sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cartola em 78rpm


Cartola viveu duas fases bem distintas em sua carreira. Aos onze anos foi morar em Mangueira onde conhceceu Carlos Cachaça, que o apresentou ao mundo do samba e de quem veio a ser parceiro em sambas que ficaram marcados pra sempre na história da Mangueira. Catola, ao lado de Carlos, foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, sendo o responsável inclusive pela escolha do nome e das cores da escola. 

Nessa época compôs inúmeros sambas de terreiro para sua escola e já despontando como um dos mais importantes compositores do morro foi descoberto pelos cantores do rádio. No final dos anos 20, Cartola apresentou a Mário Reis o seu samba "Que infeliz sorte". Mário acabou comprando o samba por 300 contos de réis, mas quem o gravou foi Francisco Alves em 1929. 

Francisco Alves gravou diversos sambas de Cartola, como o clássico "Divina Dama" e "Não faz, amor" em parceria com Noel Rosa. Foi gravado também por Carmem Miranda, Mário Reis, Sílvio Caldas e Ataulfo Alves. No final da década de 40 o compositor e maestro Villa Lobos, admirador confesso da obra de Cartola o indicou para participar de uma série de gravações feitas pelo maestro Leopold Stokowski e que resultou no lançamento do disco "Native Brazilian Music" de 1942. Na ocasião Cartola gravou "Quem me vê sorrindo" parceria com Carlos Cachaça e este é provavelmente o primeiro registro em disco da voz de Cartola.

Cartola passou a cantar no Rádio, interpretando composições próprias e também de outros autores. Chegou a apresentar um programa ao lado de Paulo da Portela chamado "A voz do morro", onde apresentavam sambas inéditos e ainda sem nome. O interessante é que os ouvintes é que davam nome aos sambas apresentados, sendo premiados os nomes mais criativos. Ainda com Paulo da Portela e na comanhia de Heitor dos Prazeres formou, em 1941, o "Conjunto Carioca", que chegou a se apresentar em programas radiofônicos em São Paulo. Em 1948 a Mangueira foi campeã com o samba "Vale do São Francisco" parceria com o amigo Carlos Cachaça.

A carreira, que parecia despontar rapidamente, acabou sendo interrompida por uma ironia do destino. No final dos anos 40, uma meningite o impossibilitou de trabalhar por um bom tempo e a perda da mulher Deolinda deixou Cartola bastante abalado. O compositor afasta-se da mangueira, sem deixar rastro, chegando a ser dado como desaparecido ou mesmo morto pelos seus amigos e familiares.

Até que em uma noite do ano de 1956, quando trabalhava como vigia em um prédio em Ipanema, resolver tomar um café num botequim próximo e acabou sendo reconhecido pelo escritor Sérgio Porto. O escritor ao ver o "Divino Cartola" naquela situação resolveu ajudá-lo e a partir daí Cartola voltava com tudo. O Cartola que todos conhecem, do Zicartola, dos discos da Marcus Pereira, compositor de sambas refinados como "O mundo é um moinho" e "O Sol nascerá". Mas esse Cartola todos conhecem... Vamos falar mais um pouco do Cartola dos anos 30 e 40.

Preparei para vocês uma coletânea com alguns sambas dessa primeira fase do Cartola, sambas que fizeram sucesso no rádio na voz de grandes cantores como Francisco Alves e Sílvio Caldas. Sambas maravilhosos que com uma ou outra excessão, estão empoeirados nos acervos de colecionadores. Fica de "tira gosto" o samba "Na Floresta" de Cartola e Sílvio Caldas e que foi regravado recentemente pelo Tuco e seu Batalhão de Sambistas no excelente disco "Peso é Peso"

Na Floresta (Cartola e Sílvio Caldas)
Intérprete: Silvio Caldas
Data: 1933



Na floresta dei-te um ninho
E mostrei-te um bom caminho
Mas quando a mulher não tem brio
Dizem que é malhar em ferro frio

Tudo eu fiz por você
Não quisestes antender
Os meus conselhos e a minha opinião
Algum dia vais ver
Como é triste sofrer
E de joelhos vens pedir o meu perdão

O teu contentamento
Foi o meu sofrimento
Não importa, tudo isso há de acabar
E assim me contento
Esperando o momento
Que a minha porta pra você há de fechar 


(Acompanha arquivo com as letras das musicas)


Faixas

DIVINA DAMA (Cartola) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1933 
FESTA DA PENHA (Cartola e Asobert) 
Intérprete: Ari Cordovil 
Data: não definida 
FITA MEUS OLHOS (Cartola e Oswaldo Vasques) 
Intérprete: Arnaldo Amaral 
Data: 1933 
NA FLORESTA (Cartola e Sílvio Caldas) 
Intérprete: Silvio Caldas 
Data: 933 
NÃO FAZ, AMOR (Cartola e Noel Rosa) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1932 
NÃO POSSO VIVER SEM ELA (Bide e Cartola) 
Intérprete: Ataulfo Alves 
Data: 1941 
NÃO QUERO MAIS (Cartola e Carlos Cachaça)
Intérprete: Aracy de almeida 
Data: 1936 
PERDÃO, MEU BEM (Cartola) 
Intérprete: Mário Reis e Francisco Alves 
Data: 1932 
QUAL FOI O MAL QUE EU TE FIZ? (Cartola e Noel Rosa) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1932 
QUE INFELIZ SORTE (Cartola) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1929 
SIM (Cartola e Oswaldo Martins) 
Intérprete: Gilberto Alves 
Data: 1952 
QUEM ME VÊ SORRINDO (Cartola e Carlos Cachaça) 
Intérprete: Cartola 
Data: 1941 
TENHO UM NOVO AMOR (Cartola e Noel Rosa) 
Intérprete: Carmem Miranda 
Data: 1932


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4 comentários:

Fabio Gomes disse...

Alguns adendos à ficha técnica:

- O co-autor de "Fita Meus Olhos", Osvaldo Vasques, era também conhecido como Baiaco

- o samba "Não Quero Mais Amar a Ninguém" não é só de Cartola. Foi lançado por Aracy de Almeida com outro título, "Não Quero Mais", tendo segunda parte de Carlos Cachaça. Mais tarde, Hermínio Bello de Carvalho, ignorando a existência desses versos, compôs outros, alterando também o título do samba.

- Em "Qual Foi o Mal que Eu te Fiz" e "Tenho um Novo Amor", Cartola tem como parceiro Noel Rosa.

Vinicius Terror disse...

Fábio,
Muito obrigado pelas informações. Peguei esses áudios no IMS e lá não constam essas informações. Já corrigi na postagem!
Grande abraço!

Fabio Gomes disse...

Fico feliz em poder colaborar, Vinicius.
Grande abraço!

ceintsdebakelite disse...

Hello, here is another samba 78rpm recording, "Olha o côco Sinhá", performed by Zé e Zilda in 1953 : http://ceintsdebakelite.wordpress.com/2011/10/09/ze-e-zilda-olha-o-coco-sinha/