domingo, 5 de setembro de 2010

Jacob do Bandolim: o "monstro sagrado" do choro!



Jacob Pick Bittencourt foi um gênio da musica brasileira, na minha opinião, o maior deles, ao lado é claro de Pixinguinha. Nascido em 1918 no Rio de Janeiro, ganhou de presente da mãe um violino, mas achou aquele negócio de tocar com um arco muito complicado e acabou passando para o bandolim, que tinha a mesma afinação, mas tocava-se com uma palheta, muito mais fácil, segundo ele...

Jacob faz uma auto qualificação:


O próprio Jacob conta que certa vez, da janela de sua casa, escutou pela primeira vez um choro, chamado "É do que há". A melodia que vinha da rua direto para seus ouvidos mudou o destino daquele menino, que mesmo sem professor, autodidata desde os 12 anos, viria a ser conhecido como Jacob do Bandolim, o maior bandolinista que nossa musica já conheceu, dono de uma técnica perfeita e um preciosismo que fazia com que as notas soassem tão limpas a ponto de até hoje poucos terem conseguido igualar a maestria de seus solos e suas composições.

Jacob e Época de Ouro: É do Que Há de Luiz americano


Com apenas 16 anos se inscreveu no "Programa dos Novos" da Rádio Guanabara, uma espécie de show de novos talentos, e arrasou com 28 concorrentes ao solar o choro "Segura Ele" de Pixinguinha. Fez tanto sucesso que foi convidado a trabalhar na emissora com seu grupo chamado "Jacob e Sua Gente" formado por Osmar Menezes e Valério Farias "Roxinho" nos violões, Carlos Gil no cavaquinho, Manoel Gil no pandeiro e Natalino Gil no ritmo, acompanhando grandes cantores da época como ataulfo Alves, Noel Rosa, Lamartine Babo, entre outros.

Abel Ferreira, Artur Moreira Lima e Época de Ouro: Segura Ele de Pixinguinha:


Jacob amava a musica, o choro e não admitindo submeter-se às vontades de gravadoras, optou por não levar a musica como profissão. Assim, sua musica não perderia a pureza do verdadeiro choro e ele não morreria de fome... Prestou concurso público e trabalhou a vida toda como Escrivão da Justiça do Rio de Janeiro.

Em sua casa no bairro de Jacarepaguá, Jacob realizava saraus memoráveis com a presença de muscicos da alta patente, como Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Ataulfo Alves, Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho, Canhoto da Paraíba, Maestro Gaya, Darci Villa-Verde, Turíbio Santos e Oscar Cáceres. Tais reuniões varavam noites regadas ao melhor do choro e do samba, como você pode ouvir abaixo na gravação de "Carolina" de Chico Buarque, executada com maestria por Jacob:



Em 1955, Jacob foi convidado pela TV-Record para organizar um programa de Choro chamado "Noite dos choristas", exibido em 12.05.1955. Jacob diante de um convite para participar de um programa ao vivo num dos principais canais de TV do país, não pensou duas vezes e convidou grandes chorões, encabeçados pelo mestre Pixinguinha, com quem dividiu o palco do programa, ao vivo, acompanhados pelo regional da Tv. Record. Mas o que ele guardou para o final foi surpreendente: colocou no palco aquele que seria o maior regional de todos os tempos, com cerca de 70 de músicos amadores.

Jacob fala de quando tocou no regional de Pixinguinha:


O programa fez tanto sucesso que em 1956 a TV-Record encomendou a Jacob mais uma edição. Empolgado com a repercussão do mega regional do primeiro programa, elogiado pelos maestros Pixinguinha e Guerra Peixe, Jacob surpreendeu duplicando algo que já parecia inimaginável... Dessa vez subiu ao palco regendo 133 musicos, distribuídos em 17 bandolins, 14 acordeons, uma flauta, um pífano, um saxofone alto, um trombone, 4 violinos, 4 violões tenores, 18 cavaquinhos, um serrote, 40 violões, 5 ritmistas e 3 baterias. Foi um dos maiores momentos da musica brasileira!


Jacob e o Regional do Canhoto, que o acompanhou entre 1951 e 1960

Após ser acompanhado pelo Regional do Canhoto por quase uma década, entre 1951 e 1960, Jacob, que era extremamente exigente com relação aos ensaios, sentiu a necessidade de ter o seu próprio grupo. Reuniu então os violonistas César Faria, Carlos Leite e Dino 7 cordas. Chamou para o pandeiro Gilberto D'Ávila e para o cavaquinho Jonas Silva.


Jacpb e Conjunto Época de Ouro

A princípio, o grupo recebeu o nome de Jacob e seu Regional, estreando no disco "Chorinhos e Chorões" de 1961. No disco seguinte, "Primas e Bordões" de 1962, o grupo foi apresentado como Jacob e seus Chorões. Esses dois discos são clássicos do choro indispensáveis... Jacob conseguiu a fórmula perfeita! Os 3 violões brincando são uma coisa maravilhosa...

Santa Morena Valsa de Jacob do Bandolim. Gravação do disco Chorinhos e Chorões


Pela terceira vez e em definitivo, o grupo de Jacob mudava seu nome para Conjunto Época de Ouro. Já com a participaçõ de Jorginho Silva no pandeiro, Jacob lança o LP "Vibrações", considerado por muitos como um dos melhores discos instrumentais de todos os tempos. Uma obra prima que consolidava o resultado da postura de Jacob. Um lider exigente, que cobrava multas de quem se atrasasse ou faltasse aos ensaios, que buscava a qualquer custo a perfeição em cada nota.

Vibrações de Jacob do Bandolim:


Jacob fala de sua preocupação com o futuro do choro:


Como era autodidata, dizia que nunca soube ensinar, que era péssimo professor... Mas dizem que ao vê-lo ensaiando seus musicos ficava-se impressionado com a seriedade e disciplina que conseguia impor a seus musicos, privilegiados musicos...

Essa dedicação e respeito à musica chamaram a atenção do grande maestro Radamés Gnattali, que compôs especialmente para Jacob a suíte Retratos, uma suíte para bandolim, orquestra e conjunto regional, homenageando em cada um dos quatro movimentos os quatro compositores que considerava geniais e fundamentais na formação da nossa música instrumental: Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Suíte Retratos Quarto Movimento: Chiquinha Gonzaga


Depois de completada a missão e o resultado aprovado pelo maestro, Jacob escreve uma carta a Radamés onde se destaca a importância da obra para o seu amadurecimento musical:

"...Hoje minha cantilena é outra: "Mais do que ensaiar, é necessário estudar". E estou estudando. Meus rapazes também (o pandeirista já não fala mais em paradas). "Seu Jacob, o senhor aí quer uma fermata? Avise-me, também, se quer adágio, moderato ou vivace...". Veja, Radamés, o que você me arrumou. É o fim do mundo. Retratos: valeu estudar e ficar todo fechado dentro de casa durante todo o Carnaval de 1964, devorando e autopsiando os mínimos detalhes da obra, procurando descobrir a inspiração do autor no emaranhado de notas, linhas e espaços e, assim, não desmerecer a confiança que em mim depositou, em honraria pródiga demais para um tocador de chorinhos..."

Jacob era um fumante compulsivo e sofreu três enfartes, o último, derradeiro... Mas jacob conseguia ver graça e beleza até na morte, como você pode ouvir abaixo no relato de su primeiro enfarte... "Perdi uma bela oportunidade de morrer sublimemente naquela noite..."



Jacob nos deixou em uma quarta feira, no fim do dia 13/08/1969, quando sofreu seu terceiro enfarte, dentro do carro, na porta de casa ao voltar de uma visita ao amigo Pixinguinha. Ficou imortalizado em suas composições, clássicos do choro como Assanhado, Noites Cariocas, Doce de Côco, Benzinho, O Vôo da Mosca e em suas interpretações inigualáveias de mestres como Pixinguinha, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth... Salve Jacob e seu bandilim!

Este vídeo abaixo, sem áudio, é o único registro de Jacob do Bandolim em movimento que se tem notícia. O Instituto Jacob do Bandolim oferece até uma recompensa de R$ 2.000,00 pra quem souber de outro vídeo com imagens de Jacob:



Pra terminar, uma bela homenagem de Sergio Bittencourt, filho de Jacob, relembrando a presença de seu pai: Naquela Mesa, na voz de Zélia Duncan, acompanhada de Hamilton de Holanda e Nilze Carvalho:

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