quarta-feira, 27 de julho de 2011

O seu nome não caiu no esquecimento...

Paulo da Portela, Cidadão Samba de 1937

É indiscutível a importância de Paulo Benjamin de Oliveira não só para a Portela, mas para o samba carioca. A simpatia e determinação de Paulo da Portela fizeram dele um líder comunitário e uma referência cultuada pelos moradores de Osvaldo Cruz e redondezas. Tinha consciência de que a arte de sua gente era rica e poderia tornar-se profissional, daí a preocupação em diferenciar a imagem do sambista do malandro vadio perseguido pela polícia. Paulo era conhecido por "professor" e é assim que muitos sambistas, ainda hoje, se referem a ele.

Paulo era um diretor exigente... todos tinham que se apresentar impecavelmente de sapatos, chapéu e roupa azul. Se não vestisse o azul da Portela, não podia desfilar. E foi justamente por esse motivo que o professor Paulo da Portela rompeu relações com sua escola do coração. Alvaiade, compositor portelense que foi o braço direito de Paulo conta como aconteceu:

"No carnaval de 1940 eu estava chefiando a escola no lugar do Paulo, que estava em São Paulo, com o Cartola e o Heitor dos Prazeres. Ele chegou na hora em que a escola estava formada pra desfilar na Praça Onze e queria que os companheiros dele desfilassem também. Mas o problema é que eles estavam com uma fantasia preta e branca e o pessoal da diretoria achou que não era direito. Se o Paulo quisesse desfilar, tudo bem. Mas seus companheiros não podiam desfilar sem as cores da Portela, afinal a regra havia sido criada por ele mesmo.

Chamamos o Manoel Bam Bam Bam e ele repetiu para o Paulo a mesma coisa. Aí o Paulo disse: “Se eles não podem entrar, eu também não entro”. O Manoel Bam Bam Bam levantou a corda – naquela época as escolas desfilavam com corda - e falou: “Então você não desfila, pode sair”. O Paulo saiu e nunca mais desfilou pela Portela."

Bom, essa história muitos já conhecem, mas resolvi contar aqui pois encontrei um trecho do filme Natal da Portela (lançado em 1988) que narra exatamente esse momento em que Paulo chega com Cartola e Heitor dos Prazeres e é barrado pelo Manoel Bam Bam Bam. Mesmo depois da discussão a escola só começa o desfile após o sinal de Paulo, que em seguida vira as costas e vai pra nunca mais voltar, enquanto sua portela começa o desfile cantando "sai pra lá brocoió"...


Paulo nunca mais desfilou pela Portela, mas nunca esqueceu sua escola querida. Alvaiade conta que muitas vezes eles conversavam e Paulo sempre perguntava sobre a escola, como iam as coisas por lá... Segundo o Alvaiade, Paulo pensava em voltar para o Portela, mas quando o desentendimento parecia próximo do fim, Paulo faleceu, vítima de um ataque cardíaco em 1949. É hoje o nome mais importante da Portela, tavez um dos mais importantes para a história do nosso samba.  Em 1989 a Velha Guarda da ortela lançou um CD em homenagem a Paulo da Portela com uma seleção de algumas de suas mais famosas composições. Quem quiser ouvir é só clicar aqui

Disso tudo, nasceu um clássico do samba em que Paulo lamenta o fato ocorrido, mas ressalta que a história da Portela nunca poderia ser contada sem se falar em Paulo Benjamin de Oliveira:

O Meu Nome Já Caiu no Esquecimento
(Paulo da Portela)


O meu nome já caiu no esquecimento 
O meu nome não interessa a mais ninguém 
E o tempo foi passando 
A velhice vem chegando 
Já me olham com desdém 
Ai quanta saudade 
De um passado que se vai lá no além 

Chora cavaquinho chora 
Chora violão também 
O Paulo no esquecimento 
Não interessa a mais ninguém 
Chora Portela, minha Portela querida 
Eu que te fundei, serás minha toda a vida


Pra quem ainda não conhece o Paulo da Portela, segue o documentário "O Seu Nome Não Caiu no Esquecimento":




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Um comentário:

Anônimo disse...

Sou portelense, completamente apaixonado pela minha minha águia altaneira, e tenho pleno conhecimento da importância do Paulo da Portela pra nossa escola. Mas não posso deixar de reconhecer, também, que o Paulo queria violar uma regra que ele mesmo criara. Sem desmerecê-lo, acho que errou. Continuo a ser apaixonado por ele, por suas músicas e pela Portela. Mas passo a vê-lo como um partidário da política "faça o que eu digo, mas naõ faça o que eu faço".