quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tudo por causa de uma cinza de cigarro...

João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Paulo César Pinheiro é de fato um gênio. Já havia chegado a essa conclusão há tempos, mas a cada dia me surpreendo com este que é um dos maiores compositores que já ouví, talvez o maior deles ainda vivo.

Muitos já ouviram falar da "Trilogia do Alumbramento", uma série de canções de Paulo César Pinheiro em parceria com João Nogueira. Poucos sabem, porém, é que essa obra de mestres surgiu por causa de uma discussão durante uma gravação dentro de um estudio da Odeon. Na época a gravadora possuia uma infraestrutura invejável, coisa de primeiro mundo e que foi inaugurada com pompas e circusntâncias pelo príncipe Charles, que veio da Inglaterra especialmente para a ocasião. Um dos diretores, um polonês bastante antipático implicou com um maestro que deixou cair no chão a cinza do cigarro. Quando o diretor já ia ensaiando um sermão - "você faz isso na sua casa? " - o maestro, já sem paciência, respondeu prontamente: "Claro que não... Lá em casa tem um monte de cinzeiros espalhados por todo o canto. Isso aquí não é o palácio da rainha. A gente tá no Brasil e eu estou trabalhando, me dá licença".

E enquanto o diretor se desconcertava, Paulo César Pinheiro assistia a tudo e começou a pensar que todo aquele luxo com que o diretor se preocupava iria acabar um dia, os nomes dos figurões e do principe inglês na placa pendurada na parede um dia se apagariam... o que restaria mesmo, para sempre, eram as musicas que alí estavam sendo gravadas, que aquela discussão era uma bobagem...

E com essa idéia na cabeça, Paulo César Pinheiro começou a esboçar um de seus mais belos sambas, que recebeu o nome de Súplica:



O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome a obra imortaliza


A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
Ilumina a gente além da morte

Mostrou essa primeira parte ao amigo e parceiro João Nogueira  que emendou sem pestanejar a melodia da segunda parte, em seguida letrada por Paulo:

Venha a mim, ó música
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única


Venha a mim, ó música
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz


Era um pedido, uma prece aos deuses da música para que jamais lhe faltasse inspiração. E os deuses o atenderam! Não satisfeito, começou a rabiscar uma letra em cima de uma nova melodia que lhe veio à cabeça, pensando exatamente em uma seqüência para sua Súplica:


Não, ninguem faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação

Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração

Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
Que acende a mente e o coração


Novamente mostrou a musica ao parceiro que emendou uma melodia para que Paulo continuasse a letra:

É faz pensar 
Que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Bem no meio da noite ou no claro do dia
Chega a nos angustiar

E o poeta se deixa levar por essa magia
E o verso vem vindo e vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar

Nascia "O Poder da Criação" um dos sambas mais bem sucedidos da dupla. 

Mas ainda faltava algo. A primeira canção era uma prece para que o dom de compor nunca lhe faltasse. A segunda uma tentativa de explicar como a musica, seus versos e melodias surgem, de repente, na alma do compositor. Faltava falar dos porta vozes, os cantores, que levam ao povo a mensagem dos deuses da musica traduzidas pela sensibilidade do compositor. Os cantores, com suas vozes inesquecíveis tinham a divina missão de eternizar os versos dos poetas. Pensando neles, Paulo César tirou da gaveta os versos guardados há tempos.



Quando eu canto
É para aliviar meu pranto
E o pranto de quem já tanto sofreu
Quando eu canto
Estou sentindo a luz de um santo
Estou ajoelhando aos pés de Deus

Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite
Canto também contra a tirania
Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo
A esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz!

Do poder da criação
Sou continuação e quero agradecer
Foi ouvida minha súplica
Mensageiro sou da música

O meu canto é uma missão
Tem força de oração
E eu cumpro o meu dever
Aos que vivem a chorar
Eu vivo pra cantar e canto pra viver

Quando eu canto, a morte me percorre
E eu solto um canto da garganta
Que a cigarra quando canta morre
E a madeira quando morre, canta!

Estava pronto o arremate da obra. "Minha Missão", a canção que exaltava a importancia dos cantores foi gravada por Clara Nunes, uma das mais competentes encarregadas da missão divina de levar a musica e sua poesia aos ouvidos do povo. As versões acima são do disco Parceria, gravado ao vivo com João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Entretanto não podia deixar de postar a gravação da Clara para essa musica:



Fonte: Livro "História das Minhas Canções" - Paulo César Pinheiro
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2 comentários:

Léo Brito disse...

Linda história!

abs,
Léo Brito

Unknown disse...

Um dos maiores genios da musica, mestre PC Pinheiro obrigado