branco, como herança da Vila Carolina e das Perdizes. 

Enquanto isso, nas proximidades da cidade portuária fluminense, paredes de barro e pau a pique subiam, quintais batucavam e as tias baianas organizavam o que, a primeira vista, parecia caótico. A região da zona portuária e bairros próximos, depois batizada de Pequena África, será o primeiro reduto, onde a Pedra do Sal, local de tantas cicatrizes, e a Praça Onze serviriam de ponto de encontro para os primeiros blocos se arregimentarem. 

Logo surgem figuras emblemáticas que irão colocar mais lenha nessa fogueira carioca. Tia Ciata, uma das primeiras a organizar, Donga, mais tarde, é o primeiro a gravar e a turma do Ismael fundará a escola primeira no largo do Estácio. Pixinguinha dá continuidade ao uso de instrumentos eruditos, já “amansados” através da segunda metade do século XIX, pelo Choro Carioca de Joaquim Callado. Juntos em Caxangá e Oito Batutas, João da Baiana, Donga e Pixinguinha abusam do caldeirão popular, agora urbano, e se fazem (teimosos que são) a santíssima trindade da música popular brasileira. 

Anos mais tarde, já nas primeiras décadas do século que se abria, outros usaram estruturas do samba, para dar êxito a projetos, que de popular nada tinham. O samba ufanista é um exemplo, que apesar de bonito e cativante, como dizem alguns, socorreu, por diversas vezes, idéias que nem de perto se relacionavam com a vida desses que trabalham e se divertem a partir de suas próprias mãos. 

“Para mim, não tem problema, em qualquer canto eu me arrumo, de qualquer jeito eu me ajeito e depois o que eu tenho é tão pouco, minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás, mas (...) e essa gente ai, hein, como é que faz?”. Adoniram com sua sátira, nas décadas de 50, ridicularizava a idéia de progresso paulistano, denunciando suas contradições, dando continuidade ao olhar popular de um universo citadino já consolidado. Iracema, quem diria, vai morrer atropelada na contra mão de uma paulicéia já inundada de carros e bondes. 

Noel, duas décadas antes de Adoniram irá fornecer uma vasta crônica sobre a cidade maravilhosa fantasiada pela Belle Epoqué. Malandros, primas, boêmios, vagabundos e claro, trabalhadores farão parte de um novo modo carioca de se viver retratado nas centenas de musicas gravadas ou não; por esse que viveu intensamente e talvez por isso nos deixou tão cedo. O poeta da vila irá inovar também, trazendo a tona um convite para percebermos melhor o mundo que vivemos e suas constantes modificações no nosso dia a dia. “Baleiro, jornaleiro; Motorneiro, condutor e passageiro; Prestamista e o vigarista (...) E o bonde que parece uma carroça, Coisa nossa, muito nossa (...) O samba, a prontidão e outras bossas, são nossas coisas, são coisas nossas!”.

A estrutura do samba está intimamente ligada ao lamento e à alegria, à critica, ao sorriso e à vivência do cotidiano de uma população pobre. O ser popular do samba, não impediu dele continuar sendo inovador, dele se modificar sem perder a imensa estrutura melódica que o originou, pois se vale justamente dela para sua continuação. Esse tal do popular me parece ser mais profundo do que o simples tocar na rádio todo dia, pois não se trata apenas de quantidade, mas sim, de um processo social que se transforma e se renova constantemente, bebendo para isso nos elementos que o possibilitou. 

O caminhar da historia não se faz com geometria, como explicam e querem alguns. Saber resgatar o que tem de rico, e com essa bagagem ser capaz de inovar, é um aprendizado que o samba demonstrou ter ao longo de toda a sua trajetória. Mesmo que uns concordem ou não.

Final de primavera, início do verão, quando o sol já predomina sob nossas cabeças e as nuvens trazem as pancadas nos finais da tarde.

 Thomás Lopes Ferreira




segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Herivelto Martins e a Praça Onze....

Praça 11 de Jinho
Em 1941, Hereivelto Martins foi procurado pelo amigo Grande Otelo que trazia uma letra sobre o fim da Praça Onze, que seria demolida para a construção da Avenida Presidente Vargas. 

Ao dar uma olhada na letra,  gigantesca, Herivelto disse que não estava interessado. Grande Otelo insistiu tanto que Herivelto acabou compondo uma nova letra e fez o samba sozinho. Incluiu o amigo apenas por ter sugerido o tema. 

Nascia ali um dos maiores sucessos do compositor, o samba "Praça Onze", gravado em 1941 pelo Trio de Ouro e que foi um grande sucesso no carnaval do ano seguinte:


Praça Onze
Herivelto Martins e Grande Otelo
Intérprete: Trio de Ouro, 1941


Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai
Chora o tamborim, chora o morro inteiro
Favela, Salgueiro, Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai

Adeus, minha Praça Onze, adeus
Já sabemos que vais desaparecer
Leva contigo a nossa recordação
Mas ficarás eternamente em nosso coração
E algum dia nova praça nós teremos
E o teu passado cantaremos


Fato é que o tema sugerido por Grande Otelo inspirou Herivelto e a Praça Onze passou a ser um "personagem" constante em seus sambas. Muitas vezes em parceria com o amigo Grande Otelo:

No samba "Laurindo", gravado em 1942 e lançado em 1943 pelo Trio de Ouro o famoso Laurindo, personagens de tantos sambas daquela época, não acredita no fim da Praça Onze e convoca toda a escola pra descer o morro e mostrar o carnaval na cidade. Mas chegando lá...

Laurindo
Herivelto Martins 
Intérprete: Trio de Ouro - 1942


Laurindo sobe o morro gritando
Não acabou a Praça Onze, não acabou
Vamos esquentar os nossos tamborins
Procure a porta-bandeira
E põe a turma em fileira
E marca ensaio pra quarta-feira

E quando a escola de samba chegou
Na Praça Onze não encontrou
Mais ninguém, não sambou
Laurindo pega o apito
Apita a "evolução"
Mas toda a escola de samba
Largou bateria no chão
E foi-se embora cantando
E daí a pirâmide
Foi aumentando, aumentando


Em "Bom dia avenida" a dupla Herivelto e Grande Otelo narra o surgimento da nova Avenida Presidente Vargas, construída após a demolição da Praça Onze e questionam se o carnaval vai continuar na nova avenida...

Bom dia avenida
Herivelto Martins e Grande Otelo
Intérprete: Trio de Ouro, 1943


Lá vem a nova avenida
Remodelando a cidade
Rompendo prédios e ruas
Os nossos patrimônios da saudade
É o progresso!
E o progresso é natural
Lá vem a nova avenida
Dizer à sua rival
Bom dia Avenida Central!

A União das Escolas de Samba
Respeitosamente faz o seu apelo
Três e duzentos de selo
Requereu e quer saber
Se quem viu a Praça Onze acabar
Tem direito à Avenida
Em primeiro lugar
Nem que seja depois de inaugurar
Nem que seja depois de inaugurar


No samba "Mangueira não", novamente a dupla Herivelto e Grande Otelo pegam carona nas mudanças ocorridas no Rio de Janeiro que já haviam resultado na demolição da Praça Onze. Dessa vez os compositores temem pelos outros grandes redutos do samba como o Estácio e o Morro de Mangueira, porém mostrando uma certa preferência à Mangueira. O mangueirense Cartola compôs o samba "Silenciar a Mangueira" que soa como uma resposta ao samba de Herivelto, dizendo: "Silenciar a Mangueira não disse alguém / uma andorinha só não faz verão também / Devemos ter adversários como Oswaldo Cruz / Diz o provérbio da discussão é que nasce a luz"...

Mangueira não!
Herivelto Martins e Grande Otelo
Intérprete: Francisco Alves e Trio de Ouro, 1943


Acabaram com a Praça Onze
Demoliram praças e ruas, eu sei
Podem até acabar com o Estácio
O velho Estácio de Sá
Derrubem todos os morros
Derrubem meu barracão
Silenciar a Mangueira, não!

Mangueira foi um morro
Que nasceu sambando
Mangueira foi um morro
Que viveu cantando

Mangueira nasceu
Mangueira cresceu
Fala tamborim
Fala bateria
Ninguém há de dizer
Que Mangueira faleceu
Mangueira não morre! 



Em "Carnaval com quem?" a dupla Herivelto e Grande Otelo relembram o sucesso do samba "Praça Onze" e outros sucessos de Herivelto como "Laurindo" e "Fala Claudionor", usando passagens desses sambas na letra:

Carnaval com quem?
Herivelto Martins e Grande Otelo
Intérprete: Grande Otelo, SD


Fazer carnaval com quem?
Olho e não vejo ninguém
Dodô desapareceu
Claudionor foi em cana
E Laurindo morreu

Saudades do carnaval de 43
Se eu pudesse eu cantava outra vez
"Vão acabar com a Praça Onze"
Tempo bom que não volta mais
Saudade de outros carnavais

Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais escola de samba, não vai
Laurindo sobe o morro gritando
Não acabou a Praça Onze não acabou
E chora no meu ombro a tua dor



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domingo, 15 de janeiro de 2012

Segunda Lapa - 16/01

Pessoal, quem é do Rio não pode perder o encontro dessa turma de bambas. Alfredo Del Penho, João Cavalcanti, Moyséis Marques e Pedro Miranda repetem a dose nessa segunda, dia 16 devido ao grande sucesso do show "Segunda Lapa", apresentado semana passada no Studio RJ. Como aperitivo eles prepararam um video super legal, dá só uma olhada:



Segunda Lapa
Data: 16 de Janeiro
Horário: 21:30 h
Local: Studio RJ
Preço: R$ 40,00 (Salgado hein pessoal!)
Lista amiga (Desconto de R$ 20,00) - Clique Aqui


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Todo mundo te conhece ao longe...




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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Herivelto Martins 100 anos



Nascido na pequena cidade de Engenheiro Paulo de Frontin, RJ, no dia 30 de janeiro de 1912, Herivelto de Oliveira Martins foi um dos maiores nomes da musica brasileira durante os anos 30 e 40. E o centenário desse grande compositor, autor de clássicos como “Cabelos Brancos”, “Praça Onze”, “Saudosa Mangueira”, entre outros lindos sambas, será o assunto do mês aqui no Receita. Contarei alguns casos interessantes e passearemos pelo Rio antigo, contado nos versos de Herivelto e seus inúmeros parceiros. Pra quem não conhece, começo com uma breve biografia do compositor.

A lapa
Herivelto Martins e Benedito Lacerda
Intérprete: Francisco Alves, 1949

Herivelto conheceu o mundo das artes muito cedo. Seu pai, Félix Bueno Martins, era apaixonado por teatro e tinha o costume de promover grupos teatrais amadores  da cidade, atividade na qual fazia questão de envolver os filhos. Com apenas três anos de idade o pequeno Herivelto já participava dos espetáculos promovidos pelo pai. Usava uma casaca branca e recitava versos como “Nasci pra namorar / Toda moça bonita que eu vejo / Dá vontade de casar”. De 1916 a 1929 a família morou em Barra do Piraí onde o pai de Herivelto, o “seu Bueno” fundou uma espécie de companhia de teatro chamada “Sociedade Dramática Dançante Carnavalesca de Barra do Piraí”. Influenciado pelas atividades artísticas do pai o pequeno Herivelto acabou montando sua própria peça com os irmãos e amigos da vizinhança. Foi um sucesso e chegavam a cobrar ingressos para as apresentações. Aos nove anos de idade compôs seu primeiro samba, chamado “Nunca Mais”

Quando já era adolescente conheceu dois artistas de circo com quem acabou montando um trio e saiu em uma pequena “turnê” apresentando um pequeno espetáculo em cidades vizinhas. O problema é que um de seus parceiros era procurado pela polícia e o trio acabou sendo preso. Pra sorte de Herivelto, o delegado percebeu que o jovem entrou de gaiato nessa confusão e o mandou de volta pra casa. 

Aos dezoito anos, depois de uma breve passagem por São Paulo, Herivelto vai tentar a sorte no Rio de Janeiro. Tinha pouco dinheiro, muita disposição e pra sua sorte, talento de sobra. No início, trabalhou em uma barbearia para garantir o seus sustento. Lá, conheceu o compositor Príncipe Pretinho que gostou muito de Herivelto e o apresentou ao compositor J. B. de Carvalho. Em certa ocasião Herivelto mostrou a J.B. a marcha “Da cor do meu violão” que compôs inspirando em uma antiga namorada que seu pai dizia ser muito escura para ele. J.B. de Carvalho gostou da musica e ofereceu gravá-la para o carnaval se Herivelto lhe desse a parceria. Assim feito, Herivelto Martins tinha sua primeira musica gravada em 1932 em discos Victor pelo conjunto Tupi. Logo passou a atuar no coro de gravações da Victor e caiu nas graças do diretor, Mr. Evans, que gostou muito de seu estilo e de suas inovações.

Da cor do meu violão
Herivelto Martins e J. B. de Carvalho
Intérprete: Conjunto Tupi 1932

Em 1933 formou com Francisco Sena a “Dupla Preto e Branco” e passaram a se apresentar no Cine Odeon substituindo o Conjunto Tupi.  O primeiro disco da dupla foi lançado em 1934 com os sambas “Quatro Horas” de Herivelto e Francisco Sena e “Preto e Branco” de Herivelto. Em 1935 já fazia sucesso nas vozes de grandes nomes do rádio, como Aracy de Almeida, Silvio Caldas e Carlos Galhardo. Mas a carreira da dupla Preto e Branco seria interrompida ainda em 1935 com a morte de Francisco Sena.

Preto e branco
Herivelto Martins
Intérprete: Dupla Preto e Branco, 1934

Herivelto passou a se apresentar no Teatro Pátria que ficava no Largo da Cancela em São Cristóvão. Personificou na ocasião o palhaço "Zé Catinga", que fez bastante sucesso, especialmente entre as crianças. Foi quando conheceu Nilo Chagas e com ele acabou recriando a dupla Preto e Branco que lançou em 1937 um novo disco com o samba “Tamborim”de Herivelto e Jota Soares  e a toada “Última Festa” de Herivelto e Zeca Ivo.

Nilo Chagas, Herivelto e Dalva, o Trio de Ouro

Foi também no Teatro Pátria que conheceu Dalva de Oliveira que logo passou a se apresentar com a dupla e chegou a lançar em 1937 um disco com o nome de Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco. No disco, dois sambas de Príncipe Pretinho: “Itaquari” e “Ceci e Peri”. O disco foi um sucesso e o trio foi contratado pela Rádio Mayrink Veiga, um grande passo na carreira de Herivelto. A partir de então, o trio passou a ser conhecido como “Trio de Ouro”, nome dado pelo locutor César Ladeira. Em 1939 Herivelto e Dalva oficializam sua união em um ritual de umbanda. Viveram juntos por quase 10 anos.

A partir daí Herivelto tornou-se um sucesso, seja como intérprete, seja como compositor, gravado por Francisco Alves, Carmem Miranda, Silvio Caldas, Linda Batista e uma enorme lista com os maiores cantores da época. Até no cinema fez algumas participações. A formação original do Trio de Ouro se desfez em 1949 quando Herivelto e Dalva se separaram e Dalva de Oliveira deixou o grupo. O trio teve ainda outras formações, mas prefiro deixar essa história pra uma postagem a parte... O Trio de Ouro tem gravações importantíssimas e sua história merece ser contada separadamente.

Em 1987 Herivelto Martins recebeu o Prêmio Shell, na época o mais importante prêmio brasileiro, pelo conjunto de sua obra, com mais de 300 canções. Entre seus parceiros figuram nomes como Benedito Lacerda, Heitor dos Prazeres, David Nasser, Príncipe Pretinho, Ataulfo Alves, Ciro Monteiro e mais uma ou duas dúzias de bambas.

Herivelto faleceu em 1992, aos 80 anos,  no Rio de Janeiro.


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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Documentário: Os avós do samba

Documentário gravado em 1978 com depoimentos de Carlos Cachaça e sua esposa, Dona Menininha, Nélson Cavaquinho tocando bandolim, Adoniran Barbosa, Demônios da Garoa, Mano Décio, Cartola e Dona Zica

Parte 1



Parte 2




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