quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O homem de um braço só...



Assistindo ao dvd Ensaio do Zé Kéti, me deparei com um lindo samba em homenagem a Natalino José do Nascimento, o Natal da Portela. Seu Natal foi uma figura ímpar na Portela, escola que viu nascer ainda menino nos fundos da casa de seu pai, o velho Napoleão, alí na Estrada do Portela.

Natalino José do Nascimento
Compositor: Zé Kéti
Intérprete: Zé Kéti


Palito, cigarro no canto da boca
Chapéu na cabeça, não dormia de touca

Dia de festa
De terno branco
Lá vai ele de chinelos
Ou então vai arrastando seu tamanco

Coração grande, sorriso franco
Lá vai ele de chinelos
Ou então vai arrastando seu tamanco

Já elegeu em oswaldo cruz um deputado
No samba ele é considerado
Muito respeitado no ambiente

Tanta caridade, fez pra tanta gente
Comprando remédio, internando doente
Fazia enterros de quem não podia,
A esmola do pobre ele não esquecia

É o namorado da nossa favela
E chora saudades se está longe dela

Na passarela da vontade
De sorrir e de chorar
Quando a Portela chegava pra ganhar

Com natalino comandando
Arrastando seu tamanco devagar
Pisando em flores que o povo atirou
Esperando ela passar

E a gente canta,
Canta, canta...
Na alegria de viver pra ela
Juntinho, morrendo de amores por ela
Cantamos a vitória da portela


Natal nunca foi um sambista propriamente dito... Não compunha, não cantava, não tocava mas gostava de samba. E o que ele fez pela Portela, poucos sambistas tiveram o privilégio de fazer por sua escola. Assumiu o lugar de Paulo da Portela e dedicou-se por quase uma vida toda à escola. Natal era bicheiro, comandava as bancas de madureira e com o dinheiro que ganhava não pensava duas vezes em ajudar sua escola, seus componentes e companheiros moradores de Oswaldo Cruz.Isso mesmo, a Portela era financiada pelo jogo do bicho... Um abismo de distância em relação ao que as escolas se tornaram hoje em dia...

Natal foi um homem simples, que andava sempre de chinelos, às vezes trajando camisas de pijamas. Mas depois de Paulo foi o nome mais respeitado na Portela e suas redondezas. Por causa de um acidente no trabalho, teve de amputar seu braço direito. Tornou-se o "homem de um braço só", imortalizado nos versos de João Nogeueira:

O Homem de um Braço Só
Compositor: João Nogueira
Intérprete: João Nogueira


Com um braço só,
Já fiz o que você não faria
Acho que era covardia,
Eu ter dois braços também

Com um braço só,
Eu já dei muito trabalho
Carteei muito baralho
Bem melhor do que ninguém

Com um braço só,
Já dei tapa em vagabundo
Dei a volta pelo mundo,
Mas também já fiz o bem

Com um braço só
Vou viver a vida inteira
Mandando em Madureira
E em outras terras também

Com um braço só,
Eu comando na avenida
A minha Portela querida
E que me quer tanto bem


Em 1988 foi lançado um filme sobre a vida de Natal, chamado "Natal da Portela". Já assistí em vhs, mas nunca encontrei na internet, só um trechinho no Youtube. Seu Natal é interpretado pelo Milton Gonçalves:


Um comentário:

Luiz Antonio Calazans disse...

Que bacana essa história ! Eu sempre gostei desse samba e desde criança, ouvia junto com meu pai, mas ele nunca comentou nada a respeito; eu tbm nunca perguntei, mas me espantava alguém fazer tudo isso sem um braço; eu estou emocionado ! Muito Obrigado pelo Belíssimo Blog !
Um Abraço
Luiz Calazans