terça-feira, 1 de outubro de 2013

Terreiro: O Peso do Salgueiro

Durante o final dos anos 20 o samba começava a tomar conta da Praça Onze, idealizado pelo pessoal do Estácio que acabava de criar a primeira escola de samba. Reuniam-se os malandros na Balança atrás da Escola Benjamin Constant e as rodas de batucada iam até o raiar do dia, ou até quando a polícia chegasse e acabasse com a farra.

Enquanto isso, lá para os lados da Tijuca, os barracões e tendinhas começavam a se espalhar pelo Morro do Salgueiro. Ao mesmo tempo que iam erguendo seus barracos, os primeiros moradores davam nomes às localidades do morro: Sossego, Campo, Pedacinho do Céu, Canto do Vovô, Caminho Largo, Trapicheiro, Portugal Pequeno, Sempre Tem, Anjo da Guarda, Terreirão, Grota, Rua Cinco, Carvalho da Cruz... A vida começou a se organizar em torno das tendinhas e vendas − de Ana Bororó, Neca da Baiana, Casemiro Calça Larga, Anacleto Português −, dos grêmios − o Grêmio Recreativo Cultivista Dominó, o Grêmio Recreativo Sport Club Azul e Branco e o Cabaré do Calça Larga −, e da religiosidade − no Cruzeiro, no terreiro de Seu Oscar Monteiro, na Tenda Espírita Divino Espírito Santo, de Paulino de Oliveira...

Atentos às novidades, iam aos poucos tomando contato com o samba que surgia lá na cidade, na região do Estácio. Logo começaram a aparecer no morro do Salgueiro os primeiros blocos e agrupamentos carnavalescos: Flor dos Camiseiros, Capricho do Salgueiro, Príncipe da Floresta, Unidos da Grota, Terreiro Grande. Todos com um grande número de componentes que desciam do morro para brincar na Praça Saenz Peña e nas famosas batalhas de confete da Rua Dona Zulmira, onde o Salgueiro era respeitado pelo talento de seus compositores e mostrava a todos que já era uma verdadeira academia de samba. Esses blocos formaram a base das que viriam a ser as três principais escolas de samba do Morro do Salgueiro.

O sambista Antenor Gargalhada, um dos maiores nomes do Salgueiro, fundou junto com outros dissidentes do Bloco Terreiro Grande a Escola de Samba Azul e Branco. A Azul e Branco teve como figuras principais, além de Antenor Gargalhada, o português Eduardo Teixeira, e o italiano Paolino Santoro, o Italianinho do Salgueiro. A ala de baianas da escola era uma das maiores da cidade e abrigava personagens como as jovens Maria Romana, Neném do Buzunga, Zezé e Doninha.

Já os que ficaram no Terreiro Grande se organizaram com o pessoal do Capricho do Salgueiro e fundaram a Escola de Samba Unidos do Salgueiro, sob o comando de Casemiro Calça Larga e portando as cores azul e rosa. Mais tarde surgiria ainda a Depois Eu Digo, que tinha em sua bandeira as cores verde e branco e contava com nomes como Pedro Ceciliano, o Peru, Paulino de Oliveira e Mané Macaco.

Nas três escolas iam surgindo talentosos compositores, como Geraldo Babão, Guará, Iracy Serra, Noel Rosa de Oliveira, Duduca, Geraldo, Abelardo, Bala, Anescarzinho, Antenor Gargalhada e Djalma Sabiá. Foram os versos e melodias inspiradas deses grandes sambistas que fizeram com que o Salgueiro passasse a ser respeitado por todas as demais escolas de samba.

Mesmo com a qualidade de seus compositores, o Salgueiro, com suas três escolas, não conseguia ameaçar o predomínio das maiores escolas de então – Mangueira, Portela e Império Serrano. Os sambistas de outros morros respeitavam os salgueirenses e citavam seus compositores, passistas e batuqueiros como o que havia de melhor no mundo samba. Mas, nos desfiles da Praça XI … nada acontecia.

Foi então que em 1953, após mais um carnaval sem grandes resultados, a Azul e Branco e a Depois Eu Digo juntaram suas forças, unindo-se em uma só escola, a Acadêmicos do Salgueiro, que segue até hoje como uma das grandes escolas do carnaval carioca. A Unidos do Salgueiro foi contra a união das escolas e com o tempo desapareceu. Muitos de seus integrantes foram para a Acadêmicos do Salgueiro.

Mas o assunto hoje não é carnaval e sim, o que acontecia na escola depois do carnaval... O assunto é o Terreiro.

Como já foi dito acima, o Salgueiro é reduto de alguns dos mais importantes nomes do samba. De Antenor Gargalhada a Geraldo Babão o terreiro do Salgueiro, com seus grandes mestres, nos deixou sambas antológicos e uma maneira toda especial de se tocar samba. O Salgueiro tinha uma batucada pra frente, pesada.

Bom, pra falar sobre o samba do Salgueiro, creio que a melhor maneira seja apresentando alguns discos e gravações que representem fielmente o modo de se fazer samba do Salgueiro antigo...Com vocês, o peso da batucada dos Acadêmicos do Salgueiro e as primorosas melodias de Éden e Anibal Silva, Noel Rosa de Oliveira, Iracy Serra, Geraldo Babão e outros bambas.





O primeiro disco que quero apresentar foi gravado em 1957 e se chama "Aí Vem o Samba". Um disco forte, só com composições de um dos sambistas que mais gosto: É den Silva, o Caxiné. 

Abrindo o disco, temos o "Ensaio de Rítmo n.1". Batucada forte, gravada pela bateria da escola. Surdos, caixas, tamborins, agogôs dão a dica que o que vem nas próximas faixas é de se arrepiar. E ouçam que cadência! Se não me engano é um disco gravado sem intrumentos de cordas, apenas percursão e alguns intrumentos de sopro conduzindo a harmonia em alguns momentos.Sem firulas, é a Escola em sua essência.

Em seguida desfilam verdadeiras obras primas de compositores consagrados no morro do Salgueiro, embora ainda hoje, poucos sejam conhecidos pelo grande público, ou mesmo pelos próprios salgueirenses.

A primeira faixa é "Assim não é amor". Samba do início dos anos 50 assinado por Éden Silva, o Caxiné, em parceria com Geraldo Jacques e Nilo Moreira. Na sequência vem "Falam de Mim" samba antigo do Salgueiro com a marca de três de seus maiores compositores: os irmãos Éden e Aníbal Silva e Noel Rosa de Oliveira.E seguem-se as brasas. Todas de autoria de Éden Silva e seus diversos parceiros: Waldemar da Silva (Não Tenho Alegria), Oldemar Magalhães (Obra de Deus) e o irmão Aníbal Silva (Desperta Vila Isabel, Rosa Maria, Felicidade é uma quimera).

Atenção à faixa 5, "Esquentando a Cuíca". Um verdadeira aula... Aliás, todo o disco é uma verdadeira aula de samba, de tradição, melodias lindas. Segura que "Aí Vem o Samba"!




Também de 1957, temos o ótimo "Samba! Com a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro". Mais um disco em que se destacam os versos e melodias de Caxiné, que assina 5, das oito faixas. Nesse disco já aparecem alguns sambas enredo, que apesar de não serem o foco do assunto, não posso deixar de citar pela riqueza dos versos e melodias, como também pela maneira com que o samba era conduzido, com calma, devagar, bem diferente do que se vê hoje. Ouçam a primorosa "Brasil, Fonte das Artes" e saibam do que estou falando.

Nesse disco temoas alguns clássicos do samba de terreiro do Salgueiro. Do Caxiné, "Novo Dia" e o maravilhoso "Tudo é Ilusão", samba bastante conhecido e que nessa gravação conta com a voz da grande Odete Amaral. Noel Rosa de Oliveira em parceriam com Nilo Moreira nos brindam com Assim Não é legal. Nesse disco, perdido lá no finalzinho, está um dos sambas mais bonitos do Salgueiro: "Momentos" de Nélio Silva, Édson Batista e Djalma Costa.




"Noel Rosa de Oliveira e Escola de Samba". Esse eu não sei a data de gravação, mas posso assegurar que é um dos melhores discos de samba que já ouvi. A boa e velha batucada do Salgueiro floreada com melodias e versos de compositores praticamente desconhecidos fora do circulo dos mais aficcionados pela história do samba. Como um bom anfitrião, Noel Rosa de Oliveira nos apresenta alguns de seus belos sambas também, sempre com sua voz forte e característica. Não tenho informações sobre esse disco além dos nomes da musicas e seus compositores. Mas tem uma mulher cantando na faixa 4, "Arataca" que é uma coisa no mínimo sensacional... Detaque também pra faixa 9, "Decisão", peso puro...



E pra fechar com chave de ouro, outra jóia comandada pelo grande Noel Rosa de Oliveira. Em "Lá Vem o Samba", disco que também não sei a data de gravação, só tem pedrada. Também recheado de compositores menos conhecidos, porém de melodias sem igual, o disco traz algumas brasas do próprio Noel e também o clássico "Solidão" ou "ingrata Solidão" do Geraldo Babão.

Bom, esse é o Salgueiro antigo, uma das escolas mais pesadas do Rio de Janeiro. Espero que esses discos toquem vocês da mesma forma que me tocaram quando os ouvi pela primeira vez. Isso é samba de verdade minha gente... E segura que na próxima quem vem chegando é o Reizinho de Madureira...


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Jamelão

Documentário com o mestre Jamelão exibido na TVE.


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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Terreiro

 Inicio aqui no Receita uma série de cinco postagens chamada "Terreiro". Terreiro, simples assim. O samba, na minha opinião, em sua mais bela forma de expressão, feito sem pretensões comerciais, com o coração. Para homenagear a Escola, pra falar de amor, dor de cotovelo, lembrar uma história engraçada em forma de versos...

Antigamente era assim, acredite... Na época das primeiras Escolas de Samba não havia o samba enredo. Desfilava-se cantando os chamados "sambas de primeira" que tinham apenas uma primeira estrofe. Essa primeira parte era cantada em coro pela escola e os gogós mais potentes da escola, os versadores, intercalavam versos improvisados entre as repetições da primeira parte. Esses sambas não eram compostos exclusivamente para o carnaval, tão pouco com pretensões comerciais. Eram sambas compostos pelos sambistas de cada escola durante todo o ano. Compunha-se um novo samba e este era prontamente apresentado aos companheiros no terreiro da escola. Ali, no terreiro, ou o samba emplacava, era sucesso ou caía no esquecimento, caso não agradasse. E, sendo sucesso, provavelmente entrava para o repertório do desfile de carnaval. No início o samba não tinha sequer o mesmo tema do desfile, ou seja não apresentava o enredo do desfile.

Com o surgimento do samba enredo, esse samba feito nos terreiros passou a ser executado apenas nas rodas de samba, que continuavam acontecendo quase sempre nos terreiros das Escolas e durante o "esquenta" para o desfile. Os "Sambas de Terreiro" passavam então a ser conhecidos também como "sambas de meio de ano".

Justamente por esse caráter restrito, muitos sambas de terreiro se perderam com o tempo. Ficaram  pra trás, na memória de sambistas que já se foram. Mas sobrou muita coisa, felizmente. Muitos foram gravados durante os anos 50 e 60, alguns até na era do rádio. Outros tantos ainda estão fresquinhos na memória de compositores como Monarco, Nélson Sargento que relembram com detalhes canções inéditas de seus parceiros.

Com o tempo, o terreiro se foi, deu lugar à quadra. Sai o chão batido, entra o cimento. A partir dos anos 70 as escolas começam a se transformar no que são hoje, uma industria milionária, armada para o consumo de uma classe que há poucas décadas sequer imaginava o que era samba, que chamava a cuíca e o surdo de instrumentos bizarros... Sai o sambista, entram os interesses. As escolas são tomadas por estranhos (como aconteceu com a Deixa Falar ainda no início dos anos 30, porém com um desfecho bem diferente...). E com isso o samba de terreiro acaba se tornando uma prática cada vez mais rara, chegando a praticamente desaparecer durante os anos 80.

Seria triste o fim do samba de terreiro se no final da década de 90, alguns agrupamentos de jovens começaram a chamar a atenção, fazendo um "samba diferente". Os instrumentos não eram o já popular tan tan, ou o banjo, que naquela época já era sinônimo de samba, trazido pelo pessoal do Fundo de Quintal. Era cavaquinho, tamborins pra todo lado, prato e faca, garrafa, agogô, um surdo marcando forte e um repique de anel proporcionando o devido peso. Nem os instrumentos, nem as vozes eram amplificados e todos cantavam em coro sambas praticamente desconhecidos.  O "samba diferente" era na verdade o samba como se fazia antigamente, nos tempos do terreiro. O samba de terreiro voltava com força total. Surgiram agremiações como o Morro das Pedras, Terreiro de Mauá, entre outras que, como vocês verão na úlima postagem dessa série, tiveram um importante papel na preservação da memória do samba de terreiro que hoje se espalha por todos os cantos do Brasil, de botequins a centros culturais.


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domingo, 21 de julho de 2013

Delegado da Mangueira

Documentário de Clementino Junior com o ex-mestre-sala da Mangueira, Hégio Laurindo da Silva, o Delegado (1921-2012).


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terça-feira, 16 de julho de 2013

Onde está a honestidade (Noel Rosa) por Noel Rosa


Você tem palacete reluzente
Tem jóias e criados à vontade
Sem ter nenhuma herança ou parente
Só anda de automóvel na cidade...

E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

O seu dinheiro nasce de repente
E embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade

E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

Vassoura dos salões da sociedade
Que varre o que encontrar em sua frente
Promove festivais de caridade
Em nome de qualquer defunto ausente

E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

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terça-feira, 2 de julho de 2013

Wilson Baptista 100 anos - 210 Sambas para Download


BAIXAR COLETÂNEA WILSON BAPTISTA - 210 SAMBAS
Parte 1
Parte 2


"Meu pai trabalhou tanto que eu nasci cansado". Essa frase descreve bem o estilo de vida do compositor Wilson Baptista, que completaria hoje, 03/07/2013, cem anos.  Malandro assumido, Wilson tinha pavor só de pensar em trabalho, preferia aproveitar a vida compondo suas musicas, defendendo suas teses em mesas de cafés e botequins do Rio antigo. Considerado por muitos, entre eles o mestre Paulinho da Viola, como um dos maiores sambistas de todos os tempos, autor de uma obra gigantesca com mais de 600 musicas gravadas, Wilson Baptista é hoje um sambista um tanto quanto esquecido.

Infelizmente, quando se lembram dele, na maioria das vezes é para falar da polêmica musical entre ele e outro genial compositor, Noel Rosa. Aliás, polêmica essa que na verdade não passava de uma brincadeira entre os dois bambas por causa de uma cabrocha e era restrita às rodas de compositores da época, onde os dois iam se alfinetando em letras de sambas.

O problema é que, quase 20 anos depois, essa brincadeira ganhou ares de disputa, com análises sociológicas complexas em que se definia o mocinho (Noel) e o malvado (Wilson) da história. Como se Noel não fosse um malandro de carteirinha, companheiro de Brancura e outros malandros dos mais "barra pesada" que viveram no Rio de Janeiro dos anos 20/30. Pra se ter uma idéia da falta de coerência nesse rumo que a história tomou a partir dos anos 50, dizem as más línguas que Noel andava até ateando fogo em mendigos pelas ruas...

Sem muita instrução, muito menos no campo musical, Wilson chegou jovem ao Rio com o sonho de ser um artista, queria ser sapateador, influenciado pelos musicais americanos que assistia na época. Adolescente, morou por um curto tempo com um Tio, isso quando aparecia em casa, pois tinha o costume de varar noites na orgia, dormindo em banco de praça, pensões baratas no centro do Rio... Não suportando a pressão dos parentes para que arranjasse um bom emprego, logo foi morar sozinho. Começou a freqüentar o Mangue (famosa Zona de prostituição na região mais central do Rio), os bares e cabarés da Lapa. Por essas andanças na boemia conheceu a turma da orgia, fez amizade com Madame Satã, Jorge Goulart, Ataulfo Alves, Orestes Barbosa, Miguelzinho Camisa Preta, entre outros.

Também aspirante a compositor, influenciado pelo Tio músico que teve em Campos, sua cidade natal e também pelos novos amigos da boemia carioca, Wilson logo percebeu que esse era o caminho para faturar um cascalho. Em 1929, Aracy Cortes, uma das mais famosas cantoras brasileira na época, cantou um samba seu no teatro. O samba era "Na Estrada da Vida" e veio a ser gravado por Luiz Barbosa, mas só em 1933. Casando de tentar emplacar seus sambas nas rádios, percebeu que seria melhor vendê-los do que sair por aí mostrando aos donos de gravadoras e rádios. Começou a se beneficiar dos "comprositores" que pagavam um bom dinheiro para ter a autoria do samba.

A primeira vez que seu nome apareceu em um disco como autor foi na gravação de "Por Favor vá Embora", gravado em 1932 por Patricio Teixeira.  No comecinho de sua carreira Wilson Chegou a formar uma dupla com o Cartola. Aliás, Luis Pimentel e Luis Fernando Vieira, numa biografia sobre Wilson afirmam que ele e Cartola eram primos. Lembro-me de ter lido em algum outro lugar sobre esse parentesco entre os dois compositores.

Chegou a fazer certo sucesso com o samba "Desacato", gravado em 1933, coincidentemente, como o lado B do samba Feitiço de Oração, do já consagrado Noel Rosa, um fenômeno da época. Mas foi na voz de Silvio Caldas, ainda em 1933 que um samba seu chamou mais atenção e Wilson começou a ser conhecido. O samba era "Lenço no Pescoço", inicialmente e misteriosamente assinado por "Mario Santoro". Talvez o pseudônimo servisse pra se precaver de uma possível reação negativa à letra do samba que fazia ampla apologia à malandragem. Wilson usou outros pseudônimos em suas músicas, assinando algumas delas como Marina Batista (sua esposa) e J. Batista (seu pai, muitas vezes confundido com José Batista, outro compositor parceiro de Wilson em alguns sambas.


O samba chamou a atenção de Noel. Pouco depois, pelas noites da Lapa, os dois se engraçaram por uma mesma dançarina de cabaré e Wilson acabou levando a melhor. Noel, o famoso compositor, ficou com aquele moreninho malandro atravessado na garganta e pra se vingar fez "Rapaz Folgado", um samba-resposta aos versos de Wilson em "Lenço no Pescoço". A partir daí os dois começaram a tão famosa "polêmica". No final tudo terminou em samba. Noel pegou a melodia de Terra de Cego, de Wilson e fez uma nova letra, selando a paz e ainda esculachando a dançarina que provocou toda aquela discussão em versos. A única parceria entre Wilson e Noel chama-se "Deixa de ser Convencida".

Wilson era frequentador do Café Nice, um dos principais pontos de encontro de compositores do Rio na época, e gozava já de um certo prestígio como compositor. Entretanto, junto com outros compositores, principalmente do morro e "baixos ambientes" eram de certa forma discriminados por compositores que se denominavam "profissionais da música brasileira". Mário Lago, quando lhe pediram para falar sobre Wilson se negou, dizendo: "nunca me dei com marginais".

Sempre na Beca, Wilson andava de terno de linho, sapato cara de gato, bigode aparado, gomalina no cabelo (que ele garantia ser o maior sucesso entre as morenas da cidade). Andou muito pelas cercanias da Praça Tiradentes e alguns amigos contam que ali ele chegou a ter até algumas "meninas"  trabalhando pra ele, o que era muito comum entre os malandros da época que faturavam uns trocados como cafetões. Várias vezes foi em cana por vadiagem, falta de documentos, comer sem pagar...  Chegou até a compor um samba em homenagem a Ary Barroso, que certa vez o livrou de uma cana dura:


Wilson tinha seu jeito malandro de falar também. Em depoimentos, amigos relembram algumas de suas gírias:

Bife de chaleira - média de café com leite
Bira - hotel barato
Bomba - música de carnaval
Canário - cantor
Com a cara - sem dinheiro
Espetar - sair sem pagar
Inruste - esconderijo
Macaco - telefone
Penante - chapéu
Pisante - sapato
Sarro - comida
Três pernas - trezentos cruzeiros
Treteiro - Falso

Wilson casou-se e viveu muito tempo com Marina Baptista (nome com que assinou alguns sambas), com quem teve uma filha. A própria viúva conta que quando conheceu Wilson morava na Saúde e marcavam sempre seus encontros no ponto do bonde. Como o namoro ficava sério, Marina começou a pressionar o malandro, querendo se casar logo. Wilson tinha que se desdobrar em desculpas pois ainda morava com a primeira mulher, mão de seu filho. Cansada da ser enrolada, Marina brigou com o Wilson e não foi encontrá-lo naquele dia.

"Eu saía do trabalho e pegava o bonde 56 até a Central do Brasil, onde ele sempre me esperava. No dia da briga, apanhei um outro bonde, o 58, e fui direto pra casa, deixando ele lá esperando. Ele ficou uma fera comigo e fez aquela música do bonde que não veio"... (E o 56 não veio).


Com o cantor e compositor baiano Erasmo Silva formou a Dupla Verde Amarelo, que embora de vida curta gozou de certo sucesso. Jorge Goulart, amigo de Wilson, conta que Wilson era preguiçoso, não gostava de acordar cedo, odiava compromissos formais, não tinha qualquer vocação para atividades que exigissem responsabilidade. Gostava mesmo era de compor seus sambas, elaborar suas teses, como ele gostava de dizer. Além disso, morria de vergonha de usar o traje da dupla, um de terno verde e o outro de terno amarelo.


O parceiro Erasmo Silva se aborrecia com Wilson, dizia que ele não acreditava na dupla e entregava seus melhores sambas para outros cantores. Apesar da má vontade de Wilson a dupla deu certo por um tempo. Fez longa temporada em São Paulo e chegou a ser contratada para se apresentar na Argentina em 1936. Intermediados pelo cantor Silvio Caldas, foram contratados pela Rádio Mayrink Veiga. Quem batizou a dupla foi o apresentador César Ladeira (o mesmo que batizou o Trio de Ouro) que anunciava: "Com vocês a Dupla Verde e Amarelo! Cores diferentes, vozes iguais". Em 1939 a dupla se desfez, mas logo voltou a se apresentar e gravar alguns discos até 1951, quando se separaram definitivamente.

Wilson era flamenguista doente e convicto. Certa vez foi com o amigo e parceiro Antônio Almeida assistir um Flamengo x Botafogo. O flamengo perdeu e Wilson, como sempre acontecia nessas ocasiões saiu do estádio indignado. Antônio Almeida conta que na volta do estádio para o Nice ele até queria arrumar confusão com o trocador do bonde pois não queria pagar a passagem porque o Mengo havia perdido. Ao ser consolado pelo amigo Wilson já soltou: "Eu tiro o domingo pra descansar, vou ao futebol, só pra me aporrinhar". Percebendo a "tese", os dois fizeram ali mesmo o samba "E o Juiz Apitou".


Diversas vezes o flamengo aparece nos sambas de Wilson, mas talvez o mais conhecido seja o "Samba Rubro Negro", parceria com Jorge de Castro que teve regravações de Gilberto Gil, João Nogueira, entre outros.

Wilson nunca trabalhou, viveu de sua musica de sua malandragem por toda a vida. Mas, como ele mesmo cantou: "a boemia não dá camisa a ninguém", Wilson teve um final de vida triste. Seus parceiros começaram a dividir o tempo entre a família e o trabalho, muitas vezes em cargos administrativos em sociedades de autores, passaram a compor menos.  O Nice havia fechado as portas, no carnaval o samba que imperava era o das escolas de samba, os bons tempos iam indo embora. Mas Wilson, teimava ainda em levar à vida como sempre levou, na malandragem exaltada em seu samba "Lenço no Pescoço", de tempos remotos. Os problemas financeiros foram se acumulando e sem a companhia dos parceiros, Wilson passou a se dedicar às amizades do mundo marginal das madrugadas, envolveu-se com drogas... O depoimento do amigo Alberto de Jesus, o Betinho, dá uma idéia da triste situação em que Wilson se encontrava pelos idos dos anos 60:

"Wilson quase morreu na minha casa. Ficou quase um mês no meu apartamento da Barata Ribeiro. Mas ele tinha um apartamento alugado no edifício Santos Valis. Quando morreu, coitado, não tinha um lençol na cama dele. Recebia Cr$ 700 de dois em dois meses, não dava nem pra pagar o aluguel. Sofreu muitas ingratidões na vida. às vezes era melhor vender as músicas, pois o direito autoral saía mais rápido."

Alberto conta ainda que em uma das visitas a Wilson no hospital, ouviu do compositor: "Agora é que vai ficar bom, Betinho. Eu vou morrer".

Amargurado, lembrado por poucos amigos, Wilson viveu seus últimos dias entre temporadas nos hospital e sozinho em seu apartamento. No dia 7 de julho de 1968, a notícia se ouve no rádio: Acaba de falecer o grande compositor Wilson Baptista.


Bibliografia consultada:
Wilson Batista. Luis Fernando Pimentel e Luiz Fernando Vieira. 1996. Relume-Dumará/Prefeitura do Rio. de Janeiro. 137p.
Um segredo chamado Wilson Baptista. Rodrigo Alzuguir. Samba em Revista. Fevereiro/Março de 2010. Número 3.
Wilson Batista e sua época. Bruno Ferreira Gomes. 1985. Funarte. 149p.


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quinta-feira, 27 de junho de 2013

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Renata Lu - Sandália de Prata 1975


Ele voltou! E voltou com tudo. Depois de algum tempo sumidas da praça, as Brasas do Alvarenga estão de volta. E eu como um bom militante da causa me esqueci de avisar pra vocês, rsrs. Pra me redimir vou colocar sempre alguns links lá do Prato e Faca, esse tesouro que nosso amigo Alvarenga do Morro do Chapelão disponibiliza pra gente! É isso aí meu querido "Alvarenga", se precisar, que venha o Prato e Faca e, 4, 5...como diz o PCP:

Você corta um verso, eu escrevo outro / Você me prende vivo, eu escapo morto / De repente olha eu de novo...

Pra começar, um disco da pesada: Renata Lu - Sandália de Prata. Lançado em 1976, vem com uma seleção de sambas de primeira, só gente bamba: Candeia, Casquinha, Heitors dos Prazeres, Cartola, Carlos Cachaça, Nélson Cavaquinho, Alvarenga, Ismael Silva, Padeirinho....É só clicar na capa do disco pra baixar no Prato e Faca:


Ah, acreditem, não é a Clara Nunes, rsrs



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