terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Native Brazilian Music: Disco e Documentário

Villa Lobos e Stokowski

No verão de 1940 chegava ao Rio de Janeiro o maestro Leopold Stokowski que contando com a ajuda do amigo e também maestro Heitor Villa Lobos, tinha a missão de reunir a nata dos compositores cariocas para a gravação de um disco que deveria reunir amostras da "mais legitima musica popular brasileira" e que levaria o samba de Cartola, Zé da Zilda, Donga e outros compositores para além das terras brasileiras. Era inclusive, a primeira vez que a voz de Cartola aparecia em disco.

O disco foi gravado a bordo do navio Uruguai. Leia uma reportagem publicada no Jornal "A Noite" de 8 de agosto de 1940 e extraido do livro "Todo o tempo que eu viver" de Roberto Moura:

[...] O salão de música do Uruguai em toda sua existência talvez não tenha abrigado tantas celebridades como o fez ontem à noite. [...] Às 22 horas, começou a concentração dos conjuntos, escolas de samba, orquestra, gente que ia cantar e gente que ia ouvir. Nesse último grupo, o próprio comandante do navio, que logo tomou lugar em uma cômoda poltrona, de onde acompanhou todo o desfile. Pixinguinha, Jararaca, Ratinho, Luís Americano, Augusto Calheiros, Donga, Zé Espinguela, Mauro César, João da Baiana, Janir Martins, Uma ala do Saudade do Cordão [sic], que tanto sucesso alcançou no último carnaval, a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, o compositor David Nasser, toda essa gente fala, comenta, discute, até que tem início a trabalho das gravações. 

À medida que os ponteiros dos relógios correm, os passageiros do Uruguai voltam dos seus passeios pela cidade e vão tomando lugar no vasto salão. E os grupos se sucedem diante do microfone na tarefa das gravações. Já passava muito da meia-noite quando chegaram os maestros Stokowski e Villa-Lobos. Os fotógrafos se movimentam, na ânsia de colher os melhores flagrantes, mas o famoso régisseur de Filadélfia foge discretamente das objetivas. Por fim, desaparece de vez do salão. Mas em seu lugar fica Pixinguinha, que absorve a atenção geral com seu famoso “Urubu Malandro”.

E, assim, de número em número, passa a noite e já é a madrugada que surge. O salão de música do Uruguai ainda cheio. Agora, a maior parte da platéia é constituída dos elementos da All American Youth Orchestra, que, curiosos, procuram conhecer os instrumentos típicos. Pela manhã, o homem do controle podia contar mais de uma centena de gravações. Aquilo é o trabalho de uma noite e é, também, a música brasileira na sua expressão mais típica, que vai para os outros países do Continente servir à política pan-americana de aproximação dos povos deste hemisfério."

Na sexta-feira, 9 de agosto, com pelo menos quarenta músicas gravadas (alguns dizem uma centena), Stokowski deu adeus ao Rio de Janeiro e partiu para São Paulo. 

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A Columbia Records lançou as gravações de Stokowski feitas no Uruguay no inicio de 1942 sob o título Native Brazilian Music. Das quarenta músicas gravadas, apenas dezessete aparecem em dois álbuns, cada um contendo quatro discos 78-RPM. As notas na contracapa anunciavam:

Aqui neste álbum da Columbia Records você tem a música autêntica do Brasil... tocada primorosamente por músicos nativos... selecionada e gravada sob a supervisão pessoal de Leopold Stokowski.

Estas gravações significantes foram feitas durante a turnê do Maestro Stokowski pela América do Sul com a All-American Orchestra. Nas várias paradas da turnê, Dr. Stokowski ouviu a música nativa popular e folclórica do modo como é interpretada pelos músicos de nossos estados Bons Vizinhos. Para a gravação ele escolheu o que achava ser melhor e o mais típico.

A Columbia nunca lançou Native Brazilian Music no Brasil, e por quarenta e sete anos as únicas cópias conhecias poderiam ser contadas nos dedos de uma mão. A maioria dos músicos morreu sem nunca ter ouvido as gravações. Poucos foram pagos por elas. Cartola recebeu uns míseros 1.500 réis, o suficiente para comprar três maços de cigarro baratos, um ano e meio depois das gravações. Em uma entrevista dada a Sérgio Cabral em 1974, Cartola disse que finalmente ouviu “Quem Me Vê Sorrir”—sua primeira gravação cantando—na casa de Lúcio Rangel uns bons vinte anos depois das sessões no Uruguay. 

Nem o governo do Brasil nem qualquer outra entidade brasileira fez algum esforço para recuperar estes gravações. Em 1987, durante o centenário de Villa-Lobos, o Museu Villa-Lobos (MVL) no Rio de Janeiro lançou os 16 áudios de Native Brazilian Music em um LP. A música foi transferida não a partir das matrizes originais, cujo paradeiro (se sobreviveram) continuou desconhecido, mas a partir de discos 78 rpm doados pelo colecionador Flávio Silva.


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Segue uma lista das musicas gravadas com algumas notas sobre cada um:


Macumba de Oxóssi (Donga/José Espinguela)
Intérprete: Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá
Uma macumba em louvor de Oxóssi, orixá da floresta e da caça, sincretizado como São Sebastião no Rio de Janeiro, e como São Jorge na Bahia. Pequenas frases de chamada e resposta em Yoruba, cantadas por solista masculino e coro feminino acompanhados por uma batucada potente.

Macumba de Iansã (Donga/José Espinguela)
Intérprete:Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá
Uma macumba em louvor de Iansã, orixá feminino da espada de fogo, sincretizada como Santa Bárbara. Solista masculino e coro feminino acompanhados de batucada (chamada “Camandauê”.

Ranchinho Desfeito (Donga/De Castro e Souza/David Nasser)
Intérprete:Mauro César
Um Samba-canção simples, cantado no estilo vocal de Orlando Silva e acompanhado pelo conjunto regional de Donga e a excelente flauta de Pixinguinha.

Caboclo do Mato (Getúlio Marinho da Silva “Amor”)
Intérprete: João da Bahiana, Janir Martins e Jararaca
Corima contendo frases curtas de chamadas (João) e respostas (Janir e Jararaca), improvisos de flauta por Pixinguinha, e o famoso pandeiro de João.

Seu Mané Luiz (Donga)
Intérprete: José Gonçalves (aka Zé da Zilda) e Janir Martins
Samba humorístico em um dueto de casal, acompanhado pelo regional de Donga com solo de flauta de Pixinguinha e percussão.

Bambo do Bambu (Donga)
Intérprete: Jararaca e Ratinho
Embolada tipicamente rápida, trava-língua, acompanhada por um regional com o violão de Laurindo de Almeida.

Sapo no Saco (Jararaca)
Intérprete: Jararaca e Ratinho
Uma clássica embolada veloz, cantada em dueto e acompanhada por um regional, esta foi uma das poucas músicas contidas nos álbuns da Columbia que foram gravadas anteriormente.

Que Quere Que Quê (João da Bahiana/Donga/ Pixinguinha)
Intérprete: João da Bahiana e Janir Martins
Macumba carnavalesca contendo chamadas masculinas e respostas femininas, com o pandeiro de João e os improvisos de Pixinguinha na flauta. Previamente gravada em 1932 como “Que Querê” com autoria atribuída aos três músicos, esta música provavelmente foi composta apenas por João.

Zé Barbino (Pixinguinha/Jararaca)
Intérprete: Pixinguinha e Jararaca
Um maracatu com metais e percussão intercalados por duos vocais masculinos. Uma gravação rara de Pixinguinha cantando. 

Tocando pra Você (Luiz Americano)
Intérprete: Luiz Americano
Um choro de três partes [estrutura a-b-a-c-a] com solo de clarineta acompanhado por um regional com João da Bahiana tocando pandeiro.

Passarinho Bateu Asas (Donga)
Intérprete: José Gonçalves (aka Zé da Zilda)
Samba com solo masculino e refrão cantado por um casal, acompanhados pela flauta de Pixinguinha e o regional de Donga. Esta famosa composição havia sido gravada por Francisco Alves em 1928.

Pelo Telefone (Donga/Mauro de Almeida)
Intérprete: José Gonçalves (aka Zé da Zilda)
O famoso samba, com solo masculino e coro feminino, a flauta brilhante de Pixinguinha, e o regional de Donga.

Quem Me Vê Sorrir (Cartola/Carlos Cachaça)
Intérprete: Cartola e coro da Mangueira
Outro clássico do samba cantado por Cartola com as vozes agudas das pastoras da Mangueira, com grunhidos expressivos de cuíca, Aluísio Dias no violão, e a potente batucada dos percussionistas da Mangueira. Primeira gravação com a voz de Cartola.

Teiru/Nozani-Ná (Traditional/Heitor Villa-Lobos)
Intérprete: Quarteto do Coral Orfeão Villa-Lobos
Dois cantos ameríndios, entoadas devagar e deliberadamente por quatro professores do Orfeão Villa-Lobos. “Teiru” é um canto fúnebre para a morte de um cacique, recolhido por Roquete Pinto em 1912. Em 1926, Villa-Lobos tornou-o o segundo de seus Três Poemas Indígenas. “Nozani-Ná” está incluída nas Canções Típicas Brasileiras (1919) de Villa-Lobos.

Cantiga de Festa (Donga/José Espinguela)
Intérprete: Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá
Corima contendo solo masculino e coro feminino, batucada e palmas.

Canidé Ioune (Traditional/Heitor Villa-Lobos)
Intérprete: Quarteto do Coral Orfeão Villa-Lobos
Este canto ameríndio, recolhido pelo viajante Jean de Léry em 1553, é o primeiro dos Três Poemas Indígenas, de Villa-Lobos, publicado em 1926. É cantado por quatro professores do Orfeão Villa-Lobos.


Assista "De Batutas e Batucadas"

O documentário registra o trabalho do compositor Heitor Villa-Lobos, buscando uma aproximação da música erudita com as manifestações culturais brasileiras. O programa relembra a passagem do maestro Leopold Stokowski e sua orquestra pelo Brasil.

Parte 1



Parte 2  -  Parte 3  -  Parte 4 


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6 comentários:

Artur de Bem disse...

Manooo...
peguei um material com o pessoal de Porto Alegre e tinha um arquivo de Word com um texto retirado de algum blog/site de uma moça que estava buscando as matrizes de todas as gravações, mas q não tinha encontrado...

Até pode ser o mesmo material que tenhas, mas o texto dela é bem maior, com mais detalhes...

Se eu lembrar, em casa vou procurar isso e te mando... uma história muito louca!

Vinicius Leandro Terror disse...

E aí mano velho?
Você deve estar se referindo ao site da Daniela Thompson, o "musica brasiliensis". Dá uma olhada nesse link: http://daniellathompson.com/Texts/Stokowski/Cacando_Stokowski.htm

Foi lá que eu peguei essas informações!

Essa mulher fez várias pesquisas interessantes. Vale a pena dar uma olhada. Estou preparando um texto sobre a praça onze e ela tem muita, mas muita coisa mesmo. Tem um texto em 9 capitulos.

Abração!

Anônimo disse...

Porquê não foi feito ainda um movimento para a recuperação dessa jóia brasileira para o verdadeiro dono, o povo brasileiro.

Soube, em entrevista na tv Senado, que o maestro Leopold Stokowsky
deixou um calote de sua permanência no Rio e seguiu para São Paulo para a sua turnê, tendo debaixo dos braços todo o material grvado.
Precisamos recuperar esse material, que nos pertence!

Vinicius Leandro Terror disse...

Foi isso mesmo... dizem que o próprio Cartola só foi ouvir suas gravações décadas depois...

Yoshi Guerra disse...

Opa, irmão!
Tudo certo?

Cara, em primeiro lugar, parabéns e muito obrigado pelo trampo e pelo site...
E estou a mandar essa msg pra avisar que o link pra baixar o Native Brazilian Music tá com o link bichado...

Valeu mesmo!
Abs

David Braga / SP disse...

Senhores, vivo procurando esse tipo de material.
Estou teclando, ouvindo essa jóia rara e chorando de emoção.
Isso é lindo.
Parabéns ao responsável por isso e viva a música brasileira!
E hoje é dia de São Jorge. Saravá.
Abs