segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Testamento de Partideiro (Candeia)


Ao meu amor deixo meu sentimento. Na paz do Senhor...
E para os meus filhos deixo um bom exemplo
Deixo como herança, força de vontade
Quem semeia amor, deixa sempre saudade
Aos meus amigos deixo meu pandeiro
Honrei meus pais e amei meus irmãos
Mas aos fariseus não deixarei dinheiro
E pros falsos amigos deixo o meu perdão

Porque o sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural com sua poesia o povo lhe faz imortal

E se houver tristeza que seja bonita, na paz do senhor...
Pois tristeza feia o poeta não gosta...
Um surdo marcando choro de cuíca...
Viola pergunta mais não tem resposta ...
Quem rezar por mim que o faça sambando...
Porque um bom samba é forma de oração...
Um bom partideiro só chora versando...
Tomando com amor batida de limão...

E como levei minha vida cantando
Eu deixo meu canto pra população...

* Esse áudio é do documentário Partido Alto, mas resolvi postar porque considero esse um dos melhores sambas do Candeia e não conheço outra versão com ele cantando. Quem quiser baixar o MP3 é só clicar aquí.

III Circuito do Samba em Ouro Preto, MG



Durante os últimos dois finais de semana o samba comeu solto aqui em Ouro Preto... Foram seis rodas com muita festa, participações mais que especiais de grandes músicos e amigos... Tudo regado a muita cerveja e cachaça e emoldurado pelos belos cenários dessa linda cidade... E o povo... esse sim foi o maior espetáculo! A cada dia uma pequena multidão enchia os tradicionais botecos e ruas de Ouro Preto... a cada dia mais gente... Adultos, crianças, senhoras, nativos, turistas, estudantes... Todos cantando, participando, alguns se emocionando... Foi uma bela festa!

Valeu Chiquinho e pessoal do Instituto Candongêro. Obrigado Nilsinho e Fernanda pelo trabalho excepcional! Um grande abraço aos companheiros de samba e de gole, Itatiaia, Fred, Didito, Luca, Flaviano, Chico, Samuel e ao Tiago, Romário, Juninho e Padeiro, novos amigos (que mais parecem velhos amigos...) que vieram lá de Viçosa pra enriquecer a nossa roda!

Posto aqui o registro dessa grande festa do samba através do olhar apurado do fotógrafo ouropretano Ronald Peret, ao som  dos versos de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola:

Samba, quando vens aos meus ouvidos,
Embriagas meus sentidos,

Trazes inspiração,
A dolência que possuis na estrutura,
É uma sedução...

...O teu ritmo quente 
Torna ainda mais ardente,
Quando vem da alma de nossa gente...

(Trechos de Apoteose ao Samba)














  









quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dossiê Samba de Roda do Recôncavo Baiano


O samba de roda do recôncavo baiano é considerado patrimônio imaterial da humanidade desde 2005. Encontrei um vídeo feito pelo IPHAN para divulgação, com algumas imagens bem legais:



Reportagem do jornal Bahia Meio Dia:



O IPHAN produziu também um dossiê completo sobre as origens e tradições do samba de roda do recôncavo, um material excelente que conta ainda com belas ilustrações. Clique na imagem abaixo para baixar o livro em pdf:




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Ary do Cavaco

Hoje é aniversário do grande Ary do Cavaco e pra homenageá-lo duas gravações do samba enredo "Lapa em Três Tempos", Portela, 1971. A primeira com Paulinho da Viola, no disco homônimo de 1971:



E a segunda com o próprio Ary do Cavaco e uma turma da pesada, fazendo a maior farra em uma gravação caseira de 2009:




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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Alberto Ribeiro em 78rpm

Alberto Ribeiro
O carioca Alberto Ribeiro da Vinha, nascido em 1902 na Cidade Nova e criado no Estácio, um dos maiores celeiros de bambas do Rio de Janeiro deixou uma vasta obra, cerca de 300 musicas entre marchinhas de carnaval, sambas e os mais variados estilos, da valsa ao fox trot. Uma simples pesquisa no acervo do IMS resulta em quase 500 gravações. Entretanto, seu nome é pouco lembrado atualmente.

"Olga" (Alberto Ribeiro e Sátiro de Melo) Intérprete: Vassourinha - 1941


Alberto Ribeiro se formou em medicina, profissão que exerceu até a sua aposentadoria, mas foi na musica que construiu uma obra que ficará para a eternidade. Compositor do Estácio, frequentador assíduo do Café Nice, ponto de encontro dos bambas na época, Alberto Ribeiro teve em sua lista de parcerias nomes como Bide, Wilson Batista, Alcir Pires Vermelho, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Dorival Caymmi, Nássara, Radamés Gnattali, Roberto Martins, entre muitos outros. Mas foi ao lado do amigo Braguinha, o João de Barro, que Alberto se consagrou. Os dois se conheceram em 1935 e daí surgiu uma grande amizade, na musica e na vida pessoal.

A marchinha "deixa a lua sossegada" foi a primeira parceria da dupla, gravada pelo cantor Almirante. Seguiram-se então um sem número de composições, entre elas alguns clássicos dos carnavais como "Yes, nós temos bananas" e "Chiquita Bacana". Uma marchinha dele que gosto muito é "Vírgula" de Alberto Ribeiro e E. Frazão, interpretada aqui por Mário Reis:



Alberto Ribeiro foi interpretado pelos maiores nomes do rádo: Mário Reis, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Vassourinha, Jorge Veiga, Almirante, Jamelão, Carmem Miranda, Dircinha Batista e muitos outros. Ouça a interpretação de Carmem Miranda para o samba "Veneno pra Dois" de Alberto Ribeiro e Braguinha:



Recentemente, dois sambas seus foram gravados por cantores da "nova geração do samba". O cantor Pedro Miranda interpretou a musica "Coração" no disco Lembranças Cariocas, de 2003 e o grupo Tuco e Batalhão de Sambistas regravaram "Não há de que", parceria com Bide, no disco Peso é Peso, lançado em 2010. Ouça a faixa "Não há de quê" interpretada por Carlos Galhardo, em 1936:



Reuni pra vocês uma coletânea com 40 sambas e 10 marchinhas de carnaval de Alberto Ribeiro e seus parceiros, gravados em 78 rpm e disponibilizados pelo Instituto Moreira Salles. O arquivo com as informações sobre as musicas, compositores, intérpretes e datas das gravações ficou de fora do arquivo e deve ser baixado separadamente!

Baixar arquivo de texto com informações sobre as musicas


O 4 shared está pedindo para fazer login antes de baixar os arquivos:
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Senha: samba2012

FAIXAS

01 – Coração (Alberto Ribeiro) 
02 - Não há de quê (Alberto Ribeiro e Bide) 
03 - Comprei uma fantasia de pierrô (Alberto Ribeiro e Lamartine Babo) 
 04 - Quem canta (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
05 - Você me deu o bolo (Alberto Ribeiro e Bide) 
06 - Você fugiu de mim (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
07 - Eu sei de alguém (Alberto Ribeiro e Braguinha)
08 - O cachorro vira lata (Alberto Ribeiro)
09 - Cenário de revista (Alberto Ribeiro) 
10 - Veneno pra dois (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
11 - Não olhes pra trás (Alberto Ribeiro) 
12 - Tua vida entortou (Alberto Ribeiro) 
13 - Não chora (Alberto Ribeiro e Silvio Caldas) 
14 - Coração sonhador (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida) 
15 - Você sambou pra mim (Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho) 
16 – Anúncio (Alberto Ribeiro e Frazão) 
17 - Estou zangado com você (Alberto Ribeiro e Frazão) 
18 -Onde o céu azul é mais azul (Alberto Ribeiro, Alcir Pires Vermelho e Braguinha) 
19 – Olga (Alberto Ribeiro e Sátiro de Melo) 
20 - Se o dinheiro chegasse (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida) 
21 - Maria do Céu (Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho) 
22 - Se eu tivesse um milhão de cruzeiros (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
23 - Bandeira da minha terra (Alberto Ribeiro e Braguinha) 
24 - Tem dó (Alberto Ribeiro, Antônio almeida, Braguinha e Dorival Caymmi) 
25 - Helena, vem me buscar (Alberto Ribeiro, Alcir Pires Vermelho e Braguinha)
26 - Vem jardineira (Alberto Ribeiro e Braguinha)
27 - Foi... é... e sempre será (Alberto Ribeiro e Roberto Roberti) 
28 - Eu quero é sambar (Alberto Ribeiro e Peterpan) 
29 – Isabel (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida) 
30 - Polonaisse em rítmo de samba (Frederic Chopin, Alberto ribeiro e Antônio Almeida) 
31 – Josefina (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida)
32 - Companheira de quem ama (Alberto Ribeiro e Antônio Almeida)
33 - Não chores assim (Alberto Ribeiro e Silvio Caldas)
34 - Casadinha Triste (Alberto Ribeiro e Braguinha)
35 - Adeus, vou-me embora (Alberto Ribeiro e José Maria de Abreu)
36 - Velho marinheiro (Alberto Ribeiro e Wilson Batista)
37 - Seu Libório, (Alberto Ribeiro e Braguinha)
38 - Esquina da saudade (Alberto Ribeiro, Chiquinho e Radamés Gnattali)
39 - Lá vem formosa (Alberto Ribeiro e Dorival Caymmi)
40 - Moreninha carioca (Alberto Ribeiro e Ronaldo Lupo)


Alberto Ribeiro - MARCHAS

01 - Dois amores (Alberto Ribeiro e Nássara)
02 - Tipo sete (Alberto Ribeiro e Nássara)
03 - Nem que chova canivete (Alberto Ribeiro)
04 - Deixa a lua sossegada (Braguinha e Alberto Ribeiro)
05 - Maria Acorda que é dia (Alberto Ribeiro e Braguinha)
06 - Yes, nós temos bananas (Alberto Ribeiro e Braguinha)
07 - Chiquita Bacana (Alberto Ribeiro e Braguinha)
08 – Vírgula (Alberto Ribeiro e E. Frazão)
09 – Pirulito (Alberto Ribeiro e Braguinha)
10 - A flor e o vento (Alberto Ribeiro e Braguinha)


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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Martinho da Vila


Hoje é aniversário do Martinho, "partideiro devagar" e mestre do samba entredo...
Fica o abraço do Receita e uma pequena homenagem!

Martinho, Paulo Moura, Rosinha de Valença e Grande Othelo - Disritmia



Maré Mansa, samba de Martinho e Paulinho da Viola - 1977


Vai ou não vai, 1978


Martinho e Rosinha de Valença na França - Canta, Canta, Minha Gente.


Iaiá do cais dourado - Samba enredo de Martinho, Vila Isabel, 1969



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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Conjunto Folclórico da Bahia - Viva a Bahia, Vol. 2

Esse disco de 1968 é resultado do trabalho idealizado pela baiana Emília Biancardi, etnomusicóloga especializada na música brasileira, com ênfase naquelas ligadas a festas, rituais e folguedos, como a capoeira, o candomblé, o maculelê, o samba de roda. Ela foi a responsável pela criação do grupo Viva a Bahia que se apresentou pela primeira vez em 1963, na semana da música, como o primeiro grupo parafolclórico do Brasil.

Ouça a Faixa 2 - Samba de Roda

Com coreografias encenando a puxada de rede, o maculelê, o candomblé e a capoeira, inspirados nos passos originais dessas manifestações o grupo unia teatro e musica na divulgação do folclóre baiano. Para a construção do espetáculo foram chamados mestres portadores de conhecimento sobre cada uma dessas tradições: Mestre Popó (José de Almeida Andrade, de Santo Amaro), para o maculelê; Negão Doni (Gilberto Nonato Sacramento), Dona Coleta de Omolu (Clotildes Lopes Alves) e Seu Edson (Edson Santos) para o candomblé; Mestre Acordeon (Ubirajara de Almeida) e Camisa Roxa (Edivaldo Carneiro dos Santos) para a capoeira. 

Segundo o site do Acervo Origens, o interessante é constatar que os grupos contemporâneos de capoeira trazem o maculelê, a puxada de rede e o samba de roda em suas práticas. Diz-se que a inclusão desses temas no universo da capoeira se deu justamente em função dos espetáculos montados por Emília Biancardi e pelo grupo Viva Bahia. Pode-se dizer, então, que o grupo criou uma tradição, a de agregar o maculelê, o samba de roda e a puxada de rede aos rituais da capoeira.

Em 1968, o espetáculo foi gravado em disco no Teatro Castro Alves, em Salvador e apesar da baixa qualidade da gravação (feita em mono), o disco é um registro histórico para de grande importância para a musica brasileira.

Fonte: Acervo Origens


1- Candomblé de kêto (Adapt. Por Maria Rosita Salgado Góes)
2- Samba de roda (Adapt. Por Maria Rosita Salgado Góes)
3- Capoeira (Adapt. Por Maria Rosita Salgado Góes)



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O delegado é bamba na delegacia, mas nunca fez samba, nunca viu Maria

Juca (Chico Buarque)


Juca foi autuado em flagrante como meliante
Pois sambava bem diante da janela de Maria
Bem no meio da alegria a noite virou dia
O seu luar de prata virou chuva fria
A sua serenata não acordou Maria

Juca ficou desapontado e declarou ao delegado
Não saber se amor é crime
Ou se samba é pecado
Em legítima defesa batucou assim na mesa
O delegado é bamba na delegacia
Mas nunca fez samba nunca viu Maria


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Eu quero é nota...

Francisco Alves
A Mangueira desfilou no concurso organizado por Zé Espinguela em 1929 com o samba "Eu Quero é Nota", de Arthur Faria. Separei abaixo duas versões:

Eu quero é nota
Carinho e sossego
Pra viver descansado
Cheio de alegria, meu bem
Com uma cabrocha ao meu lado

A primeira gravação oficial, de 1928, na voz de Francisco Alves acompanhado da Orquestra Pan Americana do Cassino Copacabana em disco 78 rpm. (acervo IMS):




A segunda, uma gravação caseira com Cartola, feita na casa de Hermínio Bello de Carvalho (acervo HBC)



Esse é um típico samba só de primeira, onde os versos que complementam a musica vão sendo improvisados pelos solistas.






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Falso Jogador de Sueca

Preto Rico 
Samba do acervo HBC, que credita a autoria ao sambista da Mangueira Preto Rico. A interpretação é creditada ao Cartola, mas eu acho que é o Nélson Sargento.  é do próprio Preto Rico, como lembrado pelo amigo Edinho...

Ah, pra quem não sabe o que é "sueca" clique aqui.


Falso Jogador de Sueca (Preto Rico)


Você anda dizendo 
Que é o tal na sueca
Mas quando você joga
Apanha mais do que peteca
Não há parceiro 
Que queira com você jogar
No final da partida
Seja o que for terá que pagar


(pra não relaxar...)


Quando você dá carta 
O seu parceiro já fica zangado
porque quase sempre, se ouve dizer
tem jogo furado
Parce brincadeira 
Só leva bandeira e perde o cartaz 
E o parceiro se zanga 
Com tanta renúncia que você faz


(Deixa disso rapaz...)




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Os Partideiros do Plá

Três clássicos do samba gravados durante a década de 70. Os Partideiros do Plá são um dos muitos grupos que aproveitaram o embalo das gravações de discos em formato de roda, com as musicas correndo sem interrupções, alguns bate papos e os sambas em levada de partido (vide "Olé do Partido Alto", "Partido em 5", "Bambas do Partido Alto" e outros).

O grupo era formado por Edson Menezes, Noel Rosa de Oliveira, Roque do Plá, Luiz Antonio, Iracy Serra, J.Palmeira, Pintacuda do Cavaco, Laelso da Cuíca e Cosme do Pandeiro. Lançaram três discos:

Clique na capa para baixar...


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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mais Monarco...

Aproveitando o embalo, olha o Monarco dando aula de samba pra meninada...




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Entrevista com Monarco

Velha Guarda da Portela, 1975
No final de janeiro, Monarco iniciou uma série de apresentações relembrando o seu primeiro disco, de 1976. Em uma entrevista cedida à revista Terra Magazine, O portelense fala do show, mas também fala com tristeza sobre os rumos do samba e da Velha Guarda da Portela:

..."A Velha Guarda está bem desfalcada hoje. Aos trancos e barrancos, vamos mantendo, mas está difícil, porque não tem peça de reposição. Não tem sentido a gente colocar pessoas que não têm aquela característica do passado. Se ficar enxertando de garotos, perde aquela característica... Vamos segurando a barra, mas está difícil, vai chegar uma hora que vai acabar - lamenta Monarco...

É a mais pura e triste verdade... e só um pedacinho dela...mas por outro lado tá cheio de portelense fazendo bonito Brasil afora...


Leia a entrevista na íntegra:


Terra Magazine - De quem foi a ideia do show comemorativo do seu primeiro disco, "Monarco", de 1976?

Monarco - Queriam comemorar os meus 77 anos e o Instituto Moreira Salles escolheu o primeiro disco de minha carreira. Eu achei legal também. Mas não tem expectativa nenhuma de relançamento do disco. É uma maneira de eles me fazerem uma homenagem carinhosa. Esse disco está fazendo 35 anos.

Muitos dos músicos que participaram da gravação já morreram...

Marçal, Dino, Abel Ferreira... Quem está vivo é o José Menezes! Vou até falar com o pessoal pra convidar. Não sei se ele vai poder ir, porque está morando longe. Mas muitos deles já morreram. Luisão morreu... Só está vivo o produtor, José Menezes, e umas duas ou três pessoas, Wilson das Neves, que tocou bateria...

Quem vai lhe acompanhar no show?
Vou ter o acompanhamento do ilustre violão do Paulão (7 Cordas), o diretor musical do Zeca Pagodinho, junto com meu filho Mauro Diniz. Eles é que vão fazer a parte harmônica. E a percussão é do Felipe de Angola. O palco é pequenininho, né? Uma coisa pra relembrar, vai ser legal. Já fizeram o encarte. A capa é do Lan. Sérgio Cabral, o velho, escreveu um texto. Juarez Barroso, que escreveu a maior parte da contracapa, faleceu. Romeo Nunes, que levou a ideia pro Ramalho Neto, o produtor, também já faleceu...

O senhor sempre esteve mais próximo da Velha Guarda da Portela?

A Velha Guarda da Portela é o meu reduto mesmo. Quando ela nasceu, Paulinho da Viola foi o responsável. Mas já tinha. Os velhos se chamavam de "velha guarda". No musical, a Portela foi a pioneira. O sonho de Paulinho da Viola era registrar aquelas músicas antigas do terreiro, da comunidade, que faziam sucesso, aquelas coisas espontâneas. Paulinho quis fazer esse disco e conseguiu realizar o sonho dele. E eu era o mais novo da turma. Paulinho escolheu um samba meu, que deu nome ao disco, "Passado de glória" (1970). A partir daquele disco nós começamos a fazer, esporadicamente, um pouquinho mesmo, uns shows por aí. Viemos a São Paulo pela primeira vez, a convite do Elifas (Andreato). Vicentina era viva ainda, a pastora. Ela era responsável pela feijoada, Paulinho até fez o "provei do famoso feijão da Vicentina". Daquela turma antiga, já morreram todos, rapaz... Só estamos vivos eu e Casquinha. A Velha Guarda está bem desfalcada hoje. Aos trancos e barrancos, vamos mantendo, mas está difícil, porque não tem peça de reposição. Não tem sentido a gente colocar pessoas que não têm aquela característica do passado. Se ficar enxertando de garotos, perde aquela característica.
Os garotos não estão pegando a musicalidade da velha guarda?

Não. Botamos alguns porque eram filhos de velhas guardas. Pusemos o Sérgio Procópio, filho de Osmar do Cavaquinho. Mas é garoto novo. Das pastoras morreu Doca, Vicentina... Eunice é viva, mas está velhinha, se aposentou. Daquela turma, ficou Surica e nós botamos Áurea Maria e Neide Santana, duas moças que são filhas do Manacéa e do Chico Santana, autor do nosso hino. Vamos segurando a barra, mas está difícil, vai chegar uma hora que vai acabar.

No disco, você tem uma parceria com Chico Santana, "Lenço".

Tenho sim. Nós temos uns quatro ou cinco sambas. Meu grande parceiro.

Não falta valorizar a memória desses sambistas? Muitos morrem sem a chance de gravar um disco.

Pois é, rapaz, triste né? Eu gostaria que todos os nossos grandes compositores da Portela, que fizeram a história da escola, lutaram pelo Portela, faziam aqueles sambas tirados de dentro do coração, sem pensar em gravar, sem nada... Gostaria que todos tivessem um disco gravado, como nós tivemos com Paulo da Portela. Agora tem um garoto aí, daqui de Santos, novo ainda, que teve a ideia bonita de fazer um disco só com as músicas do Chico (Santana). Manacéa também merecia um disco. O Alcides. Enfim, pra manter eles vivos. Pena que a gente não tem recursos.

O senhor sente que poderia gravar mais do que já gravou?

Pois é. Eu gravei quatro discos, não posso reclamar muito, não. E tive participação em vários discos, gravei dois pro mercado japonês, dois no Brasil e outro independente, pra uns publicitários aqui de São Paulo - eles fizeram um disco comigo, Guilherme de Brito e Nelson Sargento. Tem o da Eldorado ("Terreiro", 1980). Gravei "A voz do samba" (1992) e o DVD "Monarco, a memória do samba" (2010). Dois discos lançados no mercado japonês e relançados no Brasil. Mas, em termos de venda, não é aquela coisa, não, sabe? As pessoas compram, mas não é uma coisa comercial.

Qual o seu samba que, parando pra pensar, o senhor diz que está na medida?

Tenho um samba, que o Martinho da Vila gravou e fez sucesso nacional, "Tudo menos amor". Eu gravei nesse disco que vai ser comemorado. "Tudo que quiseres te darei, ó flor/ menos meu amor/ darei carinho se tiveres a necessidade..." (canta) Esse samba foi um sucesso, abriu caminho pra mim, os intérpretes passaram a acreditar em mim, as fitas que eu mandava com carinho eles foram gravando... Como Clara Nunes, Paulinho da Viola, o próprio Martinho, João Nogueira, Roberto Ribeiro, mais tarde Zeca Pagodinho. E agora "Coração em desalinho", uma parceria com Ratinho, que já faleceu, e está na novela "Insensato coração". É a trilha principal, abre e fecha. "Numa estrada dessa vida/ Eu te conheci/ Oh Flor!...". Quer dizer, esses dois sambas se destacaram mais na minha carreira. 

O senhor se sente ligado aos sambas-enredo atuais das escolas no carnaval? Mudou bastante?

As coisas mudam, as escolas hoje estão numa correria... Nos sambas de antigamente, o andamento era um pouquinho pra trás, os sambas eram assim mais longos e contavam realmente a história do Brasil: Caxias, os grandes vultos da história, como Castro Alves, Pedro Álvares Cabral. Às vezes se tinha uma aula de pessoas que conheciam a história. Hoje, os enredos são um pouco abstratos, diferentes... Não se pode segurar, o que vai se fazer? A evolução do mundo, o progresso, é do que eles falam. Eu acho um pouco corrido, não faço mais samba-enredo. Já não era meu forte. Meu forte era enaltecer a Portela, os amores, falar da vida cotidiana. Agora, o samba que Candeia fazia, Silas de Oliveira fazia, se eles tivessem aqui hoje, não ganhariam. É muito acelerado, as escolas passam correndo. O passista passa um pouco pra sambar em frente à comissão, aí tem o casal de porta-bandeira e mestre-sala e vem o diretor dizendo: "vambora, vambora, vambora...!", para não estourar o tempo. As escolas mudaram muito, o negócio do faturamento, essa coisa toda. Alguns sambistas se afastaram, até, porque não se enquadraram nisso.

Paulinho da Viola, por exemplo.

Paulinho faz dois anos que não sai. Quando ele saiu, estava há 20 anos sem sair na Portela. Nós convidamos uma vez, ele foi lá na Portela numa festa... O falecido Alberto Nonato convidou ele pra sair na Portela. Aí ele desfilou de novo. Ano passado já não desfilou. Este ano ele talvez não vá desfilar. Eu liguei pra ele, ano passado, e ele me disse que não ia sair, não, porque iria viajar. Mas o que me consta é que ele não viajou, não. Sei lá, né? Ele não está se aclimatando mais nisso.

No samba "Mangueira e suas glórias", o senhor demonstra admiração por Cartola, Nelson Cavaquinho, Padeirinho... Como é a relação entre as duas escolas?

Fiz aquele samba... Nem tinha nada programado na minha cabeça. Nelson Cavaquinho foi meu padrinho de casamento. Cartola era meu ídolo. Padeirinho era meu amigo, meu parceiro de farra, de copo. Então, nasceu espontaneamente, só fiz esse. E Paulinho fez "Sei lá, Mangueira" com Hermínio (Bello de Carvalho). Inclusive, até causou um pouco de polêmica lá na Portela, o pessoal dirigente não gostou muito... Sendo Portela e elogiar a Mangueira? Isso é bobagem. Mas é uma coisa que aconteceu. Não tenho arrependimento de ter feito. Louvei a Mangueira, tenho muito respeito pela Mangueira, é uma escola tradicional, tanto ela quanto a Portela. Mangueira e Portela sofreram o pão que o diabo amassou no início. Sambista era visto como marginal, samba era negócio de vagabundo. Só fiz esse, não tenho arrependimento, entendeu? Tá feito, tá guardado no meu coração, tenho certeza que não fiz por mal. A inspiração nasceu e eu fiz. Se tivesse a essa altura, faria de novo. Não foi nenhum erro enaltecer a Mangueira, Cartola, Padeirinho, Nelson Cavaquinho, que são eternos, como também já teve mangueirense fazendo samba para enaltecer Paulo, falando da Portela. "Mangueira, sempre foste a primeira... Portela, nossa fiel companheira...". Sempre houve essa troca de elogios. Cartola fez "Devemos ter adversários como Oswaldo Cruz". Oswaldo Cruz é o quê? É Portela. 

Na infância, o senhor chegou a pegar alguma rivalidade entre o samba baiano e o carioca?
Não. É diferente. O samba baiano é assim meio de roda. O samba da Portela, do Estácio, da Mangueira, é diferente, tem uma levada diferente. Tinha o samba amaxixado, um samba tocado na Bahia. Eu respeito, mas eu cresci ouvindo os sambas na linha que até hoje eu faço, da Mangueira, da Portela e da Estácio: o samba antigo de terreiro.

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O samba em dois tempos

Xangô da Mangueira













Recordações de um batuqueiro, famoso partido de Xangô da Mangueira e J. Gomes, interpretado aqui por ele mesmo no disco "Os Partideiros" de 1970:


E por Roberto Ribeiro e Elza Soares no disco ao vivo "Sangue, Suor e Raça" de 1972...


Aliás, essa interpretação da Elza é um show a parte...


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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Saravá Iemanjá...

Homenagem do Receita à rainha das águas!

Canto de Iemanjá (Vinicius de Morais e Baden Powell)
Intérpretes: Mônica Salmaso e Paulo Belinatti

Velha Guarda da Portela

Um belo time reunido!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Peso é Peso


O disco ao vivo do Tuco e Batalhão foi disponibilizado na íntegra pela Rádio Uol. Vale a pena conferir. Como eu disse na postagem abaixo, é um registro histórico, com uma penca de sambas inéditos, onde figuram nomes como Paulo da Portela, Manacéa, Mijinha, Antônio Caetano, Picolino, Chatim, Alberto Lonato, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e muitos outros mestres. O disco traz participações de Monarco, Nélson Sargento e Cristina Buarque.



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Como é bom reviver coisas velhas da Portela...

Monarco, Tuco e Batalhão de sambistas cantam "Portela desde que nasci", belo samba de Monarco. Aliás essa turma tem feito um samba bonito de se ouvir. Eles acabaram de lançar o CD "Peso é Peso" um registro histórico de sambas tirados do fundo dos mais saudosos terreiros, dos tempos de ouro do samba!


Aproveitando o embalo, um vídeo onde eles cantam "Silenciar a Mangueira" (Cartola) e "Vivo Isolado no Mundo" (Alcides Lopes) e Monarco fala um pouco sobre seu parceiro Alcides Malandro Histórico: