quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Capoeira de Besouro

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"Capoeira de Besouro" é uma obra prima do Paulo César Pinheiro. São 15 faixas, compostas originalmente para o musical "Besouro Cordão de Ouro" e que pra nossa felicidade acabaram reunidas nesse maravilhoso cd, lançado em 2010. 

Paulo César Pinheiro é poeta dos melhores e seu dom com as palavras dispensa maiores apresentações. Vale ressaltar a participação do Mestre Camisa, um dos maiores capoeiristas do Brasil, que toca berimbau no disco e ainda dá uma bela contribuição descrevendo cada toque no encarte do disco. Deixo aqui de aperitivo a faixa 4,  "Toque de São Bento Grande de Angola", enquanto vocês dão uma lida no texto de divulgação escrito pela Luciana Rabello:

"Besouro, nascido em Santo Amaro da Purificação, deixou seu nome gravado nas rodas de capoeira por esse Brasil inteiro. Metido em política, impunha respeito e temor aos poderosos daquele princípio de século XX na velha Bahia. Sua vida virou lenda. Além de capoeirista, também tocava violão e compunha sambas-de-roda e chulas. 



Existe um samba, chamado Canto do Besouro, cujos versos de sua autoria "Quando eu morrer/não quero choro nem vela/ quero uma fita amarela/ gravada com o nome dela" fazem parte do samba conhecido de Noel Rosa, no qual nosso poeta escreveu a segunda parte. Outro refrão deste Canto do Besouro também foi usado por Paulo César Pinheiro em Lapinha (com Baden Powell) - sua primeira música gravada e sucesso na voz de Elis Regina - com a qual venceu um dos mais concorridos festivais de música popular, a Bienal do Samba, da TV Record, em 68, hoje um clássico da MPB.

Desta canção, Paulinho usou o refrão “Quando eu morrer me enterrem na Lapinha, calça-culote, paletó-almofadinha” para o Samba de Roda, ao qual acrescentou oito novos versos. Entraram também no musical mais dez canções, feitas para cada toque do berimbau: Jogo de Dentro, Jogo de Fora, São Bento Grande, Angola Dobrada, Amazonas, Benguela, Barravento, Iúna, Santa Maria e São Bento Pequeno. 

Este CD trás, além do samba de roda e destes 10 toques, mais quatro inéditos, também feitos origalmente para o musical, mas que ficaram de fora da montagem: de Tico-Tico, Idalina, Angola e de Cavalaria. 

Capoeira de Besouro é uma linda homenagem ao Mestre dos mestres da capoeira, Besouro Mangangá, à capoeira, à Bahia, ao Brasil. Nada mais natural e bonito que seja abraçado e apresentado ao mundo através do olhar e das bênçãos de Maria Bethânia - esta legítima e fiel filha de Santo Amaro da Purificação, terra onde também nasceu o homenageado, diz o povo que em 1895 ou 1897, batizado Manoel Henrique Pereira. 

Paulinho Pinheiro faz aqui um resgate emotivo da sua própria história que, misteriosamente, teve inicio com Besouro, quando o poeta e Baden Powell venceram a Bienal do Samba com “Lapinha” - samba imortalizado na voz de Elis Regina, composto sobre refrão de Mestre Besouro Preto. Sim, são do capoeirista os versos “Quando eu morrer me enterrem na Lapinha/Calça-culote, paletó-almofadinha.” Assim, sem ter idéia da carreira que iniciava e da grandeza do que iria construir na nossa música, Paulinho adentrava os portais da música e da poesia, aos 16 anos, conduzido pelas mãos de Mangangá.

Em 2006, foi montado o musical “Besouro Cordão de Ouro”, também escrito pelo poeta, com direção de João das Neves e direção musical minha. Essas são as músicas dessa peça. Recebemos o Prêmio Shell de Teatro por esse trabalho, na categoria Melhor Música e Direção Musical! E o Besouro continua seu voo. 

Discípulo direto do Mestre, aluno do também lendário Mestre Bimba e hoje forte referência da capoeira em todo mundo, Mestre Camisa não só participa das gravações tocando o berimbau gunga, como generosamente conduz nossos passos por essas veredas cheias de fundamentos, mistérios e verdades da capoeira. São dele os textos descritivos dos toques, imprescindíveis para o mergulho do ouvinte e leitor nessa arte. 

Mas esse trabalho não pretende ser um tratado sobre a capoeira. Carece ser recebido com a suavidade e a liberdade que o olhar da poesia de Paulinho vislumbra. Então, deixe a emoção comandar e venha bater palma com a gente nessa roda de capoeira!"


Toque de São Bento Grande de Angola
Paulo César Pinheiro
Nesse mundo camará,
Mas não há, mas não há
Mas não há quem me mande
Eu só sei obedecer
Se mandar, se mandar
 São Bento Grande

É de angola, é de Angola, é de Angola
De Angola, de Angola, de Angola 

Meu avô já foi escravo
Mas viveu com valentia
Discumpria ordem dada
Agitava a escravaria
Vergalhão, corrente e tronco
Era quase todo dia
Quanto mais ele apanhava
Menos ele obedecia

É de angola, é de Angola, é de Angola
De Angola, de Angola, de Angola 

Nesse mundo camará,
Mas não há, mas não há
Mas não há quem me mande
Eu só sei obedecer
Se mandar, se mandar
 São Bento Grande

É de angola, é de Angola, é de Angola
De Angola, de Angola, de Angola 

Quando eu era ainda menindo
O meu pai me disse um dia
A balança da justiça
Nunca pesa o que devia
Não me curvo além dos homens
é a razão é que me guia
Nem que seu avô mandasse
Eu não obeceria

É de angola, é de Angola, é de Angola
De Angola, de Angola, de Angola 

Nesse mundo camará,
Mas não há, mas não há
Mas não há quem me mande
Eu só sei obedecer
Se mandar, se mandar
 São Bento Grande

É de angola, é de Angola, é de Angola
De Angola, de Angola, de Angola 

Esse mundo não tem dono
E quem me ensinou sabia
Se tivesse dono o mundo
Nele o dono moraria
Mundo é mundo sem dono
Não aceito hierarquia
Eu não mando nesse mundo
Nem no meu vai ter chefia

É de angola, é de Angola, é de Angola
De Angola, de Angola, de Angola 

Nesse mundo camará,
Mas não há, mas não há
Mas não há quem me mande
Aprendi com Mangangá
Respeitar só se for 
São Bento Grande

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