domingo, 31 de maio de 2009

Chico Rei

Igreja de Santa Ifigênia do Rosário dos Pretos, Ouro Preto, MG.


Em 1964 a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro tirou o segundo lugar do carnaval carioca com o samba enredo "Chico Rei"composto por Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Binha. Poucos sabem mas Chico rei foi um personagem de grande importância para a história de Ouro Preto.

Para que vocês possam conhecer um pouco mais sobre o Rei Galanga, posto a seguir um pequeno resumo biográfico "emprestado" do site www.encantoria.com.br:

Vindo do Reino do Congo com sua mulher, seu filho e seu povo para as minas de ouro da antiga Vila Rica, um rei africano chamado Galanga é transformado em escravo e batizado como Francisco.

No caminho para o Brasil sua mulher, a rainha Djalo é jogada no mar junto com dezenas de negras para diminuir o peso da embarcação perante as tempestades freqüentes. Comprado dos traficantes pelo dono da mina de ouro Encardideira que tinha diversas dívidas com a corte portuguesa, Galanga agora chamado de Chico (como todos os negros da época) tem na busca pelo ouro a única forma de alcançar sua alforria de forma legal segundo as leis da época. Nessa
negociação ele se separa de seu filho Muzinga, que futuramente fugiria para um quilombo.
Chico Rei com a ajuda de Santa Ifigênia que o guiava na busca pelo ouro alcança grande êxito e conquista sua carta de alforria. Em liberdade se une a Irmandade do Rosário formada por negros forros da cidade de Ouro Preto antiga.

Mas seu antigo patrão continua endividado com Portugal e sofre represálias do governador da província. Chico Rei, junto à irmandade do Rosário sugere assumir as dívidas e comprar a mina Encardideira. Seu patrão já cansado e num ato de vingança contra o governador vende a mina e concede a oportunidade de Chico Rei ser o primeiro africano dono de mina de ouro no Brasil.

Chico Rei inicia o trabalho duro na Mina e passa a comprar a alforria de seu povo, e de africanos escravos que passam a trabalhar na minas da Encardideira e na roça daquela propriedade até que em um carregamento de ouro para Portugal é descoberto com pedras de outro metal ao invés de ouro. O governador de Vila Rica já avesso ao rei africano dono de mina coloca a culpa em Chico Rei e o prende.

O povo da época se rebela e força o governador a libertar o antigo rei do congo. Liberto, Chico Rei da seqüência ao trabalho junto a seu povo construindo a igreja de Santa Ifigênia que existe até hoje. Dizem que à comunidade de Chico Rei é atribuída uma das origens dos festejos da Congada Mineira.

Vídeo sobre Chico Rei produzido durante o festival de inverno de Ouro Preto, 2007




Chico Rei
Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Binha - G.R.E.S. Salgueiro 1964

Vivia no litoral africano
Uma régia tribo ordeira cujo rei era símbolo

De uma terra laboriosa e hospitaleira

Um dia, essa tranqüilidade sucumbiu

Quando os portugueses invadiram

Capturando homens

Para fazê-los escravos no Brasil
Na viagem agonizante
Houve gritos alucinantes
lamentos de dor
Ô, ô, ô adeus, Baobá, ô, ô, ô
Ô, ô, ô adeus, meu Bengo, eu já vou
Ao longe, Minas jamais ouvia

Quando o rei mais confiante
Jurou à sua gente que um dia os libertaria

Chegando ao Rio de Janeiro
No mercado de escravos

Um rico fidalgo os comprou

E para Vila Rica os levou

A idéia do rei foi genial
Esconder o pó de ouro entre os cabelos

Assim fez seu pessoal

Todas as noites quando das minas regressavam

Iam à igreja e suas cabeças banhavam
Era o ouro depositado na pia

E guardado em outro lugar com garantia

Até completar a importância

Para comprar suas alforrias

Foram libertos cada um por sua vez
E assim foi que o rei

Sob o sol da liberdade trabalhou

E um pouco de terra ele comprou
Descobrindo ouro enriqueceu

Escolheu o nome de Francisco

E ao catolicismo se converteu

No ponto mais alto da cidade, Chico Rei

Com seu espírito de luz Mandou construir uma igreja
E a denominou
Santa Efigênia do Alto da Cruz

sábado, 30 de maio de 2009

Samba novo na área!

Outro dia fuçando no orkut encontrei esses dois camaradas divulgando seu disco. Luiz Fernando e Hudson Costa. Entrei no site deles baixei as músicas e ouví um "samba de primeira" , como já avisava o site! Só música própria...Vale a pena dar uma conferida.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Manacéa


Manacéa foi um grande compositor portelense, dos tempos do Paulo da Portela, autor de "Quantas lágrimas" e "Nascer e Florescer" entre outros clássicos do samba, mas infelizmente pouco conhecidos. Manacéa e seus irmãos Mijinha e Aniceto da Portela (não confundam com o do Império) integraram o conjunto original da Velha Guarda da Portela quando lançaram o disco Portela: Passado de Glória em 1970, reunidos pelo Paulinho da Viola.


Manacéa canta Sempre Teu Amor:




Manacéa canta Quantas Lágrimas, de sua autoria.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

João Nogueira: Videos e Discografia


João Nogueira é, na minha modesta opinião, um dos melhores compositores de samba de sua época. Dono de um vozeirão que ele próprio costumava dizer era mantido a base de muita cerveja e cigarro, João Nogueira nasceu no bairro carioca do Méier em 1941. Filho do grande violonista João Batista Nogueira, que tocava com Pixinguinha, João da Baiana & Cia., o menino João já estabelecia suas raízes no samba desde cedo.

João Nogueira fala sobre seu pai no programa Ensaio da TV Cultura:



João gostava de se auto declarar "sambista da calçada" para se diferenciar dos grandes compositores do morro. Seu jeito inconfundível de cantar juntava a malandragem do samba sincopado com melodias e versos bem elaborados. Mas também frquentava os terreiros de algumas escolas de samba. João era portelense e no início da década de 70 integrou a ala de compositores da escola.

Em 1979, preocupado com a febre da "Discoteca" e a falta de espaço para os músicos, João Nogueira decide criar o Clube do Samba. A idéia era reunir e organizar os grandes sambistas para tentar salvar a música brasileira. O Clube do Samba reuniu grandes sambistas e compositores como Clara Nunes, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Clementina de Jesus, entre outros.

Clube do Samba: Reportagem do Fantástico, 1979



João Nogueira morreu em 5 de junho de 2000. Gravou 18 discos e deixou pérolas como as que você confere no vídeos a seguir:


Carioca, Suburbano, Mulato, Malandro: Pequeno documentário sobre João Nogueira. Tem hora que é meio tosco mas vale a pena!

Parte I

Parte II





DISCOGRAFIA DE JOÀO NOGUEIRA

João Nogueira - 1972 (Baixar) (Funcionando 01/03/2010)

E lá vou eu - 1974 (Baixar) (Funcionando 01/03/2010)

Vem que tem - 1975 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Programa Ensaio TV Cultura - 1975 (Parte 1) (Parte 2) (funcionando 01/03/2010)

Espelho - 1977 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Vida boêmia - 1978 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Clube do samba - 1979 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Boca do povo - 1980 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Wilson, Geraldo e Noel - 1981 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

O homem dos quarenta - 1982 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Bem transado - 1983 (Baixar) (Funcionando 01/03/2010)

Pelas terras do Pau Brasil - 1984 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

De amor é bom - 1985 (Baixar) (funcionando 02/03/2010)

João Nogueira - 1986 (Baixar) (funcionando 03/03/2010)

João - 1988 (Baixar) (funcionando 03/03/2010)

Além do espelho - 1992 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Parceria: João Nogueira e Paulo César Pinheiro - 1994 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

João Nogueira e Marinho Bonfá: Chico Buarque Letra e Músuca - 1996 (Baixar) (funcionando 01/03/10)

Ao vivo no Pelourinho - 1996 (Baixar) (funcionando 30/08/2010)

João de todos os sambas - 1998 (Baixar) (funcionando 01/03/2010)

Minha alma canta - 2000 (Baixar) (sem link, aguarde...)

Caso algum link esteja fora do ar, me avisem. Tenho todos os discos em mp3, basta fazer o upload!

domingo, 24 de maio de 2009

Dia de Samba em Ouro Preto!

Pra comemorar o aniversário da nossa amiga Alice num sábado à tarde: Cerveja, comida boa e muito samba! A galera compareceu e o samba foi bonito! Umas oito horas de música de primeira!
Salve o Samba!

Inês
Samba de Adoniran Barbosa...





quinta-feira, 21 de maio de 2009

Música Boa

Samba gravado pelo extinto grupo Trilos daqui de Ouro Preto para o filme Compositeurs de hier et d'aujourd'hui de Luc Riolon. Legal demais!

Violão: Chiquinho de Assis
Violino: Rodrigo Toffolo
Flauta: Márcio Lima



Paulinho da Viola



Filho de César Faria - grande violonista que por mais de duas décadas acompanhou o mestre do choro Jacob do Bandolim, Paulo César Baptista de Faria cresceu entre grandes nomes do choro e do samba, entre eles pixinguinha que visitava com frequencia a casa da família. Talvez tenha sido já aí que Paulinho definiu seu estilo refinado de fazer samba, frequentando muitas vezes o terreno do choro.

"Antigamente era Paulo da Portela, agora é Paulinho da Viola." Assim Monarco, compositor da velha guarda, saúda os dois maiorais da Portela: O Paulo Benjamim de Oliveira e o Paulinho, que naquela época era apenas um garoto tímido que anos mais tarde ganharia de Zé Kéti o nome de "Paulinho da Viola" e seria responsável pela divulgação - pode-se dizer até pela criação - da Velha Guarda da Portela.

Paulinho nesse aspecto teve um papel muito parecido com o de seu antecessor, o Paulo da Portela. Paulinho já era frequentador do samba em Oswaldo Cruz e percebeu que o que se fazia alí era algo único. O bairro respirava samba, a quantidade de compositores de qualidade era impressionante. Manacéa, Mijinha, Alcides Malandro Histórico, Casquinha, Argemiro, João da Gente... As rodas de partido alto viravam a madrugada e as pessoas conversavam através de versos improvidados sobre um pequeno tema. A escola também já era uma grande campeã do carnaval e contava com vários sambas antológicos. Ao se ver nesse contexo Paulinho resolve registrar as composições dos grandes sambistas portelenses e reúne a nata do samba na Portela para gravar um disco chamado Portela, Passado de Glória com o nome de Velha Guarda da Portela. Com isso Paulinho conseguiu que os velhos compositores fossem devidamente valorizados pela qualidade de sua arte e hoje a "Velha Guarda" está presente em lugar de destaque em praticamente todas as escolas de samba!


Paulinho da Viola e o Partido alto na Portela




Paulinho ainda desenvolveu uma relação de amizade com grandes nomes do samba. Ainda jovem caiu nas graças do também portelense Zé Kéti, renomado compositor, dono de pérolas como Opinião, Acender as Velas e Máscara Negra. Zé Kéti foi um grande incentivador da carreira de Paulinho e ele mesmo, achando que Paulo César não era nome de sambista, batizou o garoto de Paulo da Viola e Sérgio Cabral sugeriu em seguida que se adotasse o Paulinho no lugar de Paulo.... Apresentou-se ao lado de grandes nomes como Élton Medeiros, Zé Kéti, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Clementina de Jesus no Show Rosa de Ouro durante a década de 60.


Paulinho da Viola no Show Rosa de Ouro



Frequentou também o Zicartola, casa de shows criada por Cartola e D. Zica onde se apresentavam grandes sambistas do Rio. Foi alí que Paulinho ganhou seu nome profissional e seu primeiro cachê como músico. Além disso foi alí que se aproximou da música de Cartola - como diría o Faustão, "Um Monstro Sagrado da música brasileira"!

Foi na época do Zicartola que se iniciou uma pequena confusão que no final rendeu bons frutos. Certa vez seu amigo Hermínio Belo de Carvalho, pediu que Paulinho musicasse um poema que havia feito para a Mangueira, sua escola de coração. Nascia "Sei lá, Mangueira"

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão

Sei lá,
Em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar
Pra se entender

Tem que se achar

Que a vida não é só isso que se vê

É um pouco mais

Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar

E os pés recusam pisar
...


Mesmo com letra de Hermíno o samba causou ciúmes no pessoal de Oswaldo Cruz. Paulinho então homenagenado dessa vez a sua escola criu nada mais que um dos mais belos sambas de exaltação à Portela: "Foi um rio que passou em minha vida", o samba de maior sucesso e que marca a identidade da azul e branca de Oswaldo Cruz.


Foi um Rio que Passou em Minha Vida



Pra Ouvir:

Baixe discos do Paulinho da Viola no Prato e Faca

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Paulo da Portela


Paulo Benjamim de Oliveira, mais conhecido como "Paulo da Portela", nascido em 17 de junho de 1901, teve um infância difícil no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro. Ainda novo, seu pai abandona a família deixando a mãe de Paulo com três filhos para criar sozinha. Paulo deixou os estudos para ajudar a família, trabalhando como entregador de marmitas e lustrador de móveis.

Na década de 20 a família se muda para o bairro de Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio, onde os moradores já cantavam e dançavam o jongo e nessa época o samba começava a tomar seu espaço. Foi quando começou a tomar gosto pelo samba e conheceu gente como Ismael Silva, Baiaco e Brancura, sambistas do Estácio.

Paulo da Portela foi o grande organizador do samba em Oswaldo Cruz. Muito além disso, sua simpatia e determinação fizeram dele um líder comunitário e uma referência cultuada pelos moradores do bairro. Tinha consciência de que a arte de Oswaldo Cruz era rica e poderia tornar-se profissional, daí a preocupação em diferenciar a imagem do sambista do malandro vadio perseguido pela polícia. Paulo era conhecido por "professor" e é assim que muitos sambistas, ainda hoje, se referem a ele.

Em 1922 criou com seus companheiros, Antônio Rufino e Antônio Caetano o bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz. Em 1930 o grupo se apresentou pela primeira vez como Escola de Samba, com o nome "Quem Nos Faz É O Capricho" e a partir de 1931, desfilou com o nome de "Vai Como Pode".

Foi nessa época que, Paulo resolveu adotar um nome artístico para diferenciá-lo de outro compositor de Bento Ribeiro com o mesmo nome. Passou então a ser conhecido como "Paulo da Portela", nome que faz referência à Estrada do Portela, lugar onde após várias mudanças a escola de samba do bairro estabeleceu sua sede.

Em 1935 a Vai como Pode ganha o carnaval com um samba de Paulo e como retribuição pelo samba vencedor a escola muda de nome. Nascia o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, 21 uma vezes campeã e escola com maior número de títulos do carnaval carioca. No mesmo ano Paulo ganha do jornal "A Nação" o título de maior compositor de samba do brasil.

Um fato curioso: Certo dia, lá pelo início dos anos 80, um pai de santo apareceu no terreiro da portela e pediu para ver o organizador do desfile. Ao encontrá-lo ofereceu-lhe um compo de cachaça, que o portelence se recusou a tomar. Foi rogada uma praga sobre a escola dizendo que a Portela ficaria 25 anos sem ganhar um carnaval. A Portela não conquista um título desde 1984, há exatos 25 anos!

Durante a década de 40 apresentou na Rádio Cruzeiro do Sul o programa A Voz do Morro, ao lado de Cartola e Heitor dos Prazeres.

Em 1941, após um desentendimento em pleno desfile, Paulo rope relações com sua querida Portela, logo após a escola vencer mais um carnaval com um samba de sua autoria. Paulo deixou com grande tristeza a escola que fundou, e sua mágoa ficou registrada no seu samba "O meu nome já caiu no esquecimento".


"O meu nome já caiu no esquecimento
O meu nome não interessa a mais ninguém
E o tempo foi passando, a velhice vem chegando
Já me olham com desdém

Ai quanta saudade do passado
Que se vai lá no além

Chora cavaquinho chora, chora violão também
O Paulo no esquecimento não interessa a mais ninguém
Chora Portela, minha Portela querida
Eu que te fundei, serás minha toda a vida"


Em 31 de janeiro de 1949, contrariando seus versos, o Rio de Janeiro parou. A poucas semanas do carnaval, Paulo da Portela morria com 47 anos, vítima de um ataque cardíaco.

O comércio do bairro de Madureira fechou e mais de 15 mil pessoas foram em luto se despedir do poeta, caminhando de sua casa, no subúrbio de Oswaldo Cruze cantando seus sambas até o cemitério de Irajá.

Vinicius Terror

Fontes de consulta:
André Diniz - Almanaque do Samba
www.pstu.org.br/cultura
www.samba-choro.com.br


Quem disse que homem não chora?

Galera tocando um choro no Bar do Pelé, aqui em Ouro Preto.
Flauta - Alberto
Cavaco - Chico
Percussão - Edmar
Pandeiro - Gabriel Cabeça
Violão - Vinicius Terror

Música: Flor Amorosa de Joaquim Calado, choro composto em 1880.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Ismael Silva - "O Grande Ismael"



Nascido em Niterói, RJ em 14 de setembro de 1905, Ismael Silva é um dos mais importantes nomes do samba. Ele reformulou o gênero, criando uma verdadeira revolução na sua estrutura rítmica.


Aos três anos de idade mudou-se para o bairro do Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, onde aos 17 anos já frequentava as rodas de samba, compondo sambas que tornaram seu nome bastante comentado entre a boemia carioca.



Certa vez foi procurado por Alcebíades Barcelos - o Bide, com uma proposta do grande cantor Francisco Alves, que queria comprar um de seus sambas, transação bastante comum na época. Ismael aceitou a proposta e os sambas "Amor de Malandro" e "Me faz Carinhos" foram lançados em disco, trazendo o nome de Francisco Alves como intérprete e autor.



Algum tempo depois tornou-se compositor exclusivo de Francisco Alves, dividindo a autoria dos sambas com seu parceiro Nilton Bastos. Durante esse período a dupla Francisco Alves e Mário Reis gravou alguns de seus sambas mais famosos como "Não Há", "Nem é Bom Falar" e "Se Você Jurar" , consagrando Ismael Silva como compositor.



Em 1931 com a morte de Nilton Bastos, Ismael deixa o Estácio e vai morar no centro da cidade do Rio de Janeiro e começa uma parceria com Noel Rosa que rendeu uma série de 18 sambas memoráveis como "Para me Livrar do Mal", "Uma Jura Que Eu Fiz", "A Razão Dá-se a Quem Tem", entre outros.



Ismael foi o fundador da primeira Escola de Samba. A "Deixa Falar" era na verdade um bloco carnavalesco criado em 1928 por alguns sambistas do bairro do Estácio, entre eles: Iamael Silva, Bide, Armando Marçal, Heitor dos Prazeres, Nilton Bastos e Mano Edgar. Como havia no Largo do Estácio uma Escola Normal, passaram a chamar o bloco de "Escola de Samba" pois alí se formariam os professores no assunto!



O tipo de samba feito no Estácio era diferente, novo... Era um samba batucado, sem a influência orquestral do Maxixe e com a temática da malandragem. Definia-se naquele momento um novo tipo de samba, nitidamente diferente do Maxixe e da cadência do Lundu.



Assim, em 1930 saía de cena o samba "amaxixado" de Pelo Telefone para dar lugar ao samba pra frente, marcado pelo surdo da turma do Estácio de Sá. Uma nova maneira de se fazer samba que influenciou gerações de compositores, de Noel Rosa a Chico Buarque.



Após a morte de Noel Rosa em 1937, Ismael se envolve em problemas e desaparece da cena carioca, retornando apenas na década de 50, lançando seu samba "Antonico". Logo depois gravou os dois primeiros LPs como interprete de suas músicas: O samba na voz do sambista, e Ismael canta Ismael, ambos em 1956.



Durante a década de 60 frequentou o Zicartola, famosa casa de samba de propriedade de Cartola e D. Zica e estreiou em espetáculos como "O Samba Pede Passagem" e "Se Você Jurar", este último já em 1973.



Ismael morreu em Agosto de 1978 no Rio de Janeiro, sem dinheiro e sem o devido reconhecimento de sua importância para a cultura brasileira.



Depoimento de Ismael Silva - 1977



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segunda-feira, 18 de maio de 2009

A polêmica de "Pelo telefone"


Considerado o primeiro samba a ser gravado, Pelo Telefone foi inspirado num episódio verídico:

No dia 20 de outubro de 1916, Aureliano Leal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, determinou por escrito aos seus subordinados que informassem "antes pelo telefone" aos infratores, a apreensão do material usado no jogo de azar.

Reza a lenda que o samba/maxixe "Pelo telefone" foi composto em 1916 por um grupo de amigos, assíduos nos batuques que aconteciam no quintal da Tia Ciata, na Praça Onze, região central do Rio de Janeiro. Os possíveis autores seriam Hilário Jovino, a própria Ciata, Mestre Germano, João da Mata e Sinhô mais Donga e Mauro de Almeida, de acordo com o livro No tempo de Noel Rosa, lançado por Almirante em 1962.

Entretanto, quase tudo a que este samba se refere é motivo de discussão: a autoria, a afirmação de que foi o primeiro samba gravado, a razão da letra e até sua designação como samba.

Ernesto dos Santos, conechido como Donga, foi à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e registrou o samba em seu nome, causando um descontentamento entre seus companheiros que participavam das rodas onde o refrão foi criado. Muitos reivindicam participação na composição mas a música está registrada em nome de Donga e Mauro de Almeida.



Tia Ciata, criando uma briga que jamais chegou à reconciliação, publicou um anúncio no Jornal do Brasil garantindo que no Carnaval de 1917, na avenida Rio Branco, seria cantado o "verdadeiro tango Pelo Telefone dos inspirados carnavalescos João da Mata, o imortal Mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata, o bom Hilário, com arranjo do pianista Sinhô, dedicado ao falecido repórter Mauro", seguindo-se a letra com o nome de Roceiro, denunciando Donga nas entrelinhas:

"Pelo telefone/A minha boa gente / Mandou avisar /

Que meu bom arranjo / Era oferecido / Para se cantar

- Ai; ai, ai / Leve a mão na consciência, / Meu bem /

Ai, ai, ai / Mas porque tanta presença / meu bem?

- O que caradura / De dizer nas rodas / Que esse arranjo é teu /

E do bom Hilário / E da velha Ciata / Que o Sinhô escreveu

- Tomara que tu apanhes / Para não tornar a fazer isso, /

Escrever o que é dos outros / Sem olhar o compromisso".


Além de questionamentos sobre sua autoria, Pelo telefone é mais um maxixe do que um samba propriamente dito, e o maxixe já era um rítmo comum entre chorões do final do século 19 e historiadores já registraram, em suas pesquisas, gravações anteriores que podem ser reconhecidas como samba e que comprovadamente foram gravadas antes da composição assinada pela dupla Donga/Mauro de Almeida.

A gravadora Odeon, por exemplo, que registrou o chamado samba pioneiro, antes dele já havia gravado, na série lançada entre 1912 e 1914, Descascando o pessoal e Urubu Malandro, classificados como sambas no próprio catálogo da fábrica.

Samba?


A primeira menção ao termo Samba que se conhece foi feita em 1838 em um jornal pernambucano denominado "O Carapuceiro", porém o significado do termo não tinha qualquer semelhança com o que conhecemos hoje em dia.

Em sua essência o surgimento do samba está fortemente ligado à cultura africana e às músicas e danças trazidas pelos escravos. No passado denominava-se batuque qualquer manifestação envolvendo canto, dança e instrumentos musicais dos negros. Assim o termo fou usado para designar os festejos até o início do século XX, quando a palavra Samba passou a ocupar mais espaço.

Ao conquistar o ambiente urbano no início do século XX o samba ganhou elementos do maxixe, um ritmo muito difundido na época. "Pelo Telefone", o primeiro samba gravado, atribuído a Ernesto dos Santos - Donga, ainda era tocado em rítmo de maxixe.

O samba como conhecemos hoje começou a ser moldado por Ismael Silva e a turma do Estácio de Sá, entre eles Bide e Marçal. A partir daí o samba ganhou uma nova roupagem. Foram introduzidos instrumentos de marcação como o surdo e a cuíca.

Foi no Estácio que surgiu em 12 de agosto de 1928 a primeira escola de samba, a "Deixa Falar", comandada por Ismael Silva. Durante a década de 30 o Estado implantado no Brasil após a Revolução de 1930, aproveitando-se do apelo popular do samba, passou a incentivar o carnaval de rua com desfiles de escolas de samba e a utilização da novidade do rádio para a divulgação do samba.

Dessa forma, já na década de 40 a palavra samba já era sinônimo de brasileiro, ganhando fama internacional.

O samba não parou de evoluir e criou raízes tão sólidas que hojé seria impossível enumerar os significados de todas as suas ramificações como o Samba-Choro, Samba-Canção, Samba-de-Roda, Samba-de-Terreiro, Samba-Enredo, Samba-de-Quadra, Samba de Partido-Alto, Samba-de-Breque, Samba-de-Gafieira, Samba-Reggae, Samba Rock....

Sendo assim, como qualquer processo evolutivo, a evolução do samba é longa e lenta. Aos poucos vou postando coisas interessantes pra vocês junterem as peças deste grande quebra cabeças!

Até mais!