segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cabide de Molambo

João da Baiana
O samba "Cabide de Molambo" foi composto na década de 10 e, de fato, podemos notar o quanto é antigo pelas menções à guerra de Canudos (final do século 19) e à Ilha de Sapucaia (que foi aterrada e hoje abriga parte das instalações da UFRJ). Inspirado em um personagem real, o samba fala sobre uma figura bastante conhecida no Rio de Janeiro naqueles tempos.

Um velho malandro que apesar de andar sempre na maior miséria, dependendo dos amigos para sobreviver, tentava a todo custo disfarçar sua condição de "quase mendigo", como relata João da Baiana nos primeiros versos do samba... O nome desse malandro, que também era poeta, ninguém sabia e acabaram apelidando-o de "Cabide de Molanbo" (Fonte).

Em depoimento ao MIS em 1966, João da Baiana diz que esse samba pode ter influenciado Noel Rosa a compor "Com que roupa", um de seus maiores sucessos.

A primeira gravação de "Cabide de Mulambo" foi feita por Patrício Teixeira em 1932 em disco 78rpm:


"Cabide de Molambo" foi gravado pelo próprio João da Baiana no excelente disco "Gente da Antiga". Gravado em três dias, entre 10 e 17 de janeiro de 1968, essa jóia do samba conta, além de João da Baiana (pandeiro e voz) com: Clementina de Jesus (voz), Pixinguinha (sax-tenor), Dino e Meira (violões), Canhoto (cavaquinho), Marçal, Luna e Jorge Arena (percussão), entre outros bambas.


Cabide de Molambo (João da Baiana)

Meu Deus eu ando com o sapato furado
Tenho a mania de andar engravatado
A minha cama é um pedaço de esteira
E uma lata velha, que me serve de cadeira
Minha camisa foi encontrada na praia
A gravata foi achada na ilha da Sapucaia
Meu terno branco parece casca de alho
Foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho

Meu Deus, meu Deus...

E o meu chapéu foi de um pobre surdo e mudo
As botinas foi de um velho da revolta de Canudos
Quando eu saio a passeio as almas ficam falando
Trabalhei tanto na vida pro malandro estar gozando

Meu Deus, meu Deus....

A refeição é que é interessante
Na tendinha do Tinoco no pedir eu sou constante
Seu português, meu amigo sem orgulho
Me sacode um caldo grosso carregado no entulho

Meu Deus, meu Deus...

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2 comentários:

P.Nathan disse...

E provavelmente também deve ter inspirado o Noel a compor "O Orvalho Vem Caindo", pois essa letra lembra muito.

Professor Mestre Altair Alves Ribeiro disse...

O comentário acima (e o do João da Baiana, se é que ele o fez), não tem o menor fundamento
Noel Rosa é o maior talento criador da música brasileira de todos os tempos. Em apenas sete anos, aproximadamente, compor cerca de 300 músicas (e quase tudo obra-prima)é coisa de um autêntico gênio. Quem chegou perto dessa trajetória com apenas 26 anos e meio? Nasci em Porto Alegre, mas sou amante do samba e da obra de Noel, acima de tudo, desde criança. Sou estudioso e pesquisador da sua obra, que, modéstia à parte, conheço bastante. (Prof. Ribeiro)