segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Entrevista com Zé Kéti (José Flores de Jesus)



Entrevista concedida a Sérgio Cabral, publicada no encarte da série "História das Escolas de Samba" lançada pela Som Livre em 1976:

Em matéria de escola de samba você começou pela Portela mesmo?
Zé Kéti: Quando eu era menino e morava na Piedade, o Geraldo Cunha me levou para assistir a uns ensaios na Mangueira. O Geraldo era compositor da Mangueira, parceiro do Carlos Cachaça, daquela turma, e na época ele fazia muito sucesso por lá. Eu gostei muito da coisa.

Mas você ficou na Mangueira?
Zé Kéti: Não, eu ia só assistir. Depois, mamãe se mudou para Bento Ribeiro porque meu padrasto fez uma casa lá...

Espera aí um pouquinho. Com que idade você estava quando foi à Mangueira?
Zé Kéti: Eu devia ter uns 13, 14 anos. Mas quando me mudei para Bento Ribeiro, que era perto da Portela, fui levado para a escola pelo Armando Santos, que era compositor e foi depois presidente. A Portela ainda não era na Estrada do Portela, 444 não. Era ande é hoje o botequim do Nozinho. Era um terreiro descoberto, não tinha nada.

Zé Kéti canta "Velha Guarda da Portela" de sua autoria:


Você já fazia samba nessa época?
Zé Kéti: Não, eu ia só apreciar a turma. Não dava pra mim, eu ainda era meio garoto.

E quando foi que começou a fazer samba?
Zé Kéti: Aos poucos eu fui me entrosando com Alvaiade e outros compositores da Portela, o Armando Santos, aquele pessoal, e eles me deram força. O meu primeiro samba na Portela fez muita sucesso lá. Era assim:

"Lá vem a Portela
Com suas pastoras
Alegres a cantar
Oba Yoiô, oba Yaiá
Não tememos o vento nem a tempestade
Nem as lindas ondas do mar
Chega, deixa isso pra lá "

Eu não me lembro da segunda parte. Mas o samba fez um sucesso danado na Portela. A segunda parte fala em jequitibá, não sei o que Iá...

Esse foi o primeiro samba para Portela. Mas antes você não fazia?
Zé Kéti: Eu fazia, mas particularmente, só pra mim. O meu segundo samba para a Portela era uma resposta a um samba do Nelson Cavaquinho exaltando a Mangueira. É aquele samba que a Clara Nunes gravou há uns dois anos. Eu aproveitei um verso do samba dele — falando em "Paulo que morreu"— e fiz o meu. Desse samba não me lembro nada, mas o Candeia sabe ele todo. Vou até procurar o Candeia pra ele me ensinar. Eu sou muito esquecido. Acho até que tenho de tomar uns remédios com fosfato, porque não me lembro de vários sambas meus. Se não fosse a lembrança de alguns amigos, como o Candeia, não sei como é que eu ia me arranjar. Esse meu segundo samba, por exemplo, me lembro que era muito bonito. Vou pedir ao Candeia pra me ensinar e vou gravar. Ele é muito bonito.

Nessa época você já desfilava na Portela?
Zé Kéti: Já, e na ala dos compositores. Nas passeatas que a Portela fazia eu também ia com a escola e acabei ficando muito conhecido pela turma de lá.

Mas você andou brigado com a Portela logo depois que você começou a fazer samba por Iá.
Zé Kéti: É que eu sempre fui perseguido por um troço: quando um samba meu faz sucesso aparece um cara para dizer que o samba não é meu. É uma perseguição muito grande. Veja você como é a imaginação das pessoas. Fiz um samba pra Portela que fez muito sucesso. A letra era assim:

"Não, não quero morrer agora
Ingrata morte vai embora
Abandone o meu leito de dor
Peço clemência ao Senhor
Estou em plena flor da idade
Se eu morrer Do mundo levarei saudade".

Quando lancei esse samba, o Nilson que era um compositor da Portela, um cobra, um grande compositor, ele estava tuberculoso. Depois ele morreu. Então, apareceram uns caras dizendo que o meu samba era dele por causa da letra. Muita gente ficou do meu lado. O Armando Santos, o Alvaiade, muita gente ficou indignada com aquele negócio: "Não senhor! Esse samba e do Zé Kéti. Ele lançou aqui na Portela, o Nilson estava vivo, e ele próprio cantava. Que negócio é esse de dizer que o samba não é do Zé?" Mas eu fiquei muito triste e me afastei da escola.

Voltando ao tempo em que você era criança, o seu primeiro contato com escola de samba parece que não foi na Mangueira. Estou me lembrando de um samba seu que fala em desfile na Praça Onze.
Zé Kéti: Ah! Foi um samba em que falo do tempo em que eu era menino, bem menino. Tinha uns quatro anos de idade. Minha mãe me levava para assistir aos destiles da Praça Onze. Mas eu não agüentava e acabava dormindo na calçada. Esse samba que você falou conta mais ou menos essa lembrança:

"Favela, do Camisa Preta,
Do Sete Coroas
Cadê o teu samba, Favela?
Era criança na Praça Onze
Eu corria pra te ver desfilar
Favela, teu samba era quente
Fazia meu povo vibrar"

Qual é a lembrança que você tem do Paulo da Portela?
Zé Kéti: Ah! O Paulo... Ele era assim bem escuro, sabe? Um escuro bonito. A pele escura tem varias tonalidades, tem várias pretos. O Paula era um preto de uma pele lustrosa, brilhante, amarronzada escura. Muito alto, muito elegante, ele era muito vivo, muito lúcido Era uma pessoa que não ficava parada não. Estava sempre falando, gesticulando. Era simpático, inteligente, uma pessoa muita bacana. Aliás, eu me lembro muito da turma toda daquela época. O João do Gente, Manoel Bam Bam Bam, o Doce, o Candeia Velho, o Pai da Bubu, um negão forte, me esqueço do nome dele... Me lembro da turma toda.

Jorge Goulart canta o clássico "A Voz do Morro" de Zé Kéti



Você tem um samba que fala da Paulo, do enterro dele, uma coisa assim.
Zé Kéti: É uma homenagem a ele e a vários outros:

"Os sambistas não morrem
Sambistas viajam pro reino do glória.
Foram Caquera. Sinhô,
Noel e Claudionor
Grandes vultos na historia do samba
Todas as escolas fizeram
Pra cada um funeral"

Depois eu falo no Paulo da Portela, no enterro dele, mas não estou lembrado do samba todo.

Você conheceu o Caquera?
Zé Kéti: Conheci. Era de Bento Ribeiro. Ele era da Escola de Samba Lira do Amor, que a gente chamava de “pega dormindo”, porque os ensaios iam até de madrugada O Caquera era um mulato muito inteligente também, trabalhador e era quem botava a escola pra frente. Teve uma morte terrível.

A escola acabou depois da morte dele. Ele estava em cima da caminhão arrumando as coisas e o motor do caminhão estava trabalhando. Ai, as cordas que estavam no pescoço dele desceram por um buraco da carroceria se enrolaram no eixo e ele morreu estrangulado. No ano seguinte circulou em Bento Ribeiro um samba assim:

"Ouvi dizer, ouvi falar
Que a Lira do Amor
Este ano não desfilará
Porque a tristeza lá impera
Por causa da morte
Do amigo Caquera
Foi num dia de alegria
Que a tragédia se deu
Foi no carnaval passado
Que o Caquera morreu
Já não se ouve o canto
Daquele sabiá,
Todo o Lira está em pranto,
Todo o mundo a chorar”.

Zé Kéti: Foi uma coisa muito triste. O Caquera tinha uns 50 anos quando morreu. Ele era tudo na Escola de Samba Lira do Amor.

O samba “Leviana” foi lançado na Portela depois daquela briga, não foi?
Zé Kéti: Foi. Lancei em 1954 como samba de terreiro na Portela. Foi um sucesso danado. Me lembro que uma vez nós fomos na Mangueira e todo o mundo cantou o samba. O Jamelão gostou muito e gravou e foi o primeiro grande sucesso dele. Foi uma coqueluche. Depois o samba entrou no filme Ria 40 graus, do Nélson Pereira dos Santos.

Zé Kéti canta "Leviana"de sua autoria


Quando você brigou com a Portela você foi para a União de Vaz Lobo, não foi?

Zé Kéti: Isso mesmo. Fui pra lá, que era a escala do seu Damásio. Fiquei muito bem na União de Vaz Lobo. Me lembro, por exemplo, que levei o Ciro Monteiro pra visitar a escola, levei o pessoal da alta sociedade, levei uma porção de gente. Fui um dos primeiros a levar o pessoal da alta sociedade em escola de samba. Eu era muita amigo do Luiz Paulo Nogueira, f ilho do senador Hamilton Nogueira, e através dele, foi muito grã fino na União de Vaz Lobo. Eram caravanas de automóveis.

Inclusive foi na União de Vaz Lobo que você lançou o samba A Voz do Morro.
Zé Kéti: Foi um grande sucesso na quadra. De lá, o samba foi para o Rio 40 Graus, foi gravado por Jorge Goulart e acabou virando um sucesso no mundo inteiro. Foram feitas não sei quantas gravações no estrangeiro.

Como foi a sua aproximação com o Nélson Pereira dos Santos para o filme Rio 40 Graus?
Zé Kéti: Foi através do jornalista Vargas Junior. Eu cantei A Voz do Morro pra ele naquele bar em frente à sede da ABI, o Vermelhinho. Ele gostou e me apresentou ao Nélson Pereira dos Santos. Ai fiquei como ator, assistente de câmara e compositor do filme. Eu sei que a musica não era de carnaval mas acabou estourando no carnaval e me deu uma nota muita boa na época: Cr$ 110,00 Cr$. Foram 100,00 de arrecadação e 10,00 de prêmio por ter sido sucesso nacional.

Mas você não demorou muito longe da Portela.
Zé Kéti: Logo depois eu voltei. O pessoal começou a me pedir e acabei voltando. Como agora: estou afastado mas os meus amigos da Portela estão me pedindo para voltar. Hoje mesmo encontrei com a Verinha, relações publicas da escola, e ela me perguntou: Como é, quando e que você vai voltar? Como na outra vez. Eu não saí... apenas me afastei.

Você está se esquecendo de falar de algumas musicas suas que fizeram sucesso. Amor passageiro, por exemplo.
Zé Kéti: Amor passageiro foi gravado por Linda Batista e fez muito sucesso no carnaval de 1952. Também foi lançado na União de Vaz Lobo. Naquela época eu já andava no meio de musica e eu procurava muito a Linda Batista porque sempre ela me dava guarida. Havia também uma dupla chamada “As Garotas Tropicais”. Outra era uma moça que cantava o saudoso samba sincopado, cantava espetacularmente, uma moça chamada Elza Valle, uma morena de olhos verdes. Era ótima no samba sincopado. Tinha um ritmo alucinante e um ritmo na voz muito bacana. Quem acompanhava era o regional do Benedito Lacerda, uma coisa sensacional. Então eu procurava muito essa gente que me dava guarida. Eu não gravava muito, mas elas cantavam na rádio as minhas musicas. Até a Linda Batista resolveu gravar o Amor Passageiro e foi aquele sucesso.

Linda Batista canta "Amor Passageiro" de Zé Kéti e Jorge Abdala em gravação de 1951



Qual foi a sua primeira musica gravada?
Zé Kéti: Foi em 1946, um samba chamado “Tio Sam no Samba”, uma musica que teve parceria do Felisberto Martins que na época era diretor da Odeon. Quem gravou foi o conjunto Vocalistas Tropicais.

Vocalistas Tropicais cantam "Tio Sam no Samba" de Zé Kéti e Felisberto Martins em gravação de 1946



E naquele ano mesmo, gravei "Vivo Bem" para o carnaval com o saudosíssimo, o amigo que a gente não esquece jamais, Ciro Monteiro. O meu parceiro na musica foi o Ari Monteiro. Eu andava pela Rádio Mayrink Veiga e o Ciro me falou: “Olha Zé, só vou gravar essa musica porque você não é chato''. Ele falou por causa daquele negócio de uma porção de compositor andar atrás do cantor chateando, e eu não fazia isso. Me lembro bem da gravação: Raul de Barros no trombone, Gilberto que está na RCA no ritmo, Odete Amaral no coro, etc. Era um samba assim:

“Juro
Que sou feliz com meu amor
Ah! Essa união
Eu agradeço a Nosso Senhor”

Ciro Monteiro Canta "Vivo Bem" de Zé Kéti e Ari Monteiro em gravação de 1947



Você ficou triste do Natal ter morrido meio brigado com você?
Zé Kéti: Fiquei. De qualquer forma, a gente brigava, mas eu gostava muito dele. Quer dizer: brigava, mas politicamente. Nessa briga que a gente teve, par causa da disputa do samba enredo, naquele ano que Jair Amorim e Evaldo Gouveia fizeram o samba-enredo da Portela, eu fiquei muito chateado e criei caso mesmo. O Natal andou até dizendo para conhecidos nossos:

"Eu gosto muito do Zé Kéti. Na minha casa ele vai quando ele quiser. Mas na Portela ele não entra. É uma ovelha negra que brigou e arrastou toda o mundo com ele". É que me afastei e muita gente mesmo me acompanhou. Na verdade foi uma revolta danada. Fiz até um samba pra ele. Quando cantei - olha que a gente estava brigado - ele me abraçou e me agradeceu. Se Deus quiser, quando gravar meu LP vou botar esse samba:

“Dia de festa
De terno branco
Lá vai ele de chinelo
Ou então vai arrastando
O seu tamanco"

É que o Natal podia vestir o terno branco mais alinhado, mas não calçava sapato.

Zé Kéti canta "Homenagem a Nélson Cavaquinho" acompanhado de Dino 7 Cordas


domingo, 29 de agosto de 2010

Paulinho e a Velha Guarda da Portela

Pra começar a semana com chave de ouro! Alguns trechos do especial "Paulo César Faria de Baptista", exibido pela TV Globo em junho de 1980, como parte da série Grandes Nomes.

Parte 1

Parte 2

Parte 3


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Samba em Copacabana

Pequeno documentário de 15 minutos que achei no youtube, produzido por Sérgio Santeiro e lançado em 2004.

O filme é bem curtinho, mas o conteúdo é coisa fina. Cristina Buarque, Élton Medeiros, Walter Alfaiate e Teresa Cristina cantam e contam histórias sobre o Bip Bip, um dos mais tradicionais redutos do samba carioca, cravado alí no meio de Copacabana. O que se esperar de um pequeno botequim frequentado pela nata do samba carioca e que, acreditem, não tem garçom... São os próprios clientes que se servem, no melhor estilo self service!!!! Confiram:

Parte 1

Parte 2


Quer saber mais sobre o Bip Bip? Clique aquí e aquí!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

No Tempo de Noel Rosa - Rádio Tupi 1951

...

Entre abril e setembro de 1951 a Rádio Tupí do Rio de Janeiro apresentou uma série de programas contando a história do grande Poeta da Vila. Narrados por Almirante, jornalista e cantor que conviveu de perto com Noel, os 21 programas da série intitulada "No Tempo de Noel Rosa" contam em detalhes a vida e obra deste que foi um dos maiores gênios da nossa música, responsável por inovações que mudaram por completo os rumos de nossa musica, em especial do samba.

Noel foi um grande letrista, e trouxe para as nossas canções a beleza e genialidade de letras hora bem humoradas, hora com aquele clima de dor de cotovelo... Às vezes Noel escrevia coisas que nossos ouvidos custavam acreditar que aquilo poderia virar musica nos devaneios de um compositor... Coisas como "coração, grande órgão propulsor, tansformador do sangue venoso em arterial...". Enfim, coisas de Noel, que você vai poder conferir aquí no receita até dezembro, quando nosso querido Poeta completaria 100 anos.

Todos os programas foram gravados ao vivo, com duração média de 30 minutos, com orquestra regida pelo Maestro Carioca e o Regional de Claudionor Cruz.

Os arquivos aqui disponibilizados foram retirados do site da Rádio USP, reunidos em um especial do programa "Memória" apresentado por Milton Parron. Os programas foram condensados em blocos diferentes dos originais, agora com cerca de uma hora de duração, totalizando 11 capítulos, com três blocos de duração cada e que serão disponibilizados aqui a partir de hoje.

Ouça nesse primeiro programa:

Os Turunas da Mauriceia e o ambiente melódico que precedeu o surgimento do Bando dos Tangarás onde Noel Rosa despontou para a fama, ao lado de Almirante. O conjunto Flor do Tempo e o Bando de Tangarás.

Músicas:

O X do problema (Aracy de Almeida)
Minha Viola (Noel Rosa)
Palpite infeliz (Aracy de Almeida)
Queixumes (Onéssimo Gomes)
Malandro medroso (Noel Rosa)
No baile da flor de lis (Aracy de Almeida)

Bloco 1

Bloco 2

Bloco 3



terça-feira, 24 de agosto de 2010

História das Escolas de Samba - Discos Marcus Pereira

Em 1974 a gravadora Marcus Pereira - uma das mais importantes gravadoras brasileiras, que lançou discos antológicos, desvendando a musica brasileira durante os anos 70 - lançou uma coleção dedicada ao samba das quatro escolas mais expressivas do Rio de Janeiro naquela época.

"História das Escolas de Samba" homenageia a Portela, Império, Salgueiro e Mangueira, em quatro valiosíssimos discos onde podemos ouvir clássicos do samba de terreiro e sambas enredo memoráveis, muitas vezes nas vozes de seus próprios compositores, lendas do samba como Chico Santana, Manacéa, Alvaiade, Mestre Fuleiro, Avarese, Geraldo Babão, Noel Rosa de Oliveira, Cartola, Carlos Cachaça e mais um monte de gente bamba!

Clique nas capas dos discos para fazer o download!

PORTELA

01 - Brasil de Ontem (Manacéa)
Canta: Manacéa
02 - Hino da Velha Guarda da Portela (Chico Santana)
Canta: Chico Santana
03 - O Mundo é Assim (Alvaiade)
Canta: Alvaiade
04 - O Quitandeiro (Paulo da Portela, Monarco)
Canta: Alvaiade
05 - Brasil, Pantheon de Glórias (Candeia, Bubú da Portela, Casquinha, Waldir 59)
Canta: Grupo do Muro
06 - Sentimentos (Mijinha)
Canta: Monarco
07 - Macunaíma (David Correa e Norival Reis)
Canta: Mestre Marçal
08 - Recado (Casquinha e P da Viola)
Canta: Casquinha
09 - Rio, Capital Eterna (Walter Rosa)
Canta: Walter Rosa
10 - Falem de Mim (Nelson Rufino)
Cantam: Alcides Dias Lopes (Malandro Histórico) e Alvaiade
11 - De Paulo a Paulinho (Monarco e Chico Santana)
Canta: Monarco
12 - Cidade Mulher (Paulo da Portela)
Canta: Velha Guarda da Portela

IMPÉRIO SERRANO

01 - Sou Imperial (Avarese)
Canta: Avarese
02 - Os Cinco Bailes da História do Rio (Bacalhau, Ivone Lara e Silas de Oliveira)
Canta: Ivone lara
03 - Não Chore, Amor (Jorge Pessanha, Mano Décio da Viola)
Canta: Jorge Pessanha
04 - Amor Inesquecível (Ivone Lara)
Canta: Ivone Lara
05 - Antônio Castro Alves (Comprido e Molequinho)
Canta: Avarese
06 - Heróis da Liberdade (Mano Décio da Viola,Manoel Ferreira e Silas de Oliveira)
Canta: Jorge Pessanha
07 - Zaquia Jorge, Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira (Avarese)
Canta: Avarese
08 - Aquarela Brasileira (Silas de Oliveira)
Canta: Jorge Pessanha
09 - Minhas Primaveras (Mestre Fuleiro)
Canta: Mestre Fuleiro
10 - Exaltação à Bahia (Joacyr Santana, Silas de Oliveira)
Canta: Ivone lara
11 - Nordeste, Seu Povo, Seu Canto e Sua Glória (Heitor, Maneco,Wilson dos Santos)
Canta: Wilson Diabo
12 - Meu Drama (Senhora Tentação) (Silas de Oliveira)
Canta: Jorginho Pessanha

SALGUEIRO

01 - Morro Inspiração (Geraldo Babão)
Canta: Geraldo Babão
02 - Chica da Silva (Anescar do Salgueiro e NRosa de Oliveira)
Canta: Noel Rosa de Oliveira
03 - Nega, o que Queres de Mim? (Antenor Gargalhada)
Canta: Geraldo Babão
04 - Casa do Pequeno Jornaleiro (Iracy Serra e Pindonga)
Canta: Pindonga
05 - Romaria à Bahia (Abelardo Silva, Eduardo de Oliveira eJosé Ernesto Aguiar)
Canta: Romário do Salgueiro
06 - Homenagem a Antenor Gargalhada (Geraldo Babão)
Canta: Geraldo Babão
07 - As Minas do Rei Salomão (Dauro do Salgueiro, Nininha e Zé Pinto)
Canta: Sam Rodrigues
08 - Quilombo dos Palmares (Anescar do salgueiro, Noel Rosa de Oliveira e Walter Moreira)
Canta: Noel Rosa de Oliveira
09 - Imperatriz do Samba (Iracy Serra e Pindonga)
Canta: Pindonga
10 - História do Carnaval Carioca (Geraldo Babão, Waldelino Cândido Rosa)
Canta: Geraldo Babão
11 - Assim Não é Legal (Noel Rosa de Oliveira)
Canta: Noel Rosa de Oliveira
12 - Sambista (Hayblan e Iracy Serra)
Canta: Iracy Serra

MANGUEIRA
01 - A Mais Querida - Samba de Terreiro de 1965 (Padeirinho)
Canta: Padeirinho
02 - Cântico à Natureza - Samba Enredo de 1956 (Primavera) (ALourenço, Jamelão e Nélson Sargento)
Canta: Nélson Sargento
03 - Vingança - Samba de Terreiro de 1937 (Carlos Cachaça)
Canta: Carlos Cachaça
04 - O Grande Presidente - Samba Enredo de 1956 (Padeirinho)
Canta: Padeirinho
05 - Lendas do Abaeté - Samba Enredo de 1971 (Preto Rico, Jajá e Manuel)
Canta: Preto Rico
06 - Vale do São Francisco - Samba Enredo de 1948 (Cartola e Carlos Cachaça)
Canta: Cartola
07 - Imagens Poéticas de Jorge de Lima - Samba Enredo de 1975 (Mozart da Mangueira, Tojal e Tolito)
Canta: Grupo da Mangueira
07 - Fiz por Você o que Pude - Samba de Terreiro de 1950 (Cartola)
Canta: Cartola
09 - Mercadores e Suas Tradições - Samba Enredo de 1967 (Darcy da Mangueira, Hélio Turco e Jurandir da Mangueira )
Canta: Jurandir da Mangueira
10 - Homenagem - Samba Enredo de 1934 (Carlos Cachaça)
Canta: Carlos Cachaça
11 - Chega de Demanda - A Mangueira É Rainha (Cartola e Paulinho Tapajós)
Canta: Cartola
12 - Velha Baiana - Samba de terreiro de 1957 (Preto Rico)
Canta: Preto Rico

Sessão Vale a Pena Ver de Novo...

Todo mundo já deve estar cansado de assistir, mas como achei esse vídeo com uma qualidade bem melhor que o que havia postado aqui no blog, resolvi postar de novo esse documentário que é um importante registro do samba em sua essência, com o mestre Candeia em sua casa e o pessoal da Velha Guarda da Portela na casa do Manacéa, botando pra quebrar!

Partido Alto - 1982
Filme de Leon Hirszman
22:10 min.





quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Geraldo Babão na casa de Hermínio Bello



Encontrei no site do Acervo Hermínio Bello de Carvalho três registros raros deste gênio do samba enredo salgueirense batucando alguns sambas em companhia do prório Hermínio, que não podia ter sido mais feliz quando sacou de um pequeno gravador e registrou tudo, ao som de cavaquinho e caixinha de fósforo. Uma raridade que não se encotra toda hora...


01 - O que será de mim agora? (Geraldo Babão e Valdelino Rosa)
02 - Canto meu samba (Geraldo Babão e Valdelino Rosa)
03 - Machucando o jiló (Geraldo Babão)

Aproveitando o assunto, pra quem ainda não o conhce, Geraldo Soares de Carvalho é um senhor sambista! Compositor do Morro do Salgueiro, Autor de sambas enredo históricos, primeiro na Unidos do Salgueiro, que em 1940 desfilou com um samba seu na Praça Onze, depois na Unidos de Vila Isabel, que desfilou por dois anos seguidos com sambas assinados por Geraldo: em 1959 com "Castro Alves o Poeta do Povo" e em 1960 com o samba "Imprensa Régia".

Mas foi a Acadêmicos do Salgueiro que Geraldo Babão conseguiu a faceta de ver um samba seu ser campeão na avenida. Em 1962 foi convidado a integrar a Ala dos Compositores da escola. Já na sua estréia, levou o Salgueiro ao terceiro lugar no carnaval de 1962, com o samba "Descobrimento do Brasil".

Descobrimento do Brasil
Compositor: Geraldo Babão
Intérprete: Mussum e Crianças
* os comentários do Mussum são demais, prestem antenção...



Em 1964, em parceria com seu irmão Binha e com Djalma Sabiá, compôs "Chico Rei", um dos mais belos sambas enredo de todos os tempos, mas que acabou em segundo lugar. Mas no ano seguinte não tinha como escapar... Em 1965 o Salgueiro conquista seu terceiro campeonato com o samba "História do Carnaval Carioca" de Babão e Valdelino Rosa.

Fui pescando uns áudios aquí e alí e reuní uma coletânea com tudo o que eu achei sobre o Geraldo Babão nos meus arquivos. Com certeza ficaram faltando algumas pérolas que se vocês conhecerem e derem falta na compilação, me avisem por favor!

1 - Ingrata solidão (Geraldo Babão)
Intérprete: Zuzuca
2 - Chico Rei (Djalma Sabiá, Jarbas Soares e Geraldo Babão)
Intérprete: Geraldo Babão
3 - Morro inspiração (Geraldo Babão)
Intérprete: Geraldo babão
4 - Nêga o que queres de mim (Antenor Gargalhada)
Intérprete: Geraldo Babão
5 - Homenagem a Antenor Gargalhada (Geraldo Babão)
Intérprete: Geraldo Babão
6 - História do carnaval carioca (Geraldo Babão, Waldelino Rosa)
Intérprete: Geraldo Babão
7 - Samba do sofá (Geraldo Babão e Dicró)
Intérprete: Roberto Ribeiro
8 - Lola crioula (Geraldo Babão)
Intérprete: Geraldo Babão
9 - Viola de maçaranduba (Geraldo Babão)
Intérprete: Geraldo Babão
10 - Do cafuim ao efó - Enredo 1977 (Geraldo Babão e Renato verdade)
Intérprete: Pastoras do salgueiro
11 - O descobrimento do Brasil - Enredo 1962 (Geraldo Babão Walter Gomes Moreira)
Intérprete: Pastoras do Salgueiro
12 - Eneida, amor e fantasia - Enredo 1973 (Geraldo Babão)
Intérprete: Alaíde Costa e Zé Di
13 - Juro que sou capaz de enlouquecer se um dia o salgueiro desaparecer (Geraldo Babão)
Intérprete: Geraldo Babão
14 - Mocotó com pimenta (Geraldo Babão)
Intérprete: Mestre Marçal
15 - Fiz o que pude (Geraldo Babão)
Intérprete: Mestre Marçal
16 - Se o pagode é partido (Xangô da Mangueira e Geraldo Babão)
Intérprete: Xangô da Mangueira


Baixar Coletânea Geraldo Babão

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Viemos apresentar o que a Portela tem....

Muito samba bonito, baianas com rítmo e harmonia também....

É só clicar nas capas dos discos e correr pro abraço!

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Portela Passado de Glória (1970).........Doce Recordação (1986)...........Homenagem a Paulo da Portela..

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........Tudo Azul (2000).............Vitoriosa Escola de Samba Portela (1957)...Portela e Império 1962......


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.....E.S. Portela (1963).............. Portela de Novo (1971)................G.R.E.S. Portela (1972).........

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.Escola de Samba Portela (1965).......História das Escolas de Samba...........Mangueira e Portela (2000)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Dois bambas de Oswaldo Cruz



Uma pequena homenagem a dois grandes sambistas: o grande mestre Antônio Candeia Filho, que hoje faria 75 anos se estivesse vivo. Um dos mais brilhantes e inspirados sambistas, homem que viveu o samba, lutando pela sua tradição... Salve Candeia, sua musica e sua poesia nos fazem lembrar que o samba é a verdade do povo e ninguém vai deturpar seu valor!



O outro aniversariante do dia é o portelense Monarco, que ainda está firme e forte, cantando muito samba! Hoje deve ser dia de samba em Oswaldo Cruz! Que maravilha! Feliz aniversário mestre Monarco! E que ainda sejam mais muitos anos de samba!

Nada melhor pra comemorar esse duplo aniversário do que ouvir a única parceria desses dois bambas, na interpretação de Cristina Buarque e Terreiro Grande:

Portela é uma família reunida
Compositores: Candeia e Monarco



Portela é uma família reunida
Falo de cabeça erguida
Com grande satisfação

A rua já lhe empresta o nome
Eu também lhe dou
Minha canção

Portela é uma corrente de montanha
Cuja força é tamanha
Que ninguém pode deter

Portela tem um pavilhão
Tão altaneiro acima do ganhar
E do perder

Em briga de marido e mulher não se mete a colher !!!




O malandro sai contando marra na rua, tirando uma onda com os amigos:

Mulher de malandro sabe ser,
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha, a ele tem amizade,
Longe dele tem saudade

Ela briga com o malandro
Enraivecida manda ele andar
Ele se aborrece e desaparece
Ela sente saudade, vai procurar,

Há um ditado muito certo que diz:
pancada de amor não dói

Muitas vezes ela chora
Mas não despreza o amor que tem
Sempre apanhando e se lastimando
Perto do malandro se sente bem,
É meu bem, o malandro também tem seu valor
.................................(Mulher de Malandro - Heitor dos Prazeres e Francisco Alves)

Enquanto isso a mulher tá em casa, com a criança chorando, com fome esperando o vagabundo chegar em casa... Quando o malandro chega do samba ele tem que ouvir... E dessa vez a nêga tá brava, até no advogado já foi...

Você não deve me tratar assim
Porque eu não estou acostumada
E posso até achar ruim
Você sé chega em casa alta madrugada
E se por acaso não estou acordada
Você fica enfezado e quer me dá pancada

Eu já procurei, já procurei o meu advogado
E ele respondeu que o caso é encrencado
Marido da orgia não tem o direito
De bater numa mulher que se dá o respeito
Você já abusou da sua autoridade
E eu não estou disposta a tanta maldade
.................................(Marido da Orgia - Ciro de Souza)

Mas o malandro, não cai nessa conversa... Tenta de um jeitinho mais "carinhoso"...

Vem, vem
Que eu dou tudo a você
Menos vaidade
Tenho vontade
Mas é que não pode ser

Amor é o do malandro
Oh! Meu bem
Melhor do que ele ninguém
Se ele te bate é porque gosta de ti
Bater em que não se gosta
Eu nunca vi...
.................................(Amor de Malandro - Ismael Silva e Francisco Alves)

Depois de tanto "carinho", a nêga até deu uma amansada, mas no outro dia foi chorar as mágoas com a vizinha...

Eu fui tão maltratada
Foi tanta pancada que ele me deu
Que estou toda doída, estou toda ferida
Ninguém me socorreu,
Ninguém lá em casa apareceu!

Eu vou ao distrito, está mais do que visto
Isto não fica assim, vou contar tintim por tintim
Tudo nele eu aturo, menos tapas e murros
Isto não é para mim

Ele vai para a orgia, passa três, quatro dias
Sem me aparecer
Quando vem está zangado, está contrariado
E eu não sei porquê
Mas eu agora vou saber

Eu sou tão camarada, a ele não falta nada,
Ganha um terno por mês
Ainda agora pancada, pior foi amassada
Eu parei desta vez,
vou arranjar um português.
.................................(Vou contar tim tim por timtim - Cartola)


É malandro, perdeu... E ainda por cima pro portuga! kkkkk

O áudio acima foi retirado do excelente disco "O Samba é Minha Nobreza"
.
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domingo, 15 de agosto de 2010

Nélson Sargento



Documentário bem legal com o Nélson Sargento. Em um passeio pelas ruas de Mangueira, o sambista conta histórias sobre os tempos de outrora, canta e conversa com amigos, como Paulinho da Viola e Carlos Cachaça, que aparece bem velhinho, com 94 anos...

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Ficha Técnica:
Nélson Sargento no Morro da Mangueira
Direção e roteiro: Estevão Ciavatta
Produção: Ravina Filmes
Convidados especiais: Paulinho da Viola, Carlos Cachaça, Sérgio Cabral, Mocinha, Preto Rico e Cacá Diegues.
Documentário: 35mm
21 minutos

Principais prêmios
- Melhor filme do ano (incluindo longa-metragens) - Críticos do Jornal do Brasil/97
- Melhor filme (crítica e público) e prêmio especial do juri - Festival de Brasília 97
- Melhor montagem e melhor trilha sonora - Festival de Gramado 97
- Melhor filme (crítica) e melhor montagem no Rio Cine 97.
- Prêmio Margarida de Prata -- CNBB/97

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

É cheiro de mato, é Clara Guerreira, lá vem trovoada...



Clara Francisca Gonçalves, mineira guerreira, nossa voz de ouro do samba, faria hoje 68 anos se por um descuido do destino não tivesse nos deixado há 27 anos atrás...

Até pensei em escrever algo sobre ela, mas acabei deixando (um pouco por falta de tempo, rsrs) a palavra para quem mais entende do assunto... Essa letra resume tudo o que se tem pra falar sobre Clara Nunes:


Um Ser de Luz
(Paulo césar Pinheiro, João Nogueira e Mauro Duarte)

Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar

Sua voz então a se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava espantava a dor
Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela se foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas

E a gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de vê-la, sabiá

Sabiá,
Que falta faz sua alegria
Sem você, meu canto agora é só
Melâncolia

Canta meu sabiá,
Voa meu sabiá,
Adeus meu sabiá...
Até um dia...


De "brinde", seguem mais uns videos interessantes sobre Clara:

Especial da Globo News sobre Clara Nunes:

Parte 1


Parte 2


Clara Nunes, Conjunto Nosso Samba e Bateria da Portela no Chacrinha


Clara Nunes canta "Fuzuê" e "Lama"

Direto de Oswaldo Cruz...

Trecho do programa Ensaio com a Velha Guarda da Portela. Um registro raro de bambas como Chico Santana, Alberto Lonato, Casquinha, Osmar do Cavaco, Manacéia e companhia. E o som que esses caras faziam não é brincadeira, prestem bastante atenção na levada... Isso é a Velha Guarda da Portela! Coisa que não se vê mais hoje em dia...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Gostas de um bom partido alto?

...

Então ouve essa pedrada... Um encontro entre os dois maiores partideiros já nascidos até hoje não podia dar em outra... Coisa linda de se ouvir os mestres Candeia e Aniceto versando, naquela tranquiidade que só partideiro da antiga tem! Saboreiem essa receita!



Maria Madalena da Portela (Candeia)
Cantam: Candeia e aniceto
Do disco "Candeia Luz da Inspiração"

Fui enganado meu bem por ela
Maria Madalena da Portela

Tinha pele bronzeada, cheirava a flor de canela, o seu nome era
Maria Madalena da Portela

Leva-me um conto e quinhentos, essa moça de blusa amarela, que conversa a dela,
Maria Madalena da Portela

Mulher do sabor de mel, era uma jóia tão bela, tu sabes quem é
Maria Madalena da Portela

Para o anjo da guarda da nega eu acendi uma vela, zelei por ela
Maria Madalena da Portela

Ela me dava jiló, veja só, dizendo que era berinjela, aquela megera
Maria Madalena da Portela

Para agradar a crioula comprei um par de chinela, cor amarela
Maria Madalena da Portela

Mandei-lhe comprar presunto, ela trouxe mortadela, diz o nome da fera
Maria Madalena da Portela

No final de cinco anos prometi casar com ela, irmã de Estela
Maria Madalena da Portela

Era mãe de cinco filhos, metida a moça donzela, pois veja você
Maria Madalena da Portela

Ela de véu e grinalda fez promessa na capela, me traindo
Maria Madalena da Portela

Aniceto a conheceu, andava de olho nela, ele sabe quem é, diz
Maria Madalena da Portela

Eu entrava pela porta, eu fugia pela janela, quem me enganava
Maria Madalena da Portela

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Adoniran 100 anos


Amanhã (06/08/2010), Adoniran Barbosa completaria 100 anos. Como estou viajando numa raspa de tacho de férias e só volto a postar na segunda, deixo aquí minha singela homenagem a este que foi um dos mais criativos compositores que o samba já conheceu... O caricaturista que criou personagens e histórias que se enquadram ainda perfeitamente em nosso cotidiano atual... O "Arnesto", o "Mato Grosso" e o "Joca", a "Saudosa Maloca" e o "Trem das Onze"...




Afinal, nós viemos aquí pra beber ou pra conversar?




Até segunda!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pato Donald e Zé Carioca caindo no samba

Há algum tempo atrás comentei aqui no blog sobre aquela história da política da boa vizinhança em que o Walt Disney criou alguns personagens para homenagear alguns países latino americanos, sendo um desses personagens o Zé Carioca.

Tinha até postado um trecho de um vídeo em o Pato Donald foi levado pelo Zé Carioca ao Rio de Janeiro, onde conheceu o samba e até tomou cachaça:



Hoje, fuçando no youtube encontrei mais algumas participações especiais do nosso Samba em filmes do Walt Disney:

Nesse primeiro, que faz parte do filme "The Three Caballeros" lançado em 1945, Donald é levado por Zé Carioca para conhecer a Bahia.

Na trilha sonora, ouvimos um trecho de "Na Baixa do sapateiro" de Ary Barroso, além de "Você Já foi à Bahia?" de Dorival Caymmi e "Os quindins de Iaiá" também de Ary Barroso. As músicas são interpretadas por Aurora Miranda e Zezinho Oliveira, o Zé Carioca. Tem também um chorinho que eu não conheço...



Ainda no filme "The Three Caballeros", Nestor amaral canta "Na Baixa do Sapateiro" de Ary Barroso. No filme a música é cantada em inglês em uma versão do letrista americano Ray Gilbert, que recebe o nome de "Bahia"



Esta última cena é do filme "Tempos de Melodia" de 1948. Aurora Miranta inerpreta Apanhei-te Cavaquinho, choro de Ernesto Nazareth, com uma letra em inglês feita por Ray Gilbert. Preferí deixar a versão dublada, quem quiser ouvir a original, em inglês é só clicar aquí.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Carlos Cachaça, o eterno poeta de Mangueira



Há exatos 108 anos (03/08/1902) nascia Carlos Moreira de Castro, o Carlos Cachaça, tão falado mas pouco conhecido... Grande compositor, autor de sambas consagrados na Estação Primeira, em lindas parcerias com Cartola... Deixo aquí uma homenagem a esse senhor que nos deixou em 1999, aos 97 anos: uma entrevista concedida ao Sérgio Cabral publicada no encarte do disco "A História das Escolas de Samba, vol. 3" no início da década de 70.

Um registro raro e de grande valor para a história do samba, em que o compositor fala dos "tempos idos, mas nunca esquecidos" em que praticamente viu o morro e o samba nascerem e ajudou a consagrar sua escola como um dois maiores celeiros de bambas do Rio de Janeiro, ao lado de Cartola, Nélson Cavaquinho, Zé Espinguela e outros bambas da Estação Primeira...

Salve Carlos Cachaça!


Carlos Cachaça canta "Se algum dia" de sua autoria.



Carlos Cachaça, qual e o seu nome?

Carlos Cachaça — Carlos Moreira de Castro.

Onde e quando você nasceu?

Carlos Cachaça —Aqui mesmo em Mangueira, no dia 3 de agosto de 1902.

Por que os seus pais vieram morar em Mangueira?

Carlos Cachaça —Meu pai era funcionário da Central do Brasil. A Leopoldina construiu várias casas para os seus funcionários aqui em Mangueira e alguns funcionários da Central da Brasil tiveram o direito de morar nelas tambem.

Mas as casas não eram no morro.

Carlos Cachaça —Não, eram embaixo, ao lado da linha do trem. Depois é que vim morar no morro, com o meu padrinho, Tomás Martins, que foi o fundador do Morro de Mangueira. Pouca gente sabe disso.

Com que idade você estava quando foi morar no morro?

Carlos Cachaça — Oito anos. Meu padrinho era um português que tinha casas na morro e alugou. Os terrenos eram do Saião Lobato, mas quem construiu as primeiras casas foi ele. A hist6ria não conta isso, não sei por que. O fundador da Favela de Mangueira foi meu padrinho, Tomás Martins.

Eu não sabia disso, não.

Carlos Cachaça — Deu-se até uma história interessante. Ele não sabia ler e eu, com dez anos de idade, é que assinava os recibos dos aluguéis. Isso era proibido, mas era eu que assinava: "por Tomás Martins, Carlos Moreira de Castro". Há pouco tempo, uma senhora de uns noventa anos falou comigo que encontrou nos velhos papéis da casa dela uns recibos desses assinados por mim.

Ele vivia dos alugueis?

Carlos Cachaça — Não, ele tinha negócio de transporte. As primeiras casas foram alugadas para os empregados dele. Aqui não havia rua, havia um caminho. E um pasto para bois, cavalos, etc. Ele até ajudou a alargar o caminho pra que as suas carroças passassem. Eram carroças puxadas a burro.

E nos dias de carnaval, como era a Mangueira?

Carlos Cachaça — Bem, o primeiro grupo carnavalesco do morro foi um rancho chamado Pérolas do Egito. Não era um rancho muito numeroso porque a população daqui era pequena. Mas eu me lembro que havia bons cantores no rancho.

Que tipo de musica que era cantada pelo rancho?

Carlos Cachaça — Eram marchas de rancho, mesmo.

E havia samba no morro?

Carlos Cachaça — Não. Quem trouxe o samba para Mangueira foi Eloy Antero Dias.

Como foi que aconteceu isso?

Carlos Cachaça — O Eloy era de Dona Clara, lá em Mangueira. Ele aparecia aqui no rancho Pérolas do Egito e cantava um samba que eu nunca mais me esqueci:

O Padre diz
Miseré
Misereré Nobis

O resto eram improvisos:

Amanhã vou na casa de Tia Fé
Vou tomar café

Eram coisas assim. Me lembro que Mano Eloy cantou pela primeira vez na casa de Tia Fé, que era avó do Sinhozinho, atual presidente da nossa Estação Primeira de Mangueira. O samba começou na casa de Tia Fé, depois é que foi para o Buraco Quente, onde foram fundados depois dois ranchos. Não eram bem no Buraco Quente. Um era lá em cima, na casa da Santinha e o outro no Buraco Quente chamado Guerreiros da Montanha. Não era bem um rancho, era um cordão.


Cartola e Carlos Cachaça cantam "Não me deixaste ir ao samba",
o primeiro samba de Carlos Cachaça, uma parceria com Heitor dos Prazeres




Em que época que havia esses ranchos em Mangueira?

Carlos Cachaça —1910. Me lembro por causa da revolta do João Cândido na Marinha. Mais tarde é que surgiu o Príncipe da Floresta, tambem um rancho que era chamado no início de Príncipe das Matas.

Quem fundava esses grupos em Mangueira?

Carlos Cachaça — Eram as famllias, eram grupos familiares. Eram os chefes das casas que criavam.

Foi Tia Fé que fundou a Perolas do Egito?

Carlos Cachaça — Foi.

Como é que ela era?

Carlos Cachaça — Era uma crioula, tipo baiana. Aliás, não era baiana, era mineira. Mas se vestia com roupa de baiana. Ela andava assim diariamente.

O que é que Mano Eloy vinha fazer aqui?

Carlos Cachaça — Ele tinha uns amigos na Mangueira, a Tia Fé, o pessoal. E vinha sempre com seus amigos de Dona Clara, como o Pedro Moleque, Pedro Lambança e outros. Na época, depois do Estácio, era em Dona Clara que havia os melhores elementos de partido alto. Os grandes sambistas da época eram de lá e do Estácio.

Em Mangueira, quais foram os primeiros?

Carlos Cachaça — Bem, aqui foram surgindo aos poucos. O Artur e o Antonico, por exemplo, começaram um pouco depois. O Antonico foi o primeiro camarada que vi botar segunda parte no samba.

O Artur e o Antonico vieram de onde?

Carlos Cachaça — Do Estácio.

Chegaram depois de você em Mangueira?

Carlos Cachaça —Muito depois. Quando chegaram,eu já era homem feito. Eram quatro irmãos: Artur, Rubens, Antonico e Saturnino.

O Saturnino Gonçalves, primeiro presidente da Estação Primeira?

Carlos Cachaça — Ele mesmo. Eram todos irmãos.

Muito antes de surgir a escola de samba já havia bastante samba aqui em Mangueira, não havia?

Carlos Cachaça — Havia, sim. Depois o negócio foi tomando corpo. Aqueles blocos todos que foram nascendo, cantavam samba. Tia Fe, Tia Tomásia, Mestre Candinho, todos tinham o seu bloco. Eram blocos familiares.

Você saía naqueles blocos?

Carlos Cachaça — Saía. Eu tinha uma fantasia de Cabocla Caramuru. Era um saiote branco, com uma cruz encarnada no peito, outra nas costas, um capacete com três penas e saía por aí. Eu tinha uns 12 anos na época. Saía em todos. Nos Guerreiros da Montanha, no Trunfos de Mangueira, em todos. Me lembro bem da fantasia. Era de morim. Tinha também um arco e um escudo e um machadinho.

Daqui da Mangueira, qual foi o primeiro a fazer samba?

Carlos Cachaça — Fui eu. Me lembro até de um samba meu que falava do pessoal do morro:



Que harmonia
Lá em Mangueira
Que dá prazer
Para se brincar
O Laudelino
No seu cavaco
Fazendo coisas de admirar
E de repente forma o enredo
Que até causa sensação
O Armandinho chega de flauta
Alípio sola no violão
Falta o Otávio
Que não falei
Falta Aristides, falta Martins
Falta Simão
Na mesa de Umbanda
Falta Pedrinha no tamborim
Que harmonia lá em Mangueira
Que dá prazer para se brincar

E ia por aí. A gente ia improvisando, de maneira que não me lembro de tudo.

Você se lembra mais ou menos da época desse samba?

Carlos Cachaça — 1923, 24, par aí.

Você começou a fazer samba em Mangueira antes do Cartola, portanto?

Carlos Cachaça — Comecei. O Cartola começou depois. Antes da turma toda, do Artur, do Antonico, do Gradim, éramos eu e o Cartola.

Mas na época da fundação da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira você não estava presente.

Carlos Cachaça — De fato, não estava, não. Eu estava morando fora. Mas logo depois voltei para a Mangueira.

A partir de quando que você foi descoberto como compositor pelos jornais?

Carlos Cachaça — Bem, no carnaval de 1934, eu fiz aquele samba Homenagem, considerado o primeiro samba-enredo. Quando entrei num concurso de compositores de escolas de samba, quatro anos depois, em 1938, promovido pelo jornal A Pátria, ganhei justamente com aquele samba. Eu fazia uns sambas patrióticos — Pátria Querida, por exemplo — que provocavam um certo comentário, de maneira que meu nome ia se espalhando por ai. Tem outra coisa que muito pouca gente sabe: o primeiro pandeiro oitavado quem fez foi o Arturzinho, aqui de Mangueira. Ele trabalhava no Arsenal de Marinha, de maneira que tinha facilidade com oficina, essas coisas.


Carlos Cachaça, Nélson Sargento e Hermínio Bello de Carvalho cantam
Pátria Querida
, de Carlos Cachaça




Você também freqüentava a casa do Zé Espinguela ?

Carlos Cachaça — A casa dele no Engenho de Dentro? Freqüentei muito.

Você estava na casa dele quando foi feito aquele concurso entre compositores?

Carlos Cachaça — Estava. Quem ganhou foi o Heitor dos Prazeres. Depois fizeram um outro concurso na Cachopa, que era uma espécie de gafieira que o Eloy Antero Dias tinha lá em Madureira. Não me lembro como foi que terminou, não. Me lembro que a Mangueira ia ganhar, houve uma confusão danada, até briga.

O Eloy estava em todas, hem!

Carlos Cachaça — Ele era um cara muito importante na historia do samba. É uma pena que é pouco lembrado.

Antigamente, quando as escolas de samba não tinham microfones, havia uns cantores de vozes muito fortes que puxavam a samba no meio da multidão. Na Mangueira, quem eram esses caras?

Carlos Cachaça — Acho até que a Mangueira foi a primeira a ter esses cantores, esses tenores. Tinha o Malvadeza, o Alfredo Turi-Turé, o Zé Casadinho, o Fiúca, cada cantor que valia a pena ouvir.


Cartola canta "Quem me vê sorrir", composição feita em parceria com Carlos Cachaça. Essa gravação é histórica pois registra pela primeira vez em disco a voz do Cartola, de acordo com o Dicionário Cravo Albina de MPB.



Esses cantores geralmente eram encarregados também da improvisação no tempo em que os sambas não tinham segunda parte. A escala toda cantava a primeira parte e depois eles improvisavam. Os cantores de Mangueira eram bons improvisadores?

Carlos Cachaça — Eles eram ótimas improvisadores. O Fiúca e a Zé Casadinho eram os príncipes da improvisação.

Você chegou a ocupar postos de direção na Estação Primeira?

Carlos Cachaça — Cheguei. Fui vice-presidente no tempo do Barra Mansa.

O Barra Mansa foi presidente?

Carlos Cachaça — Foi. Ele era dono de um armazém aqui em Mangueira. Ele agora é falecido. O nome dele era Alberto Francisco do Nascimento.

Quais eram o mestre-sala e a porta-bandeira da Mangueira na fundação?

Carlos Cachaça — Arlindo e Raimunda. Depois do Arlindo é que veio o Marcelino, o Maçú.

Qual é a diferença da dança do mestre-sala e da porta-bandeira de antigamente para os de hoje?

Carlos Cachaça — Antigamente havia mais cadência. A coreografia era mais armada, mais estudada. Hoje, os passos são mais improvisados. Você pode ver que hoje dificilmente o individuo repete o passo anterior. É quase tudo inventado. Antigamente, não. O camarada tinha que saber o tempo, por exemplo, que ele tinha que fazer determinada coisa enquanto a parta-bandeira rodava para que, quando os dois voltassem a se juntar, estivesse tudo direitinho Era tudo dentro da cadência. Era como se houvesse uma coreografia escrita. Isso tudo era levado em conta porque, mesmo quando não se julgava o mestre-sala e a porta-bandeira, eles eram vigiados pelo pessoal da casa. Os críticos eram os companheiros da própria escola.

Quais eram os maiores mestres-salas de antigamente?

Carlos Cachaça — Havia o Buldogue, da Saúde, e o Getulio "Amor" Marinho, de Bento Ribeiro. O Buldogue era um mestre-sala que fazia um passo aqui e ia repeti-lo lá em baixo. Era muito cadenciado. Ele conhecia os passos do mestre-sala.

Você freqüentava também os outros redutos de samba ou só ficava pela Mangueira mesmo?

Carlos Cachaça — Puxa, eu vivia na Vizinha Faladeira, Salgueiro, Estácio, em todo lugar! Quantas vezes eu dormi no Morro do Salgueiro, na casa do Calça Larga, do Gargalhada, do Buruca! Você sabe que eu ia comemorar lá as vitorias da Mangueira? Enchia a cara e ia pro Salgueiro ou para outro lugar. Na Portela, mesmo, eu fiquei lá muitas vezes. Noutro dia mesmo, o Betinho, que é detetive, estava lembrando esse tempo. Eu vivia em tudo que é lugar, nunca houve confusão comigo. Quando venci o concurso de samba, em 1938, fui festejar no Tuiuti.


Carlos Cachaça canta Lacrimário, de sua autoria



Mas você não defendeu a Mangueira?

Carlos Cachaça — Defendi, mas fui beber no Tuiuti. Fiquei lá até as nove horas da manhã. Não tinha negocio de matar, de morrer, não tinha nada disso.

Quais eram os camaradas bacanas de antigamente, camaradas que te dão saudade?

Carlos Cachaça — Fora da Mangueira? Ah! Tenho que destacar muitos. O Antenor Gargalhada, do Salgueiro, por exemplo. O Paulo da Portela, o Buruca, o Vadinho do Tuiuti, grande compositor. Ninguém fala no Vadinho, Ele tem obras importantíssimas, nunca gravaram um samba desse rapaz, nunca falaram dele.

Ele está vivo?

Carlos Cachaça — Está. Ele tem cada samba lindo! Sabe que uma vez na Praça Onze a Mangueira parou de cantar o samba dela para cantar o samba dele? O samba que ele fez para o Tuiuti foi cantado pela Mangueira! Um camarada de Mangueira que tenho saudade é o Gradim. Era um camarada fenomenal. Ele tomava umas canas muito boas! Na época da maré braba, a gente saia por aí para vender samba. O Baiaco era o secretário do Francisco Alves e era a encarregado das compras de samba. Tudo que era do Gradim, ele comprava. Era tudo bom! O Francisco Alves ficou com não sei quantos sambas do Gradim sem gravar. Às vezes, os sambas dele só tinham a primeira parte e ele me pedia para colocar a segunda. A gente saia andando aí por dentro, tomando umas canas, até o Estácio, onde morava o Baiaco. Quando chegávamos lá, a segunda parte do samba estava pronta.

O próprio Baiaco pagava?

Carlos Cachaça — Ele mesmo. Depois o Francisco Alves reembolsava.

Como é que foi o concurso que você venceu?

Carlos Cachaça — O jornal A Pátria publicava um cupom com a pergunta: "Qual é o melhor compositor de escola de samba?" Os fãs dos compositores ou a própria escola a que ele pertencia recortavam, preenchiam e enviavam para a redação do jornal. Os dez mais votados seriam escolhidos para disputar a final na feira de Amostra. Na época em que eu fui candidato houve uma briga na Mangueira entre o Pedro Palheta e outros diretores.

O Pedro Palheta já era o presidente?

Carlos Cachaça — Era. Por causa disso, a escola não mandou os votos que eram para mim. Mas o diretor do jornal, o Antenor Novaes percebeu isso. É que o Pedro Palheta viajou e levou os meus votos todos. O Antenor deu uma ordem: a Mangueira não pode faltar ao concurso, foi aquele negocio de recortar votos pra mim dentro da redação. Recortavam para eu ser um dos dez primeiros e entrar no concurso da Feira de Amostras. Fui o décimo mais votado.

E no dia do concurso?

Carlos Cachaça — Não foi ninguém da Mangueira. Nem da diretoria, nem compositores, nem nada. Nem Cartola, nem Aloísio, ninguém. A Feira de Amostra estava lotada, pois a entrada era gratuita. E estavam concorrendo comigo todos os cobras das outras escolas de samba. E não havia microfone, era só na acústica. Eu com essa vozinha, como é que eu ia fazer? O Eloy ainda fez campanha contra mim. Toda a vez que a gente se encontrava, depois, eu falava com ele: "você me envenenou perante a comissão, hem!” Isso acabou se transformando em brincadeira nossa, nós éramos muito amigos.

O que foi que ele fez?

Carlos Cachaça — Ele comentou com o pessoal da comissão que eu estava bêbado. E eu não tinha bebido nada! Mas eu peguei uns poucos mangueirenses que havia por lá e fui pedindo pra me ajudar. Peguei o Babaú, compositor, e pedi a ele pra me acompanhar no cavaquinho. Peguei o Pelado, compositor...

O Pelado, esse que ainda está na Mangueira?

Carlos Cachaça — Ele mesmo. O Pelado é velho, o que é que você está pensando? Ele tem mais de 60 anos. Naquela época era ainda um rapazinho. Peguei também alguns camaradas de outros lugares e pedi pra me ajudar cantando comigo. Apresentei Homenagem, o samba que a Mangueira cantou no carnaval de 1934.


Carlos Cachaça canta Homenagem, de sua autoria



E o resultado, como foi?

Carlos Cachaça — Eu fui o último a cantar. Fui muito aplaudido, mas o máximo que eu sonhava era um sétimo lugar. Não podia vencer aqueles cobras, nas circunstâncias em que me encontrava. Depois que cantei, veio o resultado. Os classificados eram apresentados na ordem decrescente. Décimo lugar, Fulano. Pensei: sou o nono. Não tenho nem dúvida. Nono lugar, não sei quem lá do Salgueiro. Então, o oitavo lugar seria meu. Oitavo lugar era outro. Desconfiei que fosse ficar em sétimo, mas o sétimo também era outro. E assim foi. Quando anunciaram o sexto lugar já me considerei vitorioso. Chegar em quinto lugar naquela situação para mim já era uma vitória. Mas não fui o quinto também. Quando anunciaram o Maurilio do Tuiuti em segundo lugar, eu quase desmaiei. O Maurilio era favorito pela samba e pela voz. A letra do samba dele era até do Vadinho. Mangueira ganhou!

E você sozinho sem ninguém da Mangueira.

Carlos Cachaça — Foi mesmo. Só o Babaú no cavaquinho e o Pelado no pandeiro. Os outros todos organizados, com conjunto e tudo. A Portela toda muito bem vestida, na moda, com elegância.

O Paulo era muito exigente com a roupa.

Carlos Cachaça — Se era! Tinha até polaina!

Polaina?

Carlos Cachaça — Polaina! Tinha até sapateadores no conjunto da Portela. Mas o Maurílio, apesar de favorito e derrotado, gostou muito da minha vitória. A festa acabou lá pelas quatro da manhã e ele falou comigo: "Vamos comemorar no Tuiuti, não vai para a Mangueira, não". Eu fui. O Tuiuti é aqui do lado da Mangueira e eu sempre gostei muito do Tuiuti, de maneira que fui pra lá. Fomos pra lá e passamos por uma leiteria que havia no Largo da Cancela, cujo dono era diretor do Paraíso do Tuiuti. Ele tinha deixado a leiteria aberta para comemorar a vitoria do Maurílio. Chegamos lá e o Maurílio foi falando: "Quem venceu foi o Carlos Cachaça, mas é a mesma coisa". Cheguei na Mangueira às nove horas da manhã.

E como e que surgiu o seu apelido de Carlos Cachaça?

Carlos Cachaça — Noutro dia um jornal contou que meu apelido nasceu em Mangueira porque eu pegava uma cana violenta. Realmente, sempre bebi muito, mas meu apelido não nasceu aqui em Mangueiro, não. Havia na antiga Rua Senador Euzébio, na Praça Onze, um tenente do Corpo de Bombeiros chamado Couto. Tenente Couto. Todos os domingos iam pra lá o Cândido das Neves, o Uriel Lourival, o Nonô pianista, o Baiano, que tocava saxofone, um grupo assim. Eu também ia. O Couto tinha três filhas, que todo o mundo queria namorar. Ele era muito folgazão, gostava de cantar, aquela coisa toda. Quase todos os domingos era feijoada com cerveja preta. A cervejaria era ali mesmo na Praça Onze. Toda vez que vinha a cerveja, eu recusava: "Não, obrigado. Eu quero uma cachaça, uma cachacinha". E no grupo que freqüentava a casa dele, havia três pessoas com o nome de Carlos. Quando eu demorava a chegar ou não ia, o Tenente Couto perguntava: "Cadê o Carlos?" "Está ali", respondiam. "Não, não é aquele, não. É o da cachaça. O Carlos Cachaça". E foi assim que fiquei Carlos Cachaça.

O Geralda Pereira chegou a pertencer à Estação Primeira?

Carlos Cachaça — Não, ele foi da Unidos de Mangueira. Acho que só saiu uma vez pela Estação Primeira, a convite do Manoel da Leiteria, representando o Cabo Laurindo.

E o poeta Carlos Cachaça, como foi que surgiu?

Carlos Cachaça — Eu sempre tive mania de escrever versos, de rimar, essas coisas. Algumas vezes, os versos foram musicados, outras vezes, não. O Herminio Belo de Carvalho já quis até publicar um livro com meus poemas. Geralmente, meus poemas foram feitos por causa de um fato real, quase não tem fantasia.

Você ficou ligado à escola de samba até quando?

Carlos Cachaça — 1949, por aí. Não me afastei inteiramente, mas depois de 49 não era como antes. Em 1948, eu e Cartola fizemos o samba-enredo da escola, Vale de São Francisco. Depois, já em 1960, 61, por aí, tentamos incentivar a turma da velha guarda da escola, mas não conseguimos muito coisa. Mas eu acompanho a Mangueira. Torço por ela, quero que ela vença todos os carnavais.

Você se chateia com as modificações que foram introduzidas nas escolas de samba?

Carlos Cachaça — Não, eu gosto delas. Tudo tem que se transformar.


Carlos Cachaça canta Intinerário, de sua autoria


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