quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Estamos velhos, mas ainda não morremos

Portelinha, Rio de Janeiro
É rapaziada, o Receita tá ficando chique... Cheio de colaboradores de peso. Depois do ótimo texto enviado pelo Tuco, agora é a vez do amigo Thomás Lopes, que me mandou um belo texto inspirado não apenas no centenário do mestre Chico Santana, mas nesse movimento que vem arrebatando a juventude desse Brasil em busca de um resgate legítimo da obra dos grandes mestres do passado, da história das escolas e seus antigos terreiros cheios de samba e poesia. É o samba voltando a ser feito de pé no chão, com amor e respeito:



E ainda tem uns moleques teimosos por aí... 
(Estamos velhos mas ainda não morremos)
Por Thomás Lopes Ferreira

Quando o vapor berrou no vale do Paraíba, logo após sinhá Izabel assinar a carta de alforria, descendentes de bantos, benguelas e monjolos juntaram seus trapos em busca de oportunidade na cidade portuária e logo se arregimentaram no nascente subúrbio carioca. O século XIX finalizava e morros como Serrinha, Congonhas e Tamarineira, assim como o bairro próximo de Oswaldo Cruz, já marcavam o ritmo de uma localidade chamada Madureira.

Ouro Preto, MG
Lá, nas casas das famosas tias: rangos e rezas, jongos, lundus e cachaças davam vida aos corpos manchados de sol, suor e trabalho. Carregar e descarregar mercadorias do porto compunha a labuta diária de um povo, agora “liberto” para trabalhar ainda mais. Sob os olhares atentos das pequenas gigantes tias, o batuque ia se transformando, assimilando a modernidade iniciada pela escola primeira do Estácio de Sá. Eulalias, Marias e Alfredos foram aos poucos se juntando, onde antes somente existiam tambores, para se arriscarem em instrumentos eruditos, nos quais a turma da Santíssima Trindade já ousava dar notas músicas.

Foi no bairro de Oswaldo Cruz, na ainda bucólica Estrada do Portela, que um certo Paulo Benjamin de Oliveira foi morar e gravou seu nome para sempre na história do samba. Conhecido nas redondezas como professor, Paulo organizava encontros, reuniões e pagodes, onde versava seus primeiros partidos, que anos mais tarde Chico Santana, Manacéa, Alvaiade e Natalino iriam dar continuidade. Esse compositor popular que tantas músicas compôs fundou, ao lado dos companheiros Antônio Caetano e Antônio Rufino, a escola da águia altaneira sob a sombra de uma jaqueira. Com um estilo próprio Paulo passou a ser o Paulo da Portela e conduziu Oswaldo Cruz rumo à imortalidade.

Brasil 41, Belo Horizonte, MG
O samba de lá não tinha palco, não tinha “artistas”, não tinha vaidade, era uma festa. Quem não sabia tocar, não tinha problema, se envolvia do mesmo jeito. Acompanhava na palma da mão, na lata, no prato e na faca, no reco-reco, no gogó, no que tivesse, mas tudo com o maior respeito e organização. O pagode era e é assim, uma festa, que ao mesmo tempo em que divertia a todos, unia num mesmo canto as dores do dia a dia tão difícil. Esses bambas se desafiam em versos e o coro era composto, por ninguém menos, do que todos que estavam presentes.

Décadas mais tarde, Candeia com o sonho da multidão voltar a tomar as rédeas da escola, inovando na linguagem, recorre às mesmas armas, que antes municiaram Paulo e seus companheiros, mas os tempos tinham mudado... Nas escolas a figura do sambista, compositor e partideiro estava desaparecendo e a indústria fonográfica começava a mostrar suas caras e personagens. Surgia a figura do carnavalesco e o terreiro além de ir aos poucos mudando de cor, muda também de nome e passa a ser chamado de quadra.

Tentando influenciar os rumos da escola, não apenas com palavras, mas com apoio popular, Candeia organiza verdadeiras marchas, em dia de ensaio, rumo ao terreiro, descendo os morros do bairro e pegando o trem, junto a uma multidão que cantava seus versos e de muitos outros grandes partideiros. Não mudou os rumos, mas deixou um legado de continuidade, não da mesma forma, não sem inovar, mas com o mesmo propósito que o professor tanto versou: 

Projeto Resgate, RS
“Ouro desça do seu trono. Venha ver o abandono de milhões de almas aflitas, como gritam. Sua majestade, a prata, mãe ingrata, indiferente e fria, sorri da nossa agonia”. Era a mensagem da música popular, que com diversão e lamento, no coro, na palma da mão, no improviso e com respeito, cantava o cotidiano de uma gente sofrida. “O meu nome já caiu no esquecimento, o meu nome não interessa a mais ninguém” denunciava Paulo, anos antes, já preocupado com os rumos das escolas, após uma confusão que acaba tirando-o do desfile, quando as escolas ainda se apresentavam na saudosa Praça Onze. 

Tem gente, que pensa que o samba desse jeito acabou, e que agora o palco dominou, onde um só vocalista canta e grupos pequenos comandam a vez, onde as grandes rodas nas ruas dos subúrbios não existem mais, onde gostos e cheiros das gordas feijoadas não se misturam mais ao suor do dançar e ao sorriso do cantar junto. Confesso que às vezes me desanimo e penso assim também. Mas uns poucos anos atrás, meninos e meninas, na maior parte moleques, no que há de melhor nessa palavra, inspirados em histórias e jeitos de cantar da teimosa velha guarda azul e branco, começaram a organizar encontros em várias cidades do país batuqueiro.

Tocando sem amplificadores, quando muito um violão tenor ou de sete é amplificado, com três, quatros e até mesmo cinco cavacos, pandeiros em partido ou na marcação cadenciada, surdos de virada, reco-recos, tamborins, ganzás, repiques de mão, repiques de anel e apitos dando forma à cozinha e...... o mais bonito e contagiante: tudo no gogó, no coro e no verso improvisado.

Uberlândia, MG e Glória ao Samba, SP

Novamente, no mesmo jeito que o professor ensinou, mas também com inovação, rompem o abismo que separa os músicos do seu público, aproximando-os com olhares, histórias e cantos, fazendo todo o sentido para o autêntico pagode se apresentar. São partideiros e versadores, manos da Terra da Garoa, da Cidade Maravilhosa, da Beira do Guaíba e das Gerais que, para além de tudo, tem o amor ao samba, à sua história infinita, à sua inovação, aos seus versos e memórias, é o samba sem vaidade, sem palco, sem dono e com respeito aos antigos e aos novos, se (re) fazendo novamente para se tornar pleno. Assim se fazem imortais, mais uma vez.

Terreiro de Mauá
Se fazem sorriso, outra vez, se fazem modos de cantar, de tocar e de agradecer aos Candeias, Manacéas e Chicos, Alcides, Natais, Caetanos e Alvarengas, Paulos e Rufinos pela imensa alegria de ter a oportunidade de continuar. Simplesmente, fazem samba, se fazem popular. Serão lembrados, assim como lembramos outros bambas, serão louvados assim como louvamos outros mestres, por cantar a vida, por mostrar o sofrimento, por não nos deixar esquecer que a beleza existe, que a esperança é eterna, que a chama não se apagou e nem se apagará. Enquanto nos fizermos seres humanos, teremos essa possibilidade.


E para ilustrar as belas palavras do amigo Thomás, deixo alguns registros da homenagem ao mestre Chico Santana, que aconteceu na Portelinha no último sábado, 24 de setembro de 2011.





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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Alvaiade em 78 rpm

Oswaldo dos Santos - Alvaiade
Nascido em 1913, no bairro de Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Alvaiade é mais um sambista que, como a maioria, teve uma infância difícil. Perdeu o pai aos cinco anos e aos treze já trabalhava como tipógrafo pra colocar comida em casa. aliás seguiu esse ofício por toda a vida até se aposentar. Desde pequeno já tinha a música como um meio de amenizar as dificuldades da vida... Tanto que aos treze anos (em 1926) compôs sua primeira musica em parceria com José Maria, chamada "O que vier eu traço" e que foi gravada por Ademilde Fonseca. Abaixo você ouve o samba na interpretação de Miriam Batucada:



Foi também um bom jogador de futebol, atuando em alguns times como a Associação Atlética Portuguesa e no time da Portela... Foi nessa época que o Oswaldo dos Santos virou Alvaiade...

Em 1928, Paulo da Portela convidou Alvaiade para integrar a escola de samba "Vai Como Pode", que dentro de poucos anos se tornou a Portela. Alvaiade era um grande percussionista e também costumava acompanhar alguns sambas em seu cavaquinho. Com o tempo passou a integrar a ala de compositores da Portela, rendendo dois títulos à escola: o primeiro em 1924 com o enredo "A vida do samba" em parceria com Bibi e outro em 1947 com o samba "Honra ao mérito" em parceria com Ventura.

Com a simpatia de Paulo da Portela conquistada, Alvaiade passou a representar a escola e exercer funções admnistrativas dentro da Portela. Alvaiade foi o fundador da União Brasileira de Compositores (UBC) e também teve um papel importante na divulgação dos grandes compositores da Portela como Walter Rosa, Chico Santana, Manacéia e Candeia, esse último viria a se tornar um dos maiores sambistas que a história já conheceu. Alvaiade foi um dos poucos sambistas de Oswaldo Cruz que conseguiu uma brecha na era do rádio, e foi gravado por nomes como Ataulfo Alves, Linda Batista, Ciro Monteiro, Odete Amaral, entre outros.

(Acompanha arquivo com as letras das musicas)


O coração ordena (Alvaiade e Paquito)
Intérprete: J. B. de Carvalho
Data: 1938
Banco de Réu (Alvaiade e Djalma Mafra)
Intérprete: Ataulfo Alves
Data: 1939
Eu chorei (Alcides Lopes e alvaiadade)
Intérprete: Irmãos Tapajós
Data: 1939
É mato (Alvaiade e Wilson Batista)
Intérprete: Odete Amaral
Data: 1941
De sol a sol (Alvaiade e Ari Monteiro)
Intérprete: Linda Batista
Data: 1941
Deus me ajude (Alvaiade, Estanislau Silva e H. de Carvalho)
Intérprete: Ataulfo Alves
Data: 1942
Você Quis (Alvaiade e Nicola Bruni)
Intérprete: Odete Amaral
Data: 1942
Pensando no futuro (Alvaiade e Djalma Mafra)
Intérprete: Ciro Monteiro
Data: 1944
Brasil (Alvaiade e Nélson Gonçalves)
Intérprete: Ataulfo Alves
Data: 1944
A saude me devora (Alvaiade e Djalma Mafra)
Intérprete: Ciro Monteiro
Data: 1945
Aliança de Casada (Alberto Maia e Alvaiade)
Intérprete: Ciro Monteiro
Data: 1946
Meu trabalho (Alberto Maia e alvaiade)
Intéprete: Ciro Monteiro
Data: 1947
Eu ainda sou eu (Alvaiade)
Intérprete: Risadinha
Data: 1952
Brigas de amor (Alvaiade e Djalma Mafra)
Intérprete: Flora Matos
Data: 1956


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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Salve a Rainha Quelé!

Especial da TVE com Clementina de Jesus. Não consegui identificar a data da gravação...



Trecho do Programa Ensaio da TV Cultura com Clementina de Jesus (1973):



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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Chico Santana 100 anos - Por Tuco Pellegrino


Hoje, 22 de setembro, comemoramos com muita alegria o centenário do grande mestre Chico Santana. E é com muita honra que deixo a palavra com o Tuco Pellegrino, cantor de voz potente e compositor que já pessou pelo Terreiro Grande e agora faz um trabalho maravilhoso ao lado do Batalhão de Sambistas, sempre em busca da "preservação da memória e das origens do samba carioca de terreiro, que foi a base e a principal referência para todas as outras manifestações deste gênero musical nos últimos 50 anos".

O Tuco, que já passou diversas vezes pelas páginas do Receita, preparou pra nós algumas palavras sobre esse grande mestre, o Chico Traidor, portelense de verdade que respeitou e exaltou como ninguém Oswaldo Cruz e suas tradições:

Francisco Felisberto Santana, popularmente falando, Chico Santana. Este é o nome do Portelense que compôs o Hino da Velha Guarda da escola e também o Hino Portelense: "Avante Portelense Para Vitória"... Fiz juntamente com meu Parceiro Lo Ré um samba exaltação pra Chico Santana cuja letra, em determinada parte, diz: "Francisco Santana, gênio de pouca popularidade ..." e é com esse pensamento que falo um pouco para vocês desse sambista .

Chico, como todos os outros compositores portelenses, tem uma linha melódica e poética inconfundível. A Portela é de fato um celeiro de sambistas e seus compositores, apesar de terem características diferentes, são os que apresentam uma maior unidade em se tratando de composições, dentre as escolas de samba mais conhecidas do Rio de Janeiro. Chico Santana faria 100 anos em 2011 e seu maior parceiro foi o Monarco com quem teve inúmeros sambas gravados. O grande sucesso de Chico Santana foi " Saco de Feijão " gravado por Berh Carvalho em 1977. Monarco e inúmeros portelenses antigos consideravam Chico Santana o maior compositor que a escola já teve ... Era só começar um ensaio da escola e lá estava sendo cantado o Hino Portelense: " Portela suas cores tem na bandeira do Brasil e no céu tambem..." 

No disco Passado de Glória (1970), registro que para mim mais representa a sonoridade daquilo que foi a Portela em se tratando de “Samba de Terreiro”, vemos dois sambas de sua autoria: "Vida de Fidalga" e "Vaidade de um sambista”. A minha identificação com esse disco e esses sambas foi muito forte... Me faziam imaginar aquele lugar, de tão forte que é a interpretação registrada naquele disco, e chorava feito criança ... Enquanto muitos comemoram tantos outros centenários, poucos lembram deste sambista. Mestre Chico Santana não teve a popularidade merecida, apesar de ser um gênio da nossa música, mas é para isso que estamos aqui tentando registrar nessas linhas este grande compositor.

Gênio de Pouca Popularidade - Francisco Santana 
( Lo Ré e Tuco )

Viemos de bem longe a um sambista exaltar
Reunimos diversas cidades pois o samba 
Está sempre em primeiro lugar
Francisco Santana , 
Gênio de pouca popularidade 
No seu Centenário nasce a Luz 
Trazendo os laços de fraternidade 
De Osvaldo Cruz 

Suas lindas melodias , 
Deixavam a querida Portela em harmonia e paz
Ele que foi traido e não traiu jamais
Nem mesmo a tristeza de uma derrota 
Trazia-lhe aborrecimento
Seu Hino pra Velha guarda nos mostra 
A pureza que havia naquele tempo 
E hoje essa homenagem é uma resposta 
Traduzindo todo nosso sentimento 


E pra não deixar qualquer dúvida quanto à genialidade de Chico Santana, tão bem exaltada no samba do Tuco e do Lo Ré, preparei uma coletânea com todos os sambas do mestre que consegui encontrar. São ao todo 29 sambas interpretados pelas mais variadas vozes do samba, incluindo algumas gravações com o próprio Chico Santana cantando. Baixem, ouçam e comprovem!

(Acompanha arquivo com as letras das musicas)



MUSICAS:

HINO PORTELENSE (Chico Santana)
Intérprete: Escola de Samba Portela, 1957

DE PAULO A PAULINHO (Chico Santana e Monarco)
Intérprete: Monarco

HINO DA VELHA GUARDA (Chico Santana)
Intérprete: Chico Santana

O LENÇO (Chico Santana e Monarco)
Intérprete:  Escola de Samba Portela, 1957

VAIDADE DE UM SAMBISTA (Chico Santana)
Intérprete:  Chico Santana

SACO DE FEIJÃO (Chico Santana)
Intérprete: Beth Carvalho

VIDA DE FIDALGA (Chico Santana e Alvaiade)
Intérprete: Chico Santana

EU NÃO SOU DO MORRO (Chico Santana)
Intérprete: Cristina Buarque e Terreiro Grande

SILÊNCIO (Chico Santana)
Intérprete:  Beth Carvalho

ACADEMIA DO SAMBA "HORA DE CAMINHAR" (Chico Santana)
Intérprete: Monarco e Partido em 5 (vol.4)

QUANTO MAIS EU REZO (Chico Santana)
Intérprete: Jorge Aragão e Sombrinha

EU VOU ME EMBORA (Chico Santana e Alcides Malandro Histórico)
Intérprete: Jorge Aragão e Sombrinha

ALVORADA NA PORTELA (Chico Santana)
Intérprete: Jamelão

CORRI PRA VER (Monarco, Casquinha e Chico Santana)
Intérprete: Velha Guarda da Portela, 2000

SAMBA DA TRAIÇÃO (Chico Santana)
Intérprete: Chico Santana

LAMENTO DE UM PORTELENSE (Chico Santana - Argemiro)
Intérprete: Argemiro da Portela

SAMBA NO ESTRANGEIRO (Chico Santana)
Intérprete: Chico Santana

NOITE QUE TUDO ESCONDE (Chico Santana e Alvaiade)
Intérprete: Paulinho da Viola e Monarco

ADEUS, EU VOU PARTIR (Chico Santana e Mijinha)
Intérprete: Cristina Buarque

MUITO EMBORA ABANDONADO (Mijinha e Chico Santana)
Intérprete:  Monarco e Chico Santana
Intérprete 2: Cristina Buarque e Velha Guarda da Portela

TRAÍRA COMEU PARENTE (Chico Santana)
Intérprete: Surica

DESDITA (Monarco e Chico Santana)
Intérprete: Monarco

TUDO MUDOU TÃO DE REPENTE (Chico Santana e Argemiro)
Intérprete: Argemiro da Portela

PRANTO (Chico Santana)
Intérprete: Vânia Carvalho, 1978

PORTELA COQUETEL DE SAMBISTAS (Chico Santana)
Intérprete: Mauro Diniz

MULHER PERVERSA (Chico Santana)
Intérprete: Zeca Pagodinho

DIZEM QUE O AMOR (Chico Santana - Argemiro)
Intérprete: Marisa Monte e Argemiro

DESLIZES DA VIDA (Argemiro e Chico Santana)
Intérprete: Argemiro

GRAÇAS AO INFINITO (Chico Santana e Armando Santos)
Intérprete: Toquinho 

JÁ ESQUECI DE TÍ (Chico Santana)
Interpretação: Tuco e Batalhão de Sambistas



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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Primeiro Eu

Samba de Romildo e Toninho Nascimento maravilhosamente interpretado pela Elza Soares no disco "Nos Braços do Samba" de 1975. Recomendo que cliquem no link e baixem o disco, é muito bom! E também cliquem que assistam esse documentário com o Romildo!



Caçador que perde a caça
Muda sempre de caminho
Primeiro eu, depois o samba
Ela se engana, quando pensa que venceu

Meu amor eu dou de graça
Com reserva de domínio
Eu lhe empresto a minha taça
Mas sou eu quem bebe o vinho
Caçador que perde a caça
Muda sempre de caminho

Primeiro eu, depois o samba
Ela se engana, quando pensa que venceu

Meu amor é um feitiço
Que não dá pra desfazer
A saudade é um vício
Que não dá pra combater
E é só por causa disso
Que eu fujo de você


Clique na capa e baixe o disco:


Primeiro Eu (Toninho Nascimento / Romildo)
Nem Vem (Noel Rosa de Oliveira / Duduca / José Alves)
Viagem de Jangada (Tião da Roça / Antônio Andrade)
Quem É Bom Já Nasce Feito (Lino Roberto / Wilson Medeiros)
Debruçado Em Meu Olhar (Toninho Nascimento / Romildo)
Confesso Que Chorei (João Fonseca / Albano Silva)
Lendas e Festas das Yabás (Aroldo Melodia / Leôncio da Silva)
Nos Braços do Samba (Neoci / Dida)
Auera (Marcos Moran / E. Carlos)
Saudade Minha Inimiga (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito)
Deixa Pra Deus Resolver (Gilson de Souza)
Cansada de Esperar (Ciro Vagareza / Sidney da Conceição)



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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ainda Mais (Eduardo Gudin e Paulinho da Viola)



Foi como tudo na vida
Que o tempo desfaz quando menos se quer,
Uma desilusão assim faz a gente perder a fé
E ninguém é feliz, viu, se o amor não lhe quer
Mas enfim, como posso fingir
E pensar em você como um caso qualquer
Se entre nós tudo terminou eu ainda não sei mulher
E por mim não irei renunciar antes de ver
o que eu não vi em seu olhar
Antes que a derradeira chama que ficou
Não queira mais queimar
Vai, que toda verdade de um amor o tempo traz
Quem sabe um dia você volta para mim
E amando ainda mais
 
Dica do Mestre Jonas no Facebook!
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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cartola em 78rpm


Cartola viveu duas fases bem distintas em sua carreira. Aos onze anos foi morar em Mangueira onde conhceceu Carlos Cachaça, que o apresentou ao mundo do samba e de quem veio a ser parceiro em sambas que ficaram marcados pra sempre na história da Mangueira. Catola, ao lado de Carlos, foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, sendo o responsável inclusive pela escolha do nome e das cores da escola. 

Nessa época compôs inúmeros sambas de terreiro para sua escola e já despontando como um dos mais importantes compositores do morro foi descoberto pelos cantores do rádio. No final dos anos 20, Cartola apresentou a Mário Reis o seu samba "Que infeliz sorte". Mário acabou comprando o samba por 300 contos de réis, mas quem o gravou foi Francisco Alves em 1929. 

Francisco Alves gravou diversos sambas de Cartola, como o clássico "Divina Dama" e "Não faz, amor" em parceria com Noel Rosa. Foi gravado também por Carmem Miranda, Mário Reis, Sílvio Caldas e Ataulfo Alves. No final da década de 40 o compositor e maestro Villa Lobos, admirador confesso da obra de Cartola o indicou para participar de uma série de gravações feitas pelo maestro Leopold Stokowski e que resultou no lançamento do disco "Native Brazilian Music" de 1942. Na ocasião Cartola gravou "Quem me vê sorrindo" parceria com Carlos Cachaça e este é provavelmente o primeiro registro em disco da voz de Cartola.

Cartola passou a cantar no Rádio, interpretando composições próprias e também de outros autores. Chegou a apresentar um programa ao lado de Paulo da Portela chamado "A voz do morro", onde apresentavam sambas inéditos e ainda sem nome. O interessante é que os ouvintes é que davam nome aos sambas apresentados, sendo premiados os nomes mais criativos. Ainda com Paulo da Portela e na comanhia de Heitor dos Prazeres formou, em 1941, o "Conjunto Carioca", que chegou a se apresentar em programas radiofônicos em São Paulo. Em 1948 a Mangueira foi campeã com o samba "Vale do São Francisco" parceria com o amigo Carlos Cachaça.

A carreira, que parecia despontar rapidamente, acabou sendo interrompida por uma ironia do destino. No final dos anos 40, uma meningite o impossibilitou de trabalhar por um bom tempo e a perda da mulher Deolinda deixou Cartola bastante abalado. O compositor afasta-se da mangueira, sem deixar rastro, chegando a ser dado como desaparecido ou mesmo morto pelos seus amigos e familiares.

Até que em uma noite do ano de 1956, quando trabalhava como vigia em um prédio em Ipanema, resolver tomar um café num botequim próximo e acabou sendo reconhecido pelo escritor Sérgio Porto. O escritor ao ver o "Divino Cartola" naquela situação resolveu ajudá-lo e a partir daí Cartola voltava com tudo. O Cartola que todos conhecem, do Zicartola, dos discos da Marcus Pereira, compositor de sambas refinados como "O mundo é um moinho" e "O Sol nascerá". Mas esse Cartola todos conhecem... Vamos falar mais um pouco do Cartola dos anos 30 e 40.

Preparei para vocês uma coletânea com alguns sambas dessa primeira fase do Cartola, sambas que fizeram sucesso no rádio na voz de grandes cantores como Francisco Alves e Sílvio Caldas. Sambas maravilhosos que com uma ou outra excessão, estão empoeirados nos acervos de colecionadores. Fica de "tira gosto" o samba "Na Floresta" de Cartola e Sílvio Caldas e que foi regravado recentemente pelo Tuco e seu Batalhão de Sambistas no excelente disco "Peso é Peso"

Na Floresta (Cartola e Sílvio Caldas)
Intérprete: Silvio Caldas
Data: 1933



Na floresta dei-te um ninho
E mostrei-te um bom caminho
Mas quando a mulher não tem brio
Dizem que é malhar em ferro frio

Tudo eu fiz por você
Não quisestes antender
Os meus conselhos e a minha opinião
Algum dia vais ver
Como é triste sofrer
E de joelhos vens pedir o meu perdão

O teu contentamento
Foi o meu sofrimento
Não importa, tudo isso há de acabar
E assim me contento
Esperando o momento
Que a minha porta pra você há de fechar 


(Acompanha arquivo com as letras das musicas)


Faixas

DIVINA DAMA (Cartola) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1933 
FESTA DA PENHA (Cartola e Asobert) 
Intérprete: Ari Cordovil 
Data: não definida 
FITA MEUS OLHOS (Cartola e Oswaldo Vasques) 
Intérprete: Arnaldo Amaral 
Data: 1933 
NA FLORESTA (Cartola e Sílvio Caldas) 
Intérprete: Silvio Caldas 
Data: 933 
NÃO FAZ, AMOR (Cartola e Noel Rosa) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1932 
NÃO POSSO VIVER SEM ELA (Bide e Cartola) 
Intérprete: Ataulfo Alves 
Data: 1941 
NÃO QUERO MAIS (Cartola e Carlos Cachaça)
Intérprete: Aracy de almeida 
Data: 1936 
PERDÃO, MEU BEM (Cartola) 
Intérprete: Mário Reis e Francisco Alves 
Data: 1932 
QUAL FOI O MAL QUE EU TE FIZ? (Cartola e Noel Rosa) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1932 
QUE INFELIZ SORTE (Cartola) 
Intérprete: Francisco Alves 
Data: 1929 
SIM (Cartola e Oswaldo Martins) 
Intérprete: Gilberto Alves 
Data: 1952 
QUEM ME VÊ SORRINDO (Cartola e Carlos Cachaça) 
Intérprete: Cartola 
Data: 1941 
TENHO UM NOVO AMOR (Cartola e Noel Rosa) 
Intérprete: Carmem Miranda 
Data: 1932


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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Bonde São Januário

Lá pelo início da década de 40, com a forte repressão exercida pelo Estado Novo, os compositores passaram a evitar a velha temática da malandragem em seus sambas. O samba deixava de ser coisa de malandro, do morro e era enlatado pela censura, que buscava enaltecer o trabalho, exaltando o trabalhor mais preocupado com o progresso da nação do que com a boemia...

Bonde São Januário em 1941
Wilson Batista não perdeu tempo e com o parceiro Ataulfo Alves compôs o samba O Bonde de São Januário, que já começa com os versos "quem trabalha é quem tem razão...", pra ganhar a simpatia do pessoal lá de cima. 

O problema é que Wilson, malandro que era, ao mandar a letra para análise no DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, criado por Getúlio Vargas para regulamentar o material veiculado nos rádios, jornais, cinemas e revistas da época - fez uma mudança na letra que deixarou Ataulfo Alves numa saia justa, como contam Rodrigo Alzuguir e Cláudia Ventura numa faixa do CD "O Samba Carioca de Wilson Batista", lançado recentemente:


O Bonde São Januário (Wilson Batista e Ataulfo Alves)


Quem trabalha é que tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar

O Bonde São Januário
Leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar

Antigamente eu não tinha juízo
Mas hoje eu penso melhor
No futuro graças a Deus
Sou feliz vivo muito bem
A boemia não dá camisa
A ninguém passe bem


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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Puxando Conversa com Waldir 59 e Marquinhos de Oswaldo Cruz

Marquinhos de Oswaldo Cruz e Waldir 59
 "Histórias que se cruzam" é o décimo segundo vídeo produzido pelo Projeto Puxando Conversa e conta com a ilustre participação de dois portelenses de talento e com muita história pra contar: Marquinhos de Oswaldo Cruz e o grande Waldir 59, parceiro de Candeia em sambas-enredo antológicos e que aqui fala bastante sobre antigo parceiro.



MUSICAS
1 – Eu sei muito bem (Waldir 59)
2 – Vai pro lado de lá (Euclenes e Candeia)
3 – O que os olhos não podem ver (Marquinhos de Oswaldo Cruz, Carlos Bezerra)
4 – Luz de verão (Marquinhos de Oswaldo Cruz e Candeia)
5 – Riquezas do Brasil (Waldir 59 e Candeia)
6 – Meu grande amor (Waldir 59 e Bubu)
7 – Homenagem (Marquinhos de Oswaldo Cruz e Bandeira Brasil)
8- Geografia Popular (Marquinhos de Oswaldo Cruz, Edinho Oliveira e Arlindo Cruz)
9- Os olhos marejando (Marquinhos de Oswaldo Cruze Luiz Carlos Máximo)
10- Testamento do partideiro (Candeia)
11- Não tem veneno (Wilson Moreira e Candeia)
12- Ouço uma voz (Jair Amorim e Candeia)
13- Filosofia do samba (Candeia)

MUSICOS
Violão: Charles
Percussão: Duarte
Percussão: Ivan Milanês
Percussão: Renatinho de Pilares

Direção: Valter Filé
Produção: Valter Filé
Realização: CEPAVI

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cabide de Molambo

João da Baiana
O samba "Cabide de Molambo" foi composto na década de 10 e, de fato, podemos notar o quanto é antigo pelas menções à guerra de Canudos (final do século 19) e à Ilha de Sapucaia (que foi aterrada e hoje abriga parte das instalações da UFRJ). Inspirado em um personagem real, o samba fala sobre uma figura bastante conhecida no Rio de Janeiro naqueles tempos.

Um velho malandro que apesar de andar sempre na maior miséria, dependendo dos amigos para sobreviver, tentava a todo custo disfarçar sua condição de "quase mendigo", como relata João da Baiana nos primeiros versos do samba... O nome desse malandro, que também era poeta, ninguém sabia e acabaram apelidando-o de "Cabide de Molanbo" (Fonte).

Em depoimento ao MIS em 1966, João da Baiana diz que esse samba pode ter influenciado Noel Rosa a compor "Com que roupa", um de seus maiores sucessos.

A primeira gravação de "Cabide de Mulambo" foi feita por Patrício Teixeira em 1932 em disco 78rpm:


"Cabide de Molambo" foi gravado pelo próprio João da Baiana no excelente disco "Gente da Antiga". Gravado em três dias, entre 10 e 17 de janeiro de 1968, essa jóia do samba conta, além de João da Baiana (pandeiro e voz) com: Clementina de Jesus (voz), Pixinguinha (sax-tenor), Dino e Meira (violões), Canhoto (cavaquinho), Marçal, Luna e Jorge Arena (percussão), entre outros bambas.


Cabide de Molambo (João da Baiana)

Meu Deus eu ando com o sapato furado
Tenho a mania de andar engravatado
A minha cama é um pedaço de esteira
E uma lata velha, que me serve de cadeira
Minha camisa foi encontrada na praia
A gravata foi achada na ilha da Sapucaia
Meu terno branco parece casca de alho
Foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho

Meu Deus, meu Deus...

E o meu chapéu foi de um pobre surdo e mudo
As botinas foi de um velho da revolta de Canudos
Quando eu saio a passeio as almas ficam falando
Trabalhei tanto na vida pro malandro estar gozando

Meu Deus, meu Deus....

A refeição é que é interessante
Na tendinha do Tinoco no pedir eu sou constante
Seu português, meu amigo sem orgulho
Me sacode um caldo grosso carregado no entulho

Meu Deus, meu Deus...

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domingo, 11 de setembro de 2011

Muito prazer, Heitor dos Prazeres...

Pequeno filme em Homenagem a Heitor dos Prazeres, com depoimentos de Ricardo Cravo Albin, Heitorzinho dos Prazeres, Dona Neuma, Tônia Carreiro, Haroldo Costa, Monarco, Paulinho da Viola e Elifas Andreato.



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sábado, 10 de setembro de 2011

Banco de Réu

O cantor e compositor Ataulfo Alves
Samba do portelense Alvaiade em parceria com Djalma Mafra na voz de Ataulfo Alves. Alvaiade,  braço direiro de Paulo Benjamin de Oliveira e autor de clássicos sambas de terreiro da Portela, dispensa maiores apresentações.

Djalma Mafra (1900-1974), nascido em Irajá, tem em seu currículo parcerias com grandes compositores de sua época, entre eles Geraldo Pereira e o próprio Ataulfo Alves, que interpreta a canção aqui apresentada. Suas composições foram sucesso através das mais renomadas vozes do Rádio:  Ciro Monteiro, Odete Amaral, Roberto Silva, Alcides Girardi, entre outros.

O samba "Banco de Réu" foi gravado pela primeira vez em 1949 por Ataulfo Alves pela continental. Outros cantores registraram em disco essa obra prima: Noite Ilustrada, no disco "Revivendo o mestre Ataulfo" de 1969; Grupo Samba 4, no disco "Produto Nacional" de 1974 e Terreiro Grande e Cristina Buarque no disco "Ao Vivo" de 2007. (Clique nos nosmes dos discos para baixar)


Banco de Réu (Alvaiade e Djalma Mafra)
Intérprete: Ataulfo Alves
Data: 1949

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Sento no banco de réu e aguardo a sentença
Porque até hoje ninguém destruiu minha crença
Pela voz que ordena que eu me conforme
Porque aquele que mora lá em cima não dorme

O sofrer é da vida, eu aceito
Não guardo porém, ódio ou rancor dentro do peito
Tenho a minha consciência pura e sã
Quem me condena, não se lembra do amanhã



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Outros Carnavais...

Portela, 1957 - Legados de D. João VI


Portela, 1953 - Seis Datas Magnas


Império Serrano, 1969 - Heróis da Liberdade



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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Malandragem

E pra inaugurar a seção "A Era do Rádio" deixo aqui o samba "A Malandragem" de Alcebíades Barcelos, o famoso Bide do Estácio. Antes, porém, segue um pequeno depoimento de Bucy Moreira, neto de Dona Ciata e ritimista da Deixa Falar:

"O samba antigamente era na base dos versinhos e dos corinhos. Um dia, minha mãe me mandou comprar manteiga na padari pra eu tomar café antes de ir pra escola. Quando saí da padaria, vi quatro camaradas reunidos: era o Zeca Taboca, um outro rapaz que tinha o apelido de Brinco, o Edgar com aquela camisa de malandro característica dele, e o Rubem, que era muito alto, com aquelas orelhas de abano, aquela fisionomia meio grega, tudo lá cantando samba. Eu cheguei e perguntei: 'o que é isso?' E disseram: 'Isso é um samba moderno que o Rubem fez'. E cada um tirava um verso de improviso. Mas eu não me lembro como era o samba não. O primeiro a gravar esse tipo de samba foi o Bide, que gravou 'A Malandragem' com o Francisco Alves  (Partido Alto, Samba de Bamba - Nei Lopes, 2005. pág. 161)

Francisco Alves
Observem então que essa seria, de acordo com o depoimento de Bucy, a primeira gravação de um samba que passaria a ser conhecido como um samba de primeira, um samba corrido onde apenas a primeira estrofe tem letra fixa e os versos da segunda parte são improvisados pelo cantor.

Esse tipo de samba foi muito comum durante essa época e era assim que as escolas desfilavam no carnaval. Toda escola, no lugar do "puxador' de samba enredo que conhecemos hoje, tinha um grupo de improvisadores que davam conta dos versos enquanto a primeira era geralmente cantada em côro pela escola.


A malandragem (Bide)
Intérprete: Francisco Alves
Data: 1927-1928


A malandragem eu vou deixar
Eu não quero saber da orgia
Mulher do meu bem-querer
Esta vida não tem mais valia

Mulher igual
Para a gente é uma beleza
Não se olha a cara dela
Porque isso é uma defesa
Arranjei uma mulher
Que me dá toda vantagem
Vou virar almofadinha
Vou deixar a malandragem

Esses otários
Que só sabem é dar palpite
Quando chega o Carnaval
A mulher lhe dá o suite
Você diz que é malandro
Malandro você não é
Malandro é Seu Abóbora
Que manobra com as mulhé.


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Samba na Era do Rádio

A chamada "Era do Rádio" foi sem dúvida um período de grande importância para a musica brasileira, particularmente para o samba, que ainda engatinhava quando compositores como Noel Rosa, Wilson Batista, Geraldo Pereira, Herivelto Martins e muitos outros foram apresentados ao público pelas grandes vozes da época. Foi quando o samba começou a valer dinheiro e o sambista passou a defender algum vendendo seus sambas. Cartola, em depoimento ao programa Ensaio gravado na TV Cultura em 1973 conta:

"Um dia apareceu lá no morro o Mário Reis, querendo comprar uma música. Estava com outro rapaz, que veio falar comigo: O Mário Reis está aí e quer comprar um samba teu. Fiquei surpreso: O quê? Querendo comprar samba, você está maluco? Não vendo coisa nenhuma! No dia seguinte ele voltou e me levou até o Mário Reis. Ele confirmou: É, Cartola, quero gravar um samba seu. Fique tranquilo, seu nome vai aparecer direitinho. Quanto você quer por ele? 

Pensei em pedir uns 50 mil réis. O outro rapaz falou baixinho: 'Pede uns 500 mil'. Eu disse: 'Você está louco, o homem não vai dar tudo isso'. Com muito medo, pedi os 500 mil. Em 1932, era muito dinheiro. O Mário Reis respondeu: 'Então eu dou 300 mil réis, está bom para você?'. Bom, ele comprou o samba mas não gravou. Quem acabou gravando foi o Chico Alves."

Nesse tempo o samba era produzido quase que em rítmo industrial. Tempos em que os compositores se encontravam no Café Nice, compunham, formavam parcerias, arrumavam brigas. Alí, diziam que "samba é igual passarinho, está no ar, é de quem pegar primeiro", frase atribuída a Sinhô e que ficou famosa durante uma polêmica entre ele e Heitor dos Prazeres, que dizia que Sinhô havia lhe "roubado" um samba... 

A partir de hoje o Receita de Samba conta com uma nova seção: "78 rpm". Aqui você vai passear pelo vasto território do samba de antigamente. Cantado com "dó de peito", gravado em 78 rpm por Mário Reis, Francisco Alves, Aracy de Almeida, Linda Batista e outros grandes cantores da época. À primeira vista, essas gravações tendem a causar um certo desconforto em nossos ouvidos, mas garanto que ao se embrenhar por esse mundo você logo se acostuma e não consegue mais parar... Chega até a sentir falta quando ouve um som de cd, limpinho...

Entre gravações realizadas principalmente entre as décadas de 30 e 50 estão centenas, talvez milhares de sambas. Musicas geniais, que contam a história do samba e do Rio de Janeiro em seus versos. Assim, a seção "78rpm" vem pra tirar a poeira do acervo e divulgar esses sambas que, há decadas esquecidos, merecem ser novamente cantados nas rodas desse nosso Brasil!


Aguardem que lá vem brasa!

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O Partido Alto que o Carioca não Conservou

Partido alto de Aniceto do Império, gravado no ótimo "Partido alto nota 10" de 1984. O velho Aniceto mostrando que há mais de 30 anos ele já se preocupava com o futuro dessa que talvez seja a mais rica expressão do samba carioca. Sambistas desse Brasil, não desprezem o conselho desse grande mestre...

E lembrem-se que o partido alto não é só sair metralhando um monte de verso a torto e a direito. Tem que ter a malandragem, seguir o tema e o mais importante, a cadência... a cadência, meu povo, que anda tão sumida das rodas de samba...


 
Quando louvar partideiro
(Aniceto do Império)


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Quando falar em partido,
Quando louvar partideiro
Lembrem João da Baiana
E o velho Donga primeiro

Corta jaca, passo variado
Passeado e amolador
Hoje nào existem mais
Tudo enfim se acabou

Quando falar em partido,
Quando louvar partideiro
Lembrem João da Baiana
E o velho Donga primeiro

Eles entravam na roda
Eram sambistas "doutor"
Falo do partido alto
Que o carioca não conservou

Quando falar em partido,
Quando louvar partideiro
Lembrem João da Baiana
E o velho Donga primeiro

Hoje me torno antipático
Pois censuro a inovação
Partido alto antigo
Batido na mão é muito bom

Quando falar em partido,
Quando louvar partideiro
Lembrem João da Baiana
E o velho Donga primeiro

Eu quero um partido alto
Cheio de animação
Com cavaco, com pandeiro
Cavaquinho e violão


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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Preto Rico

Preto Rico
Nascido em 1923 na região de Madureira, o carioca Jorge Henrique dos Santos, mais conhecido como Preto Rico, começou a compor no início da década de 1950, quando residia no bairro Estácio de Sá. Uma de suas primeiras composições, o samba "O crime da enfermeira",  fez muito sucesso na Filhos do Deserto, escola que ficava no suburbio de Lins.

Mudou-se para o morro da Mangueira na década de 1950 e em 1957 passou a integrar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira e seu samba "Velha Baiana" (parceria com Moacir Silva) foi classificado como um dos cinco melhores da escola naquele ano. Em 1959 entrou oficialmente para a ala de compositores da escola e chegou inclusive a presidir a ala no final da década de 1960. Compôs dois sambas enredo que deram o carnaval à Mangueira: "Lendas do Abaeté", campeão na avenida em 1973 e "Mangueira em tempos de folclore" (1974), ambas em parceria com Jajá e Manoel.

No final da década de 1970 participou da gravação do disco "Os bambas do partido alto" ao lado de Aniceto do Império, Baiano do Cabral, Nelson Cebola, Arielson da Bahia, Luiz Grande e Dedé da Portela. Na ocasião interpretou interpretou de sua autoria "Zebra no lar", em parceria com Moacyr da Silva.

Segue um seleção de sambas do Preto Rico, pra vocês conhecerem um pouco mais desse bamba e, quem sabe, adicionar algum ao repertório!



Velha Baiana (Preto Rico e Moacir)
Intérprete: Preto Rico

Fiquei com pena dela 
Que olhava da janela
Vendo a escola passar
Com os olhos rasos d'água
Não suportando a mágoa
Do que acabava de avistar
Era uma veterana
Que na ala das baianas
Era sempre a primeira
Tem recordação de bronze
Que ganhou na Praça Onze
Defendendo a Mangueira

Hoje em seu rosto
Vejo lágrimas a derramar
Está marcado
Seu destino é penar
Em seu peito já não há voz pra cantar
As cadeiras da velha baiana
Não têm mais ginga pra sambar


 
Eu vi quem foi (Preto Rico)
Intérprete: Preto Rico

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Eu vi quem foi, mas não sei quem é
O cara que apanhou da mulher

Viajando no carango, vi um cara andando a pé
Quando olhei era o cara que apanhou da mulher

Outro dia no pagode na casa da Tia Fé
Quando olhei eu vi o cara que apanhou da mulher

Em uma tribo de índio quando olhei vi o pajé
Justamente era o cara, que apanhou da mulher



Mangueira em tempos de folclore (Preto Rico, Jajá e Manoel)
Intérprete: Jamelão

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Hoje venho falar de tradições
Das regiões do meu país, do seu costume popular
Canto a magia do ritual das lendas encantadas
Mostro as lindas festas das noites enluaradas
E ainda em figuras tradicionais
Caio no bloco danço o frevo
Enlevo dos nossos carnavais

A congada, boi bumbá
Ô meu santo, saravá
Ô rendeira, mulher rendá
Ô baiana, ô sinha
É o zé pereira com seu bumbo original
Eis a mangueira com seu carnaval



Zebra no Lar (Preto Rico)
Intérprete: Preto Rico

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Eu ando com a vida atrapalhada
Tenho uma zebra parada na coluna do meu lar
A Nêga, comigo não quer mais nada
Está de mala arrumada e diz que vai me abandonar

Olê, olê, olá...
Tá dando zebra na coluna do meu lar

Culpada é uma vizinha fofoqueira
Que me flagrou na Mangueira
E foi lá em casa contar
Por isso que meu teste está furado
Eu estou atrapalhado com a zebra no meu lar



Mulher comprometida (Preto Rico)
Intérprete: Tantinho da Mangueira e Preto Rico

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Porque, quando passas por mim
Tu me olhas assim, porque?
Se é que nào compreendes
Ou finges não compreender
És mulher comprometida
Vais arruinar tua vida por querer

Nada tenho para te dar
Nem sequer casa e comida
És mulher de luxo,
tens bangalô com repuxo
Perderás a boa vida que tens
Vá se mirar no espelho
E segue o meu conselho
É para o seu bem



Lendas do Abaeté (Preto rico, Jajá e Manoel)
Intérprete: Genaro da Bahia

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Iaiá mandou ir a bahia
No abaeté para ver sua magia
Sua lagoa, sua história sobrenatural
Que a mangueira traz pra este carnaval
Janaína agô agoiá
Janaína agô agoiá
Samba corima, com a força de iemanjá

Oh! que linda noite de luar
Oh! que poesia e sedução
Branca areia água escura
Tanta ternura no batuque e na canção
Lá no fundo da lagoa
Com seu rito e sua comemoração
Foi assim que eu vi Iara cantar
Eu vi alguém mergulhar
Para nunca mais voltar



Falso jogador de sueca (Preto Rico)
Intérprete: Preto Rico

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Você anda dizendo que é o tal na sueca
Mas quando você joga apanha mais do que peteca
Não há parceiro que queira com você jogar
No final da partida, seja o que for terá que pagar


Quando você dá carta
O seu parceiro já fica zangado
Porque quase sempre, se ouve dizer
Tem jogo furado
Parce brincadeira
Só leva bandeira e perde o cartaz
E o parceiro se zanga
Com tanta renúncia que você faz
Deixa disso rapaz...



Baile das Flores (Preto Rico)
Intérprete: Preto Rico e Carlos Cachaça
Cartola ao violão

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Me lembro do baile das flores
O jardim era o salão dos amores
O cravo que regia uma orquestra
Abrilhantava a festa com suas ????
As rosas, as mais lindas debutantes
Que sorrindo a todo instante
Conquistavam os corações (de milhões)

Margarida lá estava tão formosa
Bailando com o jasmim
Hortências e violetas
Espalhavam perfumes pelo salão
E causavam ciúmes a mal-me-quer e ???
Outras flores com seu perfil de beleza
O baile foi o orgulho da natureza



Exaltação a Villa Lobos (Preto Rico)
Samba concorrente ao enredo da mangueira de 1966


A letra eu não consegui transcrever devido à qualidade da gravação, se alguém tiver e quiser mandar eu posto aqui!



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domingo, 4 de setembro de 2011

Morro Inspiração


Samba de Geraldo Babão, lançado no disco História das Escolas de Samba - Salgueiro pelo selo Marcus Pereira em 1974. Quem canta é o prório Geraldo Babão.

Morro Inspiração (Geraldo Babão)


Morro, tu és a minha inspiração
Para eu compor a melodia
Dizer tudo o que sinto
Em meu coração

Juro, que sou capaz de enlouquecer
Se um dia o salgueiro desaparecer

Morro, sempre fostes tradicional
Não desfazendo dos demais lugares
Para mim não existe outro igual
O Salgueiro é legal

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sábado, 3 de setembro de 2011

Feliz daquele que sabe sofrer!!!!

E o Nélson Cavaquinho sabia!!! Mestre na arte do samba sofredor, sempre com temas como a morte, a dor e claro, a sua querida Mangueira, ele ficou famoso por tocar seu violão de um jeito que só ele fazia...

E Tocava com dois dedos, de um jeito bem tosco mas que tornou seus sambas inconfundíveis... Sem contar sua voz rouca e largada... simplesmente sensacional!!!

Criou frases que só um verdadeiro poeta poderia criar... minha preferida é aquela que abre a música "Rugas", onde ele diz: "Se eu for pensar muito na vida morro cedo amor..."

E o que dizer de coisas do tipo: "A cobra não morde uma mulher gestante porque respeita o seu estado interessante"...

Esse era o Nélson... um poeta das coisas simples, boêmio inveterado e que soube como ninguém fazer sambas mostrando que a tristeza e a dor também podem ser belas!!!

Segue uma sequencia de vídeos que achei no youtube pra vocês conhecerem um pouco mais da vida e obra dessa mente genial!!!! E claro, sem esquecer de seu parceiro Guilherme de Brito, com quem ele compôs grande parte de seus sambas!


Programa Mosaicos - A Arte de Nélson Cavaquinho
(Créditos: www.sambaderaiz.net)

Parte 1


Folhas secas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) / Intérpretes: Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
Juízo final (Élcio Soares e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Nelson Cavaquinho
Vou partir (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) / Intérpretes: Nelson Sargento e Carlinhos Vergueiro
Minha festa (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) / Intérpretes: Giana Viscardi e Grupo Ó do Borogodó


Parte 2


História de um valente (José Ribeiro de Sousa e Nelson Cavaquinho) / Intérpretes; Angela Evans e Grupo Ó do Bogorodó
Não faça vontade a ela (Henricão, Nelson Cavaquinho e Rubens Campos) / Intérprete: Nelson Cavaquinho)
Rugas (Augusto Garcez, Ary Monteiro e Nelson Cavaquinho) / Intérpretes: Cyro Monteiro , Giana Viscardi e Grupo Ó do Borogodó
Devia ser condenada (Cartola e Nelson Cavaquinho) Intérprete: Nelson Cavaquinho
Pegadas (Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Nelson Sargento;
O meu pecado (Zé Keti e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Zé Keti
Nome Sagrado (Guilherme de Brito, José Ribeiro de Souza e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Beth Carvalho

Parte 3



Juízo final (Élcio Soares e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Deyse Cordeiro e grupo Ó do Borogodó
Pranto de Poeta (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) / Intérprete: Guilherme de Brito
Garça (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) / Intérprete: Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
A flor e o espinho (Alcides Caminha, Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho) / Intérpretes: Guilherme de Brito, Dayse Cordeiro e grupo Ó do Borogodó
 Notícia (Alcides Caminha, Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia) / Intérprete: Carlinhos Vergueiro

Parte 4




Palhaço (Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes) / Intérprete: Luiz Melodia
 Peito vazio (Cartola e Élton Medeiros) / Intérprete: Cartola
 Sempre Mangueira (Geraldo Queiroz e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Nelson Cavaquinho;
Caminhando (Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia) / Intérprete: Grupo Ó do Borogodó
Euforia (Nelson Cavaquinho, Eduardo Gudin e Roberto Roberti) / Intérprete: Eduardo Gudin
Luz negra (Amâncio Cardoso e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Ângela Evans e grupo Ó do Borogodó;


Parte 5




Ninho desfeito (Nelson Cavaquinho e Wilson Canegal) / Intérprete: Nelson Cavaquinho
Quando eu me chamar saudade (Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Nelson Cavaquinho
Choro do adeus (Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho) / Intérprete: Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho
Folhas secas (Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho) / Intérpretes: Nelson Sargento e Carlinhos Verqueiro