domingo, 27 de junho de 2010

Quilombo, pesquisou suas raízes....





Muitos conhecem a luta do mestre Antônio Candeia Filho contra a descaracterização das escolas de samba que durante a década de 70 tomou conta dos desfiles e os sambista viam o samba se tornar um mero coadjuvante diante do gigantismo e dos novos valores que passavam a reger os desfiles durante o carnaval.

Descontentes, alguns sambistas de prestígio dentro da Portela, entre eles, Candeia, chegaram a redigir uma carta à direção da escola propondo mudanças e sugestões. Trancrevo na íntegra o texto de tal carta que encontrei no blog "Só Candeia", um documento de grande valor para a história do nosso samba e que mostra a preocupação com os rumos que o samba tomava naquela época:


A carta acima não teve sequer resporta do diretor Carlos Teixeira Martins, ou Carlinhos Maracanã e, infelizmente, o final dessa história todo mundo conhece: O carnaval aos poucos foi se tornando um produto cada vez mais influênciado por grupos que pouco tinham a ver com as escolas e o samba perdeu sua tradição, tornando-se um mero acompanhante nos dslumbrantes e errojados desfiles, em que a figura do carnavalesco tornava-se mais importante que a dos compositores.

Candeia, em um trecho do livro que escreveu em parceria com Isnard Araújo, entitulado "Escola de Samba: árvore que esqueceu a raiz", publicado em 1978:

"Os verdadeiros sambistas, ou seja, Mestre-Sala e Porta-Bandeira, os passistas, os ritmistas, os compositores, as baianas, os artistas natos de barracão, são, hoje em dia, colocados em segundo plano em detrimento de artistas de telenovelas, dos chamados ‘carnavalescos’, ou seja, artistas plásticos, cenógrafos, coreógrafos e figurinistas profissionais. Ao substituirmos os valores autênticos das Escolas de Samba, nós estamos matando a arte-popular brasileira, que vai sendo desta maneira aviltada e desmoralizada no seu meio-ambiente, pois Escola de samba tem sua cultura própria com raízes no afro-brasileiro." 

Mas nem tudo estava perdido. Candeia, já decepcionado com sua escola do coração, recebeu de um amigo o pedido de ajuda na compra de instrumentos para um bloco, intitulado Quilombo dos Palmares, que pretendia fundar em um terreno baldio, na Rua Pinhará, no bairro de Rocha Miranda.

Foi aí que o que era uma simples idéia começou a se tornar realidade: a criação de uma nova escola de samba, livre das imposições que tomavam conta do carnaval, feita por pessoas que tinham na luta pela preservação do samba um dos seus maiores valores. Nascia então, no dia 08 de dezembro de 1975 (dia de Nossa Senhora da Conceição) o "Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo", ou simplesmente, o GRANES Quilombo.



As cores da escola foram escolhidas pelo próprio candeia: o dourado, que representava o ouro e homenageava Oxum (que no sincretismo religioso é representada por Nossa Senhora da Conceição), o branco, que simbolizava a paz e a pureza e o lilás, que nas palavras de Candeia, era inspirado na beleza de uma flor e representava a África.

Seu símbolo, uma palmeira, em homenagem ao mais conhecido quilombo, o Quilombo de Palmares. Entre seus fundadores destacavam-se Waldir 59, (parceiro de Candeia em diversos sambas enredo feitos para a Portela), Paulinho da Viola, Wilson Moreira, Élton Medeiros, Monarco, os jornalistas Lena Frias e Juarez Barroso, entre outros.

Na época, o recém-formado estudante de Letras, João Baptista Vargens, após um dos inúmeros encontros promovidos por Candeia para articulação da escola em dezembro de 1975, escreveu um manifesto de fundação, que exprimia de forma incisiva os propósitos e ideiais da nova escola que nascia:



"Estou chegando...
Venho com fé. 
Respeito mitos e tradições. 
Trago um canto negro. 
Busco a liberdade. Não admito moldes.
As forças contrárias são muitas. 
Não faz mal...Meus pés estão no chão.
Tenho certeza da vitória.
Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado. 
Aqui, todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.
Teorias, deixo de lado. 
Dou vazão à riqueza de um mundo ideal. 
A sabedoria é meu sustentáculo,
O amor é meu princípio,
A imaginação é minha bandeira.
Não sou radical.
Pretendo, apenas, salvaguardar o que resta de uma cultura.
Gritarei bem alto desafiando um sistema que cala vozes importantes 
Que permite que outras totalmente alheias falem quando bem entendem. 
Sou franco-atirador. Não almejo glórias. 
Faço questão de não virar academia. Tampouco palácio. 
Não atribua a meu nome o desgastado sufixo -ão. 
Nada de forjadas e malfeitas especulações literárias. 
Deixo os complexos temas à observação dos verdadeiros intelectuais. 
Eu sou povo. 
Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.
Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas baianas rendadas sambando sem parar. 
Com minha comissão de frente digna de respeito. 
Intimamente ligado às minhas origens.
Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais: 
Não me incomodem, por favor.
Sintetizo um mundo mágico.
Estou chegando..."


O Jornal do Brasil anunciava, no dia 17 de dezembro de 1975, em uma reportagem de página inteira, o nascimento do Quilombo. Veja um trecho da reportagem de Juarez Barroso


"As escolas de samba cariocas agigantaram-se, deformaram-se à medida que se transformaram (ou pretenderam transformar-se) em shows para turistas. O tema é polêmico, tratado por quase sempre em tom passional. Deformação ou evolução? Será possível o retorno à pureza, ao comunitarismo dos anos 30, quando essas escolas se consolidaram? (...) O sambista Candeia, liderando outros sambistas descontentes com a situação, prefere responder de modo objetivo. E responde com a fundação de uma nova escola de samba, Quilombos, escola que terá sede em Rocha Miranda e irá para a Avenida mostrando como era e como deve ser o samba. (...) E continuava o sonho: ‘Uma escola em que tudo fosse feito pelo povo. As costureiras do lugar fazendo as fantasias. Não ia ter esse negócio de figurinistas de fora não. As alegorias também, tudo de lá mesmo, escolhido lá.’ (...) E uma coisa fica bem clara: Quilombos, mais que uma escola de samba, será uma escola de sambistas, um modelo para outras escolas, uma referência."


Wilson Moreira relembra:

"Ele falou: ‘Wilson, eu vou fundar uma escola de samba. Você tá comigo?’. Eu falei: ‘Candeia, eu só não vou sair da Portela...’. “Não, não precisa sair da Portela, ninguém precisa sair de suas escolas. Como o Xangô tá com a gente, Elton tá com a gente, Clementina tá com a gente, fulano, beltrano, sicrano..., Jorginho Peçanha tá com a gente’. Jorginho do Império. Eu falei: Tá legal! Vamos fundar a Quilombo."

Em 1976, em matéria para o jornal Última Hora, Candeia resume os propósitos do GRANES Quilombo:

- Desenvolver um centro de pesquisas de arte negra, enfatizando sua contribuição à formação da cultura brasileira;
- Lutar pela preservação das tradições fundamentais sem as quais não se pode desenvolver qualquer atividade criativa popular;
- Afastar elementos inescrupulosos que, em nome do desenvolvimento intelectual, apropriam-se de heranças alheias, deturpando as das escolas de samba, e as transformam em rentáveis peças folclóricas;
- Atrair os verdadeiros representantes e estudiosos da cultura brasileira, destacando a importância do elemento negro em seu contexto;
- Organizar uma escola de samba onde seus compositores, ainda não corrompidos “pela evolução” imposta pelo sistema, possam cantar seus sambas, sem prévias imposições. Uma escola que sirva de teto a todos os sambistas, negros e brancos, irmanados em defesa do autêntico ritmo brasileiro.


Ouro fato interessante foi que a situação política do Brasil naquela época, em que a falta de liberdade imperava, mesmo com o regime militar já enfraquecido, favoreceu a capacidade que o Quilombo de Candeia alcançou de “aglutinar as pessoas”, funcionando como uma “válvula de escape”, “um lugar de resistência”, um Quilombo dos Palmares revivido. João Batista Vargens exemplifica o processo:

"Então, a ideia do Candeia e do grupo que o apoiou era salvaguardar isso, que é, na verdade, uma identificação com a cultura nacional. Em uma época em que todas as forças progressistas trabalhavam para aglutinar.

Essa era uma maneira de aglutinar as pessoas, não é? Foi por isso que a Quilombo conseguiu juntar 3.000 estivadores, ou juntar 3.000 ou mais trabalhadores da construção civil durante as suas festas lá. E não era só samba e comida. Havia palestras, exibição de filmes, debates. Esse espaço você não tinha nem dentro das universidades, porque havia uma repressão. Então era um quilombo mesmo, um lugar de resistência.

A coisa não foi tão elaborada conscientemente, não é? Mas, partindo das pessoas que criaram o grupo – isso a gente vê hoje, trinta e tantos anos depois –, era um movimento... Na verdade, uma válvula de escape para aquilo que não se tinha: um, na universidade; outro, dentro do seu jornal; outro, dentro da sua escola de samba. Então, como o Quilombo dos Palmares, que aglutinou não só negros, todo mundo sabe disso, mas pessoas que estavam marginalizadas dentro da sociedade na época e foram para lá, para o Quilombo, porque lá tinha abrigo e tinha proteção.

E o escudo eram os grandes artistas que frequentavam, como Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Clara Nunes. Essas pessoas foram importantes também, porque deram visibilidade à coisa, ao trabalho. E o Candeia, que, além das ideias, tinha o dia todo para ficar telefonando, desde o fornecedor de carne ou de cerveja até o artista, o amigo, o jornalista para divulgar. Ele tinha tudo na mão dele".

Assista ao trailer do documentário "Eu Sou Povo", de Bruno Bacellar, Luis Fernando Couto e Regina Rocha:


Muitas foram as dificuldades enfrentadas para que o Quilombo pudesse desfilar no carnaval de 1977. Mesmo assim, devido ao empenho de seus componentes, a escola não só se apresentou pelas ruas dos subúrbios de Coelho Neto e Acari, como fechou o carnaval na Avenida Presidente Vargas. O impacto parece ter sido positivo, como sugerem os comentários da imprensa:

"A presença da Escola de Samba Quilombo foi, na verdade, a grande novidade no desfile de campeões do Carnaval 77, fechando com chave de ouro uma festa que teve tudo igual aos anos anteriores. [...] Com um contingente de 400 pessoas, dentre as quais os astros da música popular Paulinho da Viola, Candeia, Martinho da Vila, Xangô e Clementina de Jesus, diversos intelectuais e sambistas de outras agremiações, Quilombo, com suas fantasias tricolores, branca, lilás e dourado, quase rouba o espetáculo, que ficou por conta da Beija-Flor e seu Carnaval-Evolução, e do Canarinho das Laranjeiras. [...] Desfilando livre e descontraída pela avenida, sem esquemas, imposições, figurinos ou estrelas, despreocupada com novas fórmulas de 70, apresentação musical ou com contagem de pontos, a escola de samba Quilombo mostrou, ontem, o verdadeiro papel de uma escola de samba e apresentou seu Carnaval de 77 visando apenas realizar a mais genuína festa brasileira". (A Notícia, 23/2/1977).

"A escola desfilava sem subvenção e carregava apenas duas faixas fazendo alusão ao “samba sem pretensão” e ao “samba dentro da realidade brasileira”. Para os mais atentos, esta diferença tomou outra dimensão nas cinco horas que antecederam o momento do desfile. Na Rua General Caldwel, esquina com a Presidente Vargas, o Quilombo reunido, tendo Candeia ao centro, tocava samba-de-roda, lutava capoeira e dançava o jongo – dança dos escravos – quase esquecido da festa de que participaria em breve" (Movimento, 7/3/1977).

Para se ter uma idéia da importância de Candeia na organização e estruturação da escola, basta darmos uma olhada no depoimento de Pedro Carmo dos Santos, um dos primeiros integrantes do Quilombo:


"Em 77, tinha o Candeia, o Quilombo tinha uma facilidade tremenda. Ele chegava e falava assim: ‘O que é que está faltando aí?’, para os chefes de alas. ‘Está faltando o quê?’ Ou para as costureiras. E eu falava: ‘Para a Ala das Crianças e para a Ala das Baianas está faltando pano.’

O Candeia saía e, quando ele voltava, o carro cheio de peças de pano. A gente: ‘Comprou aonde?’ ‘Comprei?! Eu sou o Candeia, rapaz! Eu sou o Candeia! Eu ganhei. Foi doado para o Quilombo. Ia em São Paulo e trazia peças de bateria do Quilombo, trazia essas coisas todas. Era tudo facilidade. Tinha as costureiras, tinha as máquinas... A esposa dele que comandava tudo, a dona Leonilda. Fazia aquelas feijoadas, aquelas comidas, fazia festival de chope, para angariar fundos, para o Quilombo fazer alguma coisa".


O desfile de 1978 foi especial: marcava a última participação de Candeia no comando de sua escola. O samba enredo foi composto por Wilson Moreira e Nei Lopes. "Ao povo em forma de arte" é uma obra prima, que demonstra a preocupação do sambista em preservar sua cultura e seus valores em um tempo em que tudo parecia se perder.

Quem esteve lá pôde presenciar a emoção do Casquinha que às lágrimas dizia: "Tá tudo direitinho. tudo certinho. Parece a Portela de antigamente".


Quilombo pesquisou suas raízes
E os momentos mais felizes
De uma raça singular
E veio pra mostrar essa pesquisa
Na ocasião precisa
Em forma de arte popular

Há mais de quarenta mil anos atrás
A arte negra já resplandecia
Mais tarde a Etiópia milenar
Sua cultura até o Egito estendia
Daí o legendário mundo grego
A todo negro de "etiope" chamou
Depois vieram reinos suntuosos
De nível cultural superior
Que hoje são lembranças de um passado
Que a força da ambição exterminou

Em toda a cultura nacional
Na arte e até mesmo na ciência
O modo africano de viver
Exerceu grande influência
E o negro brasileiro
Apesar de tempos infelizes
Lutou, viveu, morreu e se integrou
Sem abandonar suas raízes
Por isso o Quilombo desfila
Devolvendo em seu estandarte
A história de suas origens
Ao povo em forma de arte

Panfleto divulgando o samba do GRANES Quilombo, em 1978

Em novembro de 1978, Candeia partiu de repente. Foi sambas com seus companheiros lá no céu. Deixou um legado que representa o que há de mais puro no samba, suas canções hoje são entoadas como hinos em rodas de samba, inspirando jovens que tomam sua luta pela preservação do samba e da cultura negra com um ideal a ser seguido e propagado.

Alguns, à primeira vista diriam que a luta de Candeia e do Quilombo foi em vão. Hoje o carnaval é um produto de exportação, escravo da mídia, que movimenta quantias milionárias, o samba corrido, sem a beleza das letras e melodias dos saudosos compositores.

Mas, quem gosta de samba pode perceber em cada roda, em cada blog, em cada fórum na internet, que a luta de Candeia nunca foi em vão, que o samba ainda hoje tem seus defensores, que não deixam desaparecer sua tradição, sua belez e riqueza, em que têm em Candeia uma fonte de inspiração, que nos dá forças para mantermos a chama sempre acesa.

Salve Candeia!

Ouça um depoimento dos filhos de Candeia sobre a criação do GRANES Quilombo:





Fonte de consulta:

O Quilombo de Candeia: Um teto para todos os sambistas (2009).
Dissertação de mestrado de Ana Cláudia da Cunha
Fundação Getúlio Vargas
Baixar em PDF


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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pequena seleção de discos...

Seguem alguns links pra vocês darem um upgrade na coleção! São unsa discos que tenhos ouvido esses últimos dias, só coisa fina!

Conjunto Baluartes
Nira Gongo (1976)



Pedrada no ouvido! Esse disco reúne uma cozinha que não é brincadeira! Eliseu, Luna e Mestre Marçal são os destaques, acompanhados ainda de Marçalzinho, Dotô e Toninho. Prestem atenção na aula de batucada que essa turma dá interpretanto clássicos como "Samba do Trabalhador" e "Tiradentes" ou canções pouco conhecidas de Walter Rosa, Padeirinho e outros bambas. Tem também um tom meio afro que agradou muito!

1 - Por favor (J. Ananias - José Bispo ''Jamelão'')
2 - Sai encosto (Marimbondo - J. Canseira)
3 - Nira Gongo (Os Baluartes)
4 - Quando eu me lembro (Hélio Nascimento)
5 - Andarilho (Padeirinho)
6 - Não é não é (Walter Rosa - Redvaldo)
7 - Ausência de paz (Pequeno Tony - Gugu)
8 - Tiradentes (Mano Décio da Viola - Penteado - Estanislau Silva)
9 - Samba do trabalhador (Darci da Mangueira) / Chegou mais um (Darci da Mangueira)
10 - Conflito (Pedro Santos)
11 - A nova Mangueira (Padeirinho)

Baixe pelo Prato e Faca


Dona Ivone Lara

Samba, Minha Verdade, Minha Raiz (1978)




Esse eu procurei por muito tempo até que uma boa alma postou lá no orkut. Primeiro disco de Dona Ivone é recheado de sambas de alta patente! Traz também a participação do grande Alcides "Malandro Histórico"Lopes, cantando dois belos sambas da Portela. Em seu primeiro disco, mas já com muita estrada rodada no mundo do samba, D. Ivone mostra que tem talento, pra compor e cantar!

1 - Minha verdade (Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara)
2 -
Como ele é assim (Dona Ivone Lara)

3 -
O Império tocou, reunir (Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira)

4 -
Espelho da vida (Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara)

5 -
Já chegou quem faltava (Nilson Gonçalves) — participação Alcides Lopes

6 -
Em cada canto uma esperança (Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara)

7 -
Samba, minha raíz (Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara)

8 -
Andei pra curimá (Dona Ivone Lara)

9 -
Quando a maré (Antônio Caetano) — participação Alcides Lopes

10 -
Nas sombras da vida (Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara)

11 -
Prazer da Serrinha (Hélio dos Santos e Rubens da Silva)

12 - Aprendi a sofrer (Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara)

Link postado por Gabriel na comunidade Samba de Raíz, no orkut.


Xangô da Mangueira

Chão da Mangueira (1982)



Último disco autoral de Xangô da Mangueira, um dos maiores partideiros que o samba já teve! Aquí ele passeia pelo samba acompanhado de parceiros como Jorge Zagaia, Catoni, Alcides Malandro Histórico e Dona Ivone Lara... Com Baianinho, põe até um pé no nordeste mandando um samba "forrozado" desafiando um repentista no improviso! Grande Xangô!

1 - Mineiro, mineiro (Rubens da Mangueira - Ivan Carlos)
2 - Você não é não (Alcides da Portela - Xangô da Mangueira)
3 - A gente com briga não chega lá (Jabolô - Catoni - Durval)
4 - O pagode levanta a poeira (Jorge Zagaia - Xangô da Mangueira)
5 - Amaralina (Waldomiro do Candomblé - Xangô da Mangueira)
6 - Festa de Santo Antônio (Ivone Lara)
7 - Catimbó (Waldomiro do Candomblé - Xangô da Mangueira)
8 - Porquê você não foi (Babaú da Mangueira)
9 - Viola de pinho (Geraldo Babão)
10 - Harmonia bonita (Xangô da Mangueira)
11 - Ê cantador (Baianinho - Xangô da Mangueira)
12 - Isso não são horas (Catoni - Xangô da Mangueira) participação: Catoni e Jorge Zagaia

Baixe pelo Prato e Faca


Nei Lopes

Sincopando o Breque (1999)

Nesse disco do Nei Lopes faz um passeio pelo samba de breque com muita origilaidade e bom humor, mostrando que também é bamba no assunto, reunindo 14 canções de sua autoria, ou em parceria com outros smbistas ilustres. Tem uma bela homenagem ao Mano Walter Alfaiate na faixa 3, "Samba na Medida".




1 - Baile no Elite (João Nogueira - Nei Lopes)
2 - Água de barrela (Zé Luiz - Nei Lopes)
3 - Samba na medida (Nei Lopes)
4 - Ladrão de galinha (Maurício Tapajós - Nei Lopes)
5 - Cara e coroa (Zé Luiz – Cláudio Jorge - Nei Lopes)
6 - Feicão de boboca (Dauro do Salgueiro - Nei Lopes)
7 - Justiça gratuita (Nei Lopes)
8 - Caído com elegância (Zé Luiz - Nei Lopes)
9 - A neta da madame Roquefort (Rogério Rossini - Nei Lopes)
10 - Coisa feia (Nei Lopes)
11 - O Vendedor de ilusões (Nei Lopes)
12 - A Hora do touro (Nei Lopes)
13 - Você sabia? (Nei Lopes)
14 - Rainha do lar (Nei Lopes)

Baixe pelo Prato e Faca


sexta-feira, 18 de junho de 2010

Nos tempos do Zé Espinguela

 Contam que a primeira competição entre sambistas que se tem notícia aconteceu na casa de um mulato jongueiro e pai-de-santo, chamado José Gomes da Costa, mais conhecido pela alcunha de Zé Espinguela. Figura lendária do samba carioca, morador de Engenho de Dentro, mas assíduo freqüentador do Morro de Mangueira, fundou no ano de 1925 o “Bloco dos Arengueiros” ao lado de Cartola, Carlos Cachaça, e outros bambas.

Desse encontro, originou-se em 1928 - três anos depois - o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira. Foi em uma reunião ocorrida no dia 28 de abril de 1928, no Buraco Quente (Travessa Saião Lobato nº 21), na casa de seu Euclides da Joana Velha, que nasceu um dos maiores celeiros de bambas do Rio de Janeiro. Seus fundadores: Seu Euclides (Euclides Alberto dos Santos), Saturnino Gonçalves, Marcelino José Claudino – o Maçu, Cartola, Pedro Caim, Abelardo da Bolinha e Zé Espinguela.



Cartola foi um dos sambistas que, junto com Zé Espinguela, fundaram o G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira


Naquele tempo era perigoso fazer samba, tinha que disfarçar, senão vinha polícia e acabava com a festa e se bobeasse, ainda levava malandro em cana... Tornou-se costume fazer as rodas de samba em casas de macumba, que tinham licença da prefeitura pra funcionar. É claro que com o tempo a polícia descobriu o truque e começou a baixar nas casas de macumba. Segue um relato interessante do João da Bahiana:

“Por uma ocasião, passando pela Mangueira, apanhei Teresa, irmã do falecido Miná, uma crioula que tocava violão, mãe de Moleque Diabo, peguei o Aristides que também tocava violão e muitos outros instrumentos de corda e que depois andou muito pelo Catete. A Teresa do Miná saiu e fomos para a casa do Francelino, no Morro do Urubu, onde havia uma macumba.

Havia uma sessão e nós ficamos do lado de fora cantando samba e esperando acabar a macumba. Me lembro até que estava um frio miserável, era junho, época de São João, inclusive era festa de Xangô. Embora não participássemos da macumba, fomos servidos com uma bandeja de pão-de-ló, canjica e pão com manteiga. Quando terminou a macumba, a Teresa chamou a gente com um samba:

Acorda, acorda,
Quem está dormindo, acorda

Acorda, acorda,

A bença, a bença

Boa noite, boa noite

Era um tal de apanhar instrumentos, pandeiros, pratos com faca, que o samba estava começando. A Teresa estava tocando um violão e eu fiquei tentando tirar um samba. Aí me lembrei do delegado do 23° Distrito, Abelardo da Luz, que de vez em quando dava umas incertas na gente. Tirei um samba:

Cruz credo, credo em cruz

Aí vem o delegado
Abelardo da Luz

Temos pão-de-ló

Temos pão com manteiga

Você sai do samba

Já vou minha nêga


Quando o samba estava no melhor, bateram na porta dizendo que não adiantava fugir pois a casa estava cercada. Ninguém corre! Aí, por causa do samba, o homem colocou a gente da casa pra fora.

Fez a gente descer o morro com um frio danado. Nem chegamos a comer, a tomar café, coisíssima nenhuma. Descemos e andamos a pé, do Morro do Urubu até o 23° Distrito, que naquele tempo era em Madureira, debaixo de pau e bengala. E o delegado Abelardo da Luz obrigando a gente a cantar o samba sem parar. Tinha que cantar no ritmo. Ou cantava no ritmo ou levava bengalada.

Na delegacia, subimos a escada, o delegado chamou o Francelino e avisou: “outra vez, vocês vão ficar uma porção de tempo”. Foi dar umas voltas e a gente lá, morrendo de fome. Voltou e tornou a falar: “outra vez que você botar essa molecada dentro da sua casa e vir com essa vagabundagem de samba, eu boto você no xadrez. Não tem Nicanor do Nascimento, nem nada”. O Nicanor, na época, era o deputado que arranjava as licenças pras casas de macumba. E repetia: “É você no xadrez e a licença do lado de fora. No meu distrito não quero saber disso”.














João da Bahiana, que além do caso contado acima já se safou de uma batida policial por causa da dedicatória escrita em seu pandeiro, presente de um senador bastante influente.







Espinguela era Pai de Santo e nos fundos de sua casa em Engenho de Dentro, o samba acontecia... Muita festa, a roda de partido alto pegava fogo com um punhado de bambas. Numa dessas, o Zé Espinguela resolveu organizar uma disputa, que aconteceu no dia 20 de janeiro de 1929 e que viria a ser o primeiro concurso disputado entre escolas de samba.

Juvenal Lopes, um antigo mestre sala da Escola de Samba Deixa Falar, integrante da União do Estácio e que foi diretor da Mangueira durante os anos 60, fala sobre Zé Espinguela:

“Ele organizou um concurso na sua casa do Engenho de dentro, na rua Borja Reis. Compareceram representantes do Estácio, da Mangueira, de Oswaldo Cruz e da Favela. Me lembro que o pessoal do Estácio foi desclassificado porque apareceu de gravata e flauta. Foi até o Benedito Lacerda que apareceu com a flauta. O samba do Estácio era assim:

De que tanto choras
Se não se estás sentida

As lágrimas que vertes são fingidas

Eu tenho certeza
que não vou te perdoar
Chora meu bem, chora


O samba da Mangueira era do falecido Arturzinho Faria:


Eu quero é nota

Carinho e sossego

Pra viver descansado

Cheio de alegria, meu bem

Com uma cabrocha ao meu lado


O samba de Oswaldo Cruz era do Paulo da Portela:


Avante mocidade, é hora

Vamos fazer nosso progresso

Vamos deixar correr

A fama suburbana

Por todo esse universo

O samba harmonioso é lindo

E para ter maior valor

Vamos por em linha de frente

Para presidente,

O Mano Claudionor


No jornal "A Nação", de 1 de março de 1935 (ano em que o desfile das escolas na Praça Onze passaram a ser oficialmente parte do programa de carnaval da prefeitura do Rio), Zé Espinguela confirma a veracidade do evento e também fala sobre a vencedora:

"Eu fui o primeiro organizador de concursos entre as nossas escolas. Foi em 1929. Realizei no Engenho de Dentro. Sagrou-se vencedora a Portela (na época Vai Como Pode), sabiamente dirigida pelo Paulo. Mangueira também apresentou-se pujante, tendo os seus sambistas Cartola e Arthurzinho apresentado dois sambas monumentais: "Foram beijos" e "Eu quero nota".

Heitor dos Prazeres (autor do samba vencedor) conta que, apesar da portela ter sido escolhida como vencendora, Zé Espinguela teve de distribuir troféus a todas as escolas pra não haver confusão...

Espinguela foi amigo íntimo de Villa-Lobos, a quem, em 1940, Leopoldo Stokowski solicitou que reunisse os mais representativos artistas de música popular brasileira, para gravação de músicas que seriam apresentadas em um Congresso Pan-Americano de Folclore.












Zé Espinguela e Villa Lobos em um ensaio do "Sodade do Cordão" grupo carnavalesco fundado por Villa Lobos que tinha Zé Espinguela como grande colaborador


Villa-Lobos então convocou, além de seu amigo Espinguela, Pixinguinha, Cartola, Donga e João da Baiana. Em uma única noite em agosto de 1940, foram registradas, a bordo do navio Uruguai, quarenta musicas entre as quais haviam seis composições de Zé Espinguela. Dessas, apenas dezesseis chegaram ao disco, sob o título Native Brazilian Music - Leopold Stokowski. Zé Espinguela emplacou três:



Macumba de Iansã (Zé Espinguela e Donga)
Cantam: Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá

Macumba de Oxóssi (Zé Espinguela e Donga)
Cantam: Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá

Cantiga de Festa (Zé Espinguela e Donga)
Cantam: Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá



Espinguela morreu cedo, em 1944, com aproximadamente 60 anos. Como grande poeta, sentindo que seu caminho estava chegando ao fim, Zé Espinguela profetizou a própria morte, e eternizou em versos seu amor pela Mangueira, escola que ajudou a fundar.

Dona Neuma, figura lendária da Mangueira, conta que ao pressentir a própria morte, Espinguela quis se despedir das coisas que tanto gostava na vida. Reuniu os filhos-de-santo, todos a caráter, foram para a ponte da Mangueira e se “armaram”. Segundo Dona Neuma, era tarde da noite e só se podia ouvir um surdo lento e os versos de um novo samba:

Adeus Mangueira (Zé Espinguela)



Bem que eu quero esperar
Mas existe um porém

Trago a minha memória cansada.

Esta triste melodia

Serve de último adeus


Adeus, escola de samba
Adeus,
Mangueira, adeus!

Adeus,escola de samba adeus!


Eu vou partir chorando

Relembrando os versos meus

Que mais cedo ou mais tarde

É triste, é doloroso recordar

Mas a orgia vai se acabar.

Mangueira, adeus...





Parte do texto foi trancrito do encarte do disco "A História das Escolas de Samba"

domingo, 13 de junho de 2010

Entrevista com Alvaiade da Velha Guarda da Portela




Segue abaixo uma entrevista cedida por Alvaiade e publicada no encarte do disco "História das Escolas de Samba vol.2". Deliciem-se com esse precioso registro, onde o compositor fala de sua relação com a Portela, do grande Paulo da Portela e conta casos maravilhosos! Não há créditos ao entrevistados, mas creio que seja o sérgio Cabral, editor de texto do fascículo.

Desde quando você está metido em samba?
Alvaiade: Desde 1928. Naquela época, o Paulo da Portela morava na Estrada da Portela, 276, que era um correr de casas que tinha o apelido de barra preta. Eu morava na Rua B, em Oswaldo Cruz, e tinha um bloco carnavalesco por lá. E o Paulo me convidou para a Portela.

O seu bloco era grande?
Alvaiade: Pequeno. Éramos eu, o falecido Brasileiro, o Zé Cachacinha, o Alvarenga, um grupo pequeno. O Alvarenga já pertencia à Portela antes de mim.

Como é o seu nome, Alvaiade?
Alvaiade: Oswaldo dos Santos. Nasci a 21 de novembro de 1913, aqui na Estrada da Portela.

Quando você entrou pra Portela já era compositor?
Alvaiade: Não, eu acompanhava o pessoal, fazia um centro no cavaquinho, cantava, etc. Depois é que eu comecei a fazer música.

Cristina Buarque e Velha Guarda da Portela cantam Vida de Rainha de Alvaiade e Monarco.



A primeira vez que você saiu na Portela já era pra desfilar na Praça Onze?
Alvaiade: Não. A primeira vez foi para participar de uma roda de samba em Bento Ribeiro, na casa do Paulo de Bento Ribeiro. Aliás, a razão do Paulo da Portela ganhar esse nome foi por causa do Paulo de Bento Ribeiro, que também era do samba.

Como é que o Paulo da Portela tratava os mais novos como você?
Alvaiade: O Paulo era uma figura humana fora de série. E muito observador. Eu era muito garoto naquela época e ele chegava até a me entregar certas responsabilidades dentro da escola, como a de substituí-lo de vez em quando, na sua ausência. Quando ele ia pra Sào Paulo, mais tarde, com o Cartola e o Heitor dos Prazeres, quem preparava a ecola era eu, como chefe interino, além do Ventura e o Alcides, que eram os diretores de harmonia. Quando ele chegava era só pra comandar a escola.

Ele chegou até a apontar você como substituto dele, não foi?
Alvaiade: Foi. Ele sempre dizia aos visitantes que iam à Portela: “Esse é o pequeno que me substitui”. Aquilo me dava muito entusiasmo. Minha prova de fogo foi em 1934. Foi uma festa na Portela e recebemos a visita de uns doutores, coisa muito rara na época numa escola de samba. E fui eu quem recebeu o pessoal. Depois foi num batismo de uma escola de samba lá no Botija. Fui incluído na delegação da Portela, mas como um simples integrante. Quando saltamos do bonde, o Cláudio de Quintino me falou: “Olha alvaiade, o Paulo disse pra você fazer a cerimônia”. Aí, tomei as medidas. Formei a rapaziada, tiramos um samba quando chegamos, houve aquela troca de gentilezas, aquela coisa toda. Eu sei que fui bem, pois o Cláudio de Quintino me deu os parabéns depois.

O Paulo era um boa praça, mas era muito exigente também, não é isso? Principalmente com a roupa.
Alvaiade: É verdade. Ninguém podia se apresentar com chinelo charlote porque o Paulo não gostava. O pessoal do Estácio, por exemplo – e isso não é querer falar mal, mas falar a verdade – apresentava-se muito bem, com ternos caríssimos. Mas de chinelo charlote e lenço no pescoço. O pessoal da Portela não. A gente tinha que andar de sapato e gravata. O Paulo dizia assim: “Quero todo mundo com o pé ocupado e pescoço também”. Quer dizer: sapato e gravata. Por sorte, a nossa rapaziada quase não bebia. A gente era diferente das outras escolas.

Alvaiade e Manacéia (em pé)

Como é que foi a briga do Paulo com a Portela?
Alvaiade: Nessa época – foi no carnaval de 1940 – eu estava chefiando a escola no lugar do Paulo, que estava em São Paulo, com o Cartola e o Heitor dos Prazeres. Ele chegou na hora em que a escola estava formada pra desfilar na Praça Onze e queria que os companheiros dele desfilassem também. Mas o problema é que eles estavam com uma fantasia preta e branca e o pessoal da diretoria achou que não era direito. Se o Paulo quisesse desfilar, tudo bem. Mas seus companheiros é que não podiam.

Toda a diretoria pensava assim?
Alvaiade: Toda. Ainda dissemos pra ele que os companheiros dele podiam entrar na escola, mas só depois que passassem pela comissão julgadora. Chamamos o Manoel Bam Bam Bam e ele repetiu para o Paulo a mesma coisa. Aí o Paulo disse: “Se eles não podem entrar, eu também não entro”. O Manoel Bam Bam Bam levantou a corda – naquela época as escolas desfilavam com corda - e falou: “Então você não desfila, pode sair”. O Paulo saiu e nunca mais desfilou pela Portela.

Mas ele nem visitava a escola?
Alvaiade: Oito dias depois, a gente estava comemorando a vitória da Portela lá na sede. E o Paulo apareceu com o Pessoal da Mangueira. Me lembro que ele estava com o Cartola e o Chico Porrão. Ele estava esquisito, de um jeito que eu nunca tinha visto assim. Acho que tinha tomado umas e outras, que ele não era de beber. Eu sei que chegou na Portela, trepou na mesa e começou a fazer um discurso: “Vocês crianças, vocês ursos”, não sei o que, falando coisas que não eram do feitio dele. Até os parentes dele ficaram revoltados com a situação. Eu ainda pedi a palavra tentando contornar o problema, mas havia uma grande revolta. Saímos Dalí e fomos para uma área, onde é hoje o botequim do Nozinho, irmão do Natal, e o Paulo puxou um samba da Mangueira: “Vou partir sem briga” e não sei o que mais. Eu aí, puxei um samba assim:

“Seja feliz com seu novo amor
Porque eu vou procurar o meu bem estar

Pode arranjar quem você quiser

Só peço pra de mim esquecer, mulher”


É um samba do Mijinha, o autor de “Sentimento”, que o Paulinho da Viola gravou. Mas o ambiente não estava bom não. E o pessoal da Mangueira percebeu isso. Me lembro até que o Chico Porrão falou assim pra mim: “Alvaiade, eu não tenho um alfinete pra me defender”. Eu falei pra ele assim: “Não tem nada não, aqui você está como se estivesse em sua própria casa”. Mandei um componente da Portela ir até Madureira buscar um carro, mas naquela altura tinha gente afim de pegar alguém, não sei se o Paulo ou o pessoal da Mangueira. Quando o carro chegou, botei a rapaziada lá dentro e fui em pé, no estribo, até lá fora protegendo eles. Na volta, veio uma porção de gente em cima de mim me espinafrar porque eu protegi o pessoal. O Paulo saiu e a Portela passou sete anos ganhando os desfiles na Praça Onze. Ele nunca se esqueceu da Portela. Muitas vezes, a gente ficava conversando em cima da ponte de Oswaldo Cruz e ele perguntando como é que ia o negócio, aquelas coisas. Ele estava na escola de samba Lira do Amor, mas não esquecia a nossa escola. No ano que ele ia voltar, morreu.

Você chamava o Paulo de você ou de senhor?
Alvaiade: Você mesmo. Era o Mano Paulo.

Paulo da Portela

Havia muita gente na Portela no início da escola?
Alvaiade: Não. Houve um ano - não sei se 1931 ou 32, não me lembro - que aconteceu um negócio que nunca mais esqueci. Nós íamos descer pra desfilar na Praça Onze e fomos pegar o trem na estação de Dona Clara. O Rufino, que era o tesoureiro, pagou 90 passagens. E se queixou: “Meu Deus, isso não é mais uma escola de samba, é um rancho. Nunca vi tanta gente numa escola de samba”.

É verdade que no início eram homens que desfilavam de baianas?
Alvaiade: É. Nós não tínhamos baianas no início. Quem saía de baiana era o Caludionor, o Boaventura, o Manoel Bam Bam Bam, o Antônio Mestre Sala e outros. Era um grupo de homens que saía de baiana.

Não tinha mulher na Portela?
Alvaiade: Tinha. Não saíam de baiana. Quando a gente ia, por exemplo, a uma batalha de confete, o próprio Paulo ia de casa em casa pedir consentimento às famílias para levar suas moças com a escola. Depois entregava todas elas em suas casa. Éramos uma família.

Mas havia aquele negócio de que sambista era sinônimo de marginal.
Alvaiade: Havia. Inclusive falavam isso da Portela, que é uma escola da Planície. Mas conosco não havia problema.


Alvaiade canta Concurso pra Enfarte, de sua autoria:


Concurso pra enfarte (Alvaiade)

Saber sofrer para mim é uma arte
Mas aguentar você é concurso pra enfarte

Eu não, eu não, eu não
Quero morrer no meu dia
Não quero antecipacão

A vida é muito bonita
Quando vivida sem perturbação
Sofrer pra mim é arte

morrer de enfarte, isso não
Por isso eu digo

Eu não, eu não, eu não
Quero morrer no meu dia
Não quero antecipacão

Saber sofrer para mim é uma arte
Mas aguentar você é concurso pra enfarte


Você se lembra dos seus primeiros sambas para a Portela?
Alvaiade: Mais ou menos, acho que era um assim:

"Meu amor
Não me maltrate assim

Meu bem

Não sei que mal eu fiz

Agora sei que me odeias

Mas algum dia

Ainda espero ser feliz
"

Me lembro de outro também que fiz baseado nos vendedores que corriam os trens vendendo tudo. Bala, Jornal, etc. Conhecia até alguns pelo nome, como o Cheiroso. Era assim:

"Baleiro Balas a dez, um tostão
Queijeiro
Queijo de Minas é bom
Jornaleiro

Meu Deus do Céu que moçada

Ele vem gritando

Diário da noite
Olha o Globo e Vanguarda
Chegou o Cheiroso

Tem a descrição encerrada
"

Além de dirigente da escola, o Manoel Bam Bam Bam também foi mestre sala, não é isso?
Alvaiade: Ele foi o primeiro mestre sala da escola. Foi mestre sala por 24 anos. A primeira porta bandeira foi a falecida Braulina.

Qual foi a primeira vez que a Portela desfilou na Praça Onze cantando um samba seu?
Alvaiade: Foi em 1934, mais ou menos.

"Eu só queria saber
Porque és tão fingida assim
Deves bem compreender

Ora meu bem

Eu só amo você
A mais ninguém"


Aí o pessoal fazia o improviso. Naquele tempo não havia segunda parte feita. Havia os versantes, como o João da Gente, que até foi apelidado de Gogó de Ouro. O Claudiono, o Ventura também eram grandes improvisadores e geralmente era o pessoal da direção de harmonia quem fazia isso. O Caludionor e o Ventura eram da Harmonia.

Você também foi diretor de harmonia?
Alvaiade: Eu fui chefe de conjunto quase vinte anos. E dentro dessa função eu fazia tudo. O chefe de conjunto era responsável pelos ensaios de um modo geral. Era uma espécie de diretor de harmonia. Tinha que ter noção de bateria, examinar vozes, isso tudo. Eu era o homem de sete instrumentos na Portela. Recebia visitas em nome da escola, visitava as co-irmãs, tudo isso eu fazia. E fazia discursos também.

O Paulo fazia discursos. Ele era bom orador?
Alvaiade: Puxa, ele tinha o dom da palavra. E era de uma gentileza de deixar todo mundo pasmado.




Naquele tempo que a Portela iniciava você já era um camarada conhecido no meio do samba?
Alvaiade: Bem, o que me fez mais conhecido foi o futebol. Aliás, foi no futebol que ganhei esse apelido de Alvaiade. Joguei no infantil da Portela, depois passei para o segundo quadro e acabei no primeiro. Em 1935 eu estava jogando no primeiro time da Associação Atlética Portuguesa. Em samba eu aparecí mais por causa da minha função de organizador. Minha maior preocupação era lançar os novos compositores. Esses novos compositores são os velhos de hoje: o Manacéia, Walter Rosa, Candeia, Chico Santana e muitos outros.

Houve uma época que combinei com os compositores que cada um só podia lançar duas músicas por ano. Todo mundo cumpriu. Mas houve um ano que o Chico Santana encontrou comigo na padaria e me trouxe um problema. Ele já tinha apresentado os seus dois sambas, mas tinha um terceiro que não queria deixar de lado. Me cantou o samba e eu gostei. Fiquei em dúvida e acabei quebrando o protocolo. Afinal, ele podia morrer, ou eu, e o samba ficaria esquecido. Hoje o samba é considerado, oficialmente, o hino oficial da Portela.

"Portela Suas cores tem
Na bandeira do Brasil

E no céu também

Avante portelense

Para a vitória

Não vê que seu passado

É cheio de glória

Eu tenho saudade

Desperta, oh grande mocidade
"

Nos primeiros tempos, onde era mesmo a sede da Portela?
Alvaiade: Ora, a sede. A sede? Bem, às vezes a Portela ensaiava na casa do Benício. No carnaval saia da casa do Caetano ou da casa do Rufino. Mais tarde é que alugamos uma casa na Estrada da Portela, onde é hoje o bar do Nozinho. Tinha uns 20 metros quadrados e era ali que a gente ensaiava.


Alvaiade canta "O mundo é Assim" de sua autoria:


O mundo é assim (Alvaiade)

O dia se renova todo dia
Eu envelheço cada dia e cada mês
O mundo passa por mim todos os dias
Enquanto eu passo pelo mundo uma vez

A natureza é perfeita
Não há quem possa duvidar
A noite é o dia que dorme
O dia é a noite ao despertar

E a famosa jaqueira da Portela?
Alvaiade: Era num terreiro na esquina da Estrada da Portela com a Rua Joaquim Teixeira. De fato, o pessoal ia pra ali, agora eu me lembro, ali onde é o bar do Nozinho tinha uma jaqueira sim.

Depois do Manoel Bam Bam Bam, quem ficou de mestre sala na Portela?
Alvaiade: O Antônio, que também ficou muito tempo. Aliás, tanto o Antônio quanto o Manoel já são falecidos. Depois dos dois, apareceram outros, mas não ficaram muito tempo não.

Fim.


.

Pra eu cantar tem que ter meu tom....


Nêgo Benguela

Compositor: Roque Ferreira
Intérprete: Roberto Ribeiro



Não tenho jeito de enganador
Não sei achar que é malandro e chamar doutor
Não vou andar de sandália
Se eu sei que ela me atrapalha
Só para parecer conservador

Pra eu cantar tem que ter meu tom
Eu não discuto tempero se o gosto é bom
A minha escola é a vida
O resto é conta vencida
Que eu já paguei pois sou pagador

E vamos simbora que agora
É hora de se embolá
Eu não vou ficar de fora
Vendo você sambar

No xaxo do meu xaxado
Xaxando você vai ver
Que eu zanzo pra todo lado
Meu corpo faz tremelê

Corta por fora
Rebola que dá calor
Bota o balaio
Na mão de bom mercador

Cumbuca é uca que não convém
Quem dorme em ponta de esteira não dorme bem
Respeite a minha bandeira
Ou livre o pé da rasteira
O meu bará sabe o dom que tem

Quizumba come até ajapá
Não sou quizumba guerreira mas sei brigar
O meu avô foi benguela
E a minha mãe na barrela
Dizia sempre que eu vim de lá

Samba gravado por Roberto Ribeiro no disco "De Palmares ao Tamborim" de 1985.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Desafio do Malandro

Um ótimo samba chorado do Chico Buarque, composto para a trilha sonora do filme "A Ópera do Malandro", lançado em disco em 1985. Como sempre, as letras do Chico dispensam comentários. Confiram:

Esse Moreira é um artista genial!

Achei esse vídeo no site do "Ocê no Samba", não resisti e copiei na cara dura mesmo, hehe! Um monte de imagens e depoimentos do grande Morengueira! Tem até um inusitado dueto com o Roberto Carlos...



Aproveitando, vai mais uma leva de Moreira da Silva, cantando alguns clássicos do samba de breque:

Pé e Bola (Waldemar Pujol e Moreira da Silva)



Samba Aristocrático (Moreira da Silva e José Dilermando)



O Rei do Gatilho (Moreira da Silva e Adriano Tenório)



Na Subida do Morro (Moreira da Silva e Ribeiro Cunha)



O adeus a Morengueira

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Grandes Sambas da História

Meu Drama (Senhora Tentação)
Compositor: Silas de Oliveira
Intérprete: Jorginho do Império, 1974

Um samba que muita gente acha que é do Cartola. Entretanto, o samba "Meu Drama" ou "Senhora Tentação" foi composto pelo mestre Silas de Oliveira.


Sinto abalada minha calma
E embriagada minh’alma
Efeito da tua sedução
Oh! Minha romântica senhora tentação
Não deixes que eu venha sucumbir
Neste vendaval de paixão

Jamais pensei em minha vida
Sentir tamanha emoção
Será que o amor por ironia
Deu-me esta fantasia
Vestida de obsessão?

A ti confesso que me apaixonei
Será uma maldição?
Não sei.

Silenciar a Mangueira
Compositor: Cartola
Intérprete: Monarco e Velha Guarda da Portela
Data: 1980


Monarco e Alvarenga (se não me engano) cantam um samba de Cartola e prestam uma homenagem à Mangueira em seus versos de improviso.



Silenciar a Mangueira não
Disse alguém:
Uma andorinha só não faz verão também

Devemos ter adversários como Oswaldo Cruz
Diz o provérbio:
Da discussão é que nasce a luz

Uma escola que não devia acabar
Era o velho Estácio de Sá
Era o velho Estácio de Sá

Em Mangueira a poesia
Fala em nosso coração
O peta assim dizia
Que Mangueira é tradição

A Mangueira tem Cartola
O Estácio, Ismael
A Portela tinha o Paulo
Que é nosso deus no céu

Se tu fores à Mangueira
Onde a beleza seduz
Leve um abraço apertado
Lembrança de Oswaldo Cruz

Não desanime pastora
Ouça o que meu samba diz
Se lutares pela Mangueira
Um dia serás feliz



Ingrata Solidão

Compositor: Geraldo Babão
Intérprete: Velha Guarda do Salgueiro
Data: 1974




Solidão
Por que tanto me persegue
E não me deixa de mão

Solidão
Te considero em minha em vida
A pior tentação

Solidão
Eu ainda espero um dia
A felicidade invadir meu coração

Eu vou lhe mandar embora
Ô ingrata solidão

Depois que conseguir tudo o que quero
Quem há muito eu espero
Não sentirei mais paixão

Vou sufocá-la num beijo
Que é todo o meu desejo
Te esquecerei solidão



Perdi a minha alegria

Compositores: Vadinho e Murilo
Intérprete: Xangô da Mangueira



Perdi a minha alegria e depois,
Eu fiquei sem meu amor
Eu vivo a cantar, é para aliviar essa minha dor
Eu vivo a cantar, é para aliviar essa minha dor

Eu não quero seus carinhos
Não quero mais seu amor
Pra viver contrariado
Prefiro viver como estou
Por conta de você
Minha vida transformou
Eu deixei de ser malandro
Para ser trabalhador

Quando eu era pequenino
Minha mãe sempre dizia
Meu filho não vá atrás
Das mulheres de hoje em dia
Da fruteira nasce o pinho,
Do pinho nasce o pinhão
Do homem nasce a firmeza,
Da mulher ingratidão