quarta-feira, 29 de julho de 2009

Cacilds...

Hoje faz 15 anos que o grande Mussum nos deixou... Um simbolo da minha infância... Adorava o jeitão de malandro dele!

O que muitos não sabem é que o Mussum era um grande sambista também... Durante a década de 70 ele fez parte do conjunto Originais do Samba, tocando reco reco... Depois lançou três discos em carreira solo. Gravou Geraldo Babão, Nei Lopes, Paulo Césa Pinheiro e mais um monte de bamba, foi parceiro do João Nogueira... Emfim o Mussim tá ali na galeria dos grandes bambas do samba....

Quem quiser conhecer seus discos é só baixar aqui.


Pra matar a saudade....










segunda-feira, 27 de julho de 2009

E o morro invade a cidade....

Esse texto foi retirado de um trabalho acadêmico desenvolvido por Iuri Barbosa Ribeiro, chamado A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA ASCENSÃO E NO DECLÍNIO DO SAMBA DE TERREIRO DOS ANOS 30 AOS ANOS 60. Gostei do texto, traz um resumo sobre a história do samba de terreiro, recheado de depoimentos de grandes bambas e outros autores. (baixe o artigo em PDF)

Mas gostei mesmo de ver uns textos do Jornal o Globo de 1932 ano em que uma revista chamada Mundo Esportivo promoveu o primeiro concurso oficial de escolas de samba do carnaval carioca. Pelo texto dá pra notar que em 1932, quase 15 anos depois de "pelo telefone" o samba já era artigo do morro, onde ganhou forma pelas mãos dos sambistas das escolas de samba... ás vezes dá pra perceber o samba era tratado pela sociedade carioca como algo quase folclórico, com "instrumentos bizarros" e melodias desconhecidas... algo misterioso....

Vale a pena conferir o texto na íntegra. Seguem os trechos publicados no O Globo e os comentários do autor do trabalho...


A PRAÇA ONZE SERÁ TEATRO DE UMA GRANDE COMPETIÇÃO MUSICAL

O campeonato de sambas que o Mundo Esportivo fará realizar (...) tem o seu maior elemento de sucesso rumoroso na quantidade enorme de escolas (...) Não resta dúvida de que constituirá uma nota de pitoresco inédito no carnaval deste ano. (...) os príncipes da melodia do malandro, as ‘altas patentes’ do samba (...) Terá o público oportunidade de ouvir instrumentos mal conhecidos pela maioria da cidade. É o caso, por exemplo, da ‘cuíca’, cujo som se destaca de todos, pois é único e inconfundível. (...) Além dos instrumentos conhecidos, outros aparecerão, por certo, na hora da parada sonora, criados pela febre de improvisação que sempre empolga... (CABRAL, 1974, p. 21)


Percebe-se a pouca familiaridade do jornalista (e, de seus leitores) com elementos do morro como a cuíca, que é escrita entre aspas. Hoje qualquer habitante do Rio de Janeiro sabe o que é uma cuíca, ela é um ícone do samba, reconhecida em todos os cantos do planeta. Pois como mostra a nota acima, no início dos anos 30 ela era desconhecida da “maioria da cidade” e, logicamente, da grande maioria da população brasileira.


VINTE ‘ESCOLAS’ NO CAMPEONATO DE SAMBA

Domingo, na Praça Onze, o público assistirá a um torneio que promete grande brilho, tal o encanto de sua originalidade. (...) O acontecimento é inédito (...) O público que conhece a música do ‘malandro’ pelo disco, ainda não sentiu, talvez, o sabor que tem a melodia na boca do próprio ‘malandro’ (...) Dizem que uma caixa de charuto usada por uma “alta patente” do samba vale, às vezes, uma orquestra completa. (...) Com seus instrumentos bárbaros, as escolas conseguem verdadeiros milagres (...) Nos morros da cidade, existem melodias ignoradas. Nem sempre a publicidade seduz o ‘malandro’, que não raro faz música para recreio interno ou por uma necessidade de expressão independente de qualquer idéia de fama ou de dinheiro...
(CABRAL, 1974, p. 22)

As “melodias ignoradas” dos morros do Rio já vinham conquistando algum espaço. No texto acima, há um trecho que registra que já se conhecia alguma coisa da “música do malandro”. Alguns discos, de fato, já continham gravações de um ou outro samba mais famoso. As gravações, porém, tinham arranjos com “big bands”. Semelhantes, ou quase idênticas, às que gravavam jazz. Para quem o uvia a “música do malandro” gravada por “big bands” deveria ser mesmo uma surpresa agradável ouvir o samba legítimo, harmonioso, com “seus instrumentos bárbaros”.


TUDO PRONTO PARA A PARADA DO SAMBA

Depois de amanhã, a Praça Onze será teatro do grande campeonato de samba (...) O Rio verá de fato a massa encantadora dos morros descer para a Praça Onze. O espetáculo não poderia ser mais pitoresco e sugestivo. (...) São pois centenas de bocas cantando com a maior emoção as melodias mais graciosas da cidade(...) O samba dos morros (...) fica lá em cima, longe de qualquer possibilidade de ser transportado para o disco. Há “malandros” que não admitem a vitrola porque tem a impressão de que, na chapa, o samba perde a sinceridade, a graça emotiva e doce, o espírito delicioso. Assim sendo, fazem o samba para si e para o seu gozo interior (...) Escolas há que se apresentarão com dezenas de “pastoras”. O coro feminino que se destaca... (CABRAL, 1974, p. 22)


Apesar da distância entre as realidades do morro e da cidade, o jornal O Globo não se limitou a apoiar e divulgar o evento de 1932. Em dezembro daquele ano, pela primeira vez, a imprensa subiu o morro em função da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. A equipe comandada por Jofre Rodrigues tinha Carlos Pimentel, o Paraíso, e Armando Reis, que haviam se mudado para O Globo com a extinção do Mundo Sportivo. (CABRAL, ESTEVES, 1998, p. 46) Além disso, foi O Globo que organizou o desfile das escolas de samba de 1933. A importância da imprensa como aliada do samba do morro era tamanha que no desfile desse ano, o segundo painel da Estação Primeira de Mangueira, dizia: “Salve a Imprensa”. (CABRAL, ESTEVES, 1998, p. 52)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Cristina Buarque e Terreiro Grande Ao Vivo - 2007


Hoje em dia quando eu vejo um disco novo de samba eu logo penso: Será que presta??? Mas se vejo o nome da Cristina Buarque no disco não preciso nem ouvir pra saber que alí tem coisa boa...Ela tem dado uma grande contribuição para o resgate do velho e bom samba, que muitos julga estar mal das pernas, ofuscado pelo samba do Cacique de Ramos que vem dominando o gosto musical dos "sambistas"contemporâneos. Estamos em um tempo em que grandes sambistas são Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha, Jorge Aragão... Essas são as referências que o brasileiro em geral tem de samba...

Mas graças a Deus existem pessoas como a Cristina, que junto com mais uma boa turma vem fazendo um trabalho de revitalização do samba carioca autêntico. Gravando composições de grandes sambistas que nunca tiveram atenção da mídia, sambas inéditos que ficaram esquecidos no tempo...

E o Vinicius de Moraes que um dia resolveu dizer que "São Paulo é o túmulo do samba"... O que ele diria ao saber que hoje um dos mais respeitados movimentos de resgate do samba nasceu em São Paulo e que é quase consenso que em São Paulo hoje se faz samba como no Rio de ontem... Parece que os sambistas paulista têm certa resistência ao "Vírus do Cacique"....

O Terreiro Grande surgiu do Grêmio Recreativo de Tradição e Pesquisa Morro das Pedras, que tinha como proposta defender e pesquisar o samba e suas tradições e que acabou tornando-se um projeto social que envolvia toda a comunidade de São Mateus. O pessoal do Morro das Pedras tinha o costume de fazer homenagens a grandes compositores que estavam caindo ne esquecimento como Manacéa, Paulo da Portela, Alberto Lonato, Chico Santana, Nilton Campolino, Aniceto do Império... Dessa forma surgiu um dos mais importantes movimentos de resgate do samba...

Em 2007, Cristina Buarque já era frequentadora das rodas do Morro das Pedras... Quando recebeu um convite para se apresentar no Teatro FECAP em São Paulo, não deu outra... chamou a galera do Morro. A essa altura o pessoal já tinha se separado (eram mais de 30 sambistas) e Cristina reuniu 15 deles, que voltaram a se apresentar com o nome de Terreiro Grande.

Agora imagina só, um disco gravado ao vivo com 15 sambistas cantando sambas de compositores antigos da Portela, Mangueira, Imperio Serrano como se estivessem realmente num terreiro... descontração total...Eu não ví o show mas quem viu diz que foi de arrepiar...

E claro, o melhor de tudo é que não se ouve nenhum banjo ou repique de mão... Só instrumentos do samba autêntico mesmo... olha a cozinha: 2 pandeiros, 2 cavaquinhos, violões de 6 e 7, surdo, 3 tamborins, cuíca, reco-reco, prato e faca, caixa de fósforo... isso sim é uma roda de samba... As músicas todas emendando uma na outra... São 4 blocos...


O primeiro bloco é "calminho", só pra esquentar... Reparem como a roda começa a esquentar aos poucos... Começa com a Cristina cantando "O meu nome já caiu no esquecimento" ao som de dois pandeiros. Na sequência entram violão e cavaquinho durante um samba inédito do portelense Chico Santana... Com a entrada do surdão no fim dessa música o bloco segue com a cristina cantando e o pessoal do Terreiro Grande fazendo coro... bonito demais...

O segundo bloco começa na mesma levada do primeiro. Ainda na primeira música, ao som do refrão "Já chegou quem faltava... Quem o povo esperava chegar..." de Nilson Gonçalves... entram no palco mais oito músicos completando a cozinha... Aí o pau começa a quebrar e você pode sentir o clima de uma boa roda de samba...
A roda fica assim - por ordem de entrada:

Cristina Buarque

Luizinho
(pandeiro e voz)
Renato
(pandeiro e voz)
Tuco (cavaquinho e voz)
Lelo (violão e voz)
Cardoso (violão de 7 e voz)

Roberto Didio (surdo e voz)

Careca (tamborim e voz)

Edinho (cavaquinho e voz)
Alfredo Castro (cuíca e voz)
Neco (reco-reco e voz)
Wilson Miséria (prato e faca e voz)
Pereira (tamborim e voz)
Jorge (tamborim e voz)
Eri (caixa de fósforo e voz)
Bocão (voz)

põe o volume no máximo e aproveita....

Bloco 1
1. O meu nome já caiu no esquecimento
Paulo da Portela
2. Eu não sou do morro
Francisco Santana
3. Não deixo saudade
Manoel Ferreira e Roberto Martins
4. Você me abandonou
Alberto Lonato
5. Quantas lágrimas
Manacéa

Bloco 2
6. Já chegou quem faltava
Nilson Gonçalves
7. O mundo é assim
Alvaiade
8. Jura
Adolfo Macedo, Marcelino Ramos e Zé da Zilda
9. Meu primeiro amor
Bide e Marçal
10. A lei do morro
Antônio dos Santos e Silas de Oliveira
11. Quem se muda pra Mangueira
Zé da Zilda
12. Assim não é legal
Noel Rosa
13. Na água do rio
Manoel Ferreira e Silas de Oliveira
14. Esta melodia
Bubu da Portela e José Bispo
15. Ando penando
Alcides Dias Lopes
16. Perdão, meu bem
Cartola
17. Desperta Dodô
Heitor dos Prazeres e Herivelto Martins
18. Na água do rio
Manoel Ferreira e Silas de Oliveira
19. Vou navegar
Ernâni Alvarenga

Bloco 3
20. Inspiração
Candeia
21. Banco de réu
Alvaiade e Djalma Mafra
22. Você chorou
Francisco Alves e Sylvio Fernandes
23. Lenços brancos
Eliana Pittman e Picolino da Portela
24. Sentimento
Mijinha
25. Conselho da mamãe
Manacéa
26. Brocoió
Zé Cachacinha
27. Quando a maré
Antônio Caetano
28. Confraternização 1
Walter Rosa

Bloco 4
29. Portela feliz
Zé Ketti
30. Desengano
Aniceto da Portela
31. A maldade não tem fim
Armando Santos
32. Embrulho que eu carrego
Alvaiade e Djalma Mafra
33. Vida de fidalga
Alvaiade e Francisco Santana
34. Fui condenado
Mijinha e Monarco
35. Teste ao samba
Paulo da Portela
36. Tu me desprezas
Paulo da Portela
37. Cantar pra não chorar
Heitor dos Prazeres