sábado, 18 de dezembro de 2010

Santo e Orixá

Glória Bonfim
O grande poeta, compositor e sambista Paulo César Pinheiro escreveu uma série de canções, seguindo a temática dos afro sambas... As musicas seguiam a linha de cantos de candomblé, compostas sem parceria e ele pretendia gravar em um disco interpretando ele próprio as canções. Mas acontece que os santos e orixás homenageados tinham um presente para retribuir o compositor as belas canções...

Certo dia chegou ao Rio de Janeiro, vinda da pequena cidade de Areal, na Bahia, uma cozinheira de mão cheia, dona também de uma voz única... Em sua infância no interior da Bahia não havia rádios, muito menos a oportunidade de se ouvir discos. Nessa época em que os festejos eram comandados por musicos locais, uma menina de apenas oito anos impressionava a todos com um canto poderoso, daqueles que quando se ouve todos param para apreciar. Entre as canções preferidas da menina, uma valsa, que ela sequer sabia de onde vinha, mas cantava a plenos pulmões pelas ruas e festas de Areal:

Oh, tristeza me desculpe 
Tô de malas prontas 
Hoje, a poesia, veio ao meu encontro 
Já raiou o dia, vamos viajar 
Vamos indo de carona 
Na garupa leve do tempo macio 
Que vem caminhando desde muito longe 
Lá do fim do mar...

A musica era "Viagem", de Paulo Césa Pinheiro, e a menina baiana mal sabia o que o destino preparava para ela. Só pra constar, Paulo César Pinhiero compôs essa musica quando tinha apenas 14 anos, a mesma idade com que a menina Glória deixou a Bahia e de "mala e cuia" embarcou para o Rio de Janeiro. Trabalhou como doméstica em diversas casas durante dez anos até que foi contratada como cozinheira por uma família... E é aí que o destino começa a aprontar das suas:

A "patroa" um dia, ao passar pela cozinha, ouviu a cozinheira cantarolando os versos da musica "Viagem", que ainda era a que Glória mais gostava de cantar. Brincou então com a cozinheira: "Tá puxando o saco do patrão hein...". A moça sem entender nada, ficou preocupada e se pôs a explicar para a patroa que não era nada disso, que aquela era apenas uma bela musica que ela gostava de cantar desde pequena. 

A "patroa" era Luciana Rabello e a casa em que a baiana trabalhava era a casa de Paulo César Pinheiro. Luciana então explicou à cozinheira que aquela musica que ela tanto gostava havia sido composta pelo mesmo homem que a contratou para trabalhar em sua casa. A reação de Glória foi tão inesperada que a patroa mal acreditava no que ouvia: Glória, com os olhos rasos d'água disse não acreditar que as musicas eram "inventadas" por pessoas e, menos ainda, que trabalhava na casa do criador daquela que a acompanhava desde criança. Vejam vocês, Glória achava que músicas não eram feitas, mas que simplesmente existiam como as cantigas de santo do candomblé. E não imaginava, absolutamente, que estava há quatro anos convivendo com o autor da sua maior lembrança!

E foi aí que Paulo César Pinheiro descobriu que aquela baiana, simples e de voz encantadora, seria a pessoa ideal para gravar seu disco com homenagens aos santos. Alé de todas essas coincidências, Glória era descendente de sacerdotes de umbanda e candomblé, tornou-se Yalorixá e tem seu próprio terreiro. Não tinha com ser diferente. Em 2007 foi lançado o disco "Glória Bonfim - Santos e Orixás" com 14 musicas de Paulo César Pinheiro interpretadas de forma impressionante pela cozinheira baiana. Um lindo trabalho, pra se ouvir com muita atenção.

Ouçam a primeira faixa do disco e vejam se não é uma obra prima:

Santo e Orixá (Paulo César Pinheiro)
Intérprete: Glória Bonfim


Santa Rita,
Foi chamar Santa Teresa
Pra por um fim nessa tristeza
Que tomou conta desse mundo de ilusão
Santa Clara,
Já falou com Santa Helena
Que pela dor que a gente pena
Ela tem pena desse nosso coração
São Vicente
Foi buscar São Cipriano
Que ele desmancha desengano
Desesperança, desamor, desilusão
São Gonçalo
Convocou São Malaquias
Pra resgatar nossa alegria
Senão pra gente a vida não vai ter razão
É muita mágoa
Nem mesmo o mar tem tanta água
Pouco prazer pra muita lágrima
Haja milagre pra tristeza se acabar
É muito pranto,
Tem povo triste em todo canto
É muita dor pra pouco santo
E o santo vira dois
É santo, é orixá

Janaina
Já botou Iansã de frente
Pra arrebentar essa corrente
Com o raio ardente e o vendaval da sua mão
Xangô velho
Viu Obá no seu terreiro
Mandou chamar ogum guerreiro
Que tem a lança pra matar esse dragão
Foi Ossanha
Que chamou Nanã senhora
Que é pra mandar o mal embora
Que o mundo já virou o inferno do cristão
Foi Oxóssi
Que falou pra Oxum do Rio
Que pra vencer o desafio
Tem que lutar senão não tem mais jeito não
É muito peso,
Muito desdém muito desprezo
Precisa ter pavio aceso
Pro lampião do coração não se apagar
É muito espanto,
É muito ebó, muito quebranto
Precisa muito pai-de-santo
Fazendo muito encanto pra ninguém chorar

Uma outra história interessante que acompanha uma das canções desse disco e a da musica "Sultão do Mato", contada pelo próprio Paulo César Pinheiro em seu livro chamado "Historias das minhas canções":

Paulo conta que desde pequeno desenvolveu uma certa mediunidade. Vê vultos, pessoas, sombras...Ouve palavras, cantos e passos, sonha com coisas que muitas vezes acabam acontecendo... Conta ainda que em uma longa noite de insônia, sem vontade alguma de ler, compor ou mesmo pensar, deitou-se em um quarto isolado em um canto de sua casa, para não acordar a família. Apagou as luzes, deito-se na esperança do sono chegar de leve, mas nada... Aos poucos aquilo foi crescendo e virou, em suas palavras, um grande círculo faiscante de azul intenso. Imóvel, um tanto assustado, pregado no colchão, viu surgir na luz azul um rosto, de feições árabes, barba bem recortada no rosto, um olhar negro penetrante, na cabeça um grande turbante e uma pedra roxa no centro da testa. Quase em pânico, ouviu a imagem começar a cantar... um canto bonito, mas diferente. Segundo o poeta, parecia um ponto, um mantra. A musica levou o medo embora e após aquela voz grave que vinha sabe-se lá de onde repetir o refrão por umas dez vezes, Paulo César o decorou e a imagem foi se desfazendo até sumir completamente.

Paulo César Pinheiro
Paulo César, ainda sob o choque de tal experiência, foi para seu escritório e registrou o canto em seu gravador... Aos poucos foram surgindo versos, formando-se estrofes e ao amanhecer uma nova musica estava pronta. Paulo descreveu a figura que lhe aparecera para sua empregada, a Glória Bonfim, que como foi dito era uma autoridade no campo da umbanda e candomblé. Glória lhe contou que havia um "Sultão das Matas" na linha de Xangô que lhe parecia ser a figura descrita pelo patrão, mas não tinha certeza. Paulo César Pinheiro conta que essa imagem o acompanhou durante muito tempo em pensamento.

Até que um dia, procurando algo entre seus livros na biblioteca, puxou um livro que não era dele, que ele nem conhecia muito menos sabia de onde viera. Era um livro sobre o Conde Saint German, criador da doutrina do Sétimo Raio, cujo objetivo era instruir a humanidade a transmutar seus erros e ingressar num viver regenerado, puro e cheio de felicidade. Ao folhear o livro, tomou um susto... viu em uma das páginas a imagem de um homem, exatamente igual ao que lhe aparecera naquela visão... Era o Sultão do Mato.

Nas palavras do próprio Paulo: "Não acreditam? Pois é... É assim que eu vivo. Entre a matéria e o etéreo. Entre o papel e o ar. Entre a massa e a energia. Entre Arigó e Einstein...

Sultão do Mato (Paulo César Pinheiro)
Intérprete: Glória Bonfim


Minha guia é de conta encarnada,
De búzio da costa, de conchinha azul
No pescoço ela dá sete voltas
E traz pendurado o Cruzeiro do Sul

Eu não sei que santo é esse meu mano
Mas o dia que eu souber eu não conto
Ele tem na mão direita um abano
E na esquerda o seu bastão de confronto
Quando desce é pra açoitar desengano
Na batida do adjá chega pronto
Ele é meio índio, meio africano
Mano vem que vou puxar o seu ponto

Minha guia é de conta encarnada,
De búzio da costa, de conchinha azul
No pescoço ela dá sete voltas
E traz pendurado o Cruzeiro do Sul

É de palha, é de pena, é de pano
O seu traje de sultão com Xavante
No turbante, no cocar soberano
Brilha a estrela de um metal flamejante
Veste com força de terra e oceano
Esse santo, mano, é que me garante
Bate logo o toque dele meu mano
Anda que ele está querendo que eu cante

 

Clique abaixo para baixar o disco completo


01 - Santo e Orixá
02 - Ogum-Menino
03 - Bambueiro
04 - Encanteria
05 - Anel de Aço
06 - Cavalo de SantO
07 - Gameleira Branca
08 - O Mais Velho
09 - Casa-De-Coco
10 - A Palma da Palmeira
11 - Senhor da Justiça
12 - Sultão do Mato
13 - Caboclo Guaracy
14 - A Revolta dos Malês

* Todas as canções são de autoria de Paulo César Pinheiro


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Um comentário:

natalia disse...

eu gostaria de ter a letra de este som, sou de argentina, e gostaria de canta-lo mais algumas palavras eu nao comprendo
meu e mail: deacaalachina@hotmail.com