sábado, 18 de dezembro de 2010

Santo e Orixá

Glória Bonfim
O grande poeta, compositor e sambista Paulo César Pinheiro escreveu uma série de canções, seguindo a temática dos afro sambas... As musicas seguiam a linha de cantos de candomblé, compostas sem parceria e ele pretendia gravar em um disco interpretando ele próprio as canções. Mas acontece que os santos e orixás homenageados tinham um presente para retribuir o compositor as belas canções...

Certo dia chegou ao Rio de Janeiro, vinda da pequena cidade de Areal, na Bahia, uma cozinheira de mão cheia, dona também de uma voz única... Em sua infância no interior da Bahia não havia rádios, muito menos a oportunidade de se ouvir discos. Nessa época em que os festejos eram comandados por musicos locais, uma menina de apenas oito anos impressionava a todos com um canto poderoso, daqueles que quando se ouve todos param para apreciar. Entre as canções preferidas da menina, uma valsa, que ela sequer sabia de onde vinha, mas cantava a plenos pulmões pelas ruas e festas de Areal:

Oh, tristeza me desculpe 
Tô de malas prontas 
Hoje, a poesia, veio ao meu encontro 
Já raiou o dia, vamos viajar 
Vamos indo de carona 
Na garupa leve do tempo macio 
Que vem caminhando desde muito longe 
Lá do fim do mar...

A musica era "Viagem", de Paulo Césa Pinheiro, e a menina baiana mal sabia o que o destino preparava para ela. Só pra constar, Paulo César Pinhiero compôs essa musica quando tinha apenas 14 anos, a mesma idade com que a menina Glória deixou a Bahia e de "mala e cuia" embarcou para o Rio de Janeiro. Trabalhou como doméstica em diversas casas durante dez anos até que foi contratada como cozinheira por uma família... E é aí que o destino começa a aprontar das suas:

A "patroa" um dia, ao passar pela cozinha, ouviu a cozinheira cantarolando os versos da musica "Viagem", que ainda era a que Glória mais gostava de cantar. Brincou então com a cozinheira: "Tá puxando o saco do patrão hein...". A moça sem entender nada, ficou preocupada e se pôs a explicar para a patroa que não era nada disso, que aquela era apenas uma bela musica que ela gostava de cantar desde pequena. 

A "patroa" era Luciana Rabello e a casa em que a baiana trabalhava era a casa de Paulo César Pinheiro. Luciana então explicou à cozinheira que aquela musica que ela tanto gostava havia sido composta pelo mesmo homem que a contratou para trabalhar em sua casa. A reação de Glória foi tão inesperada que a patroa mal acreditava no que ouvia: Glória, com os olhos rasos d'água disse não acreditar que as musicas eram "inventadas" por pessoas e, menos ainda, que trabalhava na casa do criador daquela que a acompanhava desde criança. Vejam vocês, Glória achava que músicas não eram feitas, mas que simplesmente existiam como as cantigas de santo do candomblé. E não imaginava, absolutamente, que estava há quatro anos convivendo com o autor da sua maior lembrança!

E foi aí que Paulo César Pinheiro descobriu que aquela baiana, simples e de voz encantadora, seria a pessoa ideal para gravar seu disco com homenagens aos santos. Alé de todas essas coincidências, Glória era descendente de sacerdotes de umbanda e candomblé, tornou-se Yalorixá e tem seu próprio terreiro. Não tinha com ser diferente. Em 2007 foi lançado o disco "Glória Bonfim - Santos e Orixás" com 14 musicas de Paulo César Pinheiro interpretadas de forma impressionante pela cozinheira baiana. Um lindo trabalho, pra se ouvir com muita atenção.

Ouçam a primeira faixa do disco e vejam se não é uma obra prima:

Santo e Orixá (Paulo César Pinheiro)
Intérprete: Glória Bonfim


Santa Rita,
Foi chamar Santa Teresa
Pra por um fim nessa tristeza
Que tomou conta desse mundo de ilusão
Santa Clara,
Já falou com Santa Helena
Que pela dor que a gente pena
Ela tem pena desse nosso coração
São Vicente
Foi buscar São Cipriano
Que ele desmancha desengano
Desesperança, desamor, desilusão
São Gonçalo
Convocou São Malaquias
Pra resgatar nossa alegria
Senão pra gente a vida não vai ter razão
É muita mágoa
Nem mesmo o mar tem tanta água
Pouco prazer pra muita lágrima
Haja milagre pra tristeza se acabar
É muito pranto,
Tem povo triste em todo canto
É muita dor pra pouco santo
E o santo vira dois
É santo, é orixá

Janaina
Já botou Iansã de frente
Pra arrebentar essa corrente
Com o raio ardente e o vendaval da sua mão
Xangô velho
Viu Obá no seu terreiro
Mandou chamar ogum guerreiro
Que tem a lança pra matar esse dragão
Foi Ossanha
Que chamou Nanã senhora
Que é pra mandar o mal embora
Que o mundo já virou o inferno do cristão
Foi Oxóssi
Que falou pra Oxum do Rio
Que pra vencer o desafio
Tem que lutar senão não tem mais jeito não
É muito peso,
Muito desdém muito desprezo
Precisa ter pavio aceso
Pro lampião do coração não se apagar
É muito espanto,
É muito ebó, muito quebranto
Precisa muito pai-de-santo
Fazendo muito encanto pra ninguém chorar

Uma outra história interessante que acompanha uma das canções desse disco e a da musica "Sultão do Mato", contada pelo próprio Paulo César Pinheiro em seu livro chamado "Historias das minhas canções":

Paulo conta que desde pequeno desenvolveu uma certa mediunidade. Vê vultos, pessoas, sombras...Ouve palavras, cantos e passos, sonha com coisas que muitas vezes acabam acontecendo... Conta ainda que em uma longa noite de insônia, sem vontade alguma de ler, compor ou mesmo pensar, deitou-se em um quarto isolado em um canto de sua casa, para não acordar a família. Apagou as luzes, deito-se na esperança do sono chegar de leve, mas nada... Aos poucos aquilo foi crescendo e virou, em suas palavras, um grande círculo faiscante de azul intenso. Imóvel, um tanto assustado, pregado no colchão, viu surgir na luz azul um rosto, de feições árabes, barba bem recortada no rosto, um olhar negro penetrante, na cabeça um grande turbante e uma pedra roxa no centro da testa. Quase em pânico, ouviu a imagem começar a cantar... um canto bonito, mas diferente. Segundo o poeta, parecia um ponto, um mantra. A musica levou o medo embora e após aquela voz grave que vinha sabe-se lá de onde repetir o refrão por umas dez vezes, Paulo César o decorou e a imagem foi se desfazendo até sumir completamente.

Paulo César Pinheiro
Paulo César, ainda sob o choque de tal experiência, foi para seu escritório e registrou o canto em seu gravador... Aos poucos foram surgindo versos, formando-se estrofes e ao amanhecer uma nova musica estava pronta. Paulo descreveu a figura que lhe aparecera para sua empregada, a Glória Bonfim, que como foi dito era uma autoridade no campo da umbanda e candomblé. Glória lhe contou que havia um "Sultão das Matas" na linha de Xangô que lhe parecia ser a figura descrita pelo patrão, mas não tinha certeza. Paulo César Pinheiro conta que essa imagem o acompanhou durante muito tempo em pensamento.

Até que um dia, procurando algo entre seus livros na biblioteca, puxou um livro que não era dele, que ele nem conhecia muito menos sabia de onde viera. Era um livro sobre o Conde Saint German, criador da doutrina do Sétimo Raio, cujo objetivo era instruir a humanidade a transmutar seus erros e ingressar num viver regenerado, puro e cheio de felicidade. Ao folhear o livro, tomou um susto... viu em uma das páginas a imagem de um homem, exatamente igual ao que lhe aparecera naquela visão... Era o Sultão do Mato.

Nas palavras do próprio Paulo: "Não acreditam? Pois é... É assim que eu vivo. Entre a matéria e o etéreo. Entre o papel e o ar. Entre a massa e a energia. Entre Arigó e Einstein...

Sultão do Mato (Paulo César Pinheiro)
Intérprete: Glória Bonfim


Minha guia é de conta encarnada,
De búzio da costa, de conchinha azul
No pescoço ela dá sete voltas
E traz pendurado o Cruzeiro do Sul

Eu não sei que santo é esse meu mano
Mas o dia que eu souber eu não conto
Ele tem na mão direita um abano
E na esquerda o seu bastão de confronto
Quando desce é pra açoitar desengano
Na batida do adjá chega pronto
Ele é meio índio, meio africano
Mano vem que vou puxar o seu ponto

Minha guia é de conta encarnada,
De búzio da costa, de conchinha azul
No pescoço ela dá sete voltas
E traz pendurado o Cruzeiro do Sul

É de palha, é de pena, é de pano
O seu traje de sultão com Xavante
No turbante, no cocar soberano
Brilha a estrela de um metal flamejante
Veste com força de terra e oceano
Esse santo, mano, é que me garante
Bate logo o toque dele meu mano
Anda que ele está querendo que eu cante

 

Clique abaixo para baixar o disco completo


01 - Santo e Orixá
02 - Ogum-Menino
03 - Bambueiro
04 - Encanteria
05 - Anel de Aço
06 - Cavalo de SantO
07 - Gameleira Branca
08 - O Mais Velho
09 - Casa-De-Coco
10 - A Palma da Palmeira
11 - Senhor da Justiça
12 - Sultão do Mato
13 - Caboclo Guaracy
14 - A Revolta dos Malês

* Todas as canções são de autoria de Paulo César Pinheiro


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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Alcides Malandro Histórico

Uma pequena homenagem ao grande Alcides Lopes, o "Malandro Histórico" da Portela, que se estivesse vivo completaria hoje 101 anos. Desde os primórdios do samba, Alcides foi um dos maiores cantores de Oswaldo Cruz, mestre do improviso, era um dos principais improvisadores da escola nos desfiles daquele tempo em que não havia o samba enredo. Desfilava-se apenas com a primeira parte de um samba e os versos eram intercalados de improviso.

Companheiro de Paulo da Portela, foi um dos grandes responsáveis pelo registro oral de sua obra. Também era um ótimo compositor, dono de obras como Isolado do Mundo, Ando Penando, Se Eu soubesse Vem Depois, entre outros clássicos eternizados nas vozes de grandes sambistas, de Candeia a Roberto Ribeiro.

A faixa abaixo, retirada do disco "Portela Passado de Glória", registra o próprio Alcides interpretando uma de suas canções:

Ando Penando (Alcides Lopes)
Intérprete: Alcides e Velha Guarda da Portela



Ando penando
A razão ainda não sei
Eu desejava saber
Por que tanto assim sofrer
Para mim ficar ciente
Muito embora assim tristonho
Até morrer

Para mim viver mais sossegado
Eu queria saber a razão
Para não viver enganado
Nem reclamar em vão



Ouça também "você não é a tal mulher", interpretada por Monarco e a Velha Guarda da Portela no disco "Doce Recordação":

Você não é a tal mulher (Alcides Lopes)
Intérprete: Monarco e Velha Guarda da Portela


Você não é a tal mulher
Você não é não
A dona do meu coração
Vou vivendo com você por viver
E assim eu vou andando até ver

Para o bem do nosso bem (Alvaiade)

Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém

Vou-me embora em silêncio,
chega de me aborrece
Quando o gênio não combina, na vida não há prazer
Mas teu segredo não vou contar a ninguém
Teu amor me meteu medo e quis arranjar outro alguém

Não fique triste, isso é normal
Quantos casais separados, isso é muito natural
Vou-me embora vou-me embora, por este mundo sem fim
Nosso gênio não combina, não posso viver assim


domingo, 12 de dezembro de 2010

Quem pensa no tempo também perde tempo...


Para aqueles que vivem contando o cronômetro, pensando que a vida é muito curta...

Partido do Tempo
Compositor: Wilsondas Neves
Intérprete: Wilsondas Neves



Eu perguntei ao tempo
Quanto tempo eu tenho
Pra passar o tempo
O tempo me respondeu
Deixo o tempo passar
Você tem muito tempo

Das Neves, você tem muito tempo
Quem pensa no tempo também perde tempo,
Das Neves, você tem muito tempo,
Pois é dá um tempo,
Que o tempo é pra já.

Quem diz todo o tempo  que o tempo é dinheiro
Não tem passa-tempo
Nenhum tempo afora pra se ter bom tempo
Tem que ter tempero
Não põe contra-tempo que o tempo piora
O tempo procura  não ter tempo quente
Pra fechar o tempo
Hoje o tempo demora, os tempos mudaram,
Pois já foi-se o tempo da temperatura dos tempos de outrora
Ninguém ganha tempo que o tempo é momento
Do temperamento do tempo de agora
O tempo só quer que se dê tempo ao tempo
Que tudo do tempo chega a tempo e hora

Das Neves, você tem muito tempo
Quem pensa no tempo também perde tempo,
Das Neves, você tem muito tempo
Pois é dá um tempo,
Que o tempo é pra já.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Noel 100 anos

Hoje o grande poeta da vila, um dos maiores compositores populares já nascidos nesse país completaria 100 anos. Noel nos deixou cedo... Com apenas 27 anos foi se juntar aos bambas lá de cima, mas não sem antes deixar uma infinidade de canções que viriam a influenciar qualquer pessoa que se propunha a fazer musica popular a partir de então...

Hoje o dia foi corrido, ressaca corroendo a cabeça em razão de uma farra musical e etilica que varou a madrugada... Portanto não pude preparar uma homenagem à altura para esse grande mestre. Fica então essa singela homenagem, um pequeno video com cenas raríssimas do poeta se apresentando ao lado do Bando de Tangarás, na década de 30.


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* O centenário de Noel já rendeu bons papos aqui no blog. Quem quiser conferir é só clicar aqui!



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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tudo por causa de uma cinza de cigarro...

João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Paulo César Pinheiro é de fato um gênio. Já havia chegado a essa conclusão há tempos, mas a cada dia me surpreendo com este que é um dos maiores compositores que já ouví, talvez o maior deles ainda vivo.

Muitos já ouviram falar da "Trilogia do Alumbramento", uma série de canções de Paulo César Pinheiro em parceria com João Nogueira. Poucos sabem, porém, é que essa obra de mestres surgiu por causa de uma discussão durante uma gravação dentro de um estudio da Odeon. Na época a gravadora possuia uma infraestrutura invejável, coisa de primeiro mundo e que foi inaugurada com pompas e circusntâncias pelo príncipe Charles, que veio da Inglaterra especialmente para a ocasião. Um dos diretores, um polonês bastante antipático implicou com um maestro que deixou cair no chão a cinza do cigarro. Quando o diretor já ia ensaiando um sermão - "você faz isso na sua casa? " - o maestro, já sem paciência, respondeu prontamente: "Claro que não... Lá em casa tem um monte de cinzeiros espalhados por todo o canto. Isso aquí não é o palácio da rainha. A gente tá no Brasil e eu estou trabalhando, me dá licença".

E enquanto o diretor se desconcertava, Paulo César Pinheiro assistia a tudo e começou a pensar que todo aquele luxo com que o diretor se preocupava iria acabar um dia, os nomes dos figurões e do principe inglês na placa pendurada na parede um dia se apagariam... o que restaria mesmo, para sempre, eram as musicas que alí estavam sendo gravadas, que aquela discussão era uma bobagem...

E com essa idéia na cabeça, Paulo César Pinheiro começou a esboçar um de seus mais belos sambas, que recebeu o nome de Súplica:



O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome a obra imortaliza


A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
Ilumina a gente além da morte

Mostrou essa primeira parte ao amigo e parceiro João Nogueira  que emendou sem pestanejar a melodia da segunda parte, em seguida letrada por Paulo:

Venha a mim, ó música
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única


Venha a mim, ó música
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz


Era um pedido, uma prece aos deuses da música para que jamais lhe faltasse inspiração. E os deuses o atenderam! Não satisfeito, começou a rabiscar uma letra em cima de uma nova melodia que lhe veio à cabeça, pensando exatamente em uma seqüência para sua Súplica:


Não, ninguem faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação

Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração

Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
Que acende a mente e o coração


Novamente mostrou a musica ao parceiro que emendou uma melodia para que Paulo continuasse a letra:

É faz pensar 
Que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Bem no meio da noite ou no claro do dia
Chega a nos angustiar

E o poeta se deixa levar por essa magia
E o verso vem vindo e vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar

Nascia "O Poder da Criação" um dos sambas mais bem sucedidos da dupla. 

Mas ainda faltava algo. A primeira canção era uma prece para que o dom de compor nunca lhe faltasse. A segunda uma tentativa de explicar como a musica, seus versos e melodias surgem, de repente, na alma do compositor. Faltava falar dos porta vozes, os cantores, que levam ao povo a mensagem dos deuses da musica traduzidas pela sensibilidade do compositor. Os cantores, com suas vozes inesquecíveis tinham a divina missão de eternizar os versos dos poetas. Pensando neles, Paulo César tirou da gaveta os versos guardados há tempos.



Quando eu canto
É para aliviar meu pranto
E o pranto de quem já tanto sofreu
Quando eu canto
Estou sentindo a luz de um santo
Estou ajoelhando aos pés de Deus

Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite
Canto também contra a tirania
Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo
A esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz!

Do poder da criação
Sou continuação e quero agradecer
Foi ouvida minha súplica
Mensageiro sou da música

O meu canto é uma missão
Tem força de oração
E eu cumpro o meu dever
Aos que vivem a chorar
Eu vivo pra cantar e canto pra viver

Quando eu canto, a morte me percorre
E eu solto um canto da garganta
Que a cigarra quando canta morre
E a madeira quando morre, canta!

Estava pronto o arremate da obra. "Minha Missão", a canção que exaltava a importancia dos cantores foi gravada por Clara Nunes, uma das mais competentes encarregadas da missão divina de levar a musica e sua poesia aos ouvidos do povo. As versões acima são do disco Parceria, gravado ao vivo com João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Entretanto não podia deixar de postar a gravação da Clara para essa musica:



Fonte: Livro "História das Minhas Canções" - Paulo César Pinheiro
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

02 de Dezembro: Dia do Samba

Uma pequena homenagem do Receita, na voz do grande Jamelão:


Apoteose ao samba
(Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola)

Samba, quando vens aos meus ouvidos
Embriagas meus sentidos, trazes inspiração
A dolência que possuis na estrutura, é uma sedução
Vai alegrar o coração daquela criança,
Que com certeza está morrendo de paixão

Samba cantado por muitos ares
Atravessaste os sete mares, com evolução
O teu ritmo quente fica ainda mais ardente
Quando vem da alma de nossa gente

Eu quero que sejas sempre meu amigo leal
Não me abandones não
Vejo em ti o lenitivo ideal
Em todos os momentos de aflição

És meu companheiro inseparável de tradição
Devo-lhe toda gratidão
Samba eu confesso, és a minha alegria
Eu canto pra esquecer a nostalgia


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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cartola, no moinho do mundo


Há exatos 30 anos o mundo ficava mais triste... No dia 30 de novembro de 1980 o gênio Cartola levava sua poesia lá pro andar de cima! Fica aqui uma pequena homenagem do Receita ao grande poeta de Mangueira nas palavras de Drummond:

Cartola, no moinho do mundo

Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

Eu fiz o ninho
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio


Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de
Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o Divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor; reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes da nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *

Mas então fiquei parado, ouvindo aa filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Silvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha que cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer essas coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Dona Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. 

“O Mundo é um moinho…” 

O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. 

O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

Carlos Drummond de Andrade

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E o Rio de Janeiro... continua lindo?


Dois pontos de vista sobre um mesmo problema...

O dia em que o morro descer e não for carnaval 
Compositor: Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro
Intérprete: Wilson das Nevs


O dia em que o morro descer e não for carnaval
Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
Na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
É a guerra civil

No dia em que o morro descer e não for carnaval
Não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
E cada uma ala da escola será uma quadrilha
A evolução já vai ser de guerrilha
E a alegoria um tremendo arsenal
O tema do enredo vai ser a cidade partida
No dia em que o couro comer na avenida
Se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
Mostrando a miséria sobre a passarela
Sem a fantasia que sai no jornal
Vai ser uma única escola, uma só bateria
Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
Que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
Nem autoridade que compre essa briga
Ninguém sabe a força desse pessoal
Melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
Senão todo mundo vai sambar 

No dia em que o morro descer e não for carnaval.

Nomes de Favela 
Compositor: Paulo César Pinheiro
Intérprete: Paulo césar Pinheiro


O galo já não canta mais no Cantagalo
A água já não corre mais na Cachoeirinha
Menino não pega mais manga na Mangueira
E agora que cidade grande é a Rocinha!

Ninguém faz mais jura de amor no Juramento
Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus
Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres
E a vida é um inferno na Cidade de Deus

Não sou do tempo das armas
Por isso ainda prefiro
Ouvir um verso de samba
Do que escutar som de tiro

Pela poesia dos nomes de favela
A vida por lá já foi mais bela
Já foi bem melhor de se morar
Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda
Ou lá na favela a vida muda
Ou todos os nomes vão mudar





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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Vadico e Noel: Parceiros até no centenário!

Oswaldo Gogliano, o Vadico

O ano de 2010 foi um ano de comemorações, marcado pelos centenários de grandes sambistas. Não faltaram homenagens aos grandes Adoniran Barbosa e Noel Rosa. Poetas do samba que inovaram no modo de compor, mesclando crônicas cotidianas e belas poesias com melodias únicas, dignas de dois gênios da nossa musica.

Porém, outro grande mestre completaria seu centenário esse ano e, não fosse pela lembrança de alguns poucos, quase passou despercebido... Um sacrilégio, diga-se de passagem, pois este deixou composições maravilhosas, muitas das quais figuram em rodas de samba por todos os cantos desse país. Se Noel é considerado um dos maiores compositores brasileiros, é certo que esse título foi conquistado com uma pitada do tempero deste compositor paulistano...

Fica portanto essa pequena homenagem do receita, um tanto quanto atrasada mas ainda em tempo, ao grande compositor Osvaldo Gogliano, mais conhecido pela alcunha de Vadico.

Paulistano do Brás, filho de imigrantes italianos, Vadico nasceu em 24/06/1910. Cresceu em São Paulo, onde começou a exercitar o seu dom para a musica ao lado dos irmãos. Aos 18 anos ganhava um concurso de musica com uma marcha de sua autoria chamada "Isso mesmo é que eu quero". A partir daí, resolveu dedicar-se integralmente à musica, abandonando o emprego como datilógrafo e indo para o Rio de Janeiro em 1930. Logo na chegada, conseguiu emplacar duas canções na Odeon: "Arranjei Outra" foi gravada por Francisco Alves e "Silêncio" foi registrada nas vozes de Luiz Barbosa e Vitório Lattari. Ouças as duas gravações:

Arranjei Outra (Vadico e Dan Malio)
Intérprete: Francisco Alves
Data: 1930 Fonte: IMS

Silêncio (Vadico)
Intérprete: Luiz Barbosa e Vitório Lattari
Data: 1931 Fonte: IMS


Mas foi a partir de 1932 que Vadico entraria definitivamente para a história da musica brasileira. Ao andar pelos corredores da gravadora Odeon foi apresentado a Noel Rosa. Conversa vai, conversa vem... e Vadico cantarolou uma melodia em especial que agradou o já consagrado compositor e poeta de Vila Isabel. Noel, resolveu fazer alguns versos e logo nasceu "Feitio de Oração"... E com ela uma das mais bem sucedidas parcerias da musica brasileira. A poesia de Noel e as melodias de Vadico...

Feitio de Oração (Vadico e Noel Rosa)
Intérprete: Elizeth Cardoso e Jacob do Bandolim


O sucesso da primeira composição foi confirmado com "Feitiço da Vila". Em cima da melodia de Vadico, Noel fez essa letra alfinetando Wilson Batista em uma briga de versos histórica... Acabou virando um dos maiores clássicos do samba daquela época... Ouça abaixo a interpretação de Orlando Silva:


E seguiram-se pérolas como "conversa de botequim", "provei", "cem mil réis" e muitas outras, dentre as quais destaco "mais um samba popular", que você ouve na interpretação da cantora Ana Cristina em gravação de 1954:


Preparei uma pequena coletânea com gravações originais das parcerias de Noel e Vadico, todas disponibilizadas no acervo do IMS. Pra quem gosta de raridades vai ser um prato cheio ouvir clássicos do samba em suas primeiras gravações, algumas vezes na voz do próprio Noel Rosa, como é o caso da gravação de "Conversa de Botequim"... Bom apetite!


O 4 shared está pedindo para fazer login antes de baixar os arquivos:
Login: blogreceitadesamba@yahoo.com.br
Senha: samba2012


01 - Provei (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Noel Rosa e Marília Batista
Data: 1933

02 - Feitio de Oração (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Francisco Alves e Castro Barbosa
Data: 1933

03 - Cem Mil Réis (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Noel Rosa e Marilia Batista
Data: 1936

04 - Mais um Samba Popular (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Ana Cristina
Data: 1954

05 - Feitiço da Vila (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Severino Araújo e Orquestra Tabajara
Data: 1949

06 - Tarzan, o Filho do Alfaiate (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Almirante
Data: 1936

07 - Só Pode ser Você (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Araci de Almeida
Data: 1936

08 - Pra que Mentir? (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Silvio Caldas
Data: 1938

09 - Conversa de Botequim (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Noel Rosa
Data: 1935

10 - Quantos Beijos (Noel Rosa e Vadico)
Intérprete: Noel Rosa e Marilia Batista
Data: 1936


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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Eu agora sou feliz

Samba de Mestre Gato e Jamelão:
Eu agora sou feliz
Eu agora vivo em paz
Me abandona por favor
Porque eu tenho um novo amor
E eu não lhe quero mais
Esquece que você já me pertenceu
Que já foi você meu querido amor
Aquela velha amizade nossa já morreu
E agora quem não quer você sou eu
Eu agora sou feliz

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A majestade do samba chegou, chegou...


Belo samba de Chico Santana, Casquinha e Monarco, interpretado pela Velha Guarda da Portela:

Corri Pra Ver


Ouvi cantando assim 
A majestade do samba
Chegou chegou
Corri pra ver
Pra ver quem era
Chegando lá
Era a Portela
Era a Portela do seu natal
Ganhando mais um carnaval
Era a Portela do Claudionor
Portela é meu grande amor
Era rainha de Oswaldo Cruz
Portela muito nos seduz
Foi mestre Paulo seu fundador
Nosso poeta e professor

domingo, 14 de novembro de 2010

Cachaça com Arnica no concurso de bandas "Vem pro Novo"


O pessoal do grupo "Cachaça com Arnica", de Itabirito, MG (veja a postagem abaixo), está participando do concurso de bandas "Vem pro Novo", promovido pela Caixa e foram um dos 25 selecionados entre as 850 bandas inscritas para participarem da votação final!

Para participar da nova etapa, o grupo itabiritense gravou um vídeo executando a música “Joga a chave”, de Adoniran Barbosa. Os vídeos com os covers foram disponibilizados hoje (13/11) no site do concurso para que o público vote nos melhores. O período para votação se encerra no dia 19 de novembro e acontece pela internet. Apenas cinco bandas passam para a quarta e última fase.

Acesse o site do concurso e votem! Afinal, essa turma é a única representante do bom e velho samba na final e ainda leva o nome do mestre Adoniran Barbosa no ano de seu centenário!

Vote aquí

Ah, você pode votar várias vezes, basta atualizar a página (apertando F5)

O vídeo é esse:

sábado, 13 de novembro de 2010

Dos tempos da tendinha / Cachaça com Arnica

Assistam a esse vídeo sobre a "Mercearia Paraopeba", na cidade Itabirito, MG. O lugar é fantástico... Daqueles em que você entra pra tomar uma cachacinha e acaba ficando o dia todo, batendo papo e bebericando no meio daquela mistureba... Qualquer dia apareço por lá pra conhecer, afinal, fica aquí pertinho de Ouro Preto:



E o melhor é que toda essa história deu samba:


Mercearia Paraopeba
Compositor: Pirulito da Vila
Intérprete: Grupo Cachaça com Arnica 



Esse pessoal que tá tocando é o grupo Cachaça com Arnica, de Itabirito, MG. O grupo toca junto desde 1998, mais de dez anos de estrada, o que explica tanto entrosamento. O grupo faz um samba de primeiríssima qualidade, autêntico, com muito respeito às raízes. Coisa rara de se ver pra esses lados...

Além de interpretações de grandes clássicos do samba o grupo se destaca pelas composições próprias que retratam acontecimentos bem humorados vividos pelos compositores, envolvendo personagens reais que integram o universo dos artistas, como histórias e casos de moradores da cidade, com seus apelidos e situações do cotidiano, por exemplo, os personagens Tia Lilia, Péia, Ronaldo Capa Égua, Lulu de Mariinha, as meninas de Neusa, entre outros.

Confira algumas gravações dessa turma:

O tombo de tia Lilia


Pensava que não ia mais sofrer


Pra machucar meu coração (Ary Barroso)


Mais informações no Myspace da Banda...
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O que vai ficar pelo salão - Gabriel Cavalcante


Ansioso pra ouvir, mas vindo de quem vem e pela prévia que eles disponibilizaram no Myspace, só pode ser coisa boa. Deixo meus parabéns ao Gabriel Cavalcante, Renato Martins e Cia, pela iniciativa e produção desse que parece ser um belo trabalho, feito com amor à musica e muita garra, afinal, não é tão fácil produzir um disco independente... Tem que ter talento pra coisa dar certo! Quando a gente pensa que a criatividade de nossos sambistas está em baixa, surge uma turma de bambas pra nos mostrar que nem tudo está perdido!

E já que o Gabriel disponibilizou alguns áudios no Myspace dele, tomei a liberdade de colocar um aqui pra vocês ouvirem um pouco do que essa turma tem a nos apresentar, enquanto vocês lêem a resenha:

Velho Batuqueiro (Renato Martins e Roberto Didio)

Como ainda não ouví o disco todo, peguei o texto de divulgação no blog do Samba da Ouvidor, escrito por Ricardo Brigante.:

"Chega o primeiro disco de Gabriel Cavalcante: O que vai ficar pelo salão(independente), trabalho coletivo, reunindo o violonista Patrick Ângelo e os compositores Roberto Didio e Renato Martins. São responsáveis pelo impecável acompanhamento e concepção: Marcus Thadeu, Magno Souza e Ana Rabello.

Cantor de voz potente e timbre grave, Gabriel é uma das vozes principais de dois populares movimentos musicais no Rio de Janeiro: Samba do Trabalhador e Samba da Ouvidor. Com apenas 24 anos de idade, já acompanhou e dividiu o palco com importantes nomes da música brasileira, atua como profissional desde os 15.

Para os que discutem com sincera preocupação sobre a ausência de novas gerações compondo, tocando e cantando com personalidade, O que vai ficar pelo salão surpreende do começo ao fim. Além das interpretações e duetos, Gabriel apresenta uma vertente ainda desconhecida por muitos, a de compositor. Como “Elmo de São Jorge”, melodia que surge fascinante no entoar maiúsculo e arrebatador de Gabriel, onde talento é lugar-comum.

O trabalho é coletivo de fato. E isso fica claro nos arranjos e batuques sacados em conjunto do baú de pautas preciosas. É possível ver o brilho individual de todos os envolvidos.

Afinal de contas, quem é capaz de desvendar os segredos melódicos de Renato Martins? Ao ouvir as entrelinhas dos acordes de “O Que é de Louça”, os mais desatentos não perceberão que se trata de uma linda homenagem a Paulinho da Viola. Ou então em “Mar Maior”, samba que aprisiona subitamente, interpretado por Cristina Buarque.

E as letras de Roberto Didio? Tão fortes e vivas, que são capazes de derrubar as lágrimas dos mais insensíveis dos homens. Como na delicada ”Choro de Mulher”, interpretada por Anabela ou ainda na visceral “Muralhas”, onde Áurea Martins empresta todo seu lamento à canção.

Patrick Angelo no violão e Ana Rabello no cavaquinho nos levam de volta a caminhos há muito não visitados. Com o fascínio inicial vem a comoção. As águas turvas do presente clareiam a cada nota. Ao fundo, Marcus Thadeu e Magno Souza dão o ritmo, formando uma ponte de esperança com o que ficou lá para trás. É quase real o som do sorriso dos tamborins e pandeiros. Felizes novamente.

Três declarações de amor ao samba figuram no repertório: “Quando o samba veio me buscar” (Moacyr Luz e Roberto Didio), “Na Cantoria” (Renato Martins e Roberto Didio) e “Seu Camafeu” (Gabriel Cavalcante e Roberto Didio) – que faz referência ao disco Berimbaus da Bahia (1968), do lendário Camafeu de Oxossi.

O “Velho Batuqueiro” é lembrado na faixa de mesmo nome, onde a linha de frente dos Arengueiros é honrada com a marcação no peso de Xangô. O velho cantava mesmo bonito.

Por fim, o trabalho de amigos é cantado na faixa que dá nome ao disco. Uma celebração à amizade, seja em guerras perdidas, seja na saudade do balcão".

Participações especiais: Moacyr Luz, Amelia Rabello, Cristina Buarque, Áurea Martins e Anabela.

Lançamento do CD: dia 09 de dezembro, no Teatro Rival.
Ricardo Brigante.

Pra quem não conhece, tá aí a fera comandando o Samba da Ouvidor:




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78 RPM - O samba do Estácio de Sá


Especial exibido pela Rádio Cultura Brasil em junho de 2010 contando a história da turma do Estácio, falando sobre seus compositores e da importância desse pessoal pro samba.

Parte 1

Parte 2

Download: Parte 1 / Parte 2



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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Bêbadosamba...



Um mestre do verso, de olhar destemido, disse uma vez, com certa ironia :
“Se lágrima fosse de pedra eu choraria”
Mas eu, como semrpe perdido, bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum, que todos choram
Embora não tenha nessas horas, saudade do passado, remorso uu mágoas menores...

Meu choro, dolente, por questão de estilo, é chula quase raiada
Solo espontâneo e rude de um samba nunca terminado
Um rio de murmúrios da memória de meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo, para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra

Boca negra e rosa, debochada e torta
Riso de cabrocha, generosaBeijo de paixão

Coração partido, verso de improviso
Beba do martírio desta vida
Pelo coraçãoBebadachama

Chama, que o samba semeia a luz de sua chama
A paixão vertendo ondas, velhos mantras de aruanda

Chama por Cartola, chama por Candeia
Chama Paulo da Portela, chama...
Ventura, João da Gente e Claudionor
Chama por mano Heitor, chama...Ismael, Noel e Sinhô

Chama Pixinguinha, chama...
Donga e João da Baiana
Chama por Nonô, chama Cyro Monteiro
Wilson e Geraldo Pereira
Monsueto, Zé com fome e Padeirinho
Chama Nelson Cavaquinho, chama Ataulfo
Chama por Bide e Marçal

Chama, chama, chama...Buci, Raul e Arnô Cabegal
Chama por mestre MarçalSilas, Osório e Aniceto
Chama Mano Décio...Chama meu compadre Mauro Duarte,
Jorge Mexeu e Geraldo Babão

Chama Alvaiade, Manacéa e Chico Santana
E outros irmãos de samba
Chama, chama, chama...



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Alberto Lonato

Hoje, se estivesse vivo, o grande compositor portelense faria 101 anos. Praticamente nascido no samba, aos oito anos de idade já frequentava a casa de Madalena Xangô de Ouro, onde veio a conhecer, entre outros bambas, Pixinguinha, Brancura e Marcelino, com quem aprendeu a batucar o samba...

Lonato, depois de passagens rápidas pela Mangueira e Unidos de Rocha Miranda, acabou fincando suas raízes na Portela, onde chegou no início dos anos 30. Sempre elegante, com seu chapéu, calça vincada e paletó engomado, Alberto Lonato foi um grande pandeirista, formando com Argemiro uma dupla que ainda mantinha aquela levada tradicional da Portela.

Participou da gravação do antológico "Portela Passado de Glória", produzido pelo Paulinho da Viola em 1970, um dos mais representativos discos de samba já lançados até hoje.

Seguem algumas gravações de belos sambas de Alberto Lonato:



Sofrimento de quem ama (Alberto Lonato)
Intérprete: Alberto Lonato e Velha Guarda da Portela

Peixe com côco (Alberto Lonato, Maceió e Josias)
Intérprete: Monarco e Velha Guarda da Portela

Adeus (Alberto Lonato e Mano Décio da Viola)
Intérprete: Mano Décio da Viola

Não pode ser verdade (Alberto Lonato)
Intérprete: Alberto Lonato e Escola de Samba Portela

Você me abandonou (Alberto Lonato)
Intérprete: Cristina Buarque e Terreiro Grande

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Bolinha de Papel - De Julieta a José Serra

Fizeram até samba pro Serra! Meio atrasado por causa do feriado, mas não podia deixar de postar!

sábado, 30 de outubro de 2010

Osvaldinho da Cuíca e sua frigideira




Postagem nova só depois do feriado, beleza?
Bom descanso a todos!

domingo, 24 de outubro de 2010

Baú do Receita: Grandes Sambas Enredo

Desfile do Salgueiro 1963 - Chica da Silva
Carnaval chegando, é hora de relembrar os tempos em que essa era a festa do samba e do povo. Quando havia Escolas de Samba e não apenas fábricas de alegorias e estas desfilavam para o povo. Tempos onde o samba enredo era composto por verdadeiros sambistas que dedicavam-se integralmente e tinham amor a suas escolas... Quando os sambas enredo realmente falavam sobre alguma coisa, tinham belas melodias, eram cadenciados... Não soavam em nossos ouvidos como bombas e metralhadoras frenéticas disparando na avenida...


É bom lembrar que isso não é uma lista dos melhores sambas da história ou algo do tipo... São apenas alguns sambas enredo que gosto muito e que julgo um tanto quanto esquecidos... Sambas dos tempos áureos das escolas em interpretações marcantes de Jamelão, Roberto Ribeiro, Geraldo Babão e outros bambas... Um tira gosto pra vocês:



(Acompanha encarte com as letras)

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Senha: samba2012


01 – AO POVO EM FORMA DE ARTE
G.R.A.N.E.S. Quilombo 1978
Compositor: Nei Lopes e Wilson Moreira
Intérprete: Roberto Ribeiro

02 – QUILOMBO DOS PALMARES 
Salgueiro 1960
Compositor: Noel Rosa de Oliveira e Anescar Rodrigues
Inérprete: Dinalva

03 - RECORDAÇÕES DO RIO ANTIGO
Mangueira 1961
Compositor: Hélio turco, Pelado e Cícero
Intérprete: Jurandir da Mangueira

04 - BRASIL GLORIOSO
Portela 1945
Compositor: Ventura
Intérprete: Escola de Samba Portela

05 - CHICO REI
Salgueiro 1964
Compositor: Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Binha
Intérprete: Geraldo Babão

06 - BRASIL PANTHEON DE GLÓRIAS
Portela 1959
Compositor: Candeia e Waldir 59
Intérprete: Terreiro Grande

RIQUEZAS DO BRASIL
Portela 1956
Compositor: Candeia e Waldir 59
Intérprete: Terreiro Grande

07 - GANGA ZUMBA 
Canário das Laranjeiras 1970
Compositor: Carlinhos Sideral e Colid Filho
Intérprete: Bloco Canários de Laranjeiras

08 - QUATRO ESTAÇÕES DO ANO (CÂNTICO À NATUREZA)
Mangueira 1955
Compositor: Nélson Sargento, Alfredo Português e Jamelão
Intérprete: Jamelão

09 - MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS
Portela 1966
Compositor: Paulinho da Viola
Intérprete: Martinho da Vila

10 - HERÓIS DA LIBERDADE
Império Serrano 1969
Compositor: Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira
Intérprete: Roberto Ribeiro

11 – SAMBA FESTA DE UM POVO
Mangueira 1968
Compositor:
Intérprete: Carlos Cachaça

12 - RIO CAPITAL ETERNA DO SAMBA
Portela 1960
Compositor: Walter Rosa
Intérprete: Monarco e Velha Guarda da Portela

13 - BRASIL DE ONTEM
Portela 1952
Compositor: Manacéa
Intérprete: Velha Guarda da Portela e Cristina Buarque

14 - O SABER POÉTICO DA LITERATURA DE CORDEL 
Em Cima da Hora 1973
Compositor: Baianinho
Intérprete:

15 - ILU AYÊ
Portela 1972
Compositor: Norival Reis e Cabana
Intérprete: Silvinho do Pandeiro

16 - EXALTAÇÃO A CÂNDIDO PORTINARI
Império da Tijuca 1968
Compositor: Aílton Furtado e Mário Pereira
Intérprete: Marinho da Muda

17 - GLÓRIA E GRAÇAS DA BAHIA
Império Serrano 1967
Compositor: Silas de Oliveira, Mano Décio e Manuel Ferreira
Intérprete: Roberto Ribeiro

18 - CIÊNCIA E ARTE
Mangueira 1947
Compositor: Cartola e Carlos Cachaça
Intérprete: Carlos Cachaça

19 - SEIS DATAS MAGNAS
Portela 1953
Compositor: Candeia e Altair Prego
Intérprete: Velha Guarda da Portela

20 - ROMARIA À BAHIA
Salgueiro 1954
Compositor: Abelardo Silva, Duduca e Ernesto José Aguiar
Intérprete: Romário do Salgueiro

21 - LEGADOS DE D. JOÃO VI
Portela 1957
Compositor: Candeia, Waldir 59 e Picolino
Intérprete: Escola de Samba Portela

22 - TRADIÇÕES E FESTAS DE PIRAPORA
Unidos do Peruche (SP) 1971
Compositor: Geraldo Filme
Intérprete: Geraldo Filme


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O samba de Bide e Marçal

Mestre Marçal canta algumas parcerias de seu pai, o grande percussionista Armando Marçal e Alcebiades Barcelos, o Bide. Essa é uma das parcerias mais bem sucedidas da história do samba! E ainda rola um papo com Marçal sobre os antigos tempos do Rio, do Velho Estácio e do samba!

Ando Sofrendo / Marçal fala sobre o samba e os sambistas do Estácio



Que bate fundo é esse / Marçal cita alguns parceiros de Bide



Madalena / Marçal fala de seu pai, Armando Marçal


Louca pela Boemia / Marçal fala sobre seu pai


Meu Primeiro Amor / Marçal fala sobre seu pai

Velho Estácio / Marçal fala sobre os sambistas do Estácio


Assista a mais alguns videos deste programa:



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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Brancura em 78 rpm

Silvio Fernandes, o Brancura
O sambista Silvio Fernandes, um negro forte, conhecido como Brancura pelos malandros do Estácio era famoso por sua valentia, andando sempre com uma navalha no melhor estilo malandro dos anos 20...

Brancura era compositor e flautista e foi um dos fundadores da Escola de Samba Deixa Falar. Era freqüentador assíduo do Café Apolo, onde conheceu Francisco Alves e Mário Reis, que acabaram gravando alguns de seus sambas.

São gravações em 78 rpm, disponibilizadas pelo acervo do Instituto Moreira Salles e que você pode baixar clicando no link abaixo.

Baixe aqui / Download

Baixar PDF com as Letras

As gravações da coletânea são as seguintes:

01 - Você Chorou
Compositor: Brancura
Intérprete: Francisco Alves
Data: 1935

02 - Coração Voluvel
Compositor: Brancura
Intérprete: Francisco Alves
Data:1929

03 - Mulher Venenosa
Compositor: Brancura
Intérprete: Francisco Alves
Data: 1929

04 - Deixa Essa Mulher Chorar
Compositor: Brancura
Intérprete: Francisco Alves e Mário Reis
Data: 1930

05 - Carinho Eu Tenho
Compositor: Brancura
Intérprete: Ismael Silva
Data: 1931

06 - Sinto Muito
Compositor: Brancura
Intérprete: Mário Reis
Data: 1927-1928

07 - Sinto Muito (versão 2)
Compositor: Brancura
Intérprete: Mário reis
Data: 1932



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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Escola do Samba

Desfile do Clube dos Fenianos, 1913
O carnaval é hoje uma das festividades mais famosas do mundo, símbolo da cultura brasileira e que há muitos anos adotou o samba como sua trilha sonora fundamental e inseparável. Se por um lado, ao final do século 19 o carnaval era brincado ao som de chulas de palhaço, polcas, valsas, marchas e até óperas – a primeira música composta exclusivamente para o carnaval foi “Flor do Sereno” em 1885, muito tempo antes do surgimento das escolas de samba, ou mesmo do próprio samba – hoje carnaval e samba soam quase que como uma palavra única, ou um pleonasmo…


As escolas movimentam cifras exorbitantes, nunca se viu tanto dinheiro envolvido em uma Escola de Samba. Os desfiles são luxuosos, com alegorias faraônicas idealizadas pelos carnavalescos mais conceituados…  Parece que as Escolas estão com força total!

Desfile Império Serrano 1969
Mas e o samba? O samba meu caro amigo, ficou esquecido no meio de tanto dinheiro. O Sambista então, nem se fala. O carnaval, infelizmente não tem mais ligação alguma com o samba. Antigamente o sambista tinha um compromisso com a escola, tinha que compor samba o ano inteiro, tinha até avaliação criteriosa pra entrar na ala de compositores… Tinha que saber fazer samba. Hoje dizem que você vai nas quadras fora do carnaval e o funk come solto, uma pena.

Quem são hoje os grandes compositores da Portela, Império, Salgueiro, Mangueira? Quais os grandes sambas de enredo marcaram nossa memória nos últimos 20 anos? Tem vez que junta quase dez cabeças pra compor um único samba… Parece até bolão da Mega Sena! E quando sai uma letra aceitável não adianta nada… é uma correria danada que nem dá pra entender.

Desfile Atual
Mas a história do samba está intimamente ligada à das Escolas. Foi nas Escolas que o samba tomou forma, ganhou suas particularidades, onde se cantava samba de partido alto, samba de terreiro e mais tarde o samba enredo no carnaval… E é pra contar essa história que inauguro a sessão “A Escola do Samba”. A partir do mês de outubro,  uma escola será homenageada aquí no blog, apresentando seus compositores, grandes sambas de terreiro e de enredo, videos e o que mais der na telha…



Portanto, dêem sempre uma conferida na aba "Escola do Samba" logo abaixo do título do blog!

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