sábado, 31 de julho de 2010

De Oswaldo Cruz à Barra Funda - O imaginário do Professor Oswaldo



É com grande alegria que publico aquí no Receita, os versos do meu amigo Oswaldo. Em seus devaneios, o nosso companheiro de samba imaginou algo único, um belo encontro entre dois mestres... Encontro que aos poucos foi tomando vida e seguindo caminhos longínquos em seu imaginário... Sem mais, seja bem vindo ao Receita professor, e que seus versos continuem emoldurando esse pequeno cantinho do samba!

E pra dar um toque especial à leitura deixo aquí uma dobradinha dos dois mestres:


Dia de Graça (Candeia)
Que Gente é Essa? (Geraldo filme)

"Quando tentei traçar os nomes destes dois poetas na busca de um provável encontro real entre os mesmos, acabei mesclado fatos de suas vidas ao meu imaginário. Creio que meu deslumbramento por esse ritmo da matriz africana e que fora violentamente marcado a ferro e fogo por circunstâncias históricas até se tornar essencialmente brasileiro, tenha sido o verdadeiro motivo para a composição desse vôo de aprendiz à ficção.

Em suma, peço desculpas por qualquer erro que venha a cometer e citando o filósofo Argemiro Patrocínio “... somente escrevo o que sinto. Falo a verdade e não ligo. Culpada é a minha inspiração...”. No mais, vou tentando sambar.

Aliás, o samba é o primeiro enlaço desse encontro com os dois Mestres. Naturalmente, existem outras coisas infinitamente belas nesse mundaréu que entrelaça as raízes do imbondeiro angolano, com as amendoeiras de Osvaldo Cruz e os velhos Ipês da Barra Funda. Afinal, não são os homens feitos de suas raízes? Seja qual for o enredo dessas árvores nos sonhos dos homens é preciso deixar nossos pensamentos voarem com as saracuras e as águias sobre todos os quilombos do planeta. E ver a imensidade de suas copas abraçarem nossos corpos de esperança como naqueles versos do grande Mauro Duarte sobre a sublime primavera que vai chegar.

Assim sendo, lanço meu imaginário no renascimento do mito, a colheita das pernas embaladas na Tiririca: “... é tumba pra derrubar, tiririca, faca de ponta... .Dona Rita do Tabuleiro quem derrubou meu companheiro...”

Eu vou chamar seu Pato Nágua, Pé Rachado, Nego Braço e outros batuqueiros e dizer que o Batuque de Pirapora vem ocupar seu lugar.E no encantamento da Capoeira misturada na mandinga e nas leituras das ruas de Madureira: “...No tempo em que eu tinha dinheiro, camarado ê comia na mesa com ioiô, deitava na cama com Iaiá...”.

Mestre Camafeu, hoje estamos todos chorando e perguntando: Cadê Maria de São Pedro?, Cadê o Ijexá? Cadê Mestre Pastinha? Foi ele que disse que Capoeira é tudo que a boca come. Sossega lá no morro do sossego nosso mukenge da paz.

O segundo momento da minha imanente fantasia é o sagrado, conduzido pela força do trabalho e na busca de liberdade do Banto, seja nos canaviais, nas minas de ouro e diamantes, nos cafezais do Vale do Paraíba ao Oeste Paulista. Então, Batuques sem “quenzo”, seus filhos buscaram. E na linha versada do Mestre Tuniquinho Batuqueiro “... Mandei preparar o terreiro que já vem chegando o dia, eu vou encourar meu pandeiro e preparar pra folia...” porque eles serão poetas e reis e não mais escravos de outros homens.

A medida da carne e da alma de um povo na mais perfeita tradução nos versos de Solano Trindade “... Tronco, Senzala, Chicote, Grito, Choro, Gemidos... Nos meus ouvidos... eu tenho orgulho em ser filho de escravos.”.

Da liturgia dos antigos Candomblés o mistério da aprendizagem, do respeito do homem com a natureza e com a memória dos seus antepassados. O embalar do Jongo onde Pai Tôco acendeu a mata e a batida do Candongueiro acordou sem medo a cidade.
Eu os vejo, sempre como dois meninos cantando os Vissungos de suas avós ou sentados ao lado de uma Rainha Quelé, pedindo sua benção. “Benguelê, Benguelê, Benguelê ô mamãe Zimba Benguelê!!!". Rainha negra da voz, mãe de todos nós.

É dessa matéria viva africana e brasileira que aqueles dois homens eram feitos e com certeza era daí que ganhavam forças para se tornarem líderes negros.

Desperto do meu imaginário nos versos de outros dois grandes mestres Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola:

“Samba, quando vens aos meus ouvidos, embriagas meus sentidos, trazes inspiração... És meu companheiro inseparável de tradição. Devo-lhe toda gratidão”

Por oferecer a todo o povo brasileiro a vida e a obra desses dois grandes poetas da liberdade demasiadamente humana: Mestre Candeia e Mestre Geraldo Filme...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O melhor do samba por seus artistas e intérpretes - Programa Ensaio

Pessoal, reuní pra vocês lá no umquetenha essa jóia rara... uma penca de discos da série "A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes". Aproveitem!

Os links não são meus, portanto não tenho garantias de quanto tempo isso vai ficar disponível... Qualquer problema deixem um comentário que eu tento achar outro na net pra substituir o link quebrado!


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..........Aracy de Almeida..............Antônio Nássara........................Alaíde Costa......................Adoniran Barbosa

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.............Blecaute.........................João de Barro..........................Bucy Moreira............................Cartola

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..........Chico Buarque................Claudionor Cruz.........................Ciro Monteiro....................Dorival Caymmi


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..........Élton Medeiros...................Época de Ouro........................Geraldo Filme......................Germano Mathias


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........Guilherme de Brito.................Henricão..................................Ismael Silva......................Ivone Lara


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...........João Nogueira............Lupicínio Rodrigues.........................Mário Lago......................Mauro Duarte e Noca


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..........Mestre Marçal.......................Nei lopes................... ....Nélson Cavaquinho............Paulinho da Viola e 4 Crioulos


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.......Paulo Vanzolini...................Pedro Caetano...........................Roberto Silva.....................Roberto Martins


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.................Zé Kéti.......................Silvio Caldas..........................Samba da Bahia...................Roberto Ribeiro

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Não vadeia Clementina...



Hoje falarei um pouco sobre a grande rainha do samba, que surgiu como um furacão com sua voz única, com aquele timbre que até hoje ainda não ouví igual... Coisa linda é Clementina de Jesus! Se Xangô da Mangueira era o samba em pessoa, Clementina era a África!


Clementina era filha de rezadeira. Foi com sua mãe - que escapou da escravidão pela Lei do Ventre Livre - que aprendeu a entoar seus lamentos em forma de canto... O "canto de trabalho", os jongos e ladainhas faziam parte de seu dia a dia desde menina. Ainda tinha o pai, que era capoeirista e violeiro...

Aquela menina, nascida em Valença, RJ, a 7 de fevereiro de 1901, neta de escravos, não teve vida fácil e levaria exatos 63 anos para ser reconhecida por seu canto...
Um canto que trazia na sua alma a lembrança dos avós paternos entoando cantos bantos, de sua mãe, Dona Amélia, lavando roupas no córrego, cantando hinos de igreja e canções aprendidas com os negros mais velhos, gente do jongo, caxambu...

Ouça Clementina, Geraldo Filme e Doca cantando o canto dos escravos:


Clementina, que trabalhou a vida toda como empregada doméstica, chegou a contar que sua patroa, ao ouvi-la cantar um verso ou outro enquanto batia roupa no tanque, perguntava: "você está cantando ou miando?"


Transcrevo aquí um trecho do texto de Lena Frias, extraído do box lançado pela petrobrás em comemoração aos 100 anos de clementina, em 2001. O texto relata um dos momentos mais importantes da musica brasileira... Finalmente o canto de Clementina era do povo!


"Lá no alto, dentro da igrejinha centenária, Nossa Senhora da Glória, a Yemanjá dos pretos, recolhia as homenagens de sua data votiva, 15 de agosto, entre preces e cantos sacramentais. Na base do outeiro a escrita, porém, era outra: o partido alto corria solto. Samba só, não. Era jongo, era caxambú, era curimá, era lundú, era de um tudo. A devota Clementina de Jesus, católica e misseira desde o nascimento, ao pé da capelinha de Santo Antônio de Carimbita, na Valeça rural do início do século, puxava de dentro do peito o muito que sabia, hinos terrais para homenagear a santa. Salve, rainha! Odoia! Odô-fê-iabá!

A mãe de Jesus, no seu avatar carioca, não só compreendia, como também amava aquele canto de notas fortes, marcado pela percussão do couro, das palmas de entusiasmados acompanhantes e pelos pés de raiz - tambores naturais - daquela nêga véia, já passada dos sessenta.

Então Nossa Senhora da Glória reconheceu a hora e a vez e guiou para aquele lugar de musica em estado puro os passoa do moço artista, cujos cabelos encaracolados lembravam São João Menino no estandarte das folias (...) O compositor, produtor cultural, sobretudo poeta, Hermínio Bello de carvalho vinha da prais, reinado de Yemanjá. E de repente, puxado pelo canto ao mesmo tempo antigo e inédito da "Nega Véia", pela voz algo áspera, de timbre único, jamais antes escutada, viu-se encantado na Taberna da Glória, no bairro de mesmo nome, templo profano onde ocorria a festa forra em honra da Senhora do Outeiro."


A partir daí, Clementina ganhou nossos corações e o mundo! Levou seu canto à Europa, encantou o imperador da Etiópia, a quem teve de conceder uma dança em um jantar na casa de um embaixador...Mas Clementina nunca perdeu sua simplicidade, continuava morando em sua casinha em Acarí. Ela mesma dizia:

"Continuo a mesma, moro na mesma casa há 15 anos e adoro cozinhar. Agora, é claro que aconteceram coisas na minha vida que eu nunca tinha sonhado, como ir a Paris ou andar de avião"

É tia Clementina, andar de avião foi um simples detalhe...



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Fiz uma coletânea com algumas da interpretações da Clementina que mais gosto. Espero que gostem também! Bom apetite!


01
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Partido Clementina de Jesus (Candeia) Do disco "Clara Nunes - As Forças da Natureza" de 1977
02 -
Piedade (Folclore) Do disco "Clementina de Jesus" de 1966
03 -
Orgulho, Hipocrisia (Paulo da Portela) Do disco "Clementina de Jesus" 1966
04 -
Mulato Calado (Benjamin B. Coelho e Marina Batista) Do disco "Rosa de Ouro Vol.2" de 1967
05 - Saudosa Mangueira (Herivelto Martins) Do disco "Fala Mangueira" 1968
06 -
Estácio, Mangueira (Folclore) Do disco "Gente da Antiga" de 1968
07 -
Na linha do mar (Paulinho da Viola) Do disco "Marinheiro Só" de 1973
08 -
Madrugada (Antônio Mota e B. Miranda) Do disco "Marinheiro Só" 1973
09 -
Moro na roça (Zagaia e Xangô) Do disco "Marinheiro Só" 1973
10 -
Barracão é seu (Folclore) Do disco "Clementina de Jesus" de 1966
11 -
Dois jongos - Pica Pau/Carreiro Bebe (Folclore) Do disco "Clementina de Jesus e Carlos Cachaça 1976" 12 - Ajoelha (Batelão e Silvio) Do disco"Clementina de Jesus e Carlos Cachaça 1976"
13 - Quando a polícia chegar (João da Bahiana) Do disco "Clementina" de 1979
14 -
Embala eu (Albaléria) Do disco "Clementina de Jesus e Convidados" de 1979
15 -
Cocorocó (Paulo da Portela) Do disco "Clementina de Jesus e Convidados" de 1979
16 -
Sonho Meu (D. Ivine Lara e Délcio Carvalho) Do disco "Clementina de Jesus e Convidados" de 1979
17 -
Nasceste de uma semente Do disco "Rosa de ouro vol.1" de 1965




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Quer mais Clementina? Já sabe, é só clicar nos discos abaixo e fazer o download!